NEGÓCIO ARRISCADO
Sábado à tardinha. Sai para caminhar. Precisava espairecer de um dia fechado em casa assistindo aos jogos da Copa do Mundo. Como de costume pensei em caminhar até a revisteira, no centro da cidade. Ver as novidades para as quais, durante a semana, não tenho tempo, nem cabeça. Só ao chegar lá, no entanto, dei-me conta do excesso que cometia: a semana em cima dos livros – sou professor universitário -, nos finais de semana preferia fazer coi-sa diferente. Embora ame os livros, para tudo tem um limite. Decidi então que poderia ir até uma loja de discos, há pouco tempo inaugurada, próximo dali. Afinal, depois dos livros, os CDs são minha segunda paixão. Mas temia que àquela hora, de um sábado à noite, a loja não estivesse aberta. Chegando lá vi minhas previsões confirmadas. Pensei no shopping Bella Città. Não es-tava longe. Mas não tinha certeza de que lá houvesse uma loja de discos. Das vezes em que lá estivera não me lembrava se aquela loja de jogos também vendia CDs. Hesitei. Pensei no outro shopping da cidade, suspirando de von-tade de ter feito esta escolha ao sair de casa, pois só agora dava-me conta: ali encontraria o que estava procurando: um loja de discos onde o cliente ficava à vontade, sem a pressão ou a ansiedades dos vendedores. Sem falar que lá também pode se ouvir uma música ao vivo, nos finais de tarde, tomar um chope acompanhando o movimento de quem chega, de quem sai, a uma dis-tância confortável para ser visto por quem se deseja e evitado por quem se quer ignorar.
Mas como disse estava quase no outro extremo da cidade. Uma cami-nhada até lá seria o equivalente do que tinha caminhado até aquele momento e minhas pernas me diziam que já tinha feito um bom exercício.
No entanto, sem opção, não vi outra alternativa.
Na verdade eu morava nas redondezas do Bourbon – este outro shop-ping ou hipermercado, como queiram - e tinha evitado ir até lá como primei-ra opção justamente para caminhar. Voltar para casa ou ir até lá, então, dava praticamente no mesmo.
Fui.
Para tornar mais ágil meu retorno, escolhi descer pela Moron até a ro-doviária. Para quem conhece a rua Moron à noite, após o cruzamento com a Fagundes ou com a Benjamin Constant, sabe do que estou falando: uma pro-va incontestável de coragem. Próximo à rodoviária, então, um convite para ser assaltado. Mas como sou um otimista convicto e não tenha traumas desse tipo de experiência apostei no risco.
Desci.
Como de hábito quando ando por esses lugares ermos e escuros, procu-ro acompanhar de longe o movimento dos que se aproximam, evitar passar próximo aos becos e entradas de garagens, a sombra das árvores sob as quais um vulto pode bem se esconder, os terrenos baldios e situações semelhantes. O fator surpresa é grande vantagem do bandido na abordagem das suas víti-mas. Prevenir-se contra esse primeiro contato é o mínimo que alguém que queira evitar ser assaltado ou morto deve fazer.
Mas as coisas quando devem acontecer acontecem, façamos nós o que tivermos que fazer.
Foi tudo muito rápido. Ao menos assim me pareceu. Talvez eu não es-tivesse tão atento assim. Afinal como já disse nunca passei por uma experiên-cia dessas.
O fato é que de repente eu me vi sob a mira do revólver e aquele enca-puzado me forçou de encontro ao vão de uma porta de garagem com o cano da arma engatilhada nas minhas costelas.
- A carteira!!! Vâmo, a carteira, pô?
