February 08, 2008

Novo conto

CONTA CONJUNTA

Era um velho cliente. Começamos a falar a propósito de nada. Ele quase resmungando, eu preocupado com a fila e a lhe dar pouca atenção. Depois, percebi que estava sendo mal educado e voltei a lhe dar ouvidos. Diante da sua insistência e como não se afastava de perto do guichê, falando sempre, não tive outra alternativa. Só então pude entender o que estava dizendo:
- A conta é conjunta com a filha. Sabe como é que é...Sempre é bom prevenir.
- Pois é... É mesmo... - dizia eu, querendo logo me livrar dele.
- A gente nessa idade... nunca se sabe...
- É... Claro... Tens razão.
- Um gerente de vocês daqui morreu num acidente...
- Ah, sim. Seu Kaminski. Uma lástima.
- Então. A gente nunca sabe, por isso...
- Conta conjunta! - arrematei a ver se com isso ele terminava de falar e com o dedo já no botão do controle para chamar outro cliente.
- Fiz com a filha... Pessoa da família... de confiança, sabe?
Nisso eu já havia chamado um novo cliente. Só assim consegui com que ele se afastasse um pouco do balcão. No entanto, de cabeça baixa, sempre resmungando, continuava a dizer coisas ininteligíveis. Por pura carência, com certeza, de conversar e ter quem o ouvisse.
Dei de ombros, afinal tinha todo um expediente pela frente e já conhecia o hábito dos velhinhos, pois o meu caixa era justamente para atendê-los. Se a gente não toma a iniciativa de terminar o assunto eles não arredam pé. No entanto, eu não esperava que o final daquela conversa teria o desfecho trágico que teve, nem nada denunciava que um acontecimento definitivo estivesse prestes a acontecer e marcar para sempre as nossas vidas. Digo, a minha, porque a dele... Bem, com isso me antecipo e antes é preciso dizer algo à guiza de introdução.
Tão logo comecei a atender a senhora que tinha chamado, o velho desandou numa tosse que se não fosse repugnante pelo que devia estar revolvendo no interior do seu peito, seria cômica, porque tossia realmente a plenos pulmões e sem o menor senso de medida, quase sobre a senhora que atendia, a qual afastava-se fazendo cara de nojo. Entre ela e os pigarros do velho, apenas a mão trêmula e macilenta do ancião que, de decerto, não conseguia conter tudo o que parecia expelir (evitava olhar para não ter de compartilhar o nojo da velha).
No entanto, como eu disse, aquilo não era cômico e começou a se tornar cada vez mais sério à medida em que ele não conseguia conter os acessos e parecia sufocar sob eles. Alguns que riam, mudaram de expressão. A senhora que eu atendia deixou a cara de nojo. Ao nos voltarmos para ele percebemos que a situação não era para brincadeiras: ele sufocava. Estava roxo e começava a dobrar as pernas. Fez menção de se apoiar no balcão, mas não teve tempo. Caiu já sem vida.
Foi aquele alvoroço. Muita gente acorreu para o socorrer, mas já era tarde. Estava sem pulso e sem respiração. Arrastamo-lo para um canto, abrimos o colarinho da camisa, as mulheres o abanavam, fizemos massagem cardíaca (ninguém teve coragem para uma respiração boca a boca), mas nada fez o pobre velho voltar a vida. Parecia que a sua hora tinha chegado. De tão velho, branco e macilento que era ninguém tinha dúvidas disso. Não havia mais o que fazer. Sequer muita comoção causou já que aquilo parecia ser a consequência mais óbvia do seu estado. A ninguém escapa, afinal, que a morte faz parte da vida, ao menos quando ela deixa de animar um corpo e, no caso em questão, parece que a vida há muito havia deixado aquelas veias grossas e escuras, já sem o que levar e trazer, aquela pele enrugada, aqueles ossos pontudos e salientes, os olhos sem brilho.
Chegaram afinal os para-médicos. O corpo foi recolhido e aos poucos a agência foi retornando à rotina.
Em mim, no entanto, ficou a impressão de que ele havia me escolhido para suas últimas palavras. Eu, um reles bancário a quem ele havia recorrido para a despedida, já que ninguém mais o ouvia e, a propósito de me falar da sua conta conjunta com a filha, travar comigo seu último diálogo.

4 comments:

Leandro Malósi Dóro said...

