Achei interessante o texto a seguir, sobre a morte das grandes idéias nos dias atuais.
Compartilho convosco, pois para aqueles que pensam, a sensação de orfandade é inevitável diante deste quadro.
Compreender o fenômeno é fundamental para mitigar a dor e, quiçá, começar a mudar esta situação.
Um abraço.
ERA DA INFORMAÇÃO
A enxurrada de ideias enganosas
Por Neal Gabler
Reproduzido do Estado de S.Paulo/The New York Times,
21/8/2011; título original “A enxurrada de enganosas grandes
ideias”, tradução de Celso M. Paciornik
O número de julho/agosto de The Atlantic alardeia as “14 Maiores Ideias do Ano”.
Prenda o fôlego. As ideias incluem “Os jogadores são os donos do jogo”
(n.º 12), “Wall Street: a mesma de sempre” (n.º 6), “Nada permanece secreto!”
(n.º 2), e a maior de todas do ano, “A ascensão da classe média - só que não a
nossa”, que se refere às economias em crescimento de Brasil, Rússia, Índia e
China.
Pode soltar o ar. O leitor deve achar que nenhuma dessas ideias parece particularmente
de tirar o fôlego. Nenhuma delas, aliás, é uma ideia.
Elas são mais observações. Mas não se deve culpar The Atlantic por confundir
lugares comuns com visão intelectual. As ideias simplesmente não são o que
costumavam ser. Em um passado distante, elas podiam acender debates, estimular
outros pensamentos, incitar revoluções e mudar fundamentalmente as maneiras
como observamos e pensamos o mundo.
Elas podiam penetrar na cultura geral e transformar pensadores em celebridades
- notadamente Albert Einstein, mas também Reinhold Niebuhr, Daniel Bell,
Betty Friedan, Carl Sagan e Stephen Jay Gould, para citar alguns. As próprias
ideias podiam se tornar famosas: por exemplo, “o fim da ideologia”, “o meio é a
mensagem”, “a mística feminina”, “a teoria do Big Bang”, “o fim da história”. A
grande ideia podia ganhar a capa da revista Time - “Deus está morto?” - e intelectuais
como Norman Mailer, William F. Buckley Jr. e Gore Vidal seriam eventualmente
convidados para as poltronas dos talk shows de fim de noite. Isso foi
há uma eternidade.
Se nossas ideias parecem menores hoje, não é porque somos mais burros do que
nossos antepassados, mas simplesmente porque não ligamos tanto para as ideias
quanto eles ligavam. Aliás, estamos vivendo cada vez mais em um mundo pósideia
- um mundo em que as ideias grandes, as que fazem pensar, que não podem
ser instantaneamente monetizadas, têm tão pouco valor intrínseco que menos
pessoas as estão gerando e menos canais as estão disseminando, a despeito da internet.
As ideias ousadas estão praticamente fora de moda.
Argumento lógico
Não é segredo, especialmente nos Estados Unidos, que vivemos numa era pós-
Iluminismo na qual racionalidade, ciência, argumento lógico e debate perderam a
batalha em muitos setores e, talvez, até na sociedade em geral, para superstição,
fé, opinião e ortodoxia. Embora continuemos fazendo avanços tecnológicos gigantescos,
podemos estar na primeira geração que girou para trás o relógio da
história - que retrocedeu intelectualmente de modos avançados de pensar para os
velhos modos das crenças. Mas pós-Iluminismo e pós-ideia, embora relacionados,
não são exatamente a mesma coisa.
Pós-Iluminismo refere-se a um estilo de pensar que já não mobiliza as técnicas
do pensamento racional. Pós-ideia refere-se ao pensar que não é mais feito, independentemente
do estilo.
O mundo pós-ideia vem se aproximando faz tempo, e muitos fatores contribuíram
para isso. Vemos o recuo nas universidades do mundo real, e um encorajamento,
e premiação, da especialização mais estreita em lugar da ousadia - de
cuidar de plantas envasadas em vez de plantar florestas.
Vemos o eclipse do intelectual público na mídia em geral pelo sabichão que
substitui extravagâncias por ponderação, e o concomitante declínio do ensaio em
revistas de interesse geral. E temos a ascensão de uma cultura cada vez mais visual,
especialmente entre os jovens - uma forma menos favorável à expressão de
ideias.
