February 26, 2013

CARPE DIEM

Lembram do filme Sociedade dos Poetas Mortos, ganhador do Oscar de melhor Roteiro Original de  1990?
Pois é, essa expressão latina que quer dizer aproveitem o dia vem desse filme.
Para quem assistiu, é inesquecível. Para quem não viu, altamente recomendável.
Escrevi hoje uma crônica na qual a expressão encaixou-se perfeitamente.
Vejam o que vcs acham.
Un abraccio!


CARPE DIEM
                   Primeiro é o Carnaval, depois o horário de verão, dali a pouco é aquele ventinho mais frio que anuncia o inverno e pronto: lá se foi mais um ano. Digo, o começo de mais um ano. Entramos na roda-viva do ano que começa e daí para a frente é ligar o piloto automático até as férias de inverno – breves – e o fim de ano.
                  Outubro: primavera; novembro cheirando a dezembro. Dezembro? Nem se fala. Esse praticamente se resume às festas: Natal e Reveillon. Janeiro ou fevereiro – se for juiz, os dois -  férias, praia ou outro programa do gênero. Carnaval... bem, não preciso me repetir. 
                  Assim é o ano. Assim é a vida que nos escorre pelas mãos!              
                  O tempo passa muito rapidamente. É uma conclusão inevitável. Para quem, como eu, viveu isso pelo menos 44 vezes, começa a ficar evidente que esse ciclo é ininterrupto e mais rápido que podíamos esperar ou desejar. O tempo passa e isso não é apenas uma constatação, mas um protesto também, afinal o fim disso tudo a gente sabe onde vai dar. 
                  Mas essa é a vida e assim para todos. O que nos tranquiliza um pouco, mas não muda o fato inevitável. Por isso, vivermos o dia como se fosse o último também parece um fato inevitável, afinal o tempo passa você o aproveite ou não. E aproveitar ainda parece a melhor opção. É claro que quando isso for possível, ou seja,  quando você não esteja doente, sem emprego ou endividado, porque nessa três situações só vai se pensar numa coisa: sair delas.  Afora isso, temos que criar formas de fazer a vida valer a pena. Carpe diem, como nos ensinou o inesquecível filme Sociedade dos Poetas Mortos - Oscar de melhor roteiro original de 1990 -, pois o tempo é inexorável e a única coisa que pode detê-lo é o poder da imaginação.
                  Quando viajamos e conhecemos lugares diferentes, de certa forma estamos fazendo isso: detendo a passagem do tempo. O mesmo acontece quando vivemos qualquer experiência nova.
                   Já disse um estudo que a sensação do tempo passar rapidamente deve-se ao fato de que vivemos na rotina. A indiferenciação das experiências vividas nos provoca isso. Tudo parece uma sucessão interminável dos mesmos fatos, pessoas e sentimentos. Com o tempo tempo a mente desliga e quando vemos, bum, passou um ano, dois, uma década. Mudar as coisas faz o tempo andar mais devagar.  A mente se detém nessas experiências – o piloto automático é desligado - e passamos a contar o tempo não mais em dias, meses ou anos, mas em realizações. Enriquecemos em experiências e como seres humanos.  Nossa memória se qualifica e associamos a passagem do tempo a esses fatos.
                   Experimenta! Lembra da tua última experiência mais significativa? Quando ela aconteceu? Ontem? Há uma semana? Há um mês? Há um ano? Viu? É fácil lembrar?
                   Agora me diga: o que você comeu terça-feira da semana passada?
Difícil, né! Então, façamos valer a pena! Vivamos! Assim a passagem do tempo se tornará menos cruel e a vida terá valido à pena.
Quando do alto dos nossos 70, 80 anos olharmos para trás, não lembraremos por certo de muitas coisas, apenas daquelas que nos marcaram mais profundamente e o número delas nos dirá se vivemos ou não e, como à noite, quando pomos a cabeça na travesseiro, se vamos dormir  ou não. Afinal, como já dizia um poeta (eu):
Dormir é como morrer
(...)
Nem a todos
é consentido.
                 Pois dormir
                 como morrer
                 implica
                 (...)
                Ter amado
                Ter vivido[1].


