April 06, 2007

Oi!

Ontem estava revisando minhas poesias mais recentes e me deparei com alguns poemas que verdadeiramente falam ao meu coração.
Uma delas é Decalque que acho que não publiquei ainda aqui.
Vou publicá-la.
Vejam o que vocês acham.
Um abraço
J.

DECALQUE

Falseio
a vida.
Decalco
em letras
minha emoção.
Aprisiono
o instante
fugitivo
mesmo sabendo
que o vivido
é irredutível
à comunicação.
Mas tento
mesmo assim
ainda
que em vão.

Essa é a missão
do poeta
seja nela
bem sucedido
ou não.

3 comments:

Anonymous said...

Amigo Julio

De fato esse excesso de tesão/tensão pela leitura e conhecimento que noto em mim está mais para o patológico, é talvez antes a expressão particular da minha “fuga” do que outra coisa. Na medida em que eu não lecione, não debata, não escreva uma tese ou ensaio, não participe minhas leituras de alguma forma, etc., elas realmente acabam parecendo ser um fim em si. Mas não é esse o meu objetivo, ao menos até onde eu possa acompanhar minha intenção consciente. O valor da leitura como “fuga” é uma parte da questão e deve ocorrer em alguma medida com qualquer um que lê, mas eu ouso acreditar que as leituras que faço irão me valer algum dia para algo a mais. Na medida em que eu vejo a leitura como um caminho quase inevitável para quem quer se tornar escritor, vejo-a também como uma necessidade vital equivalente àquela que Rilke considera como o sinal inconfundível de um poeta/escritor.

O conceito de “arte pela arte” me foge um pouco, é um tanto estético/filosófico, mas “grosso modo” suponho que expresse a noção de arte como um fim em si mesma e nessa medida é pouco defensável. A verdadeira arte, pra quem a produz e pra quem a contempla depois, é um dos momentos raros em que o homem consegue alçar-se acima da mera “animalidade” ou, como disse Drummond, “é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade da sua condição.” Só por isso a arte/literatura já teriam suficientemente provados seu valor e seu direito privilegiado à existência.
Creio que a arte seja amoral, ela não melhora o mundo, possivelmente até o piore (a influência do cinema e da televisão, por exemplo, eu acho que é mais deletéria sobre a sociedade do que benéfica). Não se pode esperar das obras de arte um fim propedêutico ou educativo. O critério de valor postulável para apreciar arte é o “estético” (H. Bloom)... Valores políticos em geral, ecológicos, defesa de minorias, o politicamente correto, filantropias, até mesmo o humanismo de forma geral, devem absolutamente prescindir da arte para sobreviver, pois essa lhes é estranha, tendo compromisso apenas com a “beleza” (veja o exemplo da arte “engajada”, o empobrecimento que ela revela nas artes plásticas da Rússia revolucionária, a aridez cultural dos momentos históricos em que há censura de qualquer espécie, etc.)

Admito que a arte tenha um valor social de “descontração e puro jogo”, naquelas eventualidades (férias, feriado prolongado, etc.) em que alguém se debruça sobre o “estranho objeto-livro” com o fito de obter alguns momentos de passatempo ou lazer e vejo que essa é mesmo a pouca utilização que a sociedade mercantilista e industrial em que vivemos dá à arte/literatura, como se ela fosse aquele parente incômodo que é mantido escondido nos fundos da casa para que nunca seja visto, exceto quando é impossível evitar e então vem à luz provocando certo assombro, mas acho sinceramente que isso é diminuir muito, mediocrizar demais o seu verdadeiro valor ou, no mínimo, o valor que nós pessoas mais “cultas” deveríamos atribuir a ela.

É difícil mensurar o valor da arte, a maioria da humanidade nasce e morre sem saber até que ela existe (quantos passarão pela vida sem terem lido ao menos um poema...).
Na medida em que ela for um veículo para “uma iluminação, uma visão mais profunda da vida”, ela já terá sido o mais importante, pois raramente podemos obter isso de outra forma.
“Certamente nada disso é importante: o mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem.” (SARTRE).

Um abraço

Poeta Passo Fundo said...

