September 26, 2007

Mais um conto das antiga

Encorajado pelo elogio do meu amigo Paulo ao conto anterior - Casamento - vou publicar mais um conto - ou crônica - daqueles antigos.
Escrevi esse numa época muito interessante da minha vida, afinal as dificuldades nunca me impediram de sonhar e foi a época em que mais criei. Tento recuperar esse fôlego mas até agora não consegui. Mas não esquento. Talvez esteja vivendo também agora um momento mágico do qual amanhã sentirei saudade. A gente nunca sabe quando uma coisa pode melhorar ou piorar. Na dúvida, curtamos o que estamos vivendo.
Até!
Espero que gostem.

COMO UMA LATA ARRASTADA PELA CORRENTEZA

A chuva me pegou de surpresa. Tinha ido até o centro comprar qualquer coisa da qual nem me lembro mais o que era e na volta uma chuva miúda começou a incomodar minha calva, já rala nos últimos cabelos. Fiquei nos nervos por ter tão poucos cabelos. A menor chuva me incomodava. E só porque eu me revoltava contra aquela ninharia que a chuva pareceu de súbito engrossar como se me repreendesse por estar sendo tão injusto comigo mesmo: ninguém é culpado por ter perdido os cabelos tão novo. Assim tive que me sujeitar ao que detesto: esperar a chuva passar embaixo de uma marquise quando já o fato de ter saído de casa com tempo bom me incomodava. Agora mais esta - penso, enquanto os carros deslizam no asfalto - um língua escorregadia e negra lambuzada de luzes tremeluzentes.
O despropósito de estar ali sob a marquise aguçava meus sentidos aos pequenos acontecimentos que iam se processando a minha volta. De repente, uma lata vazia de refrigerante passa por mim levada pela água da chuva acumulada ao lado da calçada. Batendo no asfalto sob ela parecia incomodada também por ter sido tirada do seu lugar e estar sendo levada agora para a boca ameaçadora de um bueiro. É como se até as forças da natureza conspirassem com a civilização para manter a cidade limpa. Como eu, tinha sido tirada de circulação pela chuva. Só aí é que me lembrei dos pensamentos que há pouco tinham-me ocorrido a respeito do que representava ser um membro desta comunidade com a qual sinto-me tão pouco privar. A necessidade de ser um pouco louco em algum sentido para ser normal em todos os outros. Só então compreendi o que significa para mim ter esta mania: escrever. Este é o meu ópio como para outros é jogar futebol, tomar o seu trago, correr de carro nas madrugadas, fazer sexo como um louco. Tudo isso são válvulas de escape desta sociedade que não oferece aos seus membros a satisfação naquilo que fazem na maior parte do seu tempo. São todas formas de loucura ou desvio de conduta sem as quais esta organização viria abaixo. Então fico pensando: qual o objetivo desta sociedade se não é para dar satisfação aos seus membros? Só a apatia e a omissão da maioria deles podem ser responsáveis por este estado de coisas se perpetuar Porque não faz nenhum sentido que isso continue assim. Não pelo menos para aqueles que chegaram a alguma espécie de amadurecimento da consciência. A dignidade da vida e a incomensurabilidade de suas dimensões parecem tornar inacreditável que o homem se submeta a ser arrastado pela correnteza como esta lata de refrigerante, contra a sua vontade. No entanto ele o é e muitos mesmo sequer reclamam disso como esta latinha faz batendo nas pedras salientes do asfalto.
Temos uma dignidade menor do que a deste objeto destituído de vida e cujo único poder é o da inércia?
Reluto em acredita.
Mas não posso deixar de evocar essa sensação, por estar por um fio entre a loucura e a sanidade. E sobre isso recordo o esforço que fiz para parecer normal para a garota que me atendeu na fruteira depois desta constatação. Fiquei por dois segundos hesitante se devia levar ou não as mangas que ela pesava. Elas iam me custar cinco reais e diante do abuso do preço senti que não valia a pena. Recusei com naturalidade, mas tive vontade de levar apenas uma. Desisti em seguida, porém. Para dirimir qualquer má impressão, acrescentei:
- O Real agora vale, né?
Mas devo ter parecido pouco convincente porque ela não se deu ao trabalho de concordar comigo. Saí por fim incerto sobre a impressão que deixava no ambiente.
Enfim, estas sutilezas complicam a minha vida e o princípio da realidade acaba sempre se impondo quando se trata de privar com os demais.
Afinal também não podemos esquecer que o homem tem afetos. O que talvez explique porque as aberrações de que estava falando podem se perpetuar.

