July 25, 2012

Lançamento do livro de poemas do Paulo Monteiro e outras

Ontem, dia 23/07, estivemos na Academia Passo-fundense de Letras prestigiando o lançamento do livro "eu resisti também cantando" do amigo Paulo Monteiro, o qual me deu a honra de escrever o prefácio.
O livro traz poemas inéditos do amigo, escritos nos anos 70 e 80 e distribuídos através do mimeográfo. Equipamento, pra quem não conhece, que fazia cópia de originais, a partir de uma matriz tipo papel carbono, na qual se datilografava o texto a ser reproduzido. (Taí um equipamento interessante para o amigo Miguel Guggiana reproduzir no seu blog contosdoantiquario.blogspot.com.
O livro é mais um lançamento promovido pelo Projeto Passo Fundo, graças aos recursos disponibilizados pelo fundo criado para esta finalidade, o qual é sustentado pelo produto destas vendas iniciais, pelo programa  Empresa Amiga da Cultura e pelo Clube do Livro.

Engaje-se nessa idéia! A sua participação ajuda a cultura de Passo Fundo.

Na oportunidade o Presidente da Academia, Dr. Osvandré nos trouxe os eventos que serão realizados em breve na Academia, entre eles um debate sobre a preservação do patrimônio histórico de Passo Fundo, o qual, ocorrerá, se não me engano, em 07/08/2012, nas dependências daquele sodalício.
A propósito do tema escrevi, há alguns anos, um poema, o qual reproduzo abaixo, tendo sugerido ao Presidente Osvandré na ocasião que tal peça seja lida na abertura dos trabalhos daquele evento, até para ver se conseguimos inspirar as autoridades e presentes a se conscientizarem da importância desta preservação histórica.
Segue, pois, o poema mencionado:

 
IMPÉRIO DO NOVO


Ergue-se o novo
no lugar do antigo.
Apaga-se da memória
um pouco
muito
da história
de Passo Fundo.

Casarões
que vêm abaixo
de mansinho
para não despertar
o ódio escarninho
de quem ali
também
se vê um pouco
derrubar.

Roubam o passado
comum
de um povo
de quem
nem de um ovo
ninguém se sente devedor.

Terá a propriedade
tal autoridade
para abolir
as idades
de quem as viveu?

No creo
pero
que las viviendas
no hay más,
ah, no hay!

E não há
quem as resssuscite
depois de mortas!

Como recuperar
a vida de uma casa
revelada
nos tijolos
-         gastos –
na madeira
-         carrunchada
recuperada
falquejada
pela vida?

Impossível!

O espírito que a habitou
já navegou
para outras paragens.

Desalojaram-no.

Volta para o Tempo
que é o alimento
que o mantém
por anos
em determinado
lugar.

Ainda haverá de passar
muito
até que outro espírito
habite
o novo
que derrogou o antigo.

E até lá
já não garanto
poder chegar.

by Júlio Perez




May 31, 2012

MARIA PEQUENA

Instado pelos amigos Paulo Monteiro e Miguel Guggiana, escrevi hoje o poema Maria Pequena, uma pequena homenagem a esta mártir da Revolução Federalista em Passo Fundo e que se tornou uma espécie de santa popular por conta da sua bravura e heroísmo na defesa do filho e do marido perseguidos pelos revolucionários.
Um abraço.
Espero que apreciem.


MARIA PEQUENA

(Em homenagem a Maria Meirelles Trindade, a Maria Pequena, morta em 28/11/1894 na defesa do filho e do marido, durante a Revolução Federalista, em Passo Fundo.)

Para e contempla
o que se apresenta:
é o vulto de uma santa?
a imagem de uma besta?

Não, é o espírito da Maria Pequena
que a tradição
chamou de santa
que outros
difamaram-na de puta.

Sina da mulher
da mãe
da esposa
que nos idos da Revolução Federalista
em 1894
tiraram-lhe a vida
da forma mais torta
da maneira mais bruta:
pela degola.

