A este propósito já dizia o gaúcho quando se visse envolvido em alguma enrascada da qual não sabia se ia sair com vida. Uso a metáfora para me referir à minha vocação literária. Devido a circunstâncias da minha vida pessoal, no último ano, tenho me dedicado pouco a ela, mas gradativamente vou voltando à ativa.
Para me manter aquecido, como o jogador na beira do gramado, esperando a hora de entrar em campo, posto aqui, de vez em quando, uma coisita ou outra.
O poema abaixo vai nesse sentido.
FLERTE
A luta do espermatozóide
para fecundar o óvulo
começa já no momento da conquista.
É preciso coragem
ousadia
intrepidez
para dar
o primeiro passo
furar o bloqueio de muitos
enfrentar terreno adverso
a Dúvida
e o Impoderável
- levar um fora é sempre uma possibilidade.
Muitos desistem
morrem no caminho
ou sequer chegam a tentar.
Mas um sobrevive.
Graças a este
toda uma espécie se mantém.
December 01, 2008
November 14, 2008
Eloá
Os mistérios da criação... Isso que eu acho fascinante em escrever. A gente não sabe da onde nem quando um poema, um conto, uma idéia vai surgir e, de repente, zás, a idéia ocorre e a gente se põe a escrever como se fosse forçado àquilo.
Foi assim que acorreu com o poema abaixo. Aconteceu depois que a celeuma toda envolvendo o caso dessa menina de Santo André passou. Parece que só então a idéia, da qual eu nem fazia idéia que existia - pois não tive nenhuma intenção deliberada de escrever sobre isso - veio à tona. E veio com tal força que foi impossível não colocá-la no papel, pois, acredito, pode servir como um desafogo para todos nós que ficamos tão indignados com a situação (se me permitirem a falta de modéstia de querer assumir a voz dos outros). Mas acho que essa é a missão principal do poeta, do escritor, do artista: fazer as vezes da voz do seu tempo.
Um abraço e boa leitura.
ELOÁ VAI MORRER
Eloá vai morrer.
Não importa
o que fizerem.
Eloá vai morrer.
Desde o berço
já estava fadada a isso:
pobre
vivendo numa região violenta
namorando aos 12 anos
filha de um pai que depois se descobriu
é suspeito de integrar
um grupo de extermínio
em Alagoas.
Eloá não tem chance.
O tiro é só uma questão de tempo.
E que tempo, hein?
- 5 dias -
até o desfecho final.
Eloá
pede para ele ser rápido
abreviar a tua dor
mas não te iludas:
vais morrer!
Não importa os teus 15 anos
a tua beleza e a felicidade estampada
em teu sorriso de menina.
O destino já está selado pra ti
por conta de todos nós:
polícia incompetente
negociações mal conduzidas
namorado desequilibrado
pais relapsos
estado ineficiente
desigualdade social
imprensa sensacionalista.
Eloá
tu vais morrer
mas nós te amamos
e exortamos a tua coragem
por teres ficado firme
e crido
até o fim
viver num pais decente.
Foi assim que acorreu com o poema abaixo. Aconteceu depois que a celeuma toda envolvendo o caso dessa menina de Santo André passou. Parece que só então a idéia, da qual eu nem fazia idéia que existia - pois não tive nenhuma intenção deliberada de escrever sobre isso - veio à tona. E veio com tal força que foi impossível não colocá-la no papel, pois, acredito, pode servir como um desafogo para todos nós que ficamos tão indignados com a situação (se me permitirem a falta de modéstia de querer assumir a voz dos outros). Mas acho que essa é a missão principal do poeta, do escritor, do artista: fazer as vezes da voz do seu tempo.
Um abraço e boa leitura.
ELOÁ VAI MORRER
Eloá vai morrer.
Não importa
o que fizerem.
Eloá vai morrer.
Desde o berço
já estava fadada a isso:
pobre
vivendo numa região violenta
namorando aos 12 anos
filha de um pai que depois se descobriu
é suspeito de integrar
um grupo de extermínio
em Alagoas.
Eloá não tem chance.
O tiro é só uma questão de tempo.
E que tempo, hein?
- 5 dias -
até o desfecho final.
Eloá
pede para ele ser rápido
abreviar a tua dor
mas não te iludas:
vais morrer!
Não importa os teus 15 anos
a tua beleza e a felicidade estampada
em teu sorriso de menina.
O destino já está selado pra ti
por conta de todos nós:
polícia incompetente
negociações mal conduzidas
namorado desequilibrado
pais relapsos
estado ineficiente
desigualdade social
imprensa sensacionalista.
Eloá
tu vais morrer
mas nós te amamos
e exortamos a tua coragem
por teres ficado firme
e crido
até o fim
viver num pais decente.
November 06, 2008
Miniconto
Entrando nessa de miniconto, formato para o qual, confesso, torci o nariz quando tive o primeiro contato, escrevi um que reproduzo abaixo.
Revejo, portanto, meus conceitos sobre esta forma de arte: há temas que requerem determinadas formas. Às vezes elas sequer existem. Daí a importância dos pioneiros. Por isso quanto mais técnicas dominarmos tanto melhor para dar vazão ao que nos vai na alma.
Um abraço! Boa leitura.
JOVENS NA ESCOLA
A vida está além.
