April 03, 2013

À BEIRA DO CAMINHO - Quase uma brincadeira.


À BEIRA DO CAMINHO

 

Dois homens voltavam do bar. Um deles, mais baixo do que o outro e mais novo, conversava alto com aquele que apenas assentia com a cabeça. Dizia-lhe que ele sim era uma boa pessoa, com quem se podia conversar.

Não ouvi mais, pois estavam do outro lado da rua e logo se afastaram. Não se podia dizer, a um olhar rápido, que estivessem embriagados. Contudo, ao chegarem na esquina da Eduardo de Britto com a rua por onde vinham,  fiquei preocupado. Via de mão dupla e por onde os carros normalmente andam em velocidade superior a das vias laterais, deu para perceber, quando estaquearam na esquina, que não estavam muito seguro das pernas. Sobretudo o mais velho que, só então, revelou que a bebida havia-lhe pegado mais do que ao outro. Ademais, por ser mais velho, tinha os reflexos mais lentos do que o outro que conseguiu atravessar a rua quase de imediato, enquanto ele preferia esperar.

Ao dar-se conta de que o companheiro havia ficado do outro lado, aquele que havia atravessado começou a fazer gestos, chamando-o.  Oportunidade ímpar para ser atropelado, pois além da idade, da bebida, dos carros e da velocidade, agora o companheiro do outro lado contribuía ainda mais para tirar-lhe a atenção.

Atravessou, contudo, fiando-se, quem sabe, naquele ditado que diz que Deus proteje aos bêbados e às crianças, continuando em seguida a caminho como vinham, até sumirem da minha vista, me deixando uma estranha sensação de que o desfecho dessa história podia ter sido outro.

Quem sabe um atropelamento? Uma morte? Alguns carros batidos? Um desastre de algumas proporções? 

Nada disso, contudo, havia acontecido.

O que me fez pensar que assim é a vida: um instável equílibrio entre dois mundos, o do juízo e da insensatez, como a imagem daqueles dois bêbados à beira do caminho movimentado, antes de o atravessar: a gente nunca sabe o que vai acontecer.