Mas esses fatores, que começaram há décadas, foram mais provavelmente arautos
do advento de um mundo pós-ideia que suas causas principais.
Vivemos na muito alardeada Era da Informação. Por cortesia da internet, temos a
impressão de ter acesso imediato a tudo que alguém poderia querer saber. Certamente
somos mais bem informados em história, ao menos quantitativamente.
Há trilhões e trilhões de bytes circulando no éter - tudo para ser colhido e ser objeto
de pensamento.
E é precisamente essa a questão. No passado, nós colhíamos informações não só
para saber coisas. Isso era apenas o começo. Nós também colhíamos informações
para convertê-las em alguma coisa maior que fatos e, em última análise,
mais útil - em ideias que explicavam as informações. Buscávamos não só apreender
o mundo, mas realmente compreendê-lo, que é a função primordial das ideias.
Grandes ideias explicam o mundo e nos explicam uns aos outros.
Karl Marx chamou a atenção para a relação entre os meios de produção e nossos
sistemas sociais e políticos. Sigmund Freud nos ensinou a explorar nossas mentes
como meio para compreender nossas emoções e comportamentos. Einstein
reescreveu a física. Mais recentemente, Marshall McLuhan teorizou sobre a natureza
da comunicação moderna e seu efeito na vida moderna. Essas ideias permitiram
que nos desprendêssemos de nossa existência e tentássemos responder
as grandes e atemorizantes questões de nossas vidas.
Mas se a informação foi um dia um alimento de ideias, na última década ela se
tornou sua concorrente. Estamos como o agricultor que possui trigo demais para
fabricar farinha. Somos inundados por tanta informação que não teríamos tempo
para processá-la mesmo que o quiséssemos, e a maioria de nós não quer.
A coleta em si é cansativa: o que cada um de nossos amigos está fazendo neste
particular momento, e no momento seguinte, e no seguinte; com quem Jennifer
Aniston está saindo agora; qual video se tornará viral no YouTube neste momento;
o que a princesa Letizia ou Kate Middleton estão usando hoje. Aliás, estamos
vivendo dentro da nuvem de uma Lei de Gresham informática onde informações
triviais expulsam informações significativas, mas trata-se também uma lei de
Gresham nocional em que as informações, triviais ou não, expulsam ideias.
Preferimos conhecer a pensar porque o conhecer tem mais valor imediato.
Ele nos mantém “por dentro”, nos mantém conectados com nossos amigos e nossa
tribo. As ideias são tão etéreas, tão pouco práticas, trabalho demais para recompensa
de menos. Poucos falam ideias. Todos falam informação, geralmente
informação pessoal. Onde é que você vai? O que está fazendo? Quem você anda
vendo? Estas são as grandes questões de hoje.
Não é por acaso, com certeza, que o mundo pós-ideia brotou com o mundo das
redes de relacionamento social. Apesar de haver sites e blogs dedicados a ideias,
Twitter, Facebook, Myspace, etc ., os sites mais populares na web, são basicamente
bolsas de informações destinadas a alimentar a fome insaciável de informação,
embora essa dificilmente seja do tipo de informação que gera ideias. Ela
é, em grande parte, inútil exceto na medida em que faz o possuidor da informação
se sentir, bem... informado. Evidentemente, pode-se argumentar que esses sites
não são diferentes do que a conversa era para gerações anteriores, e a conversa
raramente criava grandes ideias, e se estaria certo.
Mas a analogia não é perfeita. Em primeiro lugar, os sites de relacionamento social
são a principal forma de comunicação entre jovens, e estão suplantando os
meios impressos, que é onde as ideias eram tipicamente gestadas. Depois, os sites
de relacionamento social criam hábitos mentais que são inimigos do tipo de
discurso deliberado que dá origem a ideias. Em lugar de teorias, hipóteses e argumentos
importantes, obtemos tuítes instantâneos de 140 caracteres sobre comer
um sanduíche ou assistir um programa de TV.
Universo intelectual
Embora as redes sociais possam alargar o círculo pessoal de alguém e até apresentá-
lo a estranhos, isso não é mesma coisa que alargar o universo intelectual
pessoal. Aliás, a tagarelice das redes sociais tende a encolher o universo da pessoa
a ela mesma e seus amigos, enquanto pensamentos organizados em palavras,
seja online seja na página impressa, alargam o foco pessoal.