Sem tempo para refletir tateei o bolso de trás da calça e lhe entreguei a carteira que eu sabia não tinha muita coisa, não pelo menos daquilo que ele procurava: dinheiro. Pois há muito tempo, como a maioria das pessoas, deixei de andar com dinheiro sonante na carteira. Em geral uso os cartões: de débito, de crédito, de farmácias, postos de gasolina, do mercado. Para que se expor ao risco, que hoje eu via se confirmar, com tantas facilidades oferecidas pela tecnologia? Teria quanto muito uns 30 reais em espécie. Quantia pela qual, eu sabia, era um despropósito entregar-lhe a carteira onde eu tinha todos es-ses cartões, mais alguns indispensáveis documentos pessoais: carteira de mo-torista, documentos do carro, identidade funcional. Passava-me de repente pela cabeça o incômodo e a despesa que me dariam para obter uma segunda via: registro da ocorrência policial, requisição das segundas vias, romaria a diversas repartições públicas, pagamento de todo tipo de taxa, filas de banco, perda de um tempo, para mim, cada vez mais escasso e valioso. Então no momento em que a ameaça mais presente do cano da pistola nas costelas se afastou, com o bandido levando o seu butim, não pude deixar de lhe interpe-lar:
- Hei?! Quanto você quer pela minha carteira de volta?
Ele tinha se afastado apenas alguns passos, dando-me as costas. Por is-so foi fácil para me fazer ouvir. Tinha me encorajado a sua atitude, afinal ele examinava, com a arma ainda em punho, o produto do seu roubo. Por um momento ocorreu-me que a sua decepção por conta do conteúdo pobre da carteira poderia se voltar contra mim e eu ser vítima de algo pior do que ape-nas um roubo. Um disparo acidental daquela arma não estava descartado. Mas algo mais também havia me ocorrido: era lamentável eu entregar por tão pouco, o que me valia tanto. Era a oportunidade de um negócio que eu via ali, nada mais: eu dava-lhe de bom grado o que ele queria, e ele – de bom grado, eu esperava – devolvia-me o que era importante para mim.
- O quê? – fez ele se voltando para mim, com indignação pela minha ousadia e pela miséria que ele tinha encontrado na carteira.
- É isso o que você ouviu: quanto você quer pela carteira de volta?
- Você é louco ou o quê, cara?
- Não, olhe aqui – disse eu me aproximando, quase familiar, como di-ante de um aluno que não tivesse entendido a situação. Sentia que podíamos chegar a um acordo.
- Hei, cara. Fica aí onde você está – fez-me retroceder, apontando a arma.
Só então me dei conta, novamente, com quem estava lidando.
- Tudo bem. Vai com calma, aí meu chapa. Só quero propor para vo-cê um negócio.
- Hum?
- É o seguinte: você viu aí que tem uma miséria nessa carteira. Para você ela vai vale só esses 30 pila. Já para mim ela vale bem mais. Sei que você não vai simplesmente devolvê-la. Vai jogá-la fora, ten-tar negociar meus documentos com alguém ou simplesmente a des-truir, por vingança ou para não deixar pistas.
- Hum? – ele parecia agora interessado no rumo daquela conversa, embora não desviasse a arma na minha direção. Tinha me feito vol-tar para as sombras do vão da garagem e se pusera também ele sob as sombras para evitar o farol dos carros. Só de vez em quando con-seguia ver o brilho atento dos seus olhos.
- Os cartões que aí estão também lhe serão dentro em breve inúteis. Logo serão bloqueados e as tentativas de sua utilização só servirão para a polícia seguir o seu rastro. Ademais tu não conhece a senha. A que eu te disser talvez não seja verdadeira.
- E daí?
- E daí que o que vou gastar para fazer a segunda via desses docu-mentos, que para ti não valem nada, vai ser uma grana considerável. Além do tempo e da incomodação toda.
- Hum?
- Bem, o negócio é o seguinte: eu me proponho a ir contigo até um caixa eletrônico aqui perto. Eu saco o que o banco me permite sacar numa hora dessas – você deve saber que os bancos têm lá as suas normas - uns 100 reais, talvez um pouco mais, e tu me devolve a carteira, com os documentos e os cartões. O que tu acha?
O silêncio do outro lado indicava que ele estava pensando. Certamente ele avaliava os riscos que correria.
