May 31, 2012

MARIA PEQUENA

Instado pelos amigos Paulo Monteiro e Miguel Guggiana, escrevi hoje o poema Maria Pequena, uma pequena homenagem a esta mártir da Revolução Federalista em Passo Fundo e que se tornou uma espécie de santa popular por conta da sua bravura e heroísmo na defesa do filho e do marido perseguidos pelos revolucionários.
Um abraço.
Espero que apreciem.


MARIA PEQUENA

(Em homenagem a Maria Meirelles Trindade, a Maria Pequena, morta em 28/11/1894 na defesa do filho e do marido, durante a Revolução Federalista, em Passo Fundo.)

Para e contempla
o que se apresenta:
é o vulto de uma santa?
a imagem de uma besta?

Não, é o espírito da Maria Pequena
que a tradição
chamou de santa
que outros
difamaram-na de puta.

Sina da mulher
da mãe
da esposa
que nos idos da Revolução Federalista
em 1894
tiraram-lhe a vida
da forma mais torta
da maneira mais bruta:
pela degola.

Prática comum
nas lidas de campo
daquela época
com as ovelhas.

E tal como uma
aquela índia se portou
na defesa do filho e do marido
pica-pau
quando o piquete maragato
lhe assediou
às margens do Arroio Raquel:
não deu um pio
do que eles queriam ouvir.

E nem depois de morta
a deixaram descansar
pois seus restos mortais
foram removidos
por medo
do que pudesse representar:
a imagem de uma santa
- do cordeiro imolado –
na defesa dos seus.

Sobretudo por aqueles
que representando o poder local
não podiam admitir
que uma bugra
filha da índia Marcelina Coema
fosse objeto
de culto popular.

E assim seus ossos
do cemitérios dos anjinhos
das mães que enterravam seus pequeninhos
junto a sepultura azul – a cor da sua primeira lápide –
foram removidos
de lá para cá
até que uma alma piedosa
-         ou nem tanto –
a emparedasse sob o altar
da catedral
de modo que culto
só viessem dar
depois de os autorizar
já que nem lápide há
no lugar
- sob os pés
do culto oficial.

Mas não puderam apagar
da memória do povo
aquela que até hoje
é considerada
a primeira santa popular
de Passo Fundo.


Com base nos relatos de Paulo Monteiro e Miguel Guggiana e ilustração de Leandro Doro.

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