December 15, 2010

CONTRATO DE CASAMENTO

Mais uma das antigas.

CONTRATO DE CASAMENTO

         O homem chegou para a mulher e disse:
         - Está bem, eu caso. Mas só se você me prometer: não implicar comigo por causa dos meus horários, seu eu chegar tarde em casa ou mais cedo; se eu chegar algum dia de porre ou se eu não quiser chegar. Se você não policiar meus gastos com livros, discos, roupas e bebidas; se você não implicar comigo quando ande de pijama pela casa até as 5 da tarde ou quando eu quiser dormir de madrugada ou antes da 08 da noite. Se ouvir som a todo volume ou quiser assistir aquele longa metragem que você acha chato. Se eu puder viajar sozinho pra Nova York quando o pacote for muito caro pra nos dois. Se eu puder reclamar da comida sinceramente quando não a achar boa como você gostaria que tivesse ficado. Se eu puder dormir de roupa quando estiver cansado demais sequer para tirá-la. Se puder receber em casa meus pais, irmãos e amigos para assistir o futebol, jogar cartas ou  simplesmente tomar um whisky. Se eu quiser ficar o fim de semana todo na cama para me refazer da semana. Quando eu viajar para a casa dos meus pais, um fim de semana sim, outro não. Quando eu quiser cozinhar qualquer droga na cozinha sem ouvir reclamações sobre a bagunça que eu deixei e a sujeira...
         A mulher se voltou, então, para ele e disse:
         - Tudo bem, mas só se você: não se importar se eu quiser dormir até às 10 todos os dias. Arrumar uma empregada em tempo integral que saiba cozinhar o trivial e pratos exóticos. Que você me ceda um talão de cheques e um cartão de crédito sem limite de gastos. Que eu possa viajar de vez em quando desacompanhada, sem precisar desfiar um rosário de explicações sobre aonde eu vou, com quem e por quê. Poder frequentar o salão de beleza e fazer comprar pelo menos uma vez por semana sem me sentir culpada pelas reclamações que você fizer. Ser livre para dizer na hora que você quiser fazer amor que não estou disposta, que prefiro dormir, sem precisar inventar qualquer dor de cabeça de última hora e sem que você se sinta preterido por outro qualquer de um suposto caso extra-conjugal. Sair sozinha com as amigas, nem que seja para ir na igreja. Que você aprenda a cozinhar e de vez em quando me faça alguma surpresa nesse sentido, além, naturalmente do indefectível churrasco de fim de semana. Que você me presenteie pelo menos nas datas mais importantes e nunca, jamais, ouviu bem? se esqueça de alguma delas, sobretudo, a do meu aniversário. Que você esteja sempre disposto a me ouvir e conversar sobre todos os tipos de assunto sem pretextar cansaço ou falta de tempo. Que você tenha paciência com meu jeito de ser e não me peça toda hora para agir assim ou assado, sobretudo diante dos teus amigos, irmãos e mãe. Que não implique com as roupas que eu quiser usar quando a gente for a alguma jantar da firma, mesmo quando eu esteja acintosamente com vontade de me mostrar...
         Chegados a este ponto ambos concordaram que esta palavrinha, casamento, implicava mais perdas que benefícios e decidiram por bem revogá-la antes mesmo que entrasse em vigor, a fim de que, afastados todos os inconvenientes dessa relação formal, eles pudessem continuar a viver o amor que sentiam um pelo outro.

1 comment:

paulo c saccomori said...

Admirável. Impressionante. Maravilha de texto, a altura dos colunistas ou cronistas dos melhores jornais. Se tiver mais de onde saiu esse, é impossível que os editores não briguem pela preferência de publicar.

Um abraço