Revejo, portanto, meus conceitos sobre esta forma de arte: há temas que requerem determinadas formas. Às vezes elas sequer existem. Daí a importância dos pioneiros. Por isso quanto mais técnicas dominarmos tanto melhor para dar vazão ao que nos vai na alma.
Um abraço! Boa leitura.
JOVENS NA ESCOLA
A vida está além.
October 27, 2008
Convite
Amigos, quinta-feria, dia 30/10/2008, às 19 horas, no Teatro Múcio de Castro, estará acontecendo o lançamento do Festival de Cinema de Passo Fundo, com filmes produzidos aqui.
Na ocasião será exibido o filme Diga Três, produzido pelo Dr. Jorge Salton e do qual eu participo.
O filme tem a duração de quase duas horas e após a sua exibição o mesmo será debatido.
A título de registro: este filme é o primeiro longa metragem produzido em Passo Fundo, após 30 anos do filme Gaúcho de Passo Fundo, produzido em 78, pelo saudoso Teixeireinha.
A entrada é franca e quem não viu o filme ou quer ver de novo sinta-se convidado a prestigiar o evento.
Divulguem para os amigos e conhecidos. Temos que prestigiar iniciativas como estas.
Um abraço.
Na ocasião será exibido o filme Diga Três, produzido pelo Dr. Jorge Salton e do qual eu participo.
O filme tem a duração de quase duas horas e após a sua exibição o mesmo será debatido.
A título de registro: este filme é o primeiro longa metragem produzido em Passo Fundo, após 30 anos do filme Gaúcho de Passo Fundo, produzido em 78, pelo saudoso Teixeireinha.
A entrada é franca e quem não viu o filme ou quer ver de novo sinta-se convidado a prestigiar o evento.
Divulguem para os amigos e conhecidos. Temos que prestigiar iniciativas como estas.
Um abraço.
October 19, 2008
Encontros literários - continuação.
Continuando a minha fala sobre o encontro literário da última sexta-feira, vinha eu dizendo que a professora ia responder a minha questão.
Na verdade não lembro o que ela respondeu, porque achei que ela tergiversou sobre o assunto e não soube o que dizer. Ao que o Moacir a socorreu, intervindo e dizendo que na verdade o Guimarães criou um idioma próprio, forjado não apenas com expressões do rés-do-chão do povo, mas também com neologismo e expressões cunhadas de outros idiomas, dos quais ele conhecia vários.
Não sou um grande conhecedor da obra do Guimarães - li os contos de Sagarana, mas não avancei no Grande Sertões: Veredas - para contestá-lo, mas me parece que grande parte da obra rosiana é forjada mesmo em cima do linguajar do povo e como tal não fiquei satisfeito com a resposta, afinal de contas a sensação de contradição e ingratidão da sua obra não restou afastada.
Moacir ainda ajuntou que James Joyce fez o mesmo em sua obra e ambos estão pouco se importando se quem os lê os entende ou não. Eles escrevem daquele jeito e quem os quiser ler tem que entrar em seus universos.
É claro que aqui estamos tratando de duas figuras ímpares da história da literatura mundial, mas literatura para mim não é isso, ou não é apenas isso.
Acho que há dois extremos aí: o caso dos autores acima que levam as suas experiências linguísticas ao extremo e o caso dos best-sellers que pouco estão preocupados com a língua. O que eles querem mesmo é contar uma história.
Para mim, penso que a virtude está no meio. Nem tanto ao céu nem tanto à terra. Pois os primeiros tornam-se herméticos - e às vezes, deliberadamente, uns chatos - e outros se tornam puramente escritores de entreterimento, escritores que não estão preocupados com trabalho da linguagem, de como esta, a par DO QUE se está contando, tem também o seu prazer em COMO se está contando essa história.
Cito como exemplo dessa virtude do equilíbrio Cortázar do qual reli recentemente seus contos do livro, Fogo, Todos os Fogos e o qual eu considero uma obra prima.
Enfim, acho que a literatura como obra de arte tem dupla finalidade: proporcionar o prazer estético da linguagem, através da contação de uma história e ajudar o homem a atravessar a existência com a sensação de que a sua história também pode ter beleza e sentido.
Acho que para isso os extremos não colaboram, seja porque a comunicação entre autor e leitor tem que se estabelecer, seja porque esta comunicação também não pode ser apenas uma conversa fiada.
Mas enfim... há momentos para tudo na vida e até estes extremos encontram lugar em nosso coração, por que quem às vezes não quer aprofundar sua experiência com a língua, de vez em quando, ao ler um livro? E quem também não quer apenas se divertir?
Não sejamos radicais, afinal, como dito acima, a virtude está no meio. Mas este meio não pode ser representado como um um pêndulo imóvel, mas como um pêndulo que oscila de um extremo ao outro, estando por breve momentos de cada lado, sabendo, contudo, que é o centro o seu lugar.
Um abraço a todos e até o próximo post.
PS: obrigado pelo retorno dos meus leitores. Parece que o negócio do email deu certo. Recebi várias manifestações no meio email de vocês. Fiquei satisfeitíssimo com o resultado, afinal do que vale escrever se não é para ser lido?
A propósito ainda dos Encontros Literários do Sesc, quero informar a vocês que este Encontro de sexta feira, foi apenas o pontapé inicial de uma oficina de criação literária sobre o conto que começa na próxima sexta-feira, dia 24-10, ali no Sesc mesmo, da qual eu pretendo participar.
