December 21, 2010

DA ALMA E DAS NUVENS

Um pequeno ensaio, de caráter poético, da alma humana, cuja natureza, cambiante, a aproxima mais das nuvens do que de qualquer outro objeto do mundo físico. E como tal, as previsões que se fazem dela são da mesma natureza que as previsões da meteorologia: imprecisas. 
É isso que nos torna essencialmente humanos: a imprevisibilidade, a não redução a cálculos e a conceituações estanques.  
Bona lectura!

DA ALMA E DAS NUVENS

            O que somos parece ser mais o resultado do acaso do que de algum projeto pessoal. Ser assim ou assado é algo que nos acontece como o resultado imprevisível da combinação de fatores internos e externos. O modo como vão interagir parece sempre nos escapar. Embora possamos fazer algumas previsões, baseados na observação e na experiência, terão elas o caráter de uma generalidade não muito melhor que se não as tivéssemos feito. Ou seja, são palpites e como tais não devem ser levados em conta, pois como palpites, segundo a lei das probabilidades, metade darão certo, metade não. Por isso, melhor é não emiti-los, do que emiti-los e ser, a todo momento, desmentido pelos fatos.
            De um amigo de infância ouvimos dizer que se tornou um varredor de rua, o que não julgávamos possível dado o conhecimento que pensávamos ter da sua personalidade e do meio que o cercava. De outro, descobrimos ter se tornado um maníaco-depressivo e dependente do álcool. Daquel’outro ficamos sabendo ter seguido a carreira política e estar se dando muito bem, contra todas as probabilidades que o reputavam incapaz de pronunciar uma palavra em público.
            Enfim, o que somos ou seremos é uma caixinha de surpresas, pois nem de nós podemos fazer previsões.
Como reagiremos diante de determinadas situações?
Traídos, brigaremos ou renunciaremos ao ser amado?
Desafiados, enfrentaremos ou fugiremos?
Obrigados a atos de autoridade, agiremos com firmeza ou mostraremos insegurança?
            Se não sabemos de nós mesmos que dirá dos outros, com os quais estamos sempre sendo surpreendidos. Quanto muito poderemos fazer estimativas, previsões não muito melhores que as da metereologia, cuja fama todo mundo sabe ser de uma ciência mais ou menos exata. Cambiante, como as nuvens e a alma humana.

December 20, 2010

ANEDOTAS DE GAURAMA II

A GALINHA

            A panela de feijão fumegava sobre o fogão à lenha e as crianças tinham sido recomendadas por minha mãe – portanto meus irmãos – para que cuidassem do fogo e, na medida da necessidade, colocassem água no feijão. Ela iria às compras e voltaria em breve. Eles poderiam continuar brincando, desde que tomassem estes dois cuidados. Deles dependeria, por hora, o almoço, e ao se referir assim, minha mãe se referia à tremenda responsabilidade daquelas duas crianças em cuidarem da comida do pai que vinha esfomeado do serviço, para o qual em seguida tinha de retornar.
            Tudo transcorria dentro da normalidade até que uma galinha teve a infeliz idéia de pular pela janela para dentro de casa. Meus irmãos, zelosos, não podiam permitir que o animal ficasse ali. Assustaram-na para que voltasse por onde tinha entrado, mas a infeliz da galinha parecia não saber o caminho de volta, decerto por não reconhecer por dentro a casa que vira de fora. De repente teve uma iluminação e de um golpe saltou sobre o fogão que ficava próximo à janela, pousando sobre a alça da panela onde o feijão chiava a fogo solto. Apavorados com aquela manobra perigosa do animal, meus irmãos não pensaram duas vezes antes de assustarem o bicho uma última vez. Só que no impulso que ela tomou para se projetar janela afora, a panela adernou de lado e emborcou rumo ao chão com todo o feijão dentro.
            Que sujeira!
            Tudo por causa daquele bicho burro e inconveniente. Mas agora não havia tempo a se perder em lamentações. Era preciso agir e isso significava recolher o feijão que tinha se espalhado pelo chão para evitar o pior: que a mãe chegasse e se deparasse com uma cena daquelas. Uma bela surra com certeza seria inevitável.
            - Corre na porta da frente para ver se a mãe não está vindo! – disse o mais velho, que todos conheciam como Chinho,   para o menor que ainda não havia se recuperado do susto. Desperto de seu atordoamento e na esperança de remediar o irremediável, o Doca correu até aporta da frente. Enquanto o Chinho se armava de uma colher e fazia o possível para pôr de volta na panela o feijão espalhado pelo assoalho.
Para alívio de ambos, nem sinal da mãe, mas quando o Doca se voltou para dizer isso ao Chinho, o pior que podia acontecer entrava pela porta dos fundos, após ter dado a volta na casa, como era de hábito. O Doca ainda teve tempo de fugir de onde estava, mas o coitado do Chinho não teve tempo sequer de perpetrar o primeiro golpe do seu crime. A mãe o ergueu do chão pela orelha, sem ao menos perguntar o que tinha acontecido.
Como eu disse aquilo se tratava do inexplicável, pois como é que ela iria acreditar numa história daquelas, de uma galinha ter podido provocar tamanho estrago, sobretudo naquele momento de raiva e com o almoço ainda por fazer. Só mais tarde esta história pôde receber crédito que merecia, até porque não havia outra versão para contar. Mas naquele momento este improvável movimento do bicho se apoiando na alça da panela para alçar vôo não tinha convencido ninguém, muito menos para lhes livrar da surra que levaram.
           

