December 21, 2010

DA ALMA E DAS NUVENS

Um pequeno ensaio, de caráter poético, da alma humana, cuja natureza, cambiante, a aproxima mais das nuvens do que de qualquer outro objeto do mundo físico. E como tal, as previsões que se fazem dela são da mesma natureza que as previsões da meteorologia: imprecisas. 
É isso que nos torna essencialmente humanos: a imprevisibilidade, a não redução a cálculos e a conceituações estanques.  
Bona lectura!

DA ALMA E DAS NUVENS

            O que somos parece ser mais o resultado do acaso do que de algum projeto pessoal. Ser assim ou assado é algo que nos acontece como o resultado imprevisível da combinação de fatores internos e externos. O modo como vão interagir parece sempre nos escapar. Embora possamos fazer algumas previsões, baseados na observação e na experiência, terão elas o caráter de uma generalidade não muito melhor que se não as tivéssemos feito. Ou seja, são palpites e como tais não devem ser levados em conta, pois como palpites, segundo a lei das probabilidades, metade darão certo, metade não. Por isso, melhor é não emiti-los, do que emiti-los e ser, a todo momento, desmentido pelos fatos.
            De um amigo de infância ouvimos dizer que se tornou um varredor de rua, o que não julgávamos possível dado o conhecimento que pensávamos ter da sua personalidade e do meio que o cercava. De outro, descobrimos ter se tornado um maníaco-depressivo e dependente do álcool. Daquel’outro ficamos sabendo ter seguido a carreira política e estar se dando muito bem, contra todas as probabilidades que o reputavam incapaz de pronunciar uma palavra em público.
            Enfim, o que somos ou seremos é uma caixinha de surpresas, pois nem de nós podemos fazer previsões.
Como reagiremos diante de determinadas situações?
Traídos, brigaremos ou renunciaremos ao ser amado?
Desafiados, enfrentaremos ou fugiremos?
Obrigados a atos de autoridade, agiremos com firmeza ou mostraremos insegurança?
            Se não sabemos de nós mesmos que dirá dos outros, com os quais estamos sempre sendo surpreendidos. Quanto muito poderemos fazer estimativas, previsões não muito melhores que as da metereologia, cuja fama todo mundo sabe ser de uma ciência mais ou menos exata. Cambiante, como as nuvens e a alma humana.

December 20, 2010

ANEDOTAS DE GAURAMA II

A GALINHA

            A panela de feijão fumegava sobre o fogão à lenha e as crianças tinham sido recomendadas por minha mãe – portanto meus irmãos – para que cuidassem do fogo e, na medida da necessidade, colocassem água no feijão. Ela iria às compras e voltaria em breve. Eles poderiam continuar brincando, desde que tomassem estes dois cuidados. Deles dependeria, por hora, o almoço, e ao se referir assim, minha mãe se referia à tremenda responsabilidade daquelas duas crianças em cuidarem da comida do pai que vinha esfomeado do serviço, para o qual em seguida tinha de retornar.
            Tudo transcorria dentro da normalidade até que uma galinha teve a infeliz idéia de pular pela janela para dentro de casa. Meus irmãos, zelosos, não podiam permitir que o animal ficasse ali. Assustaram-na para que voltasse por onde tinha entrado, mas a infeliz da galinha parecia não saber o caminho de volta, decerto por não reconhecer por dentro a casa que vira de fora. De repente teve uma iluminação e de um golpe saltou sobre o fogão que ficava próximo à janela, pousando sobre a alça da panela onde o feijão chiava a fogo solto. Apavorados com aquela manobra perigosa do animal, meus irmãos não pensaram duas vezes antes de assustarem o bicho uma última vez. Só que no impulso que ela tomou para se projetar janela afora, a panela adernou de lado e emborcou rumo ao chão com todo o feijão dentro.
            Que sujeira!
            Tudo por causa daquele bicho burro e inconveniente. Mas agora não havia tempo a se perder em lamentações. Era preciso agir e isso significava recolher o feijão que tinha se espalhado pelo chão para evitar o pior: que a mãe chegasse e se deparasse com uma cena daquelas. Uma bela surra com certeza seria inevitável.
            - Corre na porta da frente para ver se a mãe não está vindo! – disse o mais velho, que todos conheciam como Chinho,   para o menor que ainda não havia se recuperado do susto. Desperto de seu atordoamento e na esperança de remediar o irremediável, o Doca correu até aporta da frente. Enquanto o Chinho se armava de uma colher e fazia o possível para pôr de volta na panela o feijão espalhado pelo assoalho.
Para alívio de ambos, nem sinal da mãe, mas quando o Doca se voltou para dizer isso ao Chinho, o pior que podia acontecer entrava pela porta dos fundos, após ter dado a volta na casa, como era de hábito. O Doca ainda teve tempo de fugir de onde estava, mas o coitado do Chinho não teve tempo sequer de perpetrar o primeiro golpe do seu crime. A mãe o ergueu do chão pela orelha, sem ao menos perguntar o que tinha acontecido.
Como eu disse aquilo se tratava do inexplicável, pois como é que ela iria acreditar numa história daquelas, de uma galinha ter podido provocar tamanho estrago, sobretudo naquele momento de raiva e com o almoço ainda por fazer. Só mais tarde esta história pôde receber crédito que merecia, até porque não havia outra versão para contar. Mas naquele momento este improvável movimento do bicho se apoiando na alça da panela para alçar vôo não tinha convencido ninguém, muito menos para lhes livrar da surra que levaram.
           

