Paulo, sabe aquele conto do qual lhe falei? Vou publicá-lo aqui. Veja o que vc acha.
Um abraço
OBRIGAÇÕES
Só faço aquilo a que sou obrigado. Não vejo porque haveria de agir diferente. Já nos deparamos com tantas dificuldades quando instados pelas necessidades por que haveríamos de proceder de outra forma quando só há adversidades pelo caminho?
Obrigação certamente não dá prazer, exceto pela satisfação de tê-la cumprido. Mas isso só vem no fim, quando a obrigação já acabou. No intercurso - palavra sugestiva, não? - de modo algum. Por isso acho que não tenho muito prazer na vida já que só faço aquilo a que sou obrigado.
Um modo de me rebelar, dirão uns, um ativista político pensarão outros, um abstrato chegarão mais próximos da verdade alguns mais. Mas não me importo o que os outros pensem de mim, afinal só faço aquilo a que sou obrigado: quem poderá atinar com minha verdadeira natureza?
Por causa dessa minha atitude incomodo-me às vezes aos domingos e feriados, quando todos saem de casa para se divertir e eu não tenho o que fazer. Geralmente procuro dar um jeito nisso procurando alguma obrigação atrasada para resolver, algum assunto semanal pendente que eu possa me dedicar nesses momentos de folga com mais vagar. Enfim, qualquer coisa relacionada com alguma obrigação que ponha minha consciência de acordo consigo mesma. Contudo, como tenho filhos pequenos os assuntos da paternidade me ocupam de tal maneira que não tenho tido esse tipo de problema ultimamente. Levar as criança na praça, jogar bola com meu filho, andar de bicicleta, tomar sol com eles, acaba ocupando todo o meu dia e, então, ao final, eu posso voltar para casa cansado e feliz.
Não posso compreender um mundo onde as obrigações não tenham importância. Sequer posso imaginar uma tal hipótese. Aos domingos ou em dias de folga procuro desanuviar meus pensamentos dessa ameaça com as obrigações, sempre as obrigações salvadoras que só por existirem no horizonte do meu dia são a prova para mim do caráter incontestável dessa verdade, contra a qual é inútil conservar ilusões. Afinal do que adianta um sábado e um domingo se depois tem uma segunda feira, uma terça e assim por diante?
Porém, apesar de toda essa ordem em minha vida, não posso negar que às vezes tenho a sensação de que está faltando algo, como um pequeno buraco negro em minha alma que ameaça tragar pra dentro de si minha existência inteira. Procuro afastar esses pensamentos com atividades edificantes, mas aquele ponto negro dentro de mim, como o equivalente negativo da fé em Cristo - um grão de mostarda - vai crescendo, crescendo até me deixar prostrado por causa de todos os esforços que envido para aplacar essas inquietações.
Isso de uns anos para cá tem aumentado de intensidade e começo a cogitar da possibilidade de vir a encará-lo como um fato e deixar de empurrá-lo para debaixo do tapete da minha consciência.
Este estado de espiríto se agravou particularmente depois que minha mulher disse para mim que não queria mais viver comigo. Ela chegou assim de repente e sem mais nem menos, quer dizer, fora do contexto de uma acalorada discussão, e me declarou sem titubear que não suportava mais viver comigo, alegando que precisava pensar um pouco mais em si e que pretendia voltar a estudar, trabalhar fora, fazer alguma coisa, enfim, que desse outro sentido para sua vida.
Fiquei sem entender até o dia em que ao chegar do serviço a casa estava vazia. A vizinha me informou que minha mulher tinha vindo com um caminhão de mudanças e carregado a mobília toda, sabe Deus para onde. E consigo também havia levado as crianças. Através dos irmãos dela fiquei sabendo que ela havia se mudado para a cidade de Caçador, em Santa Catarina, onde tem parentes.
