October 19, 2008

Encontros literários - continuação.

Continuando a minha fala sobre o encontro literário da última sexta-feira, vinha eu dizendo que a professora ia responder a minha questão.

Na verdade não lembro o que ela respondeu, porque achei que ela tergiversou sobre o assunto e não soube o que dizer. Ao que o Moacir a socorreu, intervindo e dizendo que na verdade o Guimarães criou um idioma próprio, forjado não apenas com expressões do rés-do-chão do povo, mas também com neologismo e expressões cunhadas de outros idiomas, dos quais ele conhecia vários.
Não sou um grande conhecedor da obra do Guimarães - li os contos de Sagarana, mas não avancei no Grande Sertões: Veredas - para contestá-lo, mas me parece que grande parte da obra rosiana é forjada mesmo em cima do linguajar do povo e como tal não fiquei satisfeito com a resposta, afinal de contas a sensação de contradição e ingratidão da sua obra não restou afastada.
Moacir ainda ajuntou que James Joyce fez o mesmo em sua obra e ambos estão pouco se importando se quem os lê os entende ou não. Eles escrevem daquele jeito e quem os quiser ler tem que entrar em seus universos.
É claro que aqui estamos tratando de duas figuras ímpares da história da literatura mundial, mas literatura para mim não é isso, ou não é apenas isso.
Acho que há dois extremos aí: o caso dos autores acima que levam as suas experiências linguísticas ao extremo e o caso dos best-sellers que pouco estão preocupados com a língua. O que eles querem mesmo é contar uma história.
Para mim, penso que a virtude está no meio. Nem tanto ao céu nem tanto à terra. Pois os primeiros tornam-se herméticos - e às vezes, deliberadamente, uns chatos - e outros se tornam puramente escritores de entreterimento, escritores que não estão preocupados com trabalho da linguagem, de como esta, a par DO QUE se está contando, tem também o seu prazer em COMO se está contando essa história.
Cito como exemplo dessa virtude do equilíbrio Cortázar do qual reli recentemente seus contos do livro, Fogo, Todos os Fogos e o qual eu considero uma obra prima.
Enfim, acho que a literatura como obra de arte tem dupla finalidade: proporcionar o prazer estético da linguagem, através da contação de uma história e ajudar o homem a atravessar a existência com a sensação de que a sua história também pode ter beleza e sentido.
Acho que para isso os extremos não colaboram, seja porque a comunicação entre autor e leitor tem que se estabelecer, seja porque esta comunicação também não pode ser apenas uma conversa fiada.
Mas enfim... há momentos para tudo na vida e até estes extremos encontram lugar em nosso coração, por que quem às vezes não quer aprofundar sua experiência com a língua, de vez em quando, ao ler um livro? E quem também não quer apenas se divertir?
Não sejamos radicais, afinal, como dito acima, a virtude está no meio. Mas este meio não pode ser representado como um um pêndulo imóvel, mas como um pêndulo que oscila de um extremo ao outro, estando por breve momentos de cada lado, sabendo, contudo, que é o centro o seu lugar.

Um abraço a todos e até o próximo post.

PS: obrigado pelo retorno dos meus leitores. Parece que o negócio do email deu certo. Recebi várias manifestações no meio email de vocês. Fiquei satisfeitíssimo com o resultado, afinal do que vale escrever se não é para ser lido?
A propósito ainda dos Encontros Literários do Sesc, quero informar a vocês que este Encontro de sexta feira, foi apenas o pontapé inicial de uma oficina de criação literária sobre o conto que começa na próxima sexta-feira, dia 24-10, ali no Sesc mesmo, da qual eu pretendo participar.

1 comment:

jvk said...

Será mesmo, Júlio?

A experiência com a língua é uma parte importante na construção literária, mas não deveria ser o único fator relevante.

Existem autores que criam grandes histórias mesmo sem uma linguagem, digamos, exótica.

E tem gente que enrola, enrola e não fala nada.

E sempre existirão os Saramagos da vida, que contam histórias simples e profundas com um estilo de texto que convenhamos, cansa mas é bom. E no outro extremo temos Machado, nosso patriarca, que escrevia de forma fácil e objetiva, mas seu texto é tão profunda que fez dele o que ele é.

Eu tinha outra história pra contar aqui, mas deixa pra outra hora.

E me avisa da oficina. Se der eu apareço.