Na verdade não lembro o que ela respondeu, porque achei que ela tergiversou sobre o assunto e não soube o que dizer. Ao que o Moacir a socorreu, intervindo e dizendo que na verdade o Guimarães criou um idioma próprio, forjado não apenas com expressões do rés-do-chão do povo, mas também com neologismo e expressões cunhadas de outros idiomas, dos quais ele conhecia vários.
Não sou um grande conhecedor da obra do Guimarães - li os contos de Sagarana, mas não avancei no Grande Sertões: Veredas - para contestá-lo, mas me parece que grande parte da obra rosiana é forjada mesmo em cima do linguajar do povo e como tal não fiquei satisfeito com a resposta, afinal de contas a sensação de contradição e ingratidão da sua obra não restou afastada.
Moacir ainda ajuntou que James Joyce fez o mesmo em sua obra e ambos estão pouco se importando se quem os lê os entende ou não. Eles escrevem daquele jeito e quem os quiser ler tem que entrar em seus universos.
É claro que aqui estamos tratando de duas figuras ímpares da história da literatura mundial, mas literatura para mim não é isso, ou não é apenas isso.
Acho que há dois extremos aí: o caso dos autores acima que levam as suas experiências linguísticas ao extremo e o caso dos best-sellers que pouco estão preocupados com a língua. O que eles querem mesmo é contar uma história.
Para mim, penso que a virtude está no meio. Nem tanto ao céu nem tanto à terra. Pois os primeiros tornam-se herméticos - e às vezes, deliberadamente, uns chatos - e outros se tornam puramente escritores de entreterimento, escritores que não estão preocupados com trabalho da linguagem, de como esta, a par DO QUE se está contando, tem também o seu prazer em COMO se está contando essa história.
Cito como exemplo dessa virtude do equilíbrio Cortázar do qual reli recentemente seus contos do livro, Fogo, Todos os Fogos e o qual eu considero uma obra prima.
Enfim, acho que a literatura como obra de arte tem dupla finalidade: proporcionar o prazer estético da linguagem, através da contação de uma história e ajudar o homem a atravessar a existência com a sensação de que a sua história também pode ter beleza e sentido.
Acho que para isso os extremos não colaboram, seja porque a comunicação entre autor e leitor tem que se estabelecer, seja porque esta comunicação também não pode ser apenas uma conversa fiada.
Mas enfim... há momentos para tudo na vida e até estes extremos encontram lugar em nosso coração, por que quem às vezes não quer aprofundar sua experiência com a língua, de vez em quando, ao ler um livro? E quem também não quer apenas se divertir?
Não sejamos radicais, afinal, como dito acima, a virtude está no meio. Mas este meio não pode ser representado como um um pêndulo imóvel, mas como um pêndulo que oscila de um extremo ao outro, estando por breve momentos de cada lado, sabendo, contudo, que é o centro o seu lugar.
Um abraço a todos e até o próximo post.
PS: obrigado pelo retorno dos meus leitores. Parece que o negócio do email deu certo. Recebi várias manifestações no meio email de vocês. Fiquei satisfeitíssimo com o resultado, afinal do que vale escrever se não é para ser lido?
A propósito ainda dos Encontros Literários do Sesc, quero informar a vocês que este Encontro de sexta feira, foi apenas o pontapé inicial de uma oficina de criação literária sobre o conto que começa na próxima sexta-feira, dia 24-10, ali no Sesc mesmo, da qual eu pretendo participar.
October 18, 2008
Encontros Literários
Ontem - 17/10 - o Sesc trouxe a Passo Fundo, dentro da programação dos Encontros Literários do bimestre setembro/outubro, o escritor Moacir Scliar e uma professora da Ufrgs - da qual agora me foge o nome - para palestrar sobre os escritores Ciro Martins e Guimarães Rosa, respectivamente.
Foi algo bastante rápido. Não fosse a participação do público - pouca aliás - a noite poderia se dar por perdida.
A professora foi rápida, embora interessante, em sua paletra, sobretudo ao trazer para nós um livro que compila as cartas de Guimarães com seus tradutores para outras línguas. O cuidado que ele tinha para que a tradução não estragasse a obra nessas versões. Coisa que ele considerava que havia acontecido com a versão para o inglês nos EUA.
Moacir palestrou sobre Ciro Martins, o qual conheceu pessoalmente, e com o qual chegou a se tratar, eis que além de escritor, Ciro Martins era médico, com especialização em psicanálise. Especialização porque naquela época a psicanálise ainda era uma novidade e ele teve de fazer o curso fora do Brasil, mais especificamente em Buenos Aires.
Chamou a atenção na palestra de Moacir a ênfase que ele deu para o fato de que nas duas atividades - na psicanálise e na escrita - o profissional tem de ter o cuidado ao lidar com a palavra. Um na sua expressão oral, outro, na escrita. E ressaltando que em ambas Ciro Martins era um mestre.
Aberto para perguntas apenas eu, mais um amigo e outro rapaz intervimos.
Deixei primeiro para este meu amigo que, em geral, faz suas intervenções nesses debates, começasse o ciclo de perguntas.
Ele dirigiu-se ao Moacir. Como, porém, eu achei que ele não foi muito feliz nesse intervenção, procurei a complementar colocando a questão para o mesmo palestrante se ele achava que a escrita era uma forma de terapia, já que estávamos nesse terreno do cruzamento entre a escrita e a psicanálise. Ao que ele concordou. Mas não achei nada de especial na sua resposta, pois ele não aprofundou o tema como eu esperava.
