À BEIRA DO CAMINHO
Dois homens voltavam do bar. Um deles, mais baixo do que o
outro e mais novo, conversava alto com aquele que apenas assentia com a cabeça.
Dizia-lhe que ele sim era uma boa pessoa, com quem se podia conversar.
Não ouvi mais, pois estavam do outro lado da rua e logo se
afastaram. Não se podia dizer, a um olhar rápido, que estivessem embriagados.
Contudo, ao chegarem na esquina da Eduardo de Britto com a rua por onde
vinham, fiquei preocupado. Via de mão
dupla e por onde os carros normalmente andam em velocidade superior a das vias
laterais, deu para perceber, quando estaquearam na esquina, que não estavam
muito seguro das pernas. Sobretudo o mais velho que, só então, revelou que a
bebida havia-lhe pegado mais do que ao outro. Ademais, por ser mais velho,
tinha os reflexos mais lentos do que o outro que conseguiu atravessar a rua
quase de imediato, enquanto ele preferia esperar.
Ao dar-se conta de que o companheiro havia ficado do outro
lado, aquele que havia atravessado começou a fazer gestos, chamando-o. Oportunidade ímpar para ser atropelado, pois
além da idade, da bebida, dos carros e da velocidade, agora o companheiro do
outro lado contribuía ainda mais para tirar-lhe a atenção.
Atravessou, contudo, fiando-se, quem sabe, naquele ditado
que diz que Deus proteje aos bêbados e às crianças, continuando em seguida a
caminho como vinham, até sumirem da minha vista, me deixando uma estranha
sensação de que o desfecho dessa história podia ter sido outro.
Quem sabe um atropelamento? Uma morte? Alguns carros
batidos? Um desastre de algumas proporções?
Nada disso, contudo, havia acontecido.
O que me fez pensar que assim é a vida: um instável
equílibrio entre dois mundos, o do juízo e da insensatez, como a imagem
daqueles dois bêbados à beira do caminho movimentado, antes de o atravessar: a
gente nunca sabe o que vai acontecer.