Júlio, meu amigo, maravilhosa iniciativa e obrigado pelos comentários favoráveis. Tenho um arquivo de idéias que ainda desconheço como transformá-las em conto e esse Nonoai ainda tem muito para render. Se tivesse tempo, faria-o maior.
Acontecerá um festival literário em Porto Alegre, em março. Atuarei como mediador em duas mesas: uma sobre quadrinhos e literatura e outra com a nova geração de escritores gaúchos.
As grandes estrelas serão Marcelino Freire e Fabrício Carpinejar.
O Aldyr Schlee ministrará curso de romance histórico na Casa dos Bancários. Tentarei me inscrever.
Creio que para começar um bom sarau é preciso parceria entre música e literatura. Teatro e bom humor.
Sugiro convidar atores, como o Eliezer Aires (eliezeraires@gmail.com), para tocar e interpretar textos.
Ele é uma boa referência de como tornar uma leitura divertida, sem enfado.
O importante é pensar em textos curtos. Contos e poesias curtos. Entremeá-los por música, pois sem isso a atenção dos convidados se esvai.
Por exemplo: três textos curtos, duas músicas.
Quem sabe esquetes teatrais.
O melhor é organizar um primeiro de teste, mais simples, e preparar um grande, mais tarde, para servir de parâmetro.
Na Cidade Baixa acontecem muitos saraus. Além, é claro, do Sarau Elétrico (http://www.saraueletrico.com.br/), que é temático.
Tem muito bom humor.
A melhor fase foi com Frank Jorge, Kátia Suman, Fischer e Moreno.
Frank tinha contos bem humorados e atitude roqueira. Tipo: é preciso atitude para escrever
Kátia faz a mediação.
Fischer, introduz textos de monta e conversa informalmente com o autor convidado
Moreno executa a Coluna Grega, onde fala de mitologia de maneira descontraído:
"Édipo era o que chamamos de tarado. Amava a própria mãe. Já que na época não existia psquiatra, o pobre coitado..."


Abaixo vai exemplo:

Gregos e gaúchos
Falando no tema, desencavei (na era do computador, o termo fica um pouco esquisito, mas, enfim...) um texto que escrevi há uns quatro anos sobre o assunto. Bem, mais ou menos... Ali o leitor vai entender por que é absolutamente injusto o rótulo de "machista" com que a Kátia costuma me apresentar no Sarau:

"Contam que Tales, o mais famoso dos sete sábios da Grécia, dizia-se agradecido à Fortuna por três motivos: "Primeiro, porque nasci homem e não um animal; segundo, porque nasci homem e não mulher; finalmente, porque nasci grego e não um bárbaro qualquer". Estávamos numa Grécia feliz, que ainda não tinha conhecido a praga do politicamente correto, e os sábios ainda podiam dizer o que pensavam.

Quanto a ter nascido homem e não animal, estou com Tales: eu odiaria ser uma lagosta em Santa Catarina ou um pirarucu na Amazônia. Olho-me no espelho e vejo, com muito orgulho, que tenho duas, e não quatro patas, e que não trago o corpo coberto de penas, como os demais bípedes deste mundo. Embora às vezes eu faça coisas dignas de um animal, deles me diferencio porque eu me lembro do passado e consigo imaginar o futuro; penso, falo e até minto — e isso só nós, humanos, podemos fazer.

Quanto a ter nascido grego e não bárbaro, também fico com Tales, desde que eu possa trocar "grego" por "gaúcho". Não que eu seja separatista; apenas compartilho com meus conterrâneos aquela certeza de que somos especiais. Aliás, nada mais óbvio e evidente. Meus amigos de fora do estado, que não tiveram a sorte de nascer sob nosso céu, hão de compreender o que digo, mesmo com uma ponta de inveja disfarçada.
Agora, quanto a ter nascido homem e não mulher... também vou fechar com Tales. Não me entendam mal: sei que a mulher é bem mais equipada que nós, homens, para lidar com os sentimentos, as emoções e os instintos (afinal, não é o que importa?); reconheço a facilidade sobrenatural com que ela entende num segundo o que nos custa meses de reflexão; curvo-me diante da sua capacidade exclusiva de gerar uma nova vida; no entanto, confesso que gosto muito de ser homem. Sinto-me confortável neste invólucro masculino que habito há tantos anos; convivo bem com meu pêlo, com minha barba e com minha mente singela, capaz de pensar em linha reta. Mais que isso, agrada-me saber que nós, homens, fazemos parte dos sonhos desses seres superiores, as mulheres, tão cheirosas e tão bonitas, que não vivem sem nós. Deusas e ninfas — decerto era a isso que Tales se referia; afinal, ele era um sábio..."