Então, tomei a deixa e fiz para a professora a questão que realmente eu queria ver esclarecida. Sobre Guimarães Rosa.
A questão era: até que ponto não havia uma contradição na obra de Guimarães quando este, se apropriando do linguajar do comum do povo, construiu com ela uma obra erudita, quase inacessível à maioria da populaçao, especialmente ao matuto de quem ele se apropriou do falar? Não havia nesse gesto até um ato de ingratidão para com este povo?
Ao que ela respondeu - continuo na próxima.
Foi algo bastante rápido. Não fosse a participação do público - pouca aliás - a noite poderia se dar por perdida.
A professora foi rápida, embora interessante, em sua paletra, sobretudo ao trazer para nós um livro que compila as cartas de Guimarães com seus tradutores para outras línguas. O cuidado que ele tinha para que a tradução não estragasse a obra nessas versões. Coisa que ele considerava que havia acontecido com a versão para o inglês nos EUA.
Moacir palestrou sobre Ciro Martins, o qual conheceu pessoalmente, e com o qual chegou a se tratar, eis que além de escritor, Ciro Martins era médico, com especialização em psicanálise. Especialização porque naquela época a psicanálise ainda era uma novidade e ele teve de fazer o curso fora do Brasil, mais especificamente em Buenos Aires.
Chamou a atenção na palestra de Moacir a ênfase que ele deu para o fato de que nas duas atividades - na psicanálise e na escrita - o profissional tem de ter o cuidado ao lidar com a palavra. Um na sua expressão oral, outro, na escrita. E ressaltando que em ambas Ciro Martins era um mestre.
Aberto para perguntas apenas eu, mais um amigo e outro rapaz intervimos.
Deixei primeiro para este meu amigo que, em geral, faz suas intervenções nesses debates, começasse o ciclo de perguntas.
Ele dirigiu-se ao Moacir. Como, porém, eu achei que ele não foi muito feliz nesse intervenção, procurei a complementar colocando a questão para o mesmo palestrante se ele achava que a escrita era uma forma de terapia, já que estávamos nesse terreno do cruzamento entre a escrita e a psicanálise. Ao que ele concordou. Mas não achei nada de especial na sua resposta, pois ele não aprofundou o tema como eu esperava.
Então, tomei a deixa e fiz para a professora a questão que realmente eu queria ver esclarecida. Sobre Guimarães Rosa.
A questão era: até que ponto não havia uma contradição na obra de Guimarães quando este, se apropriando do linguajar do comum do povo, construiu com ela uma obra erudita, quase inacessível à maioria da populaçao, especialmente ao matuto de quem ele se apropriou do falar? Não havia nesse gesto até um ato de ingratidão para com este povo?
Ao que ela respondeu - continuo na próxima.
October 14, 2008
Para refletir!
O editorial de Zero Hora de hoje - 14-10-2008 - traz uma frase de efeito nestes tempos de crise do sistema financeiro internacional.
Vale por mil palavras - ou mil livros - sobretudo dos ideólogos do Estado Mínimo quando a realidade se impõe e assusta.
A frase é de Ben Bernanke, atual presidente do FED (e olha que fede mesmo) do Estados Unidos.
Diz ele:
"NÃO EXISTEM ATEUS NAS TRINCHEIRAS OU IDEÓLOGOS EM CRISES FINANCEIRAS".
Não é que rimou!
Até parece versinho ou mantra para ser repetido por aqueles que precisaram de socorro financeiro nesta semana e precisam agora de alívio moral também.
Um abraço.
Vale por mil palavras - ou mil livros - sobretudo dos ideólogos do Estado Mínimo quando a realidade se impõe e assusta.
A frase é de Ben Bernanke, atual presidente do FED (e olha que fede mesmo) do Estados Unidos.
Diz ele:
"NÃO EXISTEM ATEUS NAS TRINCHEIRAS OU IDEÓLOGOS EM CRISES FINANCEIRAS".
Não é que rimou!
Até parece versinho ou mantra para ser repetido por aqueles que precisaram de socorro financeiro nesta semana e precisam agora de alívio moral também.
Um abraço.
October 09, 2008
Entrevista
Concedi hoje mais uma entrevista para a TV Câmara. A convite do Paulo MOnteiro, Presidente da Academia Passofundense de Letras. Não tinha nada de novo, em termos editoriais para trazer, pois ainda não consegui editar meu segundo livro de poemas que se encontra praticamente pronto desde a minha última entrevista. Mas conversamos sobre diversos assuntos.
É interessante como dessas conversas entre duas pessoas que compartilham o gosto pelo saber podem surgir temas instigantes para o debate. Falamos sobre a poesia, sobre a sua suposta "inutilidade" - tese do Paulo - que eu contrapus, usando do argumento do ócio criativo. No calor desta argumentação ocorreu-me uma idéia que achei interessante sustentar e a qual, acredito, pode ter ainda maiores desdobramentos. Trata-se da idéia de que a atitude do verdadeiro poeta ou do escritor é esta mesma: a de sustentar a sua inutilidade contra o utilitarismo da sociedade atual, pois na medida em que assim se coloca, como um inútil - o que me fez lembrar da música do Ultraje a Rigor dos anos 80: "Inútil, a gente somos inútil...", lembram? - o escritor se contrapõe aos valores dominantes, afirmando-se assim, como a antítese desta tese. E como antítese ou negação desses valores, o elemento fomentador da transformação, na medida em que como antítese provoca o surgimento de uma nova síntese (desculpem o pleonasmo, mas me pareceu inevitável).
