Encorajado pelo elogio do meu amigo Paulo ao conto anterior - Casamento - vou publicar mais um conto - ou crônica - daqueles antigos.
Escrevi esse numa época muito interessante da minha vida, afinal as dificuldades nunca me impediram de sonhar e foi a época em que mais criei. Tento recuperar esse fôlego mas até agora não consegui. Mas não esquento. Talvez esteja vivendo também agora um momento mágico do qual amanhã sentirei saudade. A gente nunca sabe quando uma coisa pode melhorar ou piorar. Na dúvida, curtamos o que estamos vivendo.
Até!
Espero que gostem.
COMO UMA LATA ARRASTADA PELA CORRENTEZA
A chuva me pegou de surpresa. Tinha ido até o centro comprar qualquer coisa da qual nem me lembro mais o que era e na volta uma chuva miúda começou a incomodar minha calva, já rala nos últimos cabelos. Fiquei nos nervos por ter tão poucos cabelos. A menor chuva me incomodava. E só porque eu me revoltava contra aquela ninharia que a chuva pareceu de súbito engrossar como se me repreendesse por estar sendo tão injusto comigo mesmo: ninguém é culpado por ter perdido os cabelos tão novo. Assim tive que me sujeitar ao que detesto: esperar a chuva passar embaixo de uma marquise quando já o fato de ter saído de casa com tempo bom me incomodava. Agora mais esta - penso, enquanto os carros deslizam no asfalto - um língua escorregadia e negra lambuzada de luzes tremeluzentes.
O despropósito de estar ali sob a marquise aguçava meus sentidos aos pequenos acontecimentos que iam se processando a minha volta. De repente, uma lata vazia de refrigerante passa por mim levada pela água da chuva acumulada ao lado da calçada. Batendo no asfalto sob ela parecia incomodada também por ter sido tirada do seu lugar e estar sendo levada agora para a boca ameaçadora de um bueiro. É como se até as forças da natureza conspirassem com a civilização para manter a cidade limpa. Como eu, tinha sido tirada de circulação pela chuva. Só aí é que me lembrei dos pensamentos que há pouco tinham-me ocorrido a respeito do que representava ser um membro desta comunidade com a qual sinto-me tão pouco privar. A necessidade de ser um pouco louco em algum sentido para ser normal em todos os outros. Só então compreendi o que significa para mim ter esta mania: escrever. Este é o meu ópio como para outros é jogar futebol, tomar o seu trago, correr de carro nas madrugadas, fazer sexo como um louco. Tudo isso são válvulas de escape desta sociedade que não oferece aos seus membros a satisfação naquilo que fazem na maior parte do seu tempo. São todas formas de loucura ou desvio de conduta sem as quais esta organização viria abaixo. Então fico pensando: qual o objetivo desta sociedade se não é para dar satisfação aos seus membros? Só a apatia e a omissão da maioria deles podem ser responsáveis por este estado de coisas se perpetuar Porque não faz nenhum sentido que isso continue assim. Não pelo menos para aqueles que chegaram a alguma espécie de amadurecimento da consciência. A dignidade da vida e a incomensurabilidade de suas dimensões parecem tornar inacreditável que o homem se submeta a ser arrastado pela correnteza como esta lata de refrigerante, contra a sua vontade. No entanto ele o é e muitos mesmo sequer reclamam disso como esta latinha faz batendo nas pedras salientes do asfalto.
Temos uma dignidade menor do que a deste objeto destituído de vida e cujo único poder é o da inércia?
Reluto em acredita.
Mas não posso deixar de evocar essa sensação, por estar por um fio entre a loucura e a sanidade. E sobre isso recordo o esforço que fiz para parecer normal para a garota que me atendeu na fruteira depois desta constatação. Fiquei por dois segundos hesitante se devia levar ou não as mangas que ela pesava. Elas iam me custar cinco reais e diante do abuso do preço senti que não valia a pena. Recusei com naturalidade, mas tive vontade de levar apenas uma. Desisti em seguida, porém. Para dirimir qualquer má impressão, acrescentei:
- O Real agora vale, né?
Mas devo ter parecido pouco convincente porque ela não se deu ao trabalho de concordar comigo. Saí por fim incerto sobre a impressão que deixava no ambiente.
Enfim, estas sutilezas complicam a minha vida e o princípio da realidade acaba sempre se impondo quando se trata de privar com os demais.
Afinal também não podemos esquecer que o homem tem afetos. O que talvez explique porque as aberrações de que estava falando podem se perpetuar.
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