September 09, 2009

Novo

Vou tentar salvar minha reputação, ou o que resta dela. Depois de ler um conto de um amigo meu aqui de PF ainda estou sob o efeito da admiração e da inveja. Por que não escrevo assim? é a primeira reação que se tem quando se depara com um texto dessa qualidade. Lembro que a última vez que me fiz essa pergunta foi quando descobri os contos de Daniel Galera em Dentes Guardados (estão na internet em pdf e podem ser baixados. Perguntem ao google). Por isso, para não dizer que estou de todo perdido, pelo menos em questão de prosa, vou tentar salvar minha reputação com o conto abaixo. Vejam se eu tenho alguma chance. Quando esse cara surgir - Gustavo Pimentel, guardem esse nome - vocês entenderão o que eu estou dizendo. Se se confirmar, no mínimo estamos diante de um novo Galera.
De minha parte faço votos que sim. Em nome da Literatura. A vaidade pessoal que se foda.
Um abraço!

Os Jornais

Uma ausência de meses foi responsável por aquela pilha de jornais deixada na portaria ao longo dos dias em que ele permaneceu fora:
-São do senhor, seu Maurício – disse-lhe com resignação o porteiro que já não sabia onde colocar tanto papel.
Teve de fazer mais de uma viagem elevador acima carregado dos cadernos de cultura, esporte, saúde, tv, lazer, turismo, economia, carros e motos, uns saindo dos outros, as datas se misturando, o constrangedor de ter atulhado o elevador no momento em que os vizinhos se viam impedidos de usá-lo pelo estranho regresso de Maurício.
A um canto da sala agora aquela parafernália parecia o ameaçar: “decifra-me ou te devora”. Aquela massa de caracteres e papéis era a evidência de tudo o que tinha se passado na sua ausência. Se pôr ao corrente dos fatos desses seis meses de exílio voluntário era o mínimo que ele poderia fazer, por hora, para retomar a sua vida. Antes, porém, precisava de umas 6 horas de sono para se recuperar do esforço conjunto da viagem de regresso do campo e do trabalho inesperado de carregar os jornais até em casa.
À noite teve pesadelos que tornaram seu sono difícil, alguns com alusões a sua experiência frustrada de colono sem-terra e outras absolutamente sem sentido. Ao menos aparentemente, pois dessa região nebulosa dos sonhos talvez jamais tenhamos respostas definitivas. De qualquer modo, a sensação de opressão no peito e a impressão de estar sendo sufocado por uma criatura sem rosto, mas de aspecto ameaçador, havia lhe impedir de ter o sono reparador de que precisava.
Acordou cansado.
Tinha pela frente um projeto de relativa envergadura – retomar a sua vida como jornalista -, mas se sentia pouco motivado. Contudo, parecia-lhe que a leitura dos jornais poderia ajudá-lo. Mal começou, sentiu que estava no caminho certo.
Nos dias que se seguiram os amigos ligaram querendo saber notícias: “como é que chega e não avisa?”.
Helena também havia o procurado.
No entanto, todos receberam respostas evasivas e comentários sucintos de sua frustrada experiência para entender um pouco mais do movimento dos sem-terra, fazendo-se passar por um. Seu objetivo era escrever um livro sobre o assunto e, para isso, entendia que tinha de viver essa experiência.
Deixou para trás a redação do jornal, seu relacionamento com Helena e a sua vida na cidade grande.
Se infiltrou num acampamento de beira de estrada e aos poucos foi ganhando a confiança dos líderes do movimento. A princípio não revelou sua verdadeira identidade. Mas ao poucos foi difícil esconder suas reais intenções. Aquele negócio de fazer constantes notas de todos os movimentos do grupo e das reuniões levantaram suspeitas.
Por fim teve que contar sua verdadeira história.
Quando eles descobriram que Maurício não era o professor desempregado, decepcionado com a vida na cidade que ele lhes havia dito que era, até acharam interessante a sua explicação para a mentira: ele não queria que eles perdessem a naturalidade diante de um jornalista. Mas com o passar dos dias e após muitos debates acalorados entre os líderes e uma comissão do MST vinda de fora, foi difícil continuar no acampamento. Já não era mais tratado com a naturalidade de antes e muitas vezes era excluído das reuniões e decisões mais importantes. Passou a se sentir um incômodo que eles não sabiam bem como tratar: um aliado ou uma ameaça? Por isso resolveu abandonar o acampamento.
Tentou uma infiltração em outro grupo, mas um visita inesperada de alguns líderes do primeiro determinou novamente o seu desmascaramento. E desta vez foi tratado com bem menos cortesia que da outra. Simplesmente pediram que se retirasse do movimento.
Andou vagando pelo interior do Estado algum tempo, irresoluto diante da perspectiva de retomar sua vida como jornalista, assumindo o fracasso do seu projeto. Acabou adquirindo um pequeno sítio com as economias que tinha juntado para essa aventura, a ver se com isso fosse mais convincente em seu disfarce como colono. Mas com o passar dos dias viu que não tinha nada com aquilo e acabou decidindo voltar para casa. Quem sabe se o material que tinha juntado naqueles poucos meses de acampado não seria suficiente para escrever o livro?
