September 22, 2007

Reconsideração

Tenho que reconsiderar minha decisão de não publicar mais aqui.
Me afeiçoei a esse espaço. Senti falta de postar aí minhas novas produções. Sei lá. Aqui me sinto mais seguro de postar meus novos contos, poemas e crônicas. A visualização deles a qualquer momento me infunde mais certeza de que eles estão ali e não perdidos no espaço virtual, como às vezes acontece com o overmundo.
Me motivou também retomar esse espaço o fato de que estou firmemente determinado a me tornar um escritor.
Estou retomando coisas que escrevi há dez anos ou mais, numa época em que eu ainda me sentia inseguro diante da vida, diante da carreira por escolher, diante da família por cuidar. Tive de abandonar em 95 o período mais profícuo da minha vida quando produzi um volume absurdo de contos, pensamentos, poemas e otras cositas más.
Sabia que um dia os iria retomar. Quando minha vida se definisse melhor. Acho que esse momento chegou. Estou retomando os contos que escrevi nessa época.
Hoje passei um a limpo. Não mudei praticamente nada. Apenas fiz algumas correções ortográficas e só. Me surpreendi positivamente com a sua qualidade. Veja se vocês concordam comigo.

CASAMENTO

De repente a constatação: elas me deixaram! Ocorreu-me isso de súbito, a partir da quarta hora de ausência delas. Jamais elas demoram assim. Tinham dito que iam ao mercado. E o mercado é aqui perto. Em duas horas, no máximo, já deviam estar de volta. Fui até lá para me certificar: nem sinal delas. Não que isso me desespere. É claro que ser deixado não é de maneira nenhuma uma sensação agradável. Mas nesse primeiro momento o que sinto é a liberdade, a imensa liberdade de estar só. Antes, aquela eterna confusão aqui em casa, as crianças se engalfinhando, ela gritando com elas e eu apenas querendo escutar o noticiário, ler um pouco ou escutar meus cds. Agora tudo isso me é franqueado com uma naturalidade assustadora. De tão empolgado sequer sei o que fazer antes. Primeiro quando elas me disseram que iam ao mercado e não fizeram questão que as acompanhasse, até estranhei, mas depois senti a euforia da libertação, nem que fosse apenas por algumas horas. Mas agora que já fazem umas cinco hora que saíram e ainda não voltaram começo a me dar conta que meus dias de pai de família, homem casado, compromissado e devidamente bem amarrado talvez tenham chegado ao fim. Me assusta um pouco esta perspectiva. Por outro lado, aquela sensação de pavor inicial amaina e dá lugar a uma sensação nova. A sensação de liberdade, ter o mundo aos seus pés, todas as possibilidades em gestação, como uma grande bolha, viva e quente, pulsando como um grande coração. Furá-la com a ponta do dedo e a penetrar começa a me instigar como aventura fascinante. Começo a pensar em tudo: pra quem ligar, pra onde sair, o que usar, rever meus hábitos e conceitos. Por outro lado, também é preciso não ter pressa. Afinal de contas, agora o tempo está do meu lado - time is on my side.
Não é à toa que penso dessa maneira. Há muito tempo nosso casamento já não era o mesmo. Brigávamos por nada, e não tínhamos mais o que conversar. Frequentemente ela me ameaçava, dizendo que iria embora com as crianças. Eu não levava a sério, mas um dia ela foi mesmo, sem me avisar. Ficou uma semana na casa dos pais, no interior. Fiquei preocupado que não voltasse mais. Fui até lá. A gente acabou se entendendo de novo e voltamos, sobretudo por causa das crianças que não se acostumavam com minha ausência. Mas agora acho que é pra valer. Eu também procuro minha felicidade. De repente ser livre de novo se tornou vital para mim. Não conseguia fazer o que gosto, não conseguia manter uma amizade. A vida familiar se tornou sufocante para mim. A decisão dela, acho, representou a decisão que eu não tive a coragem de tomar. Será melhor para todos nós.
Agora preciso ver o que farei primeiro.