September 22, 2007

Reconsideração

Tenho que reconsiderar minha decisão de não publicar mais aqui.
Me afeiçoei a esse espaço. Senti falta de postar aí minhas novas produções. Sei lá. Aqui me sinto mais seguro de postar meus novos contos, poemas e crônicas. A visualização deles a qualquer momento me infunde mais certeza de que eles estão ali e não perdidos no espaço virtual, como às vezes acontece com o overmundo.
Me motivou também retomar esse espaço o fato de que estou firmemente determinado a me tornar um escritor.
Estou retomando coisas que escrevi há dez anos ou mais, numa época em que eu ainda me sentia inseguro diante da vida, diante da carreira por escolher, diante da família por cuidar. Tive de abandonar em 95 o período mais profícuo da minha vida quando produzi um volume absurdo de contos, pensamentos, poemas e otras cositas más.
Sabia que um dia os iria retomar. Quando minha vida se definisse melhor. Acho que esse momento chegou. Estou retomando os contos que escrevi nessa época.
Hoje passei um a limpo. Não mudei praticamente nada. Apenas fiz algumas correções ortográficas e só. Me surpreendi positivamente com a sua qualidade. Veja se vocês concordam comigo.

CASAMENTO

De repente a constatação: elas me deixaram! Ocorreu-me isso de súbito, a partir da quarta hora de ausência delas. Jamais elas demoram assim. Tinham dito que iam ao mercado. E o mercado é aqui perto. Em duas horas, no máximo, já deviam estar de volta. Fui até lá para me certificar: nem sinal delas. Não que isso me desespere. É claro que ser deixado não é de maneira nenhuma uma sensação agradável. Mas nesse primeiro momento o que sinto é a liberdade, a imensa liberdade de estar só. Antes, aquela eterna confusão aqui em casa, as crianças se engalfinhando, ela gritando com elas e eu apenas querendo escutar o noticiário, ler um pouco ou escutar meus cds. Agora tudo isso me é franqueado com uma naturalidade assustadora. De tão empolgado sequer sei o que fazer antes. Primeiro quando elas me disseram que iam ao mercado e não fizeram questão que as acompanhasse, até estranhei, mas depois senti a euforia da libertação, nem que fosse apenas por algumas horas. Mas agora que já fazem umas cinco hora que saíram e ainda não voltaram começo a me dar conta que meus dias de pai de família, homem casado, compromissado e devidamente bem amarrado talvez tenham chegado ao fim. Me assusta um pouco esta perspectiva. Por outro lado, aquela sensação de pavor inicial amaina e dá lugar a uma sensação nova. A sensação de liberdade, ter o mundo aos seus pés, todas as possibilidades em gestação, como uma grande bolha, viva e quente, pulsando como um grande coração. Furá-la com a ponta do dedo e a penetrar começa a me instigar como aventura fascinante. Começo a pensar em tudo: pra quem ligar, pra onde sair, o que usar, rever meus hábitos e conceitos. Por outro lado, também é preciso não ter pressa. Afinal de contas, agora o tempo está do meu lado - time is on my side.
Não é à toa que penso dessa maneira. Há muito tempo nosso casamento já não era o mesmo. Brigávamos por nada, e não tínhamos mais o que conversar. Frequentemente ela me ameaçava, dizendo que iria embora com as crianças. Eu não levava a sério, mas um dia ela foi mesmo, sem me avisar. Ficou uma semana na casa dos pais, no interior. Fiquei preocupado que não voltasse mais. Fui até lá. A gente acabou se entendendo de novo e voltamos, sobretudo por causa das crianças que não se acostumavam com minha ausência. Mas agora acho que é pra valer. Eu também procuro minha felicidade. De repente ser livre de novo se tornou vital para mim. Não conseguia fazer o que gosto, não conseguia manter uma amizade. A vida familiar se tornou sufocante para mim. A decisão dela, acho, representou a decisão que eu não tive a coragem de tomar. Será melhor para todos nós.
Agora preciso ver o que farei primeiro.

