August 30, 2011

ERA DA INFORMAÇÃO, por Neal Gabler

Achei interessante o texto a seguir, sobre a morte das grandes idéias nos dias atuais.
Compartilho convosco, pois para aqueles que pensam, a sensação de orfandade é inevitável diante deste quadro.
Compreender o fenômeno é fundamental para mitigar a dor e, quiçá, começar a mudar esta situação.
Um abraço. 

ERA DA INFORMAÇÃO


A enxurrada de ideias enganosas

Por Neal Gabler

Reproduzido do Estado de S.Paulo/The New York Times,

21/8/2011; título original “A enxurrada de enganosas grandes

ideias”, tradução de Celso M. Paciornik

O número de julho/agosto de The Atlantic alardeia as “14 Maiores Ideias do Ano”.

Prenda o fôlego. As ideias incluem “Os jogadores são os donos do jogo”

(n.º 12), “Wall Street: a mesma de sempre” (n.º 6), “Nada permanece secreto!”

(n.º 2), e a maior de todas do ano, “A ascensão da classe média - só que não a

nossa”, que se refere às economias em crescimento de Brasil, Rússia, Índia e

China.

Pode soltar o ar. O leitor deve achar que nenhuma dessas ideias parece particularmente

de tirar o fôlego. Nenhuma delas, aliás, é uma ideia.

Elas são mais observações. Mas não se deve culpar The Atlantic por confundir

lugares comuns com visão intelectual. As ideias simplesmente não são o que

costumavam ser. Em um passado distante, elas podiam acender debates, estimular

outros pensamentos, incitar revoluções e mudar fundamentalmente as maneiras

como observamos e pensamos o mundo.

Elas podiam penetrar na cultura geral e transformar pensadores em celebridades

- notadamente Albert Einstein, mas também Reinhold Niebuhr, Daniel Bell,

Betty Friedan, Carl Sagan e Stephen Jay Gould, para citar alguns. As próprias

ideias podiam se tornar famosas: por exemplo, “o fim da ideologia”, “o meio é a

mensagem”, “a mística feminina”, “a teoria do Big Bang”, “o fim da história”. A

grande ideia podia ganhar a capa da revista Time - “Deus está morto?” - e intelectuais

como Norman Mailer, William F. Buckley Jr. e Gore Vidal seriam eventualmente

convidados para as poltronas dos talk shows de fim de noite. Isso foi

há uma eternidade.

Se nossas ideias parecem menores hoje, não é porque somos mais burros do que

nossos antepassados, mas simplesmente porque não ligamos tanto para as ideias

quanto eles ligavam. Aliás, estamos vivendo cada vez mais em um mundo pósideia

- um mundo em que as ideias grandes, as que fazem pensar, que não podem

ser instantaneamente monetizadas, têm tão pouco valor intrínseco que menos

pessoas as estão gerando e menos canais as estão disseminando, a despeito da internet.

As ideias ousadas estão praticamente fora de moda.

Argumento lógico

Não é segredo, especialmente nos Estados Unidos, que vivemos numa era pós-

Iluminismo na qual racionalidade, ciência, argumento lógico e debate perderam a

batalha em muitos setores e, talvez, até na sociedade em geral, para superstição,

fé, opinião e ortodoxia. Embora continuemos fazendo avanços tecnológicos gigantescos,

podemos estar na primeira geração que girou para trás o relógio da

história - que retrocedeu intelectualmente de modos avançados de pensar para os

velhos modos das crenças. Mas pós-Iluminismo e pós-ideia, embora relacionados,

não são exatamente a mesma coisa.

Pós-Iluminismo refere-se a um estilo de pensar que já não mobiliza as técnicas

do pensamento racional. Pós-ideia refere-se ao pensar que não é mais feito, independentemente

do estilo.

O mundo pós-ideia vem se aproximando faz tempo, e muitos fatores contribuíram

para isso. Vemos o recuo nas universidades do mundo real, e um encorajamento,

e premiação, da especialização mais estreita em lugar da ousadia - de

cuidar de plantas envasadas em vez de plantar florestas.

Vemos o eclipse do intelectual público na mídia em geral pelo sabichão que

substitui extravagâncias por ponderação, e o concomitante declínio do ensaio em

revistas de interesse geral. E temos a ascensão de uma cultura cada vez mais visual,

especialmente entre os jovens - uma forma menos favorável à expressão de

ideias.