Leandro Malósi Dóro said...

E como é banal a vida, não, contista Júlio? Boa obra.

Sobre o sarau, sugiro dois formatos:

Um apresentador fixo, chamando os convidados para textos curtos e artistas para se manifestar.

Outra alternativa seria quatro apresentadores fixos, entrevistando um convidado. Cada um dos apresentadores executa leituras diversas e o convidado, além de ser entrevistado, também faz leituras. Termina com espetáculo musical.

Outro formato, ainda, seria um apresentador fixo chamando os participantes, tentando fazer da seguinte forma:
uma poesia, um conto ou crônica e um texto humorístico. Espaço para uma música. Depois, repete uma poesia, um conto e um texto humorístico e música. Em determinado momento, pode ocorrer uma entrevista, depois uma esquete teatral e finalizando com música.

Seria uma apoteose.

Dá para repetir essa iniciativa dezenas de vezes, pois os autores convidados podem ser sempre os mesmos, mas serão obrigados a sempre apresentar algo inédito em cada sarau.

Entre os textos de humor bons para ler, estão Cláudia Tajes, David Coimbra e http://www.adolargangorra.com.br/blog/. João do Rio e outros também são interessantes.

Porém, melhor ainda, seria ler crônicas de Antonino Xavier e Oliveira e do República dos Coqueiros. Há dezenas de casos sobre Antonino e o República é impagável.

Seria um bom começo.

Você seria um bom apresentador, mas talvez exista algum radialista que deseje assumir a tarefa.

A dica de inserir o Eliezer Aires (eliezeraires@gmail.com) ou outro ator continua, pois eles têm muito para ensinar sobre interpretação de textos, além de poder fazer espetáculos musicais incríveis. Eliezer tem um ótimo repertório de músicas locais e regionais.

Ainda seria bom existir venda de livros durante o Sarau. Por exemplo, dava para convidar um livreiro para vender as obras dos autores participantes e mais alguns. Ainda, se for na academia, criar uma espécie de café com venda de vinhos, cervejas, refrigerantes e cafés. Seria uma ótima maneira de financiar o músico convidado, que inclusive daria mais ânimo para o sarau, e vender as obras dos autores locais.
Quem pode gerenciar esse café são as filhas do Paulo Monteiro, que já se dedicam para a academia.

O que acha?

Leandro Malósi Dóro said...

última dica. Tem a Eliane Giolo, que fazia caricaturas no Bella Città. Ela pode expor seus trabalhos durante a semana do sarau. O e-mail dela é eliane.giolo@yahoo.com.br.

Creio que a coisa pode ficar assim:

Para o sarau:

— um apresentador (você ou outro)

— um convidado para entrevista (o primeiro, Paulo Monteiro)

— um músico (de preferência, com cachê retirado do bar a ser montado, se a arte for sua única fonte de renda) (Eliezer Aires)

— uma exposição (Eliane Giolo)

— um bar na própria academia para pagar músicos e fazer caixa para a academia (um freezer da Coca-cola, por exemplo, alguns petiscos e as filhas do Paulo para gerenciar)

— um livreiro para vender livros de autores locais, revistas da academia e demais livros. (Quem sabe, a turma da livraria Cultural)

E pronto.

Para obter tudo isso é simples. O músico também leva caixa de som e microfone, que fica a disposição de todos, e dá pra conseguir emprestadas umas cadeiras para o pessoal assistir. Se achar complicado montar o barzinho, faz na Velvet, mas aí o que entrar no bar vai pro dono da Velvet.

Poeta Passo Fundo said...

Leandro, muito, muito obrigado pela dicas. Com certeza serão bem aproveitadas, se náo todas, muitas. Gostaria de convidá-lo para nos ajudar nessa empreitada. O negócio é para abril. Quando é que tu vais estar aqui por PF? Me liga para a gente marcar uma reunião com o pessoal da academia que está me ajudando.
A idéia é prestigiar os autores locais. Nada de fora. De fora a gente lê em casa. Precisamos sim é alavancar a produção local e trabalhar pela melhora do nível das produçòes. A idéia subreptícia do sarau e das oficinas é essa. Inclusive temos a idéia de conectar as oficinas com os saraus, ou seja, coroar a produçào da oficina com a divulgação nos saraus, fazendo com que essa produçòes é claro passem por um filtro de qualidade. Penso em um sistema de votação. Vamos conversar.
um abraço
Se quiseres espichar essa conversa podemos acessar meu email:
julioperezcesar@hotmail.com.
Um abraço