October 24, 2007

Conto

Paulo, sabe aquele conto do qual lhe falei? Vou publicá-lo aqui. Veja o que vc acha.
Um abraço

OBRIGAÇÕES

Só faço aquilo a que sou obrigado. Não vejo porque haveria de agir diferente. Já nos deparamos com tantas dificuldades quando instados pelas necessidades por que haveríamos de proceder de outra forma quando só há adversidades pelo caminho?
Obrigação certamente não dá prazer, exceto pela satisfação de tê-la cumprido. Mas isso só vem no fim, quando a obrigação já acabou. No intercurso - palavra sugestiva, não? - de modo algum. Por isso acho que não tenho muito prazer na vida já que só faço aquilo a que sou obrigado.
Um modo de me rebelar, dirão uns, um ativista político pensarão outros, um abstrato chegarão mais próximos da verdade alguns mais. Mas não me importo o que os outros pensem de mim, afinal só faço aquilo a que sou obrigado: quem poderá atinar com minha verdadeira natureza?
Por causa dessa minha atitude incomodo-me às vezes aos domingos e feriados, quando todos saem de casa para se divertir e eu não tenho o que fazer. Geralmente procuro dar um jeito nisso procurando alguma obrigação atrasada para resolver, algum assunto semanal pendente que eu possa me dedicar nesses momentos de folga com mais vagar. Enfim, qualquer coisa relacionada com alguma obrigação que ponha minha consciência de acordo consigo mesma. Contudo, como tenho filhos pequenos os assuntos da paternidade me ocupam de tal maneira que não tenho tido esse tipo de problema ultimamente. Levar as criança na praça, jogar bola com meu filho, andar de bicicleta, tomar sol com eles, acaba ocupando todo o meu dia e, então, ao final, eu posso voltar para casa cansado e feliz.
Não posso compreender um mundo onde as obrigações não tenham importância. Sequer posso imaginar uma tal hipótese. Aos domingos ou em dias de folga procuro desanuviar meus pensamentos dessa ameaça com as obrigações, sempre as obrigações salvadoras que só por existirem no horizonte do meu dia são a prova para mim do caráter incontestável dessa verdade, contra a qual é inútil conservar ilusões. Afinal do que adianta um sábado e um domingo se depois tem uma segunda feira, uma terça e assim por diante?
Porém, apesar de toda essa ordem em minha vida, não posso negar que às vezes tenho a sensação de que está faltando algo, como um pequeno buraco negro em minha alma que ameaça tragar pra dentro de si minha existência inteira. Procuro afastar esses pensamentos com atividades edificantes, mas aquele ponto negro dentro de mim, como o equivalente negativo da fé em Cristo - um grão de mostarda - vai crescendo, crescendo até me deixar prostrado por causa de todos os esforços que envido para aplacar essas inquietações.
Isso de uns anos para cá tem aumentado de intensidade e começo a cogitar da possibilidade de vir a encará-lo como um fato e deixar de empurrá-lo para debaixo do tapete da minha consciência.
Este estado de espiríto se agravou particularmente depois que minha mulher disse para mim que não queria mais viver comigo. Ela chegou assim de repente e sem mais nem menos, quer dizer, fora do contexto de uma acalorada discussão, e me declarou sem titubear que não suportava mais viver comigo, alegando que precisava pensar um pouco mais em si e que pretendia voltar a estudar, trabalhar fora, fazer alguma coisa, enfim, que desse outro sentido para sua vida.
Fiquei sem entender até o dia em que ao chegar do serviço a casa estava vazia. A vizinha me informou que minha mulher tinha vindo com um caminhão de mudanças e carregado a mobília toda, sabe Deus para onde. E consigo também havia levado as crianças. Através dos irmãos dela fiquei sabendo que ela havia se mudado para a cidade de Caçador, em Santa Catarina, onde tem parentes.
Fiquei atônito com sua atitude e com a reviravolta que minha vida estava sofrendo em poucos dias. O edifício das minhas convicções passava por seu mais forte abalo e eu já não sabia se ele iria resistir. Afinal se eu não conhecia a pessoa com quem durante tanto tempo havia dividido o mesmo teto, como é que poderia dizer que ainda conhecia alguma coisa? A todo instante ficava me passando pela cabeça o que ela estaria pensando enquanto eu fazia os meus discursos sobre a vida. Será que ela estaria me escutando ou apenas fazendo de conta para não me magoar? O que de fato ela pensava de mim? A partir de que momento o amor havia deixado de existir? Qual a natureza dos meus sentimentos para com ela quando nos casamos? Não teria sido o mero cumprimento de uma obrigação por tê-la engravidado? Isso não era o suficiente? Além de tudo ela ainda queria amor? Mas ela nunca me cobrou isso, nem me pediu se eu a amava quando nos casamos, porque agora isso iria ser importante para ela?
Era inegável que eu havia me condicionado a levar aquela vida crivada de responsabilidades e baixado o nível das minhas expectativas desde o momento em que eu tinha sido chamado às obrigações de pai de família. Isso certamente contribuiu para tirar a espontaneidade de uma relação que estava apenas começando. O esforço que fiz para me adaptar àquela nova situação havia consumido minhas energias. Talvez eu tenha ficado cego para as dificuldades que ela também estava enfrentando. Quem sabe se eu não tivesse me esforçado tanto não teríamos sido mais felizes? Juntos ou separados, talvez teríamos sido mais felizes e não teríamos perdido tanto tempo das nossas vidas.
Agora, não sei o que fazer. Sinto saudades dela, das crianças e da rotina. Massacrante que fosse esta, mas era a minha rotina. Sinto que ela não devia ter feito isso comigo, roubado isso de mim. Mas como posso condená-la por ter me libertado?