Parafraseando o ditado famoso, geralmente atribuído ao jogador de beisebol americano
“Yogi” Berra, de que não dá para pensar e rebater ao mesmo tempo,
também não se pode pensar e tuitar ao mesmo tempo, não por ser impossível fazer
tarefas múltiplas, mas porque tuitar - que é, em grande parte, um jorro, ou de
opiniões breves sem sustentação, ou de descrições breves das próprias atividades
prosaicas - é uma forma de distração e anti-pensamento.
As implicações para uma sociedade que não pensa grande são enormes. As ideias
não são meros brinquedos intelectuais. Elas têm consequências práticas.
Um artista amigo lamentou recentemente que sentia o mundo da arte à deriva,
pois não havia mais grandes críticos como Harold Rosenberg e Clement Greenberg
para oferecer teorias da arte que poderiam fazer a arte frutificar e se revigorar.
Outro amigo desenvolveu um argumento parecido sobre política. Embora os
partidos debatam sobre quanto cortar no orçamento, ele gostaria de saber onde
estão os John Rawises e Robert Nozicks que poderiam elevar o nível de nossa
política.
Abundância de dados
O mesmo seguramente poderia ser dito da economia, onde John Maynard Keynes
continua sendo o centro do debate quase 80 anos depois de propor sua teoria
de injeção de estímulos pelo governo. Isso não significa que os sucessores de
Rosenberg, Rawls e Keynes não existam, apenas que, se existirem, eles provavelmente
não ganharão tração numa cultura que tem tão pouco uso para ideias,
especialmente as grandes, excitantes e perigosas, e isso é verdade quer as ideias
venham de acadêmicos ou de outros que não fazem parte de organizações de elite
e desafiam a sabedoria convencional. Todos os pensadores são vítimas da abundância
de informação, e as ideias dos pensadores de hoje também são vítimas
dessa abundância.
Mas é especialmente verdade para grandes pensadores nas ciências sociais como
o psicólogo cognitivo Steven Pinker, que teorizou sobre tudo - da origem da linguagem
ao papel da genética na natureza humana -, ou o biólogo Richard Dawkins,
que teve ideias grandes e controvertidas sobre tudo - do egoísmo a Deus -,
ou o psicólogo Jonathan Haidt, que analisou sistemas morais diferentes e extraiu
conclusões fascinantes sobre a relação - de moralidade a crenças políticas.
Mas como eles são cientistas e empíricos e não generalistas nas humanidades, o
lugar a partir do qual as ideias eram costumeiramente popularizadas, eles sofrem
um duplo golpe: não só o golpe contra as ideias em geral, mas o golpe contra a
ciência, que é tipicamente considerada na mídia, na melhor hipótese, como mistificadora,
na pior, como incompreensível. Uma geração atrás, esses homens teriam
chegado a revistas populares e às telas da televisão. Agora, eles são expelidos
pelo eflúvio informacional.
Alguém certamente dirá que as grandes ideias migraram para o mercado, mas há
uma enorme diferença entre invenções com fins lucrativos e pensamentos intelectualmente
desafiadores. Empresários têm muitas ideias, e alguns, como Steve
Jobs, da Apple, trouxeram algumas ideias brilhantes no sentido “inovador” da
palavra.
Mas, embora essas ideias possam mudar a maneira como vivemos, elas raramente
transformam a maneira como pensamos. Elas são materiais, não nocionais.
São os pensadores que estão em falta, e a situação provavelmente não vai mudar
tão cedo.
Nós nos tornamos narcisistas da informação, tão desinteressados por qualquer
coisa fora de nós e de nossos círculos de amizade ou por qualquer petisco que
não possamos partilhar com esses amigos que se um Marx ou um Nietzsche surgisse
subitamente trombeteando suas ideias, ninguém lhe daria a menor atenção,
certamente não a mídia em geral, que aprendeu a servir ao nosso narcisismo.
O que o futuro pressagia é cada vez mais informação - Everests dela. Não haverá
nada que não conheçamos. Mas não haverá ninguém pensando nisso. Pense nisso.
***
[Neal Gabler é bolsista sênior no Annenberg Norman Lear Center da Universidade
do Sul da Califórnia e autor de Walt Disney: The triumph of the american
imagination]