Um pequeno ensaio, de caráter poético, da alma humana, cuja natureza, cambiante, a aproxima mais das nuvens do que de qualquer outro objeto do mundo físico. E como tal, as previsões que se fazem dela são da mesma natureza que as previsões da meteorologia: imprecisas.
É isso que nos torna essencialmente humanos: a imprevisibilidade, a não redução a cálculos e a conceituações estanques.
Bona lectura!
DA ALMA E DAS NUVENS
O que somos parece ser mais o resultado do acaso do que de algum projeto pessoal. Ser assim ou assado é algo que nos acontece como o resultado imprevisível da combinação de fatores internos e externos. O modo como vão interagir parece sempre nos escapar. Embora possamos fazer algumas previsões, baseados na observação e na experiência, terão elas o caráter de uma generalidade não muito melhor que se não as tivéssemos feito. Ou seja, são palpites e como tais não devem ser levados em conta, pois como palpites, segundo a lei das probabilidades, metade darão certo, metade não. Por isso, melhor é não emiti-los, do que emiti-los e ser, a todo momento, desmentido pelos fatos.
De um amigo de infância ouvimos dizer que se tornou um varredor de rua, o que não julgávamos possível dado o conhecimento que pensávamos ter da sua personalidade e do meio que o cercava. De outro, descobrimos ter se tornado um maníaco-depressivo e dependente do álcool. Daquel’outro ficamos sabendo ter seguido a carreira política e estar se dando muito bem, contra todas as probabilidades que o reputavam incapaz de pronunciar uma palavra em público.
Enfim, o que somos ou seremos é uma caixinha de surpresas, pois nem de nós podemos fazer previsões.
Como reagiremos diante de determinadas situações?
Traídos, brigaremos ou renunciaremos ao ser amado?
Desafiados, enfrentaremos ou fugiremos?
Obrigados a atos de autoridade, agiremos com firmeza ou mostraremos insegurança?
Se não sabemos de nós mesmos que dirá dos outros, com os quais estamos sempre sendo surpreendidos. Quanto muito poderemos fazer estimativas, previsões não muito melhores que as da metereologia, cuja fama todo mundo sabe ser de uma ciência mais ou menos exata. Cambiante, como as nuvens e a alma humana.
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