- Marcelo, é o Ivo. Tem compromisso hoje de noite?
- Ivo? Que milagre! Achei que tinha perdido um amigo.
- Pois é, sabe como é que é... Essa vidinha de pai de família...
- Tá sozinho?
- Como que você advinhou?
- Ora, para você me ligar pra sairmos juntos, só se ela te deu uma folga.
- Na mosca! Acho que ela me deixou de novo. Só que agora eu não vou mais atrás.
- Bem que faz! Você tem que viver mais, cara. Esses anos todos você tem se dedicado demais a essa família. Se dá um tempo.
- É isso aí. E então? Tem compromisso?
- Pois é cara. Se tu tivesse ligado antes. Agora já tá tudo armado com a Norminha. Nós vamos jantar na Pizzaria do Zebra. Mas se tu quiser pintar por lá...
- Não, não... Que é isso companheiro? Eu ficar segurando a vela pra vocês? Só o que me faltava. Não tem problema, não. Eu me arranjo.
- Quem sabe a gente não sai amanhã? Eu consigo um habeas corpus com a Norminha.
- Iiih, já tá assim, cara. Olha, abre o olho, hein. Quando menos espera tu também tá enrolado. Que nem eu.
- Tu acha?
- Tô te falando. Começa assim. Tu tendo que impetrar um habeas quando solteiro... Depois de casado nem com ordem judicial tu consegue sair de novo.
- É... bicho. Pior que é isso mesmo... As mulheres são todas iguais. Querem exclusividade até com os amigos da gente.
- Ééé... vamos deixar assim. Amanhã, se for o caso, eu te ligo ou tu me liga. Tá combinado?
- Sem erro. Ah, vê se sai, hein? Não vai ficar aí amarrando o bode só porque está sem companhia. Não se preocupa comigo. Vai lá e curte a tua noite. Até!

É isso aí. A gente assume uma vida de casado. Muda de hábitos, perde o contato com os amigos e depois quando quer voltar,. é difícil se entrosar de novo. Talvez ficar em casa, curtir um filminho na TV também não seja uma má idéia, afinal de conta agora eu não tenho que dar satisfação da minha vida a ninguém. Se quiser, inclusive,. levar uma uma vida de ermitão, quem se oporá a isso? Estou cansado de tentar parecer normal. Se trabalho, ganho meu sustento honestamente, pago minha contas, não devo nada a ninguém. Agora, se eu quiser andar de cuecas dentro de casa, plantar bananeira no meio da sala, quem me dirá que não, que isso é feio, não é normal?
É essa parte da liberdade que me agrada. Na vida, a gente tem que seguir tantas regras. Em casa quero ser eu mesmo, me libertar de todas as amarras, viver intensamente todas as possibilidades. Casar, de repente, representou para mim trazer para dentro de casa as normas sociais. É claro que isso me ajudou a vibrar no mesmo nível do meu meio, mas a partir de determinado ponto isso também deixou de ser importante. Afinal de conta, perdi o medo de mim mesmo. Já me sinto mais seguro de ser eu mesmo sem ter o medo que disso resulte um bicho, um monstro ou um assassino. Exorcizei meu demônios. Agora quero viver.

É, o melhor é sair mesmo. Tem razão o Marcelo em me dizer isso. Ficar em casa nesse momento seria dar chance ao azar, quer dizer, começar a pensar na família, no vazio deixado por elas. Só saindo, encontrando gente nova para justificar essa minha ânsia por uma vida nova. Ficar em casa seria representar o papel do passarinho preso depois da porta da gaiola ter sido aberta.