- Marcelo, é o Ivo. Tem compromisso hoje de noite?
- Ivo? Que milagre! Achei que tinha perdido um amigo.
- Pois é, sabe como é que é... Essa vidinha de pai de família...
- Tá sozinho?
- Como que você advinhou?
- Ora, para você me ligar pra sairmos juntos, só se ela te deu uma folga.
- Na mosca! Acho que ela me deixou de novo. Só que agora eu não vou mais atrás.
- Bem que faz! Você tem que viver mais, cara. Esses anos todos você tem se dedicado demais a essa família. Se dá um tempo.
- É isso aí. E então? Tem compromisso?
- Pois é cara. Se tu tivesse ligado antes. Agora já tá tudo armado com a Norminha. Nós vamos jantar na Pizzaria do Zebra. Mas se tu quiser pintar por lá...
- Não, não... Que é isso companheiro? Eu ficar segurando a vela pra vocês? Só o que me faltava. Não tem problema, não. Eu me arranjo.
- Quem sabe a gente não sai amanhã? Eu consigo um habeas corpus com a Norminha.
- Iiih, já tá assim, cara. Olha, abre o olho, hein. Quando menos espera tu também tá enrolado. Que nem eu.
- Tu acha?
- Tô te falando. Começa assim. Tu tendo que impetrar um habeas quando solteiro... Depois de casado nem com ordem judicial tu consegue sair de novo.
- É... bicho. Pior que é isso mesmo... As mulheres são todas iguais. Querem exclusividade até com os amigos da gente.
- Ééé... vamos deixar assim. Amanhã, se for o caso, eu te ligo ou tu me liga. Tá combinado?
- Sem erro. Ah, vê se sai, hein? Não vai ficar aí amarrando o bode só porque está sem companhia. Não se preocupa comigo. Vai lá e curte a tua noite. Até!

É isso aí. A gente assume uma vida de casado. Muda de hábitos, perde o contato com os amigos e depois quando quer voltar,. é difícil se entrosar de novo. Talvez ficar em casa, curtir um filminho na TV também não seja uma má idéia, afinal de conta agora eu não tenho que dar satisfação da minha vida a ninguém. Se quiser, inclusive,. levar uma uma vida de ermitão, quem se oporá a isso? Estou cansado de tentar parecer normal. Se trabalho, ganho meu sustento honestamente, pago minha contas, não devo nada a ninguém. Agora, se eu quiser andar de cuecas dentro de casa, plantar bananeira no meio da sala, quem me dirá que não, que isso é feio, não é normal?
É essa parte da liberdade que me agrada. Na vida, a gente tem que seguir tantas regras. Em casa quero ser eu mesmo, me libertar de todas as amarras, viver intensamente todas as possibilidades. Casar, de repente, representou para mim trazer para dentro de casa as normas sociais. É claro que isso me ajudou a vibrar no mesmo nível do meu meio, mas a partir de determinado ponto isso também deixou de ser importante. Afinal de conta, perdi o medo de mim mesmo. Já me sinto mais seguro de ser eu mesmo sem ter o medo que disso resulte um bicho, um monstro ou um assassino. Exorcizei meu demônios. Agora quero viver.

É, o melhor é sair mesmo. Tem razão o Marcelo em me dizer isso. Ficar em casa nesse momento seria dar chance ao azar, quer dizer, começar a pensar na família, no vazio deixado por elas. Só saindo, encontrando gente nova para justificar essa minha ânsia por uma vida nova. Ficar em casa seria representar o papel do passarinho preso depois da porta da gaiola ter sido aberta.

- Mello? É o Ivo. Vai sair hoje a noite?
- Ivo! É você, cara?! Quanto tempo!
- Pois é. Sabe como é que é... Me diz: qual é o programa hoje?
- Cara, nem me fala. Hoje eu quero é ficar em casa. Depois de ontem... a maior zorra. Hoje, cama cedo.
- Poxa, que bola fora!
- Mas me diz: e a patroa?
- Não sei.Saiu. Acho que foi pra casa dos pais de novo. Levou as crianças.
- De novo, cara?! E agora? Que tu vai fazer? Não vai me dizer que vai atrás dela de novo? Chega, né, bicho! O casamento de vocês, faz tempo que vem nesse chove não molha. Me desculpe a franqueza, mas acho que tu também tem que assumir uma posição.
- Pois é cara... tu sabe... as crianças...
- Mas, bicho, pensa bem. As crianças crescem. Elas acabam entendendo. Mas vocês têm que se dar uma segunda chance.
- Não, quanto a isso tá tranquilo. Só que eu preciso me encontrar de novo, né cara. Por isso tô ligando. Mas já vi que eu estou completamente fora de forma. O Marcelo também já falou que tá em outra hoje.
- Olha, cara, eu teria o maior prazer em te acompanhar hoje nesse reingresso na velha vida, mas é que realmente hoje eu tô pregado. Ontem foi demais e hoje eu quero repor as energias. Mas, oh, se tu quiser passar por aqui pra levar um lero não tem galho. Eu só não quero é sair. Não vou dormir assim tão cedo. Ok?
- Olha, cara, vamos deixar assim. Quem sabe amanhã a gente se fala. Eu também não estou com esse tesão todo para sair. Era só para recomeçar de novo, aos poucos, sabe como é que é: tou destreinado.
- Que nada, cara. Logo tu entra em forma de novo. Se tu quiser vou tar em casa, falô?