- Tá loco, meu? Como é que eu vou te levar até o banco com esse berro nas tuas costas. E a tôca? Decerto eu vô te que tirá. Se não, o que vai parecer, nós dois passeando pelo centro. Um encapuzado e um bacana. É palhaçada!
- Que palhaçada, meu? Tu não tem imaginação? Tu guarda esse berro aí no bolso da jaqueta. Aliás, não precisa nem ficar apontando ele pra mim, tá bem? A gente vai calmamente no banco. Tu me alcança o cartão, eu saco essa grana de que eu te falei e estamos conversa-dos. Agora, é claro que tu vai ter que tirar esse gorro, aí né. Ou tu vai querer desfilar com ele pelo centro?
Eu, quando queria, sabia ser convincente. Estava mesmo a ponto de chamá-lo de burro para não aceitar uma proposta daquelas, mas também sabia que tinha que ir devagar com ele, afinal quem não podia ser burro ali era eu.
No entanto ele parecia não ter se importado com o fato de eu estar lhe chamando a atenção. Estava concentrado demais avaliando as variáveis da-quela proposta para se importar com isso. Mas parecia não se decidir. A grande questão ali era ele ter que revelar o seu rosto. Aquilo representava pa-ra ele um risco excessivo.
Adivinhando que essa era a dificuldade procurei lhe encorajar:
- Olha aqui. Fazemos assim: você me entrega agora o cartão do banco e fica com o resto da minha carteira. Você anda atrás de mim, a uma distância em que te sinta confortável. Eu vou na frente. Saco o di-nheiro enquanto você me espera fora do banco. Não precisa entrar. Pode ficar mesmo do outro lado da rua. Eu prometo não fazer nada para não te identificar. Quando eu sair do banco, você vem ao meu encontro. Talvez aí eu veja o teu rosto. Mas será rápido. Prometo não me fixar nele. O que me interessa mesmo é a minha carteira. Eu te dou o dinheiro, você me devolve a carteira. O que tu acha?
Estava difícil ele se decidir. Por sua cabeça decerto passavam diversas idéias. Até mesmo no crime é preciso ter imaginação, revelar alguma compe-tência. O poder de uma arma ou a força bruta não são garantias de sucesso. É preciso inteligência. Minha falação também, eu adivinhava, já não poderia mais me ajudar. Ao contrário, poderia deixá-lo nervoso. Por isso resolvi me calar. Agora era com ele. Eu não podia assim, muito ostensivamente, condu-zir o negócio. Era de bom tom deixar um espaço no qual ele pudesse se mo-vimentar.
Para me contrariar, eu acho, ele por fim se decidiu. Fez isso com um gesto, tirando desafiadoramente o gorro da cabeça e me encarando com a ar-ma em punho.
- Tudo bem! Mas vámo fazê do meu jeito. Vamo junto quem nem dois amigo. No banco eu te dô o cartão – fazendo isso, fez um mo-vimento com o revólver me apontando o caminho.
Não vi onde ele guardou a arma. Acho que a pôs no bolso direito da ja-queta e, embora, ele não andasse com as mãos dentro do bolso sabia que não seria difícil para ele pegar a arma se eu fosse tentar qualquer coisa. Também eu não tinha essa intenção. Estava saindo barato recuperar meus documentos. Não iria fazer nenhuma bobagem. Àquela hora o máximo de saque que o banco me permitiria seria uns R$ 100,00. Só de incômodo e tempo, eu perde-ria muito mais.
Subimos novamente a Moron em silêncio. Não havia como sermos a-migos naquelas circunstâncias. Aos poucos fomos vindo para a luz. Procura-va não encará-lo quando trocávamos uma ou outra palavra. Quando o fazia, sentia nele uma tensão que era bom não estimular.
Uma viatura da polícia passou por nós e senti nesse momento mais medo do que durante todo o assalto. Temia que a Brigada o reconhecesse de alguma anterior passagem pela polícia, o que não era nenhum um pouco im-provável, e com isso acabasse acontecendo uma confusão que pusesse a mi-nha vida em risco. Por sorte nada disso aconteceu. Espertamente ele nos fez parar diante de uma vitrine de celulares, simulando uma conversa entre ami-gos, sobre o último modelo de celular ali exposto, dando as costas para a via-tura.