Tarefa ingrata, esta do intelectual, é verdade, pois praticamente apedrejado em praça pública por essa atitude, sobretudo no interior onde a transformação demora mais para chegar.
E por falar em transformação, achei interessante também uma afirmativa do Paulo com relação a mudança da imagem que Passo Fundo está sofrendo em nivel nacional. Transformação esta detectada pelo Paulo por ocasião da viagem deste ao Rio de Janeiro, onde ele mais alguns membros da Academia de Letras de Passo Fundo estiveram visitando a Academia Brasileira de Letras, acompanhando o aluno vencedor do concurso promovido pela Academia daqui sobre Machado de Assis.
Trata-se da substituição da velha imagem de Passo Fundo como a cidade mais gaúcha do Estado, moldada pela música do Teixeirinha, para uma nova e mais moderna imagem: a da cidade que mais lê no Brasil, no embalo das Jornadas literárias e do título decorrente de Capital Nacional da Literatura. Nós que moramos aqui sabemos que as coisas não são bem assim, mas enfim... como intelectual - ou aspirante a tal - não posso negar satisfação que esta mudança esteja ocorrendo e nesse sentido.
Quem sabe nós, que moramos aqui - volto a repetir - não estejamos enxergando, como os de fora essa mudança e só vamos nos dar conta quando ela estiver definitivamente instalada e começar a dar os seus frutos, quais sejam, o surgimento e a valorização dos novos e bons autores locais, pois para mim, como autor, é isso realmente o que interessa e faz de um meio um irradiador de cultura.
Enfim falamos sobre diversos outros assuntos que podem ser conferidos na íntegra por quem assistir a entrevista.
Se a virem, aliás, me dêem o feedback da mesma, o que é sempre interessante para quem cria ou expõe alguma coisa.
A entrevista deve ir ao ar na próxima sexta-feira - dia 17-10 - com reapresentação no domingo - dia 19-10.
Um abraço e até o próximo post.
É interessante como dessas conversas entre duas pessoas que compartilham o gosto pelo saber podem surgir temas instigantes para o debate. Falamos sobre a poesia, sobre a sua suposta "inutilidade" - tese do Paulo - que eu contrapus, usando do argumento do ócio criativo. No calor desta argumentação ocorreu-me uma idéia que achei interessante sustentar e a qual, acredito, pode ter ainda maiores desdobramentos. Trata-se da idéia de que a atitude do verdadeiro poeta ou do escritor é esta mesma: a de sustentar a sua inutilidade contra o utilitarismo da sociedade atual, pois na medida em que assim se coloca, como um inútil - o que me fez lembrar da música do Ultraje a Rigor dos anos 80: "Inútil, a gente somos inútil...", lembram? - o escritor se contrapõe aos valores dominantes, afirmando-se assim, como a antítese desta tese. E como antítese ou negação desses valores, o elemento fomentador da transformação, na medida em que como antítese provoca o surgimento de uma nova síntese (desculpem o pleonasmo, mas me pareceu inevitável).
Tarefa ingrata, esta do intelectual, é verdade, pois praticamente apedrejado em praça pública por essa atitude, sobretudo no interior onde a transformação demora mais para chegar.
E por falar em transformação, achei interessante também uma afirmativa do Paulo com relação a mudança da imagem que Passo Fundo está sofrendo em nivel nacional. Transformação esta detectada pelo Paulo por ocasião da viagem deste ao Rio de Janeiro, onde ele mais alguns membros da Academia de Letras de Passo Fundo estiveram visitando a Academia Brasileira de Letras, acompanhando o aluno vencedor do concurso promovido pela Academia daqui sobre Machado de Assis.
Trata-se da substituição da velha imagem de Passo Fundo como a cidade mais gaúcha do Estado, moldada pela música do Teixeirinha, para uma nova e mais moderna imagem: a da cidade que mais lê no Brasil, no embalo das Jornadas literárias e do título decorrente de Capital Nacional da Literatura. Nós que moramos aqui sabemos que as coisas não são bem assim, mas enfim... como intelectual - ou aspirante a tal - não posso negar satisfação que esta mudança esteja ocorrendo e nesse sentido.
Quem sabe nós, que moramos aqui - volto a repetir - não estejamos enxergando, como os de fora essa mudança e só vamos nos dar conta quando ela estiver definitivamente instalada e começar a dar os seus frutos, quais sejam, o surgimento e a valorização dos novos e bons autores locais, pois para mim, como autor, é isso realmente o que interessa e faz de um meio um irradiador de cultura.
Enfim falamos sobre diversos outros assuntos que podem ser conferidos na íntegra por quem assistir a entrevista.
Se a virem, aliás, me dêem o feedback da mesma, o que é sempre interessante para quem cria ou expõe alguma coisa.
A entrevista deve ir ao ar na próxima sexta-feira - dia 17-10 - com reapresentação no domingo - dia 19-10.
Um abraço e até o próximo post.