Mas esses fatores, que começaram há décadas, foram mais provavelmente arautos

do advento de um mundo pós-ideia que suas causas principais.

Vivemos na muito alardeada Era da Informação. Por cortesia da internet, temos a

impressão de ter acesso imediato a tudo que alguém poderia querer saber. Certamente

somos mais bem informados em história, ao menos quantitativamente.

Há trilhões e trilhões de bytes circulando no éter - tudo para ser colhido e ser objeto

de pensamento.

E é precisamente essa a questão. No passado, nós colhíamos informações não só

para saber coisas. Isso era apenas o começo. Nós também colhíamos informações

para convertê-las em alguma coisa maior que fatos e, em última análise,

mais útil - em ideias que explicavam as informações. Buscávamos não só apreender

o mundo, mas realmente compreendê-lo, que é a função primordial das ideias.

Grandes ideias explicam o mundo e nos explicam uns aos outros.

Karl Marx chamou a atenção para a relação entre os meios de produção e nossos

sistemas sociais e políticos. Sigmund Freud nos ensinou a explorar nossas mentes

como meio para compreender nossas emoções e comportamentos. Einstein

reescreveu a física. Mais recentemente, Marshall McLuhan teorizou sobre a natureza

da comunicação moderna e seu efeito na vida moderna. Essas ideias permitiram

que nos desprendêssemos de nossa existência e tentássemos responder

as grandes e atemorizantes questões de nossas vidas.

Mas se a informação foi um dia um alimento de ideias, na última década ela se

tornou sua concorrente. Estamos como o agricultor que possui trigo demais para

fabricar farinha. Somos inundados por tanta informação que não teríamos tempo

para processá-la mesmo que o quiséssemos, e a maioria de nós não quer.

A coleta em si é cansativa: o que cada um de nossos amigos está fazendo neste

particular momento, e no momento seguinte, e no seguinte; com quem Jennifer

Aniston está saindo agora; qual video se tornará viral no YouTube neste momento;

o que a princesa Letizia ou Kate Middleton estão usando hoje. Aliás, estamos

vivendo dentro da nuvem de uma Lei de Gresham informática onde informações

triviais expulsam informações significativas, mas trata-se também uma lei de

Gresham nocional em que as informações, triviais ou não, expulsam ideias.

Preferimos conhecer a pensar porque o conhecer tem mais valor imediato.

Ele nos mantém “por dentro”, nos mantém conectados com nossos amigos e nossa

tribo. As ideias são tão etéreas, tão pouco práticas, trabalho demais para recompensa

de menos. Poucos falam ideias. Todos falam informação, geralmente

informação pessoal. Onde é que você vai? O que está fazendo? Quem você anda

vendo? Estas são as grandes questões de hoje.

Não é por acaso, com certeza, que o mundo pós-ideia brotou com o mundo das

redes de relacionamento social. Apesar de haver sites e blogs dedicados a ideias,

Twitter, Facebook, Myspace, etc ., os sites mais populares na web, são basicamente

bolsas de informações destinadas a alimentar a fome insaciável de informação,

embora essa dificilmente seja do tipo de informação que gera ideias. Ela

é, em grande parte, inútil exceto na medida em que faz o possuidor da informação

se sentir, bem... informado. Evidentemente, pode-se argumentar que esses sites

não são diferentes do que a conversa era para gerações anteriores, e a conversa

raramente criava grandes ideias, e se estaria certo.

Mas a analogia não é perfeita. Em primeiro lugar, os sites de relacionamento social

são a principal forma de comunicação entre jovens, e estão suplantando os

meios impressos, que é onde as ideias eram tipicamente gestadas. Depois, os sites

de relacionamento social criam hábitos mentais que são inimigos do tipo de

discurso deliberado que dá origem a ideias. Em lugar de teorias, hipóteses e argumentos

importantes, obtemos tuítes instantâneos de 140 caracteres sobre comer

um sanduíche ou assistir um programa de TV.

Universo intelectual

Embora as redes sociais possam alargar o círculo pessoal de alguém e até apresentá-

lo a estranhos, isso não é mesma coisa que alargar o universo intelectual

pessoal. Aliás, a tagarelice das redes sociais tende a encolher o universo da pessoa

a ela mesma e seus amigos, enquanto pensamentos organizados em palavras,

seja online seja na página impressa, alargam o foco pessoal.