Fiquei atônito com sua atitude e com a reviravolta que minha vida estava sofrendo em poucos dias. O edifício das minhas convicções passava por seu mais forte abalo e eu já não sabia se ele iria resistir. Afinal se eu não conhecia a pessoa com quem durante tanto tempo havia dividido o mesmo teto, como é que poderia dizer que ainda conhecia alguma coisa? A todo instante ficava me passando pela cabeça o que ela estaria pensando enquanto eu fazia os meus discursos sobre a vida. Será que ela estaria me escutando ou apenas fazendo de conta para não me magoar? O que de fato ela pensava de mim? A partir de que momento o amor havia deixado de existir? Qual a natureza dos meus sentimentos para com ela quando nos casamos? Não teria sido o mero cumprimento de uma obrigação por tê-la engravidado? Isso não era o suficiente? Além de tudo ela ainda queria amor? Mas ela nunca me cobrou isso, nem me pediu se eu a amava quando nos casamos, porque agora isso iria ser importante para ela?
Era inegável que eu havia me condicionado a levar aquela vida crivada de responsabilidades e baixado o nível das minhas expectativas desde o momento em que eu tinha sido chamado às obrigações de pai de família. Isso certamente contribuiu para tirar a espontaneidade de uma relação que estava apenas começando. O esforço que fiz para me adaptar àquela nova situação havia consumido minhas energias. Talvez eu tenha ficado cego para as dificuldades que ela também estava enfrentando. Quem sabe se eu não tivesse me esforçado tanto não teríamos sido mais felizes? Juntos ou separados, talvez teríamos sido mais felizes e não teríamos perdido tanto tempo das nossas vidas.
Agora, não sei o que fazer. Sinto saudades dela, das crianças e da rotina. Massacrante que fosse esta, mas era a minha rotina. Sinto que ela não devia ter feito isso comigo, roubado isso de mim. Mas como posso condená-la por ter me libertado?
October 24, 2007
October 03, 2007
Novo Poema
Escrevi ontem um poema do qual gostei muito. Seu tema: o bêbado, essa figura tão trágica e tão lírica que às vezes se encontra pelas ruas da cidade.
Um bêbado caminhando é impagável. É quando o homem revela o seu lado mais humano, se despe das máscaras às quais tanto nos agarramos e encara a vida de frente, apenas amparado em sua fragilidade.
Um bêbado é sempre tema para um poema porque põe em xeque os valores - muitos deles falsos - sociais.
Espero que apreciem.
A RETA TORTA VIA DE UM BÊBADO NA VOLTA PRA CASA
Não é reto o traço
que um bêbado descreve
em seu caminho
para casa?
Por mais que seu passo
seja cheio
de avanços e recuos
súbitos estacamentos
e hesitação
diante de um sinal fechado
uma rua para atravessar
cheio de voltas e
reticências o seu andar
um bêbado
em seu trajeto
de retorno ao lar
tem sempre a sensação
de andar reto.
Como a seta
o alvo a demandar.
Porque um bêbado
por mais que beba
sempre sabe
para quem voltar
e por mais voltas
que faça
seu passo
o regaço da amada
é o só que deseja
alcançar.
Por isso que se diz
da via de um bêbado:
reta torta forma
de o alcançar.
(No entanto,
também é preciso mencionar
nem sempre essas histórias
têm final felizes.
Aliás
quase nunca.)
Um bêbado caminhando é impagável. É quando o homem revela o seu lado mais humano, se despe das máscaras às quais tanto nos agarramos e encara a vida de frente, apenas amparado em sua fragilidade.
Um bêbado é sempre tema para um poema porque põe em xeque os valores - muitos deles falsos - sociais.
Espero que apreciem.
A RETA TORTA VIA DE UM BÊBADO NA VOLTA PRA CASA
Não é reto o traço
que um bêbado descreve
em seu caminho
para casa?
Por mais que seu passo
seja cheio
de avanços e recuos
súbitos estacamentos
e hesitação
diante de um sinal fechado
uma rua para atravessar
cheio de voltas e
reticências o seu andar
um bêbado
em seu trajeto
de retorno ao lar
tem sempre a sensação
de andar reto.
Como a seta
o alvo a demandar.
Porque um bêbado
por mais que beba
sempre sabe
para quem voltar
e por mais voltas
que faça
seu passo
o regaço da amada
é o só que deseja
alcançar.
Por isso que se diz
da via de um bêbado:
reta torta forma
de o alcançar.
(No entanto,
também é preciso mencionar
nem sempre essas histórias
têm final felizes.
Aliás
quase nunca.)
Subscribe to:
Comments (Atom)