October 07, 2008
Dica de filmes
Assisti neste fim de semana a um filme muito interessante: Na Natureza Selvagem, com direção de Sean Penn. Vale a pena dar uma olhada. A história é baseada em fatos reais e conta a aventura de um jovem da classe média americana que se forma na universidade e começa a questionar os valores da sociedade e da sua família. Em busca de resposta, parte numa jornada através dos Estados Unidos à la Jack Kerouak.
No caminho faz muitas amizades e deixa em cada uma das pessoas que conhece marcas profundas. Por tabela, também o espectador é impactado com a força do personagem e seu questionamento dos valores que adotamos há muito tempo como dogmas - dinheiro, carreira, família.
Para quem não tem medo de enfrentar os seus fantasmas o filme vale como uma reflexão para ver se a vida que está levando faz mesmo algum sentido.
Outra dica imperdível de filme é Across de Universe. Trata-se de um musical cuja trilha sonora é toda dos Beatles, com legenda das letras das músicas. Entre os atores, Joe Coecker e Bono Vox do U2, que faz no filme o papel de Dr. Robert.
O filme se passa nos conturbados anos 60 com a Guerra do Vietnã, drogas e rock in roll como pano de fundo.
Há um fio condutor da história que pode a situar no gênero romântico. Para quem torce o nariz para o gênero, vale a abstração da história diante da magnífica interpretação dos atores/cantores e pelas cenas que valem quase como um colagem de clipes muito bem realizados.
Para mim, o ponto alto do filme são as cenas que ilustram as música I wanna hold your hand, Come Togheter, interpretada por Joe Coecker e I am Walruss, interpretada por Bono.
Mas há outras igualmente lindas.
Um abraço e bons filmes.
No caminho faz muitas amizades e deixa em cada uma das pessoas que conhece marcas profundas. Por tabela, também o espectador é impactado com a força do personagem e seu questionamento dos valores que adotamos há muito tempo como dogmas - dinheiro, carreira, família.
Para quem não tem medo de enfrentar os seus fantasmas o filme vale como uma reflexão para ver se a vida que está levando faz mesmo algum sentido.
Outra dica imperdível de filme é Across de Universe. Trata-se de um musical cuja trilha sonora é toda dos Beatles, com legenda das letras das músicas. Entre os atores, Joe Coecker e Bono Vox do U2, que faz no filme o papel de Dr. Robert.
O filme se passa nos conturbados anos 60 com a Guerra do Vietnã, drogas e rock in roll como pano de fundo.
Há um fio condutor da história que pode a situar no gênero romântico. Para quem torce o nariz para o gênero, vale a abstração da história diante da magnífica interpretação dos atores/cantores e pelas cenas que valem quase como um colagem de clipes muito bem realizados.
Para mim, o ponto alto do filme são as cenas que ilustram as música I wanna hold your hand, Come Togheter, interpretada por Joe Coecker e I am Walruss, interpretada por Bono.
Mas há outras igualmente lindas.
Um abraço e bons filmes.
September 19, 2008
Poema
Vontade de postar algo aqui.
Como não tenho escrito muito ultimamente - não, pelo menos, para consumo público - vou postar um poema que escrevi há algum tempo e que deve compor meu segundo livro de poemas.
Poesia, infelizmente, não vende muito, por isso estou esperando sobrar uma grana para bancar esta segunda publicação, sem esperar retorno financeiro disso.
Como o primeiro afinal.
O que eu acho uma puta injustiça com a poesia, afinal existem boa e má poesia.
O que seria da língua sem ela?
Mas enfim...
ARMADURA DO DIA
Dispo a armadura do dia
formada
por tudo o que tenho
nos bolsos
nos pulsos
nos pés
sobre o corpo
e retoma
a forma essencial
de existir:
nu diante da vida.
Como não tenho escrito muito ultimamente - não, pelo menos, para consumo público - vou postar um poema que escrevi há algum tempo e que deve compor meu segundo livro de poemas.
Poesia, infelizmente, não vende muito, por isso estou esperando sobrar uma grana para bancar esta segunda publicação, sem esperar retorno financeiro disso.
Como o primeiro afinal.
O que eu acho uma puta injustiça com a poesia, afinal existem boa e má poesia.
O que seria da língua sem ela?
Mas enfim...
ARMADURA DO DIA
Dispo a armadura do dia
formada
por tudo o que tenho
nos bolsos
nos pulsos
nos pés
sobre o corpo
e retoma
a forma essencial
de existir:
nu diante da vida.
August 05, 2008
Poema
Após alguns meses de ausência volto a publicar algo novo.
Espero que apreciem.
EU
Quem sou eu?
Eu.
Ego.
Substância essencial.
Motor primeiro.
Eu.
Sou eu
isso tudo?
Eu.
Gostaria de saber
mas
não me é
consentido.
Eu
sempre em mutação.
O que sou hoje
já não serei
amanhã
- sim
há certa permanência –
mas não
na sua integralidade.
Eu.
Quero saber
porque
o Outro
me intriga
e sem ele
não posso viver.
Eu
sempre em conflito:
comigo
com o Outro
com o meio
com o que há.
Eu.
Quem sou seu?
Podes perguntar?
Responder então...
- nem pensar.
Espero que apreciem.
EU
Quem sou eu?
Eu.
Ego.
Substância essencial.
Motor primeiro.
Eu.
Sou eu
isso tudo?
Eu.
Gostaria de saber
mas
não me é
consentido.