Parafraseando o ditado famoso, geralmente atribuído ao jogador de beisebol americano

“Yogi” Berra, de que não dá para pensar e rebater ao mesmo tempo,

também não se pode pensar e tuitar ao mesmo tempo, não por ser impossível fazer

tarefas múltiplas, mas porque tuitar - que é, em grande parte, um jorro, ou de

opiniões breves sem sustentação, ou de descrições breves das próprias atividades

prosaicas - é uma forma de distração e anti-pensamento.

As implicações para uma sociedade que não pensa grande são enormes. As ideias

não são meros brinquedos intelectuais. Elas têm consequências práticas.

Um artista amigo lamentou recentemente que sentia o mundo da arte à deriva,

pois não havia mais grandes críticos como Harold Rosenberg e Clement Greenberg

para oferecer teorias da arte que poderiam fazer a arte frutificar e se revigorar.

Outro amigo desenvolveu um argumento parecido sobre política. Embora os

partidos debatam sobre quanto cortar no orçamento, ele gostaria de saber onde

estão os John Rawises e Robert Nozicks que poderiam elevar o nível de nossa

política.

Abundância de dados

O mesmo seguramente poderia ser dito da economia, onde John Maynard Keynes

continua sendo o centro do debate quase 80 anos depois de propor sua teoria

de injeção de estímulos pelo governo. Isso não significa que os sucessores de

Rosenberg, Rawls e Keynes não existam, apenas que, se existirem, eles provavelmente

não ganharão tração numa cultura que tem tão pouco uso para ideias,

especialmente as grandes, excitantes e perigosas, e isso é verdade quer as ideias

venham de acadêmicos ou de outros que não fazem parte de organizações de elite

e desafiam a sabedoria convencional. Todos os pensadores são vítimas da abundância

de informação, e as ideias dos pensadores de hoje também são vítimas

dessa abundância.

Mas é especialmente verdade para grandes pensadores nas ciências sociais como

o psicólogo cognitivo Steven Pinker, que teorizou sobre tudo - da origem da linguagem

ao papel da genética na natureza humana -, ou o biólogo Richard Dawkins,

que teve ideias grandes e controvertidas sobre tudo - do egoísmo a Deus -,

ou o psicólogo Jonathan Haidt, que analisou sistemas morais diferentes e extraiu

conclusões fascinantes sobre a relação - de moralidade a crenças políticas.

Mas como eles são cientistas e empíricos e não generalistas nas humanidades, o

lugar a partir do qual as ideias eram costumeiramente popularizadas, eles sofrem

um duplo golpe: não só o golpe contra as ideias em geral, mas o golpe contra a

ciência, que é tipicamente considerada na mídia, na melhor hipótese, como mistificadora,

na pior, como incompreensível. Uma geração atrás, esses homens teriam

chegado a revistas populares e às telas da televisão. Agora, eles são expelidos

pelo eflúvio informacional.

Alguém certamente dirá que as grandes ideias migraram para o mercado, mas há

uma enorme diferença entre invenções com fins lucrativos e pensamentos intelectualmente

desafiadores. Empresários têm muitas ideias, e alguns, como Steve

Jobs, da Apple, trouxeram algumas ideias brilhantes no sentido “inovador” da

palavra.

Mas, embora essas ideias possam mudar a maneira como vivemos, elas raramente

transformam a maneira como pensamos. Elas são materiais, não nocionais.

São os pensadores que estão em falta, e a situação provavelmente não vai mudar

tão cedo.

Nós nos tornamos narcisistas da informação, tão desinteressados por qualquer

coisa fora de nós e de nossos círculos de amizade ou por qualquer petisco que

não possamos partilhar com esses amigos que se um Marx ou um Nietzsche surgisse

subitamente trombeteando suas ideias, ninguém lhe daria a menor atenção,

certamente não a mídia em geral, que aprendeu a servir ao nosso narcisismo.

O que o futuro pressagia é cada vez mais informação - Everests dela. Não haverá

nada que não conheçamos. Mas não haverá ninguém pensando nisso. Pense nisso.

***

[Neal Gabler é bolsista sênior no Annenberg Norman Lear Center da Universidade

do Sul da Califórnia e autor de Walt Disney: The triumph of the american

imagination]