Paulo, não me interprete mal. Admiro em você esse tesão pela cultura e pelo conhecimento que acho é bem maior que o meu. Nunca duvidei enxergar em ti a figura típica do intelectual. Eu diria até - e esta é uma opinião minha, estritamente pessoal - que tu estás mais perto da cultura e do conhecimento do que eu, pois tu, me parece, acietaria manter uma relação não orgânica com o conhecimento. Me expico: quando eu falo de relação orgânica com algo quero dizer uma relação de troca com essa coisa, ou seja, mantenho a relação com ela enquanto ela for para mim fonte de prazer e satisfação. Mas vejo que para alguém tornar-se um profissional em qualquer área que seja é preciso muito mais do que isso. É preciso mesmo levar adiante essa relação até quando ela já não nos dê aquele prazer primeiro. E acho que são essas pessoas que carregam o piano da cultura e do conhecimento, os responsáveis, como os escribas da Idade Média, em passar às próximas gerações o conhecimento herdado.
Mas, no meu caso, eu almejo algo mais. Almejo a criação, o novo. Aquilo que o escultor vê num bloco de pedra ou madeira, o pintor na tela em branco, o escritor diante da tela do computador. O momento mágico de trazer ao mundo uma forma nova, dar-lhe à luz e vê-la a começar andar com as próprias pernas. E para isso não é preciso muito em termos de acumulação de conhecimento e cultura. Basta ter eleito alguns bons, aqueles que lhes servirão de mestres durante o caminho, dominar as técnicas adequadas, possuir um estilo próprio e uma forma original de ver a vida para levar a adiante esta empreitada.
Gosto muito da imagem do guerreiro solitário e leve. Leve porque tem em sua bagagem algumas poucas armas letais as quais maneja com exprema habilidade e tira delas tudo o que elas podem lhe dar e até mais, de modo a levar a bom termo a sua missão. Pois o guerreiro como o espachim não deve se sobrecarregar de armamentos de modo a se tornar lento e pesado. Deve possuir um estilo leve e agradável de lutar - de escrever - de modo que com poucas estocadas possa atingir o coração do seu oponente - o leitor.
Essa é uma imagem que me seduz e que eu almejo na vida como um ideal de vida e arte.
Nenhum conhecimento é teu até que tu não o tenha feito assim. E isso demanda esforço, e um fígado poderoso para deglutir as obras que aprecias. Nenhum homem é capaz de amar a todas. Algumas terás que eleger como aquelas que lhe farão companhia pelo caminho e pôr à marcha.
Quando eu comecei a ler, logo se tornou muito claro para mim o que queria. Eu queria formar um gosto literário. Ter a capacidade de identificar num autor aquele que me falasse à alma em apenas algumas páginas de seu romance, conto ou poesia. Pois para mim logo ficou muito claro que ter um gosto literário era o primeiro passo para criar uma comunidade de pensamentos com esses autores e elegê-los como os modelos a buscar, imitar, emular e se possível superar no meu esforço para me tornar também um autor. Essa é tarefa finita. Logo chega um ponto que se esgota e então você tem de partir para uma nova fase de relacionamento com o conhecimento: a fase que você passa do lado de espectador para ator, de leitor para escritor, do lado de cá para o lado de lá. E essa é uma das fases mais empolgantes da vida de um escritor. Aquela em que você restabelece uma relação orgânica com o conhecimento, sempre renovado pela capacidade de criar de cada um.
Há momento estéreis, mas há momento fecundos. O importante é não temer os desertos, pois haverá as florestas, as cidades, os parques de diversão e saber que os desertos, às vezes, são importantíssimos como momento de silêncio, de recolhimento em que o novo se gesta. Mas isso, é claro, depende da capacidade de cada um em lidar com a ansiedade, o medo de ter ficado mudo, etc. E além de tudo há essa bosta da mercantilização do conhecimento, o novo pelo novo, a pressa em produzir, o consumo... Mas isso é outra história.
Um abraço
J.
PS: me diz uma coisa. Recebeste o conto - ou causo - que te mandei pelo email sobre a operação do Neronte? O que achou? Uma bosta? Tá tranquilo, sou forte para as críticas também.