Chegamos no Banco. Ele me deu o cartão e pediu para eu lhe entregar o celular que até aquele momento, parece, não tinha se dado conta que ainda estava comigo. Disse-me que me esperaria do outro lado da rua, diante da praça, na parada de ônibus. O disfarce perfeito para quem quer ficar de bobei-ra, enquanto observa ou espera alguém.
Entrei no banco e saquei o valor. R$ 100,00. Uma quantia irrisória para mim diante dos aborrecimentos de que estava me livrando.
De volta à rua, saí para lhe procurar. Imaginava-o me observando do outro lado da rua. Fui surpreendido pela súbita aparição dele às minhas cos-tas.
- E aí, doutor, tudo certo?
- Sim.
- Tem o dinheiro aí? Quanto?
- Cem!
- Só isso?
- Eu lhe falei que a essa hora...
- Tá, tá. Eu já sei. Então passa logo aí.
- Primeiro a carteira.
- Não! Primeiro o dinheiro – a mão direita no bolso da jaqueta me convenceu de que eu não devia contrariá-lo.
Alcancei-lhe o dinheiro. Com apenas uma das mãos livres olhou as du-as notas de cinqüenta, embolsando-as em seguida.
- Agora a carteira, certo?
Um movimento da mão direita dentro do bolso da jaqueta, fez-me pen-sar no tiro, no que sentiria em seguida. Doeria? Onde me atingiria? Seria fa-tal? Quais seriam as sequelas? Mas para minha surpresa o que ele tinha no bolso era minha carteira. Acho que o berro ele tinha guardado na cinta.
Alcançou-me a carteira com um sorriso diante da minha expressão de pânico:
– Foi um prazer, doutor.
– Igualmente – respondi atrapalhado.
Por um momento, me pareceu, tínhamos nos tornado amigos. Quase lhe estendi a mão para apertar a sua, afinal tínhamos cumprido os termos do acordo. No último momento recuei. Não me pareceu uma boa idéia.
Ele atravessou a rua rapidamente, sumindo em seguida na escuridão da praça.
Dias depois saí para levar até o campus meu filho que tinha perdido o ônibus da faculdade. Na volta parei na sinaleira da rodoviária, quando fui surpreendido por alguém que entrou pela porta de trás do carro. Havia esque-cido de travá-la. Já tinha ouvido falar dessa modalidade de assalto. O sujeito entra e lhe mete o berro na nuca. Numa fração de segundo você chofer de bandido.
- Fica frio aí chefia e não olha pra trás. Quando abrir a sinaleira arranca normalmente. Vamô dá um rolé.
Isso tudo eu escutei sentindo através do banco o cano do que eu imagi-nei fosse da arma encostado nas minhas costas. Sem outra opção, segui as instruções, procurando manter o sangue frio.
Mandou-me ficar a direita. Na esquina seguinte, fez-me dobrar nessa sentido.
- Para onde estamos indo?
- Dar uma volta.
Andamos algumas quadras até ele mandar parar. Estacionamos sob a sombra das árvores. Era noite e as poucas luzes dos postes não penetram os ramos.
Alguma coisa na atitude daquele sujeito me era familiar. Mas ele não usava nenhuma toca ninja como o bandido da outra vez. Por um momento, desejei que fosse ele.
- E agora?
- Bem, agora, dotor, quem vai lhe propor um negócio sou eu?
Reconheci a dicção e o tom de voz. Era o mesmo sujeito. Voltei-me e pude ver: era o mesmo sorriso de superioridade.
- Você de novo?! – não pude deixar de exclamar.
- É isso aí.
- O que é que deu em você? Por que eu de novo? Você vem me cui-dando para me assaltar novamente?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Foi por acaso, pode crê.
- Você acha que eu acredito em Papai Noel para acreditar que você me pegou de novo por acaso?