- Mello? É o Ivo. Vai sair hoje a noite?
- Ivo! É você, cara?! Quanto tempo!
- Pois é. Sabe como é que é... Me diz: qual é o programa hoje?
- Cara, nem me fala. Hoje eu quero é ficar em casa. Depois de ontem... a maior zorra. Hoje, cama cedo.
- Poxa, que bola fora!
- Mas me diz: e a patroa?
- Não sei.Saiu. Acho que foi pra casa dos pais de novo. Levou as crianças.
- De novo, cara?! E agora? Que tu vai fazer? Não vai me dizer que vai atrás dela de novo? Chega, né, bicho! O casamento de vocês, faz tempo que vem nesse chove não molha. Me desculpe a franqueza, mas acho que tu também tem que assumir uma posição.
- Pois é cara... tu sabe... as crianças...
- Mas, bicho, pensa bem. As crianças crescem. Elas acabam entendendo. Mas vocês têm que se dar uma segunda chance.
- Não, quanto a isso tá tranquilo. Só que eu preciso me encontrar de novo, né cara. Por isso tô ligando. Mas já vi que eu estou completamente fora de forma. O Marcelo também já falou que tá em outra hoje.
- Olha, cara, eu teria o maior prazer em te acompanhar hoje nesse reingresso na velha vida, mas é que realmente hoje eu tô pregado. Ontem foi demais e hoje eu quero repor as energias. Mas, oh, se tu quiser passar por aqui pra levar um lero não tem galho. Eu só não quero é sair. Não vou dormir assim tão cedo. Ok?
- Olha, cara, vamos deixar assim. Quem sabe amanhã a gente se fala. Eu também não estou com esse tesão todo para sair. Era só para recomeçar de novo, aos poucos, sabe como é que é: tou destreinado.
- Que nada, cara. Logo tu entra em forma de novo. Se tu quiser vou tar em casa, falô?

De novo outro carão. Definitivamente estou sem programa. De qualquer maneira, vou sair. Dar um rolé pela city ver se encontro alguém. Ir começando de novo, sem estress.
Pronto. Agora é só ver o efeito que causo. Roupinha toda em cima, perfume, gel no cabelo, grana no bolso. Só resta saber onde é o point da cidade.
No entanto, quando vou abrir a porta:
- Oi querido, demoramos? Também nem sabe quem encontrei no mercado? A Vilminha, lembra? A Vilminha do Euclides. Foi aquela confusão. Beijinhos pra lá, beijinho pra cá. E ela fez questão que eu fosse até a casa dela. Cheguei até a esquecer da hora e de te avisar. Ué? Vais sair?
- Nãooo... Quem? Eu?

Nos separamos uma semana depois.

2 comments:

Anonymous said...

Amigo Julio,
esse conto é muito bom, o estilo enxuto, conciso, sem desvios do fio narrativo principal, como convém a um conto, o enredo envolvente, vai construindo um clímax no leitor e o final surpreende com sua reviravolta inesperada. Devo dizer que do início até a metade me lembrou muito o estilo do Galera, não fica nada a dever aos contos dele. Você conseguiu atender aos requisitos estilísticos do conto sem esquecer da beleza, que é o metro definidor da boa literatura.
Esse é o caminho, com certeza.
Um abraço,
Paulo

Poeta Passo Fundo said...

Obrigado, Paulo. Como narrei acima, esse conto escrevi há muito tempo. Não mudei praticamente nada. Escrevi quando ainda era apenas um selvagem em busca do seu caminho. Acho que a força desse conto está aí: na juventude, na garra e na gana do seu autor. Escrevi com raiva, com fúria de dizer as coisas. Muitas vezes esse é o segredo. A técnica ajuda, mas não é tudo. Acho que esse é o segredo do Galera também nos seus primeiros contos.
A esponteneidade às vezes nos surpreende.
A propósito: pelo que eu vi tu não está cadastrado no overmundo. Por isso tu não consegue votar. O Doro acabou de se cadastrar. Acho que vale a pena tentar. O ambiente é bom, há muita camaradagem entre o pessoal e tá todo mundo mais ou menos tentando também achar o seu caminho.
Um abraço.