PS: O Doca apanhou mais tarde, após a inevitável volta para casa, que algumas vezes podia se prolongar até a noite. Além do mais aquele não tinha sido o seu dia de sorte: nenhuma visita tinha aparecido. Quando isso acontecia era comum o fujão chegar junto com a visita para a mãe ir se acostumando com a idéia de deixá-lo vivo. Impossibilitada de dar vexame na frente de estranhos, a raiva dela ia passando, até esquecer o ocorrido. O negócio depois era aparecer o mínimo possível para ela não se lembrar. Às vezes essa estratégia dava certo, mas naquele dia, o Doca não teve essa sorte. 

December 18, 2010

ANEDOTAS DE GAURAMA

Passando a limpo velhos escritos, encontrei estes que reproduzem episódios reais, vividos ou ouvido narrar por meus pais e irmãos.
Segue abaixo um aperitivo.
Um abraço e boa leitura.

DONA LEOCÁDIA

Uma vizinha dos meus pais, Dona Leocádia, antiga conhecida da região, de origem polonesa, carregando muitos nos “rrs” e “és”, conversava com meus pais sobre a recente morte do meu tio-avô Fontana com 84 anos.
Contando já com uma boa idade, naturalmente esta velha senhora devia ter uma só preocupação: a proximidade da morte, e o tema do assunto que tratava com meu pai devia lhe parecer a ilustração próxima do inevitável fim que a aguardava a cada esquina, a cada síncope do coração, a cada suspiro de espanto, medo ou admiração...
Quem pode dizer quando chegará a nossa hora?
Sob o influxo destas emoções e talvez na tentativa de parecer delicada e se solidarizar com a dor do meu pai pela perda desse ente querido, Leocádia saiu-se com essa:
-        Jééésus Marrria! O único médo que tenho é de um dia acordar morrrta!
Ao que nada mais acrescentou retirando-se em seguida, para alívio dos meus pais que, decerto, já não sabiam como segurar o riso que lhes acometia.

DONA LEOCÁDIA – Parte II

            A casa que meu pai construiu para uma velhice tranquila ficou pela metade e o que era para ser motivo de sossego, tornou-se motivo de preocupação por causa daquele inesperado retardo da obra. Falta de dinheiro, naturalmente.
Só para se ter uma idéia do que  estou falando e do que significou a inflação nos anos 80, até o começo dos anos 90, meu pai que havia vendido uma pequena chácara com 2,5 hectares ali pelo final dos anos 80 construiu uma casa de 2 pisos,  com área de mais de 100 m2 com apenas 40% do rendimento da poupança sobre o capital aplicado. Não lembro de quanto era este capital, mas equivaleria ao que hoje se obteria com a venda daquela porção de terra. Quando entrou o plano real, a casa que estava inacabada – erguida e coberta – inacabada ficou, pois o dinheiro foi todo consumido - juro e capital - para fazer os acabamentos. E ainda não foi suficiente, pois faltaram alguns detalhes, tais como as calçadas em volta de casa e toda a pintura. 
            Pois bem, fechado este parênteses histórico, voltamos à narrativa.
            Meu pai que foi mecânico a vida inteira guarda até hoje habilidades manuais que ele mesmo desconhecia, por isso quando lhe sobra tempo dos compromissos de uma aposentadoria comprometida com a sesta depois do almoço, o chimarrão e a fruição da paz e do sossego de uma cidadezinha pequena, seu Achiles – meu pai - pega da colher de pedreiro e põe-se a fazer muros e rebocos onde puder adiantar o trabalho que de outra forma teria de pagar para outro fazer.
            Leocádia que entardecer costuma sair para recolher a vaca de leite que possui, de onde a tinha levado pastar, no geral nos terrenos de baldios da redondeza,  passava às vezes pela frente da casa dos meus pais.
Numa dessas ocasiões, ao contemplar o trabalho minucioso e artístico de meu pai – uma característica recorrente dos trabalhos do velho – no remate final de um muro em frente de casa, com pequenas ondulações em seu cimo,saiu-se com esta:
-         Jééésus Marria! Quer dizer então que agora até carpintérrro é?! – querendo referir-se ao trabalho de pedreiro que o velho executava, num flagrante que mais uma vez punha meus pais em apuros para disfarçar o riso que lhes acometia.