- Não! Quero dizer que foi por acaso que encontrei contigo outro dia. Me chamô a atenção. Tu passô de carro e eu lembrei de ti. Pensei comigo: tá aí sujeito gente boa. Procurei gravá na memória o teu carro. Quando te vi hoje na sinaleira, pensei em te fazer uma surpre-sa. Tava mesmo saindo prum trabalhinho aí. Não custava pegar uma carona contigo.
- Então quer dizer que tu vai querer que eu te deixe no local do cri-me?
- Isso também.
- ‘Ce ta de brincadeira comigo, tá?
- Dotor, não esqueça quem tá no comando aqui, tá? – e dizendo isso apertou de novo a arma de encontro às minhas costas, através do as-sento.
- Ok, ok. Onde é o lugar?
- Já te mostro. Mas antes vamô dá aquela passadinha no banco?
- Ah, quer dizer que isso também?
- O que tu acha?
- Tô sacando... – disse mordendo a língua por causa do trocadilho.
Assim de novo tive que passar no banco, sacar o cenzinho como da ou-tra vez. E ainda deixá-lo numa vila passando os trilhos do trem.
Aquilo começava a ficar engraçado: ser assaltado pela segunda vez pe-lo mesmo sujeito e ainda agradecer a ele, afinal ali eu bem podia ter perdido muito mais do que da outra vez: o carro e quase certo também, a vida. Embo-ra chata a sua atitude, de me escolher de novo para sua vítima, eu não podia deixar de reconhecer isso nele.
Assim mais uma vez dei de ombros para aquele fato e mais uma vez não registrei ocorrência na polícia: ia ser difícil fazer o pessoal acreditar na veracidade da história. Seria muita coisa para explicar.
Um domingo desses encontrei de novo o sujeito. Em pleno dia. Na pra-ça do Hospital da Cidade. Acho que ele estava com a família. Esposa, uma filha crescida e outra menor, andando de bicicleta na calçada em forma de círculo, no centro da Praça. Ele não me viu. Passei por ali em um passo a-pressado de quem está caminhando, confundindo-me com o movimento do fim de semana, dia de inverno, bonito e com sol, pessoas passeando com os cães, jogando bola com os filhos, namorando. Achei curioso o encontrá-lo assim. Ninguém diria que aquele pacato pai de família, a noite era um batedor de carteira, talvez um assassino profissional. Eu próprio – uma de suas víti-mas - senti que poderia de repente estar ali conversando com ele como se na-da tivesse acontecido. E por isso dei graças a Deus que ele não tenha me vis-to. Não saberia qual teria sido sua reação. Talvez me cumprimentasse, e eu não poderia deixar de retribuir. O que seria, no mínimo, embaraçoso.
Uma noite, eu e minha esposa saímos de um baile no Clube, no centro da cidade. Já seriam bem umas 3 horas da manhã. Era um baile de formatura, por isso as quadras estavam lotadas de carros quando havíamos chegado para a solenidade e depois para o baile. Tive que deixar o carro umas duas quadras adiante dali, próximo a antiga Gare da Estação Férrea. Longe, portanto, das luzes e do movimento. Estava frio, por isso nem nos demos conta do risco que corríamos ao percorrermos a pé uma distância daquelas. Só pensávamos no frio que sentíamos e no ar condicionado do carro que nos esperava. Íamos abraçados e em passos rápidos, eu tentando aurir um pouco do calor do casa-co de pele que ela usava por cima do vestido.
Tínhamos bebido um pouco.
Quando chegamos no carro, desliguei o alarme com o controle, mas an-tes de eu conseguir entrar um destes guardador de carros que sempre estão por ali, sobretudo em ocasiões de grande movimento, se aproximou - não consegui ver da onde - me pedindo uns trocados. Minha esposa já tinha en-trado e só fazia pensar em ligar o ar condicionado, tanto que lhe alcancei as chaves do carro enquanto me apalpava para conseguir umas moedas o guar-dador.
- Ô, dotor, não tá me reconhecendo?
Era o sujeito de novo. O meu assaltante particular, por assim dizer.