Prática comum
nas lidas de campo
daquela época
com as ovelhas.

E tal como uma
aquela índia se portou
na defesa do filho e do marido
pica-pau
quando o piquete maragato
lhe assediou
às margens do Arroio Raquel:
não deu um pio
do que eles queriam ouvir.

E nem depois de morta
a deixaram descansar
pois seus restos mortais
foram removidos
por medo
do que pudesse representar:
a imagem de uma santa
- do cordeiro imolado –
na defesa dos seus.

Sobretudo por aqueles
que representando o poder local
não podiam admitir
que uma bugra
filha da índia Marcelina Coema
fosse objeto
de culto popular.

E assim seus ossos
do cemitérios dos anjinhos
das mães que enterravam seus pequeninhos
junto a sepultura azul – a cor da sua primeira lápide –
foram removidos
de lá para cá
até que uma alma piedosa
-         ou nem tanto –
a emparedasse sob o altar
da catedral
de modo que culto
só viessem dar
depois de os autorizar
já que nem lápide há
no lugar
- sob os pés
do culto oficial.

Mas não puderam apagar
da memória do povo
aquela que até hoje
é considerada
a primeira santa popular
de Passo Fundo.


Com base nos relatos de Paulo Monteiro e Miguel Guggiana e ilustração de Leandro Doro.

May 14, 2012

NOVOS

Atendendo solicitações, em especial do meu amigo Miguel Guggiana e ao incentivo do Sandro Brammer, volto a postar aqui algumas criações recentes.
Andei envolvido nos úlitmos meses em revisar meu romance - Negócios de Família. Acabada esta tarefa, agora vamos pelear para viabilizar sua publicação.  Ainda estamos vendo alternativas, eis que se trata de uma obra de maior fôlego - mais de 200 páginas digitadas - que por certo consumirá um volume maior de recursos. Como a ação essencialmente se passa em Passo Fundo acho difícil que alguma editora de fora se interesse. Mas estamos na luta. Vamos ver.
Bem, lá vai então 3 poemas da última leva.
Espero que apreciem. Não deixem de comentar. O aplauso e a crítica são o incentivo do autor. A indiferença ou o silêncio, sua sepultura.
Un abraccio a tutti!

PRIMEIRO:

Tirei a pilha do relógio.
Insuportável tic tac
na madrugada.

Do relógio
a pilha tirei.

Fiz o tempo parar.

Na madrugada
cujo vento
faz lembrar
o tempo.

Desnecessário
esse matraquear.

Tic tac
tic tac
tic tac
não é coisa que se diga
em ato assim tão solene
ouvindo o tempo passar
na voz do vento.
Já o lamento
daquele insuportável mecanismo
quer o tempo
aprisionar.

Madrugada...
ainda há o que seja real
na vida.

Assim como a morte
o vento
o tempo
e a vida.

 
SEGUNDO:
 
Enquanto a tive
te protegi.

Enquanto a tive
tive a ti.

Enquanto a tive
quis assi.

Enquanto a tive.

Agora
que não estás mais aqui
já não posso
dizer assi.

Siga teu caminho
e esqueça de mi
que melhor
será assi

para nosotros.


TERCEIRO:

Rodoviária
chegadas e partidas.
Na sua maioria
jovens ansiosos
por um naco da vida.
Seu quinhão
no mundo.





 
 
 
 

March 27, 2012

Crônica Fugaz

Uma crônica genial, da autoria de um amigo - Miguel Guggiana -  que fez uma colagem com os poemas do meu livro - Fugaz Idade.
Espero que apreciem.
Un abraccio!

