Se me permitires, Paulo, vou publicar aqui as respostas dos nossos diálogos. Acho que às vezes a gente encontra alguns achados que é interessante não privar os demais eventuais participantes deste blog desta conversa.
Fico deveras feliz em tê-lo como companheiro de jornada nessa tarefa ingrata da criação literária. Por outro lado, entendo perfeitamente esta tua ansiedade com relação em acumular bagagem para essa jornada. Contudo deves ter em mente que os preparativos para uma viagem quase sempre são mais trabalhosos que a jornada em si. Afinal quantas vezes não fazemos a mala enchendo-a de coisas que depois não iremos precisar? É claro, também que o contrário acontece. Mas nada que não tenha solução.
Por isso insisto: é preciso pôr-se a caminho para sentires que o terreno não é tão hostil como parece à primeira vista.
No entanto, tudo ao seu tempo, pois o modo como aconteceu comigo não me faz um mestre nisso. Foi apenas obra do acaso. Tive um insight e comecei a escrever, é tudo. Talvez aconteça contigo o mesmo, talvez aconteça de forma diferente. Mas uma coisa é certa: desejar é o mais importante. Desejar isso ardente e profundamente move o Universo na nossa direção. As coisas começam a conspirar a nosso favor e quando vês, bum, aconteceu: o conto está escrito, o romance começado e está bom. Enfim, não há muito mistério. Amar se aprende amando. Creio que com escrever não seja diferente.
Acho que não devemos tratar a literatura com tanta veneração. Com rigor, é claro. Com exigência. Mas não devemos a tratar como uma deusa inacessível, uma mulher idolatrada. Afinal, como a mulher amada, a literatura também quer ser tratada como uma mulher apenas: deseja ser possuída. Para isso devemos abandonar o excesso de conceitos que tenhamos na cabeça sobre isso e aquilo. Apenas temos de ser honestos e verdadeiros, pois na arte como na cama, chega uma hora que não dá mais para fingir. Ou se dá ou não no couro.
Sobre isso, aliás, me ocorre um poema que escrevi outro dia. Um poema que fala sobre ter de se despir todas as noites para dormir, como se isso fosse um compromisso que todas as noites um homem tem consigo mesmo. O compromisso de falar a verdade, nem que seja só nessa hora - " nu diante da vida".
ARMADURA DO DIA
Dispo a armadura do dia
formada
por tudo o que tenho
nos bolsos
nos pulsos
nos pés
sobre o corpo
e retoma
a forma essencial
de existir:
nu diante da vida.
É isso aí, my friend.
Viu como às vezes sai umas coisas legal dessas nossas conversas?
Um abraço.
1 comment:
Julio,
as tuas metáforas estão afiadas e inspiradas. Realmente poucas coisas na vida merecem nossa veneração, além da própria vida. No meu caso, tento fazer da literatura/conhecimento mais do que apenas uma forma de passar o tempo prazeirosamente; não acredito que seja veneração, ao menos não no sentido religioso do termo, apesar de sentir às vezes perigosamente próxima aquela frase do Kafka “tudo o que não é literatura me aborrece”, o que com certeza deveria preocupar-me mais do que de fato preocupa.
Muito certo o que você falou quanto a pôr-se a caminho. Qualquer projeto de vida se realiza assim, não adianta ficar só lendo ou ruminando idéias e se escrever de fato é a meta ou a essência anímica, vai acabar acontecendo, é isso que eu vejo no conselho do Rilke, “escrever se for impossível viver sem isso”, acho até que se não for nesses termos se estará em pecado contra o que há de sagrado na vida, na medida em que as longas horas de labuta na escrita – muitas vezes ingrata – são tempo subtraído ao viver e provavelmente não se estará escrevendo boa literatura, porque essa principia numa genuína vocação ou disposição do autor.
Escrever é o que há de mais difícil, criar do nada, do branco da folha ou da tela, toda uma cosmologia, personagens coerentes e ainda um enredo que amarre tudo de forma original, criativa e desemboque num desenlace não menos que vibrante (ainda que os romances em geral pareçam um tanto “volúveis” no final, ou melhor, o final não tem propriamente um caráter de arremate – a não ser no romance policial e histórico), tudo isso pode até fazer crer que a literatura talvez seja, dentre as artes humanas, a forma mais difícil.
Um abraço.
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