Anonymous said...

Amigo Julio,

Concordo com muito do que você replicou e revejo que expressei mal algumas coisas (a beleza e a leveza do teu texto iluminaram o caminho).
Minha ênfase quase panfletária talvez se deveu em parte ao tanto de surpresa que a tua manifestação me causou, pois eu geralmente achava que você militasse com mais ênfase desse lado da trincheira no tocante ao assunto leitura. Entretanto, devo admitir que provavelmente você esteja certo na descrição do que é necessário pra se tornar escritor e o acúmulo de leitura pode não passar de um excesso de bagagem.

Quero esclarecer que a minha tesão por conhecimento é relativa porque em geral não me interessa aprofundar muito alguma ciência, ainda que a leitura sobre elas me interesse. Aquela monomania que o Einstein fala numa carta, ou seja, dedicar-se integralmente a uma ciência, me parece um desperdício da vida (certamente a leitura e provavelmente a escritura também o sejam). O que quero dizer é que o conhecimento me interessa na medida em que possa me capacitar pra escrever, ou seja, numa passada de olhos, geralmente rasteira, num esvoaçar sobre, sem propriamente a profundidade, o que é requisito para o especialista. Assim, não consigo me ver como o intelectual típico que você descreve, mas sim como um inquieto apreciador-amador quase sempre tentado a saber mais. Até já procurei passar daquele limite que você refere (do prazer e do contato “não-orgânico” com o conhecimento), mas não perseverei, o que me exclui definitivamente do gênero “escriba” ou “carregador de piano da cultura”. Ou seja, minhas leituras também se guiam basicamente pela busca de prazer. Resumindo, o que me mexe de fato com minha essência e sempre me interessou também é a criação, desde os 12 ou 13 anos quando eu tentava imitar as estórias infanto-juvenis que lia e sempre se renovando depois a cada leitura empolgante (talvez a leitura seja um subterfúgio enquanto não consigo criar literariamente). Não consigo ver com nitidez, mas talvez a vontade de escrever tenha precedido e alimentado a de ler.
Uma coisa, no entanto, que sempre me intrigou é notar que todos os bons autores que conheço foram leitores, quando não vorazes, no mínimo habituais. Pode ser mera coincidência, mas pra mim funciona com o poder de uma evidência ou, no mínimo, forte indício (o que não quer dizer, é claro, que todo leitor vá ser um escritor). Talvez a leitura habitual conduza à formação da personalidade numa outra têmpera, com uma sensibilidade mais afinada e isso acabe sendo essencial ao escritor, talvez apenas o municie de assuntos...
Ao mesmo tempo, noto com uma convicção sempre maior que falar ou defender a leitura é claramente pregar no deserto, muito mais nos tempos atuais, com todo excesso de distrações e divertimentos pra todo lado. A dicotomia “viver X ler/escrever” é hoje mais palpitante do que nunca.
Resumindo, pode-se dizer que a leitura é fenômeno raro, com exceção daqueles profissionais que têm nela a sua ferramenta, os quais lerão livros de sua especialidade, daquela legião que lê auto-ajudas e esoterismos diversos e daqueles que lêem muito eventualmente – em geral best-sellers da hora – naquele regime de passatempo ou contato passageiro com o estranho objeto-livro, como falei da outra vez (férias, feriado, fim de semana bissexto, etc.). A leitura à moda antiga, clássica, referida pelo “último dos moicanos” H.Bloom não existe mais.

A tua intuição do guerreiro veloz ou leve é maravilhosa e deve ser certa, só não acredito no excesso de leveza. Certa também a idéia de selecionar autores preferidos e mesmo inevitável nessa época adiantada da história em que estamos, quando só de “clássicos” temos infinitos autores, o que dizer então de “modernos”.

Enfim, Julio, no fundo acho que devemos usar o pouco tempo vago que o emprego e a família nos permitem naquilo que mais interessa ou dá prazer, como ao fim e ao cabo é o que viemos fazendo.
Um abraço.

p.s.: estou relendo o conto para comentar por e-mail.