3 comments:

Anonymous said...

Julio,
o que posso dizer, além de que gostei bastante...

Vejo esse texto como um "conto-ensaio filosófico-existencialista", se posso exprimir assim. Lembrei imediatamente do Sartre - a imagem do 'equivalente negativo da fé' (excelente), o grão de mostarda crescendo e inquietando, assim como a sensação opressiva da obrigação e da rotina, transmitem o gosto de “náusea” que você encontra na obra com o mesmo nome -e do Camus no livro "A queda", tanto no conteúdo metafísico quanto na forma de monólogo que um personagem dirige a um ouvinte abstrato/fictício, entremeando trechos mais puramente literários, cujo tema principal pode ser, no teu caso, talvez o casamento e a condição da paternidade recente (mas há mais do que isso) ...

Pode parecer exagero, mas vejo todas as frases carregadas de conteúdo e, portanto, mobilizadoras do pensamento, de forma que cada releitura faz emergir novos significados.

Há uns cortes bruscos na linha evolutiva do enredo que dão dinamismo ao texto e aguçam a atenção do leitor: o momento em que o protagonista encontra a casa inesperadamente vazia, a descoberta da rotina como uma bóia ou tábua de salvação, apesar de massacrante, dentre outros...

Enfim, o último parágrafo e a frase final são brilhantes, esta última condensando numa pincelada todo o arcabouço interrogativo do conto e clareando numa só e curta frase o que pudesse ter ficado nebuloso até ali...
Muito bom.
Um abraço.
Paulo S.

Poeta Passo Fundo said...

Obrigado, Paulo. Tuas apreciações me deixam lisonjeado, mas mais do que isso confirmam um impressão que tive quando só mais de 10 anos depois de escrito esse conto, consegui arrematá-lo. Realmente, sinto que esta é uma das melhores coisas que já escrevi.
A ansiedade em que fiquei essa semana pela tua apreciação só se explica por isso: ter a sensação de ter posto ali o que tenho de melhor sem saber se essa impressão encontrava o seu equivalente na impressão alheia. Confirmado por ti o que para mim já era uma evidência, prova que não havia me enganado. Isso é bom porque me alivia de um peso. Não estou intoxicado pela auto-satisfação, meu juízo está são e meus critérios de avaliação estão em dia.
Obrigado, meu leal amigo, essas nossas trocas têm significado muito para mim, me ajudado nessa descoberta do meu caminho - espero que o teu também - como escritor.
Um grande abraço

Anonymous said...

Julio,

Mulheres e homens são muito diferentes...

O homem tende a ser racional, a levar a vida pelo ponto de vista do que é prático, funcional e (quando honesto) do que é correto para com as obrigações contraídas...

As mulheres não, não falam nem entendem essa língua... São seres que sangram e parem, são completamente diferentes de nós. Não reconhecem a lógica, porque o que as satisfas é o universo do sentimento, do gesto, da emoção. E não são piores nem melhores do que nós homens por serem assim.
Não adianta vc tentar explicar para uma mulher que ages assim ouassado porque é o melhor em função das circunstâncias. Isso entra pela cabeça dela e não encontra lugar para registro.

Mulheres são seres fetais, precisam de alimento gestual, sentimental, romântico.

No seu caso, casar sem amor (pela obrigação de terem engravidado) foi um erro fatal. Masi fatal foi você ter vivido esse tempo todo se escondendo nas obrigações porque seu peito não tinha alegria o suficiente para palpitar de vontade de fazer outras coisas. Você não a amava. Quem não ama e é obrigado a viver com outra pessoa tem uma vida infeliz. Infelicidade que tira toda a vontade de a gente fazer qualquer coisa juntos tipo, sair pra jantar, dar flores, beber um vinho e fuder igual louco (com romantismo nas preliminares), essas coisas.

Mas você foi forte porque ainda teve peito de arrumar ânimo para curtir com as crianças, porque tem pai que está na mesma situação que a tua e além de não amar a esposa também não ama os filhos. Se esconde no trabalho (to falando dos homens, não daqueles viados que abandonam mulher e filho porque não tem força para trabalhar e enfrentar a vida na chincha das responsabilidades), e passa o tempo em obrigações.

Olha, estou dizendo tudo isso sem te conhecer também, mas é o que entendi sobre teu texto.

Não tenhos conselhos, mas acho importante tentar negociar a presença de um pai com as crianças, isso é muito importante para eles.

Afora tudo isso, a única coisa que posso te dizer para essa dor que você sente é que ela é a mãe de todas as dores, a dor de não saber...

Não saber é pior do que qualquer coisa porque nos deixa num mar de confusão sem saber que rumo tomar porque não entendemos o que aconteceu...

Aúnica receita que tenho para a mãe de todas as dores (e não posso dizer que funciona) chama-se: "O Caibalion" de Hermes Trimegistro.

É o conhecimento mais profundo que já encontrei sobre os fenômenos deste mundo.

Desculpa se te julguei sem te conhecer direito!!!

Abraço Guaicuru!!!