CONTA CONJUNTA
Era um velho cliente. Começamos a falar a propósito de nada. Ele quase resmungando, eu preocupado com a fila e a lhe dar pouca atenção. Depois, percebi que estava sendo mal educado e voltei a lhe dar ouvidos. Diante da sua insistência e como não se afastava de perto do guichê, falando sempre, não tive outra alternativa. Só então pude entender o que estava dizendo:
- A conta é conjunta com a filha. Sabe como é que é...Sempre é bom prevenir.
- Pois é... É mesmo... - dizia eu, querendo logo me livrar dele.
- A gente nessa idade... nunca se sabe...
- É... Claro... Tens razão.
- Um gerente de vocês daqui morreu num acidente...
- Ah, sim. Seu Kaminski. Uma lástima.
- Então. A gente nunca sabe, por isso...
- Conta conjunta! - arrematei a ver se com isso ele terminava de falar e com o dedo já no botão do controle para chamar outro cliente.
- Fiz com a filha... Pessoa da família... de confiança, sabe?
Nisso eu já havia chamado um novo cliente. Só assim consegui com que ele se afastasse um pouco do balcão. No entanto, de cabeça baixa, sempre resmungando, continuava a dizer coisas ininteligíveis. Por pura carência, com certeza, de conversar e ter quem o ouvisse.
Dei de ombros, afinal tinha todo um expediente pela frente e já conhecia o hábito dos velhinhos, pois o meu caixa era justamente para atendê-los. Se a gente não toma a iniciativa de terminar o assunto eles não arredam pé. No entanto, eu não esperava que o final daquela conversa teria o desfecho trágico que teve, nem nada denunciava que um acontecimento definitivo estivesse prestes a acontecer e marcar para sempre as nossas vidas. Digo, a minha, porque a dele... Bem, com isso me antecipo e antes é preciso dizer algo à guiza de introdução.
Tão logo comecei a atender a senhora que tinha chamado, o velho desandou numa tosse que se não fosse repugnante pelo que devia estar revolvendo no interior do seu peito, seria cômica, porque tossia realmente a plenos pulmões e sem o menor senso de medida, quase sobre a senhora que atendia, a qual afastava-se fazendo cara de nojo. Entre ela e os pigarros do velho, apenas a mão trêmula e macilenta do ancião que, de decerto, não conseguia conter tudo o que parecia expelir (evitava olhar para não ter de compartilhar o nojo da velha).
No entanto, como eu disse, aquilo não era cômico e começou a se tornar cada vez mais sério à medida em que ele não conseguia conter os acessos e parecia sufocar sob eles. Alguns que riam, mudaram de expressão. A senhora que eu atendia deixou a cara de nojo. Ao nos voltarmos para ele percebemos que a situação não era para brincadeiras: ele sufocava. Estava roxo e começava a dobrar as pernas. Fez menção de se apoiar no balcão, mas não teve tempo. Caiu já sem vida.
Foi aquele alvoroço. Muita gente acorreu para o socorrer, mas já era tarde. Estava sem pulso e sem respiração. Arrastamo-lo para um canto, abrimos o colarinho da camisa, as mulheres o abanavam, fizemos massagem cardíaca (ninguém teve coragem para uma respiração boca a boca), mas nada fez o pobre velho voltar a vida. Parecia que a sua hora tinha chegado. De tão velho, branco e macilento que era ninguém tinha dúvidas disso. Não havia mais o que fazer. Sequer muita comoção causou já que aquilo parecia ser a consequência mais óbvia do seu estado. A ninguém escapa, afinal, que a morte faz parte da vida, ao menos quando ela deixa de animar um corpo e, no caso em questão, parece que a vida há muito havia deixado aquelas veias grossas e escuras, já sem o que levar e trazer, aquela pele enrugada, aqueles ossos pontudos e salientes, os olhos sem brilho.
Chegaram afinal os para-médicos. O corpo foi recolhido e aos poucos a agência foi retornando à rotina.
Em mim, no entanto, ficou a impressão de que ele havia me escolhido para suas últimas palavras. Eu, um reles bancário a quem ele havia recorrido para a despedida, já que ninguém mais o ouvia e, a propósito de me falar da sua conta conjunta com a filha, travar comigo seu último diálogo.