December 15, 2010

CONTRATO DE CASAMENTO

Mais uma das antigas.

CONTRATO DE CASAMENTO

         O homem chegou para a mulher e disse:
         - Está bem, eu caso. Mas só se você me prometer: não implicar comigo por causa dos meus horários, seu eu chegar tarde em casa ou mais cedo; se eu chegar algum dia de porre ou se eu não quiser chegar. Se você não policiar meus gastos com livros, discos, roupas e bebidas; se você não implicar comigo quando ande de pijama pela casa até as 5 da tarde ou quando eu quiser dormir de madrugada ou antes da 08 da noite. Se ouvir som a todo volume ou quiser assistir aquele longa metragem que você acha chato. Se eu puder viajar sozinho pra Nova York quando o pacote for muito caro pra nos dois. Se eu puder reclamar da comida sinceramente quando não a achar boa como você gostaria que tivesse ficado. Se eu puder dormir de roupa quando estiver cansado demais sequer para tirá-la. Se puder receber em casa meus pais, irmãos e amigos para assistir o futebol, jogar cartas ou  simplesmente tomar um whisky. Se eu quiser ficar o fim de semana todo na cama para me refazer da semana. Quando eu viajar para a casa dos meus pais, um fim de semana sim, outro não. Quando eu quiser cozinhar qualquer droga na cozinha sem ouvir reclamações sobre a bagunça que eu deixei e a sujeira...
         A mulher se voltou, então, para ele e disse:
         - Tudo bem, mas só se você: não se importar se eu quiser dormir até às 10 todos os dias. Arrumar uma empregada em tempo integral que saiba cozinhar o trivial e pratos exóticos. Que você me ceda um talão de cheques e um cartão de crédito sem limite de gastos. Que eu possa viajar de vez em quando desacompanhada, sem precisar desfiar um rosário de explicações sobre aonde eu vou, com quem e por quê. Poder frequentar o salão de beleza e fazer comprar pelo menos uma vez por semana sem me sentir culpada pelas reclamações que você fizer. Ser livre para dizer na hora que você quiser fazer amor que não estou disposta, que prefiro dormir, sem precisar inventar qualquer dor de cabeça de última hora e sem que você se sinta preterido por outro qualquer de um suposto caso extra-conjugal. Sair sozinha com as amigas, nem que seja para ir na igreja. Que você aprenda a cozinhar e de vez em quando me faça alguma surpresa nesse sentido, além, naturalmente do indefectível churrasco de fim de semana. Que você me presenteie pelo menos nas datas mais importantes e nunca, jamais, ouviu bem? se esqueça de alguma delas, sobretudo, a do meu aniversário. Que você esteja sempre disposto a me ouvir e conversar sobre todos os tipos de assunto sem pretextar cansaço ou falta de tempo. Que você tenha paciência com meu jeito de ser e não me peça toda hora para agir assim ou assado, sobretudo diante dos teus amigos, irmãos e mãe. Que não implique com as roupas que eu quiser usar quando a gente for a alguma jantar da firma, mesmo quando eu esteja acintosamente com vontade de me mostrar...
         Chegados a este ponto ambos concordaram que esta palavrinha, casamento, implicava mais perdas que benefícios e decidiram por bem revogá-la antes mesmo que entrasse em vigor, a fim de que, afastados todos os inconvenientes dessa relação formal, eles pudessem continuar a viver o amor que sentiam um pelo outro.

December 14, 2010

Novas estórias

Depois de algum tempo ausente, volto a publicar.
Motivado pelo blog do meu amigo Paulo - nomadenomundo.blogspot.com, o qual recomendo - me senti desafiado a retomar algumas histórias há muito tempo escritas e que estavam na gaveta.
Para ter uma idéia, esta sequer eu havia passado para o computa. Estava datilografada ainda.
Escrevi-a em fevereiro de 2000.
Praticamente não mudei nada de como ela foi concebida.
Vai, portanto, aí uma nova história, ainda que nova ela seja apenas na divulgação.
Um pequeno causo à la Fellini.
Um abraço.
Espero que vcs apreciem.

                                                  UM MUDO NA FARMÁCIA





Gaurama é uma cidade pequena. Pequena e real. Encravada no norte o Estado mais meridional do Brasil, seria apenas mais uma cidadezinha do interior não fosse por uma particularidade que a distingue de todas as demais para mim: é minha terra natal. E é nela que se passa essa história, contada por meu pai, da última vez em que estivemos lá para visitá-lo.