À Sombra do Poeta


Fim de tarde horrível. Mau tempo e trânsito infernais.  Contudo, conseguiu chegar são e salvo. Agora, devidamente instalado, olhava pela janela a Avenida Sete. Com o tempo assim sentia-se melancólico. Evocava o poeta: “A chuva é triste como minha alma; chora por dentro. Cai como uma prece no coração de Deus que se esquece dos pedidos que lhe fiz”. Lamentava a solidão: “Todos os telefones para os quais liguei estavam ocupados, usuários não encontrados, meus amigos tinham outros compromissos. Todos os telefones para os quais liguei não me deram a resposta que eu esperava – Ok, vamos tomar aquele chope! É sexta-feira. A semana acabou. Sobrevivi! E não há ninguém com quem eu possa dividir esse momento. Mulher e filhos não contam. Eles são suspeitos; vivem de mim. Os amigos ou a amante que eu queria não existem, estão ocupados ou simplesmente não foram encontrados. Sexta-feira, embriagar-se, às vezes é inevitável”.

Sorumbático, pensava: “Já não estou mais acostumado como antes a andar sozinho. Já não tenho – como antes – os sonhos que me serviam de companhia.” E de novo lhe ocorria: “Quando eu tinha todo tempo do mundo a meu favor podia fazer com ele o que bem entendesse. Hoje quando o tempo escasseia para mim já não posso dar-me ao sabor de fazer com ele o que bem entender. Vai me faltar se dele abusar e a vida escorrerá por minhas mãos. Já não posso dar vazão a toda sorte de experimentação. Cabe-me ser preciso, objetivo e assertivo nos meus propósitos de ser. De outra sorte hei de morrer antes de viver – antes de ter vivido.”

Foi quando a viu, solitária, destacando-se na balbúrdia. Quem sabe Deus não o havia esquecido?! Atenderia seu pedido?! Não seria ela o motivo para deixar de andar sozinho? Um sonho vivo a lhe fazer companhia, nesta sexta-feira. Redenção das suas vicissitudes.

“Mulher só na mesa do bar – na verdade não na de um ba,r mas na desse fenômeno moderno chamado shopping, praça da alimentação. Então, mulher só na mesa de um lugar público não tens do que te constranger. Relaxe e aproveite a solidão, o chá, o café, o chope, seja o que pediste. Faz parte de nossa condição de homens e mulheres, estarmos sós às vezes na mesa de um bar, shopping, praça da alimentação. Nenhum homem a quer? Ninguém está pensando nisso. Não tem amigos? Há homens que também não os têm. Tem medo dos inconvenientes? Não existem mais homens tão ousados. Mulher só na mesa de bar – vou chamar assim, soa melhor -, não tens do que te envergonhar”.

Arriscaria ele ser um desses inconvenientes?

Cometeria a loucura, antes que outro louco? O outro que outras loucuras podia?

Levantou-se da mesa, se encheu de coragem e pensou: “Não tenho mais medo; 40 anos não são como 20. E embora tenha perdido um tanto/muito da vida nisso nunca é tarde para descobrir; é possível ser feliz.”

Não perderia mais tempo. Aproximou-se da moça gentil que lhe... “sorriu, sorriu, sorriu/como um rio, um rio, um rio, um rio que corre pro mar, o mar, o mar, o mar. Para amar, amar, amar, amar. Foi o que sentiu, sentiu, sentiu, sentiu...”



“ - Tá esperando alguém?

- Não.

- Senta aqui, tomar uma cerveja comigo.

-É que eu já tô de saída.

- Não tem problema. Quando for pra tu sair, tu sai igual.

E assim começa a conversa que pode ser o inicio de uma nova história de amor, entre um homem e uma mulher. Uma história que pode ter um desfecho bonito, doloroso ou indiferente, ou se estender ao infinito, através das gerações que vão surgir.

O imponderável da vida e o aleatório das coisas – como elas acontecem, assim se revelam.

É só começar.”



Autor: Miguel Guggiana.

Poemas extraídos do livro Fugaz Idade, de Júlio Perez. Ed. Berthier, Passo Fundo, 2010.