Eu
sempre em mutação.
O que sou hoje
já não serei
amanhã
- sim
há certa permanência –
mas não
na sua integralidade.
Eu.
Quero saber
porque
o Outro
me intriga
e sem ele
não posso viver.
Eu
sempre em conflito:
comigo
com o Outro
com o meio
com o que há.
Eu.
Quem sou seu?
Podes perguntar?
Responder então...
- nem pensar.
April 16, 2008
Poema
Tu não me dizes
“Eu te amo”
como eu
vivo
a te dizer.
Dizes-me
“Te adoro”
que é
um pouco menos
do que amar.
Mas sinto
que o amor
está em curso
vindo dos Longes
do teu ser.
Até os teus lábios
que
por hora
apenas me beijam
e se entreabrem
nos momentos
de prazer.
Tu não me dizes
e eu tenho medo
porque já não me dizendo
amas-me
com tal ardor
que
quando me disser
suspeito
vais
me engolir
com toda a força
do teu ser.
Ficamos assim
então querida
por hora.
Eu digo
“Te amo”
e você me ama
não me devora.
“Eu te amo”
como eu
vivo
a te dizer.
Dizes-me
“Te adoro”
que é
um pouco menos
do que amar.
Mas sinto
que o amor
está em curso
vindo dos Longes
do teu ser.
Até os teus lábios
que
por hora
apenas me beijam
e se entreabrem
nos momentos
de prazer.
Tu não me dizes
e eu tenho medo
porque já não me dizendo
amas-me
com tal ardor
que
quando me disser
suspeito
vais
me engolir
com toda a força
do teu ser.
Ficamos assim
então querida
por hora.
Eu digo
“Te amo”
e você me ama
não me devora.
April 08, 2008
Novo poema
A TUA E A MINHA ARTE
Tu me mostrou tua arte.
Mostro eu
agora a minha.
Tu me inundas na cama.
Quero eu inundar-te
na imaginação.
Podes me acompanhar
na jornada?
Posso eu
te dar satisfação?
Tu me mostrou tua arte.
Mostro eu
agora a minha.
Tu me inundas na cama.
Quero eu inundar-te
na imaginação.
Podes me acompanhar
na jornada?
Posso eu
te dar satisfação?
February 08, 2008
Novo conto
CONTA CONJUNTA
Era um velho cliente. Começamos a falar a propósito de nada. Ele quase resmungando, eu preocupado com a fila e a lhe dar pouca atenção. Depois, percebi que estava sendo mal educado e voltei a lhe dar ouvidos. Diante da sua insistência e como não se afastava de perto do guichê, falando sempre, não tive outra alternativa. Só então pude entender o que estava dizendo:
- A conta é conjunta com a filha. Sabe como é que é...Sempre é bom prevenir.
- Pois é... É mesmo... - dizia eu, querendo logo me livrar dele.
- A gente nessa idade... nunca se sabe...
- É... Claro... Tens razão.
- Um gerente de vocês daqui morreu num acidente...
- Ah, sim. Seu Kaminski. Uma lástima.
- Então. A gente nunca sabe, por isso...
- Conta conjunta! - arrematei a ver se com isso ele terminava de falar e com o dedo já no botão do controle para chamar outro cliente.
- Fiz com a filha... Pessoa da família... de confiança, sabe?
Nisso eu já havia chamado um novo cliente. Só assim consegui com que ele se afastasse um pouco do balcão. No entanto, de cabeça baixa, sempre resmungando, continuava a dizer coisas ininteligíveis. Por pura carência, com certeza, de conversar e ter quem o ouvisse.
Dei de ombros, afinal tinha todo um expediente pela frente e já conhecia o hábito dos velhinhos, pois o meu caixa era justamente para atendê-los. Se a gente não toma a iniciativa de terminar o assunto eles não arredam pé. No entanto, eu não esperava que o final daquela conversa teria o desfecho trágico que teve, nem nada denunciava que um acontecimento definitivo estivesse prestes a acontecer e marcar para sempre as nossas vidas. Digo, a minha, porque a dele... Bem, com isso me antecipo e antes é preciso dizer algo à guiza de introdução.
Tão logo comecei a atender a senhora que tinha chamado, o velho desandou numa tosse que se não fosse repugnante pelo que devia estar revolvendo no interior do seu peito, seria cômica, porque tossia realmente a plenos pulmões e sem o menor senso de medida, quase sobre a senhora que atendia, a qual afastava-se fazendo cara de nojo. Entre ela e os pigarros do velho, apenas a mão trêmula e macilenta do ancião que, de decerto, não conseguia conter tudo o que parecia expelir (evitava olhar para não ter de compartilhar o nojo da velha).
No entanto, como eu disse, aquilo não era cômico e começou a se tornar cada vez mais sério à medida em que ele não conseguia conter os acessos e parecia sufocar sob eles. Alguns que riam, mudaram de expressão. A senhora que eu atendia deixou a cara de nojo. Ao nos voltarmos para ele percebemos que a situação não era para brincadeiras: ele sufocava. Estava roxo e começava a dobrar as pernas. Fez menção de se apoiar no balcão, mas não teve tempo. Caiu já sem vida.