De novo outro carão. Definitivamente estou sem programa. De qualquer maneira, vou sair. Dar um rolé pela city ver se encontro alguém. Ir começando de novo, sem estress.
Pronto. Agora é só ver o efeito que causo. Roupinha toda em cima, perfume, gel no cabelo, grana no bolso. Só resta saber onde é o point da cidade.
No entanto, quando vou abrir a porta:
- Oi querido, demoramos? Também nem sabe quem encontrei no mercado? A Vilminha, lembra? A Vilminha do Euclides. Foi aquela confusão. Beijinhos pra lá, beijinho pra cá. E ela fez questão que eu fosse até a casa dela. Cheguei até a esquecer da hora e de te avisar. Ué? Vais sair?
- Nãooo... Quem? Eu?

Nos separamos uma semana depois.

September 11, 2007

Good Bye!

Estou inclinado a deixar de manter este blog. Estou publicando no site overmundo, o qual tem me dado mais retorno. Aqui a exposição é pequena, o retorno quase nenhum. E um artista, sabe-se, vive do seu público. Quando este falta, seca-se-lhe a voz, crispa-se a mão, cai dela a caneta, o pincel ou o cinzel. Emudece a criação.
Está na hora de partir. Outras plagas alcançar... só me resta agradecer quem me leu este tempo e pôs, aqui e ali, um comentário.
No overmundo há mais troca. Tem sido mais instigante para mim.
Não digo que não voltarei, mas há um forte movimento para não olhar para trás.
Hasta...

September 06, 2007

3° Poema

RAIO

A nuvem que segura o raio
transita sobre a terra
várias vezes
antes de o despejar.
Quando o faz
descarrega a carga
- mortífera
mortal –
que guardou durante meses
semanas
e dias.

Assim a palavra
da boca de Deus
do poeta
e do orador:
alveja com precisão.

September 04, 2007

2° Poema

Da minha última produção - 3 poemas - lá vai o segundo. Simples. Como simples, quiçá, é a vida.

ESTAÇÕES

O verão se acerca.
As tardes se alongam.
O espírito
junto com o corpo
se distende
fugindo
dos rigores do frio.
Depois do recolhimento de meses
é bom se deparar
com horizontes
que se alongam
no espaço
e no tempo.
A liberdade de movimento
induz à meditação.

O frio é bom
porque faz
ansiar o verão.

September 02, 2007

Olá

Depois de ler o Galera - Daniel Galera, em seu primeiro livro, Dentes Guardados, de contos - ando meio assombrado com a prosa.
Fazia tempo que ninguém me assombrava desse jeito, sobretudo um autor vivo. Autor, aliás, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente por ocasião da Jornada de Literatura. Não, porém, por causa da Jornada, mas por causa do show do Cachorro Grande. Aliás, estes, outros jovens que, igualmente ao Galera, dão-me esperança de que os babacas não irão dominar o mundo.
A prosa vigorosa do Galera nesse livro - que pode ser baixado via internet, basta digitar Daniel Galera no google - fez-me rever meus conceitos sobre prosa. Quando manejada por quem entende do ofício ela se torna dúctil como o barro na mão do escultor.
O que me leva, de novo, a desejar a poesia. Gênero em que, creio, tenho alguma chance.
Por conta disso e de duas garrafas de vinho, hoje, produzi, 3 novos poemas.
Vou publicá-los aqui.
Um de cada vez.
Veja o que "oceis" acham do primeiro.

CÃO SEM DONO

Teu poder de sedução
me faz rastejar
como um cão.
Lamber tua mão
sequioso do alimento
que podes dar.

É o que pensas
pelos dons
com que a natureza
te dotou.

Te enganas...
pois posso dizer
não.

Preservar
a independência
de cão
- sem dono -
que prefere comer do lixo
do que viver
nessa prisão
de beleza
e sedução.


Uma associação, talvez inconsciente, entre o segundo livro do Galera - Até o dia em que o cão morreu e o título do filme do Jorge Furtado baseado nesse livro, Cão sem Dono. Vai entender...