- Então, dotor, tu sabe que não é uma moedinha que eu vô querê , não é? – e ao falar assim afastou a aba do casacão que estava usando mostrando a arma na cintura.
- Tô sabendo – respondi com ar de resignação. – Pô, tu não tá vendo? Tô com a minha mulher aí dentro? – ainda tentei argumentar em vão.
- Tanto pior pra ti, dotor.
- Quanto vai ser então – disse já puxando a carteira. Por sorte, não te-ria que fazer a via sacra do banco. Tinha algum dinheiro na carteira. Mais que o habitual pelo menos.
- O que tu tem aí?
- O de sempre.
- Cem?
- É. Mais ou menos.
- Passa tudo, dotor.
- Toma aí – disse estendendo-lhe o dinheiro em sua direção. As notas farfalhando ao vento.
- Não leve a mal, dotor. É que estou precisando, sabe. Minha filha, a mais nova, tá doente. Teve que baixá o Hospital. Pneumonia me disseram. Preciso pros remédios.
- Tudo bem – ainda tive que lhe dizer, a contragosto, virando-me para entrar no carro. – Mas ela está bem? – escapou-me, de repente, a pergunta, antes de fechar a porta, lembrando-me da cena na praça.
- Sim, ela já está bem melhor. Mas tomamo um grande susto.
- Uhm.. .
- Bom retorno, dotor.
De fato aquilo havia escapado ao meu controle. Parece que eu tinha vi-rado o cash dispenser daquele sujeito. Como me livar dele? Era o que eu co-meçava a me perguntar agora que aquela sombra me perseguia de dia e de noite.
Teria eu feito amizade com ele sem querer? Era assim que ele me con-siderava? Alguém a quem procurar em momentos de dificuldade?
Não sabia mais como avaliar aquela situação. Mas uma coisa era certa. Isso tinha que acabar.
Sua última tentativa de me assaltar aconteceu novamente numa situa-ção semelhante do modo como nós nos conhecemos. Mas dessa vez ele agiu diferente. Parece que ele mesmo não queria mais aquilo, mas o vício ou a ne-cessidade falou mais alto.
Eu tinha saído para caminhar. Estava de agasalho e tênis. Encontrei-o próximo ao campo de futebol do antigo quartel do Exército. Já havia anoite-cido e como esse é meu percurso habitual não me dei conta do risco que cor-ria. Havia muitas pessoas caminhando àquela hora em volta do campo, na pista de atletismo. Talvez se eu estivesse caminhando ali fosse mais seguro. Mas não gosto de ficar dando voltas no campo, como se fosse um peregrino de Meca em volta da Caaba. Por isso, normalmente, caminho pela rua, e ao passar pela frente do campo, encontrei novamente “meu amigo” que estava sentado, junto com outras pessoas, no muro de pedra que separa o campo da rua, sob a sombra das árvores.
Quando me aproximei ele pulou do muro, diretamente ao meu lado. Levei um tremendo susto, mas não perdi o sangue frio. Sobretudo após havê-lo reconhecido. Como falei já éramos quase amigos.
- Caminhando, dotor? – me perguntou, após ter-me refeito do susto.
- É o que parece, não? Oh, rapaz, você quase me matou de susto. Isso é jeito de chegar nas pessoas.
- Oh, foi mal aí, dotor. Desculpe.
- E vê se para com essa mania de me chamar de doutor. Que doutor, que, rapaz. Eu lá sou médico pra tu ficar aí me chamando de doutor, toda ho-ra.
- Ta bom, do... digo, seu... Má, como é que eu vô te chamar se eu nem sei o seu nome?
Era verdade! Não nos tínhamos apresentados ainda. Aqueles nossos encontros fortuitos e infelizes não nos tinham proporcionado essa opor-tunidade.
Parei e fitando-os nos olhos – ele devia ter o que? 28, no máximo 30 anos? – lhe perguntei finalmente após muito tempo:
- Oh, bicho, o que você afinal quer de mim? Já não foi o bastante o que eu já fiz por você?