Antes, porém, é preciso tecer algumas considerações sobre os hábitos de vida dos meus pais que pode lançar um pouco de luz sobre a peculiaridade de algumas histórias que costumamos ouvir dele e que distingue essa que vou lhes narrar de todas as demais: foi a primeira vez que a ouvimos, apesar de ter-se passado há muito tempo. Diversamente do que costuma se dar, pois os hábitos de vida dos meus pais não lhes permite trazer muitas novidades. De modo que ouvíamos com frequência a mesma história. Tanto que já sabíamos de cor muitas delas, exceto essa que pelo seu inusitado tínhamos certeza: era a primeira vez que a estávamos ouvindo. Uma história simples, enfim, de gente do interior, mas que na sua singeleza revela muito do lirismo e da inocência que os hábitos interioranos ainda conservam.


Havia um mudo no serviço público local que fazia o serviço do lixo da cidade. Colega do meu pai, que era mecânico, era também colega de tantos outros mandriões que gostavam de brincar com o mudinho e dos esforços que este fazia para se comunicar. Aos gestos nervosos ajuntava os indefectíveis guturais “ dá, dá, dá” que lhe valeram o apelido: Dadá. Nas suas andanças pela cidade atrás do caminhão do lixo ou capinando o mato que emergia do vão dos paralelepípedos, Dadá e seus colegas encontravam muitas oportunidades de se entreterem com o movimento das ruas e o que se passava na cidade, mexericos e escaramuças do interior. Ao menos não ficavam como muitos em cidades grandes, enclausurados em seus locais de trabalho, perdendo o que uma vida ao ar livre e de observações pode proporcionar. Funcionários públicos estáveis, então, encontravam muitas ocasiões de se divertir entre uma parada e outra do caminhão do lixo ou escorados no cabo da enxada que, de instrumento de trabalho, transformava-se em instrumento de apoio e inspiração. Foi numa dessas ocasiões que os malandros decidiram pregar uma peça no mudinho, também ele um malandro ao seu modo, silencioso. Sua gestualidade desembaraçada e uma sem-vergonhice mal disfarçada pela expressão arteira e maliciosa encorajavam-nos a ainda mais a folgar com o atrevido mudo: mandaram-no comprar camisinhas na farmácia da cidade, naquele momento atendida só por moças, enquanto, do lado de fora, os mandriões esperavam para ver como o infeliz se desencumbia da sua missão.


Não sei porque o mudo não relutou em pagar esse mico, se por bravata, se por ingenuidade, se por humildade e espírito de submissão, só sei que o mudo foi e uma vez no interior do estabelecimento podemos imaginá-lo tentando fazer se entender, do modo o menos embaraçoso possível, não só para ele, que parece só então deu-se conta do mico que estava pagando, como para as moças que não queriam acreditar que o mudinho não fosse o santo que as pessoas costumam achar que as outras são só porque elas tem alguma deficiência. E os amigos ainda tinham-lhe ensinado como gesticular para se fazer entender, do mesmo modo como o próprio mudo em outras ocasiões tinha-lhes mostrado como fazia. Usavam, portanto, da sua própria linguagem para testá-lo na frente das meninas, a ver se o malandro mantinha a galhardia com que em outras tantas vezes tinha até lhes aborrecido com suas história de bravatas mudo-sexuais. Gestos que consistiam basicamente disto: com o dedo aos lábios como a encher um balão imaginário, sopro e gesto depravado de enfiar o preservativo no pênis. Agir dessa maneira entre amigos, era uma coisa. Bem diferente era agir desse modo em público diante das moças do balcão. Mas o mudo não via como se sair dessa diante dos amigos que de fora o instigavam a continuar toda vez que ele, desolado, olha para fora em busca de arrego.


- Vai, vai! – lhe faziam os malandros, fingindo estarem ocupados com o trabalho e não estarem dando importância a uma bagatela daquelas: comprar camisinhas. Enquanto o mundo se debatia em seu sofrimento.


E eles a lhe atiçar:


- Faz assim, óh – e lhe mostravam o gesto odioso que ele não tinha coragem de reproduzir na frente das moças e dos clientes.


Por fim, irritado, cansado de se fazer por santo e ser mal entendido o mundo levou os dedos aos lábios, assoprou o balão imaginário e enfiou-o alegoricamente no membro, gesticulando diante das donzelas – umas nem tanto – horrorrizadas, mas iluminadas para o que afinal o infeliz queria.


Lá fora a turma a se dobrar de rir da cena que o pobre diabo tinha protagonizado diante das moças e do público em geral.


Difícil depois era dizer com que expressão o mudo saiu da farmácia: se de triunfo, de imbecilidade, de interrogação ou de safadeza e satisfação pela missão cumprida. Talvez, um misto de tudo isso.


O certo, porém é que depois desse fato, o mudo se tornou outra pessoa, bem mais contida nas suas bravatas e demonstrações gestuais.