Só então se deu conta, ao chegar em casa, que tinha esquecido de cancelar a assinatura do jornal, e o porteiro, como bom homem que era, tinha-os guardado para quando “seu” Mauricio voltasse .
Trouxe-os para casa ainda sem saber o que fazer com aquela montanha de papel a lhe pesar na consciência. Ela era evidência da sua desatualização. Se pretendia voltar ao mercado de trabalho tinha que se inteirar do que havia passado no mundo na sua ausência.
A primeira idéia, portanto, era ler tudo aquilo.
Com o passar dos dias, no entanto,foi descobrindo que esta não seria uma tarefa fácil. Eram muitos dados, fatos, conchavos, crimes, guerras e escândalos a serem assimilados e era preciso entender o encadeamento dos mesmos. Tinha que ler os jornais na ordem certa, e os novos números continuavam a chegar todos os dias.
Aos poucos o apartamento virou uma bagunça, com jornal pra tudo quanto é lado. Uma pilha tinha se formado com jornais por serem lido, mas aqueles que já tinham sido permaneciam por ali, pois sempre havia a possibilidade de ter deixado escapar alguma coisa. A desordem começava a reinar à medida que ele fazia progressos e os jornais, antes inofensivas criaturas de papel e tinta, pareciam agora adquirir vida ao se enrolarem em suas pernas quando ele caminhava entre eles.
Sem que ele percebesse, os jornais começavam a dominá-lo.
Dias e noites esteve às voltas com eles, esquecidos dos amigos, das mulheres, de Helena, da vida lá fora; os jornais antigos mais importantes que os novos, os lidos a lhe espreitarem para uma nova leitura, a absoluta absorção da sua atenção tentando coordenar tudo aquilo que se tinha pressa por apreender; os números novos batendo à porta e envelhecendo como os demais, para seu desespero que não conseguia retardar a marcha do tempo.
Ao cabo de dois meses sua barba havia crescido, tinha emagrecido 10 quilos e já não saía de casa nem para comprar comida.
Soterrado sob uma montanha de papel não se sentia melhor do que no começo. A tão acalentada idéia de se pôr ao corrente dos fatos parecia, ao contrário, tê-lo afastado da realidade, ameaçando sua sanidade. Preso nesta contradição só a ousadia de um ato de loucura poderia livrá-lo dessa situação.
No limiar desse caminho sem volta, a vida falou mais alto.
Num rompante, deu seu grito de liberdade. Com gestos bruscos e desajeitados, começou a catar os volumes espalhados, levantando nuvens de poeira que quase o sufocavam. Se parava, então, era apenas para retomar o fôlego, pois não podia dar chance que a dúvida enfraquecesse sua decisão. Os jornais poderiam reassumir o controle.
Aos poucos juntou uma enorme pilha de papeis amarrotados num canto da sala e teria posto fogo neles ali mesmo se não fosse um resto de bom senso a detê-lo antes deste ato final de loucura.
Pediu ajuda ao porteiro para carregar elevador abaixo aquele tralha. O pobre homem quase não o reconheceu naquela ato de semi-demência, mas obedeceu sem pestanejar. A disciplina de homem do povo o impedia de questionar.
Fizeram duas viagens elevador abaixo, carregando os volumes dos jornais agora resignados a sua condição de criatura sem vida, enquanto Maurício, esfuzeante, corria como uma criança que tivesse ganhado um brinquedo novo: sua liberdade!
“Os jornais que se fodam” – pensava sentindo-se mais senhor de si. E uma certeza louca lhe soprava que ele tinha feito a escolha certa, ainda que aquilo contrariasse a sua natureza.
“A minha natureza que se foda” pensava imediatamente, desviando o pensamento da vertigem que sentia ao dar as costas ao mundo do conhecimento.
“O mundo do conhecimento que se foda” arrematava de uma vez Maurício, desesperadamente convicto de sua resolução, deixando às vezes escapar exclamações e risadas baixas, para espanto do zelador que o ajudava sem entender o que estava acontecendo.
Ao fim o apartamento vazio era de uma desolação só. Ao retornar, Maurício, percebeu isso e sentiu que não podia ficar ali nem mais um minuto que mais parecia uma tumba que um lugar para se viver. Precisava sair, reconquistar a vida que os jornais tinham-lhe tirado nesses dois meses. Ir às ruas, ao encontro das pessoas que ele tinha ignorado em nome do que mesmo?
Nem ele mais sabia.
Mas de uma coisa estava certo: precisava celebrar, comer uma bela refeição, encher a cara, sentir-se homem outra vez, procurar Helena quem sabe, mas sobretudo viver, viver a louca vida que não exige razão nem condição para ser vivida.

Fim!

1 comment:

jvk said...

Julio

Depois de muito procurar descobri que não tenho seu e-mail para enviar um conto. Se puder entrar em contato, agradeco.