[1] Do meu livro Expresso Instante, de 2006.

February 21, 2013

Yoani Sánchez é de Direita?

Artigo que escrevi hoje sobre a curiosa situação da blogueira Yoani Sánchez em terras brasileiras.
Hostilizada pela esquerda, recebida de braços abertos pela direita, cujos alguns dos seus mais destacados representantes posam na foto como se alguma vez tivessem lutado pelas mesmas causas, tais como os direitos humanos, a liberdade de expressão e o pluralismo político.
Refiro-me ao Ronaldo Caiado - DEM - e Jair Bolsonaro - PP.
Correndo por fora, o Aécio - PSDB - para ver se tira algum proveito eleitoral.
É, no mínimo, uma situação risível. Mas vindo de quem vem, não é de surpreender.
Vejam o que vocês acham.
Um abraço,


Yoani Sánchez é de Direita?

            A visita da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil está causando uma verdadeira confusão nos conceitos tradicionais do que é ser de direita e de esquerda.
             Tradicionalmente identificada com a oposição, a esquerda sempre representou a  contestação aos valores postos, a ala dos que exigem reformas, alinhada, pois,  com os movimentos que lutam pelos direitos humanos, por um meio ambiente sadio e por uma sociedade mais justa. Contra, portanto, aos interesses do capital e das grandes corporações que visam o lucro, antes de mais nada.
            Contudo, a chegada de Yoani Sánchez ao país está causando um verdadeiro rebuliço de conceitos.
              Causa estranheza que alas da esquerda do país a estejam hostilizando, enquanto setores da direita a recebam de braços abertos, afinal não me parece que essa pessoa tenha qualquer vinculação com um lado ou com o outro. Até onde eu sei, a causa pela qual ela luta é pelo fim da ditadura em Cuba. Luta que por certo interessa a muita gente, sobretudo ao EUA.  Contudo esse fato por si não só não quer dizer que haja um alinhamento ideológico entre ela e o Tio Sam.
               Embora tenha a pretensão de representar a materialização do sonho comunista, Cuba, assim como a Coréia do Norte e a antiga União Soviética, há muito tempo deixou de representar esse ideal, afinal é nítido o descambamento desses regimes para a ditadura e o totalitarismo. Lutar, pois, contra eles não parece que faça dos seus opositores simpatizantes do capital, da exploração dos trabalhores, da concentração de renda, da desigualdade social e das agressões ao meio ambiente.
            Nesse contexto, é surpreendente a manifestação de alguns setores de esquerda – quiçá movido pela manus longa do Regime Cubano – contra a presença de Yaoni em nosso país. De outra parte, é no mínimo engraçada a dança de acasalamento em torno dessa senhora ensaiada por figuras tradicionamente ligadas ao capital e aos regimes despóticos, tal como Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro, que na visita que a blogueira fez a Brasília, sentaram-se aos seu lado. Assim como oportunistas de plantão, com pretensões eleitorais, como o virtual candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves e outros.
            Mais coerente de todos, o senador Eduardo Suplicy estava presente, pois me parece que para além do maniqueísmo das cores partidárias, esse senhor consegue enxergar o ser humano por trás do personagem criado por Yoani,  e mais longe, as suas aspirações mais profundas que é de viver em uma sociedade livre, juste e solidária, conforme, aliás, está expresso no art. 3º de nossa própria Constituição Federal.    
            E nesse sentido a constatação que se faz é que o maniqueísmo da direita e esquerda se revela pequeno para dar conta do mundo complexo em que vivemos. Afinal as causas hoje são tantas e tão variadas que nenhum partido ou ideologia coerente  tem condições de abrigá-las em seu programa.
            Não admira, pois, a confusão em que se meteram aqueles que resolveram fazer a defesa ou o ataque a essa personalidade pública. Cabia, isso sim, um pouco mais de preparo a essas pessoas para captarem os matizes que a caracterizam, pois ninguém em sã consciência pode ser contra uma pessoa que luta pela democraia, pela liberdade de expressão, pelo pluralismo político, utilizando-se para isso da palavra escrita e das denúncias das mazelas de um país que se agarra aos fantasmas do passado.