Foi aquele alvoroço. Muita gente acorreu para o socorrer, mas já era tarde. Estava sem pulso e sem respiração. Arrastamo-lo para um canto, abrimos o colarinho da camisa, as mulheres o abanavam, fizemos massagem cardíaca (ninguém teve coragem para uma respiração boca a boca), mas nada fez o pobre velho voltar a vida. Parecia que a sua hora tinha chegado. De tão velho, branco e macilento que era ninguém tinha dúvidas disso. Não havia mais o que fazer. Sequer muita comoção causou já que aquilo parecia ser a consequência mais óbvia do seu estado. A ninguém escapa, afinal, que a morte faz parte da vida, ao menos quando ela deixa de animar um corpo e, no caso em questão, parece que a vida há muito havia deixado aquelas veias grossas e escuras, já sem o que levar e trazer, aquela pele enrugada, aqueles ossos pontudos e salientes, os olhos sem brilho.
Chegaram afinal os para-médicos. O corpo foi recolhido e aos poucos a agência foi retornando à rotina.
Em mim, no entanto, ficou a impressão de que ele havia me escolhido para suas últimas palavras. Eu, um reles bancário a quem ele havia recorrido para a despedida, já que ninguém mais o ouvia e, a propósito de me falar da sua conta conjunta com a filha, travar comigo seu último diálogo.
Era um velho cliente. Começamos a falar a propósito de nada. Ele quase resmungando, eu preocupado com a fila e a lhe dar pouca atenção. Depois, percebi que estava sendo mal educado e voltei a lhe dar ouvidos. Diante da sua insistência e como não se afastava de perto do guichê, falando sempre, não tive outra alternativa. Só então pude entender o que estava dizendo:
- A conta é conjunta com a filha. Sabe como é que é...Sempre é bom prevenir.
- Pois é... É mesmo... - dizia eu, querendo logo me livrar dele.
- A gente nessa idade... nunca se sabe...
- É... Claro... Tens razão.
- Um gerente de vocês daqui morreu num acidente...
- Ah, sim. Seu Kaminski. Uma lástima.
- Então. A gente nunca sabe, por isso...
- Conta conjunta! - arrematei a ver se com isso ele terminava de falar e com o dedo já no botão do controle para chamar outro cliente.
- Fiz com a filha... Pessoa da família... de confiança, sabe?
Nisso eu já havia chamado um novo cliente. Só assim consegui com que ele se afastasse um pouco do balcão. No entanto, de cabeça baixa, sempre resmungando, continuava a dizer coisas ininteligíveis. Por pura carência, com certeza, de conversar e ter quem o ouvisse.
Dei de ombros, afinal tinha todo um expediente pela frente e já conhecia o hábito dos velhinhos, pois o meu caixa era justamente para atendê-los. Se a gente não toma a iniciativa de terminar o assunto eles não arredam pé. No entanto, eu não esperava que o final daquela conversa teria o desfecho trágico que teve, nem nada denunciava que um acontecimento definitivo estivesse prestes a acontecer e marcar para sempre as nossas vidas. Digo, a minha, porque a dele... Bem, com isso me antecipo e antes é preciso dizer algo à guiza de introdução.
Tão logo comecei a atender a senhora que tinha chamado, o velho desandou numa tosse que se não fosse repugnante pelo que devia estar revolvendo no interior do seu peito, seria cômica, porque tossia realmente a plenos pulmões e sem o menor senso de medida, quase sobre a senhora que atendia, a qual afastava-se fazendo cara de nojo. Entre ela e os pigarros do velho, apenas a mão trêmula e macilenta do ancião que, de decerto, não conseguia conter tudo o que parecia expelir (evitava olhar para não ter de compartilhar o nojo da velha).
No entanto, como eu disse, aquilo não era cômico e começou a se tornar cada vez mais sério à medida em que ele não conseguia conter os acessos e parecia sufocar sob eles. Alguns que riam, mudaram de expressão. A senhora que eu atendia deixou a cara de nojo. Ao nos voltarmos para ele percebemos que a situação não era para brincadeiras: ele sufocava. Estava roxo e começava a dobrar as pernas. Fez menção de se apoiar no balcão, mas não teve tempo. Caiu já sem vida.
Foi aquele alvoroço. Muita gente acorreu para o socorrer, mas já era tarde. Estava sem pulso e sem respiração. Arrastamo-lo para um canto, abrimos o colarinho da camisa, as mulheres o abanavam, fizemos massagem cardíaca (ninguém teve coragem para uma respiração boca a boca), mas nada fez o pobre velho voltar a vida. Parecia que a sua hora tinha chegado. De tão velho, branco e macilento que era ninguém tinha dúvidas disso. Não havia mais o que fazer. Sequer muita comoção causou já que aquilo parecia ser a consequência mais óbvia do seu estado. A ninguém escapa, afinal, que a morte faz parte da vida, ao menos quando ela deixa de animar um corpo e, no caso em questão, parece que a vida há muito havia deixado aquelas veias grossas e escuras, já sem o que levar e trazer, aquela pele enrugada, aqueles ossos pontudos e salientes, os olhos sem brilho.
Chegaram afinal os para-médicos. O corpo foi recolhido e aos poucos a agência foi retornando à rotina.
Em mim, no entanto, ficou a impressão de que ele havia me escolhido para suas últimas palavras. Eu, um reles bancário a quem ele havia recorrido para a despedida, já que ninguém mais o ouvia e, a propósito de me falar da sua conta conjunta com a filha, travar comigo seu último diálogo.
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