Sem saber o que responder, baixou a cabeça, embaraçado.
Pela primeira vez senti que ele também não sabia o que queria de mim: amizade? amparo? dinheiro, somente dinheiro?
Queria evitar, mas não pude. Estendi o braço e toquei no seu ombro, como para o encorajar, mas não soube o que dizer. As palavras não saíram. Ele levantou os olhos e por um momento me pareceu que neles haviam lá-grimas. Mas não tenho certeza.
De imediato senti que algo me cutucava as costelas. Era o cano da arma novamente se interpondo entre nós como um fosso instransponível.
- Oh, dotor, não me leve a mal mas é que eu te precisando um dinheiro aí? O senhor é um cara bacana e tudo – nesse momento ele secou na manga do casaco o nariz que escorria. – Mas é que entre nós jamais vai ser possível haver uma amizade, sabe?
- Desse jeito não vai ser possível mesmo – respondi-lhe um tanto de-cepcionado por sua atitude. Até um segundo atrás eu começava acreditar que pudesse ser diferente.
- O senhor, por exemplo, me convidaria para sua casa? Nós poderíamos sair juntos de vez em quando, bater uma bolinha, assar uma carne? Quando? Me responda isso? O senhor me apresentaria para seus amigos? Como o quê? O seu batedor de carteiras particular? Dotor, eu não sei fazer outra coisa – é verdade, eu nunca quis aprender – mas também, oh, nunca matei ninguém.
- Com essa arma que você anda toda hora pra cima e pra baixo é difícil acreditar nisso – disse, dando-lhe as costas, disposto a cortar aquele papo, retomar minha caminhada.
- O, o, o, pera aí, onde tu vai? – agarrou-me pelo braço, fazendo-me vi-rar em sua direção. A arma, agora, dissimulado sob o casaco. Havia pessoas por perto.
- O que vai ser agora? Vai querer me assaltar de novo? Só que dessa vez, meu amigo, tu te deu mal. Estou sem nada. Sem carteira, sem cartões... tu não tá vendo – disse puxando os bolsos da calça do abrigo e do casaco para fora, erguendo as mãos.
- Não tem problema, dotor. – respondeu-me ele com o maior sangue frio. – Eu já contava com isso. A gente vai até a sua casa e você descola lá alguma coisa pra mim.
Aquilo absolutamente mexeu comigo. Uma cena passou rapidamente por minha cabeça. Eu chegando, sob a mira de um revólver, dentro de casa, expondo minha família àquela situação absurda que eu mesmo havia alimen-tado. Eu não podia admitir aquilo de jeito nenhum, nem que esse fosse o meu último ato antes de morrer. Eu havia chegado ao meu limite.
- De jeito nenhum, meu caro – respondi-lhe na cara. Decerto com uma expressão nos olhos que o assustou e antes que ele recuasse e pudesse fazer mira em mim, a uma distância mais segura, agarrei-lhe a mão armada, desvi-ando o revolver para longe de mim.
Entramos em luta e um tiro disparou para o alto, assustando as pessoas que estavam próximas. Caí sobre ele e escutei o zunido de uma nova bala passar a centímetros do meu ouvido, mas nem isso me desviou do meu obje-tivo. Ao contrário, fui tomado de uma raiva que me deu ainda mais força. Senti que podia matá-lo com minhas próprias mãos, mesmo que ele conse-guisse me atingir. Eu era mais forte e pesado, mas ele parecia uma enguia sob mim. Em poucos segundos conseguiu escapar com o quadril sob meu peso e ameaçava montar sobre minhas costas, torcendo meus braços, com a arma entrelaçadas por entre nossas mãos. Apertei-a com mais força, até que ouvi um novo estampido, e um som abafado de bala penetrando um corpo.
Algo quente escorreu por minhas mãos e a pressão que eu sentia nelas foi se desfazendo.
Ainda pude escutar o som da cabeça do bandido-pai de família - quase meu amigo - bater de encontro ao chão.
Eu o havia matado.
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