PS: O Doca apanhou mais tarde, após a inevitável volta para casa, que algumas vezes podia se prolongar até a noite. Além do mais aquele não tinha sido o seu dia de sorte: nenhuma visita tinha aparecido. Quando isso acontecia era comum o fujão chegar junto com a visita para a mãe ir se acostumando com a idéia de deixá-lo vivo. Impossibilitada de dar vexame na frente de estranhos, a raiva dela ia passando, até esquecer o ocorrido. O negócio depois era aparecer o mínimo possível para ela não se lembrar. Às vezes essa estratégia dava certo, mas naquele dia, o Doca não teve essa sorte. 

December 18, 2010

ANEDOTAS DE GAURAMA

Passando a limpo velhos escritos, encontrei estes que reproduzem episódios reais, vividos ou ouvido narrar por meus pais e irmãos.
Segue abaixo um aperitivo.
Um abraço e boa leitura.

DONA LEOCÁDIA

Uma vizinha dos meus pais, Dona Leocádia, antiga conhecida da região, de origem polonesa, carregando muitos nos “rrs” e “és”, conversava com meus pais sobre a recente morte do meu tio-avô Fontana com 84 anos.
Contando já com uma boa idade, naturalmente esta velha senhora devia ter uma só preocupação: a proximidade da morte, e o tema do assunto que tratava com meu pai devia lhe parecer a ilustração próxima do inevitável fim que a aguardava a cada esquina, a cada síncope do coração, a cada suspiro de espanto, medo ou admiração...
Quem pode dizer quando chegará a nossa hora?
Sob o influxo destas emoções e talvez na tentativa de parecer delicada e se solidarizar com a dor do meu pai pela perda desse ente querido, Leocádia saiu-se com essa:
-        Jééésus Marrria! O único médo que tenho é de um dia acordar morrrta!
Ao que nada mais acrescentou retirando-se em seguida, para alívio dos meus pais que, decerto, já não sabiam como segurar o riso que lhes acometia.

DONA LEOCÁDIA – Parte II

            A casa que meu pai construiu para uma velhice tranquila ficou pela metade e o que era para ser motivo de sossego, tornou-se motivo de preocupação por causa daquele inesperado retardo da obra. Falta de dinheiro, naturalmente.
Só para se ter uma idéia do que  estou falando e do que significou a inflação nos anos 80, até o começo dos anos 90, meu pai que havia vendido uma pequena chácara com 2,5 hectares ali pelo final dos anos 80 construiu uma casa de 2 pisos,  com área de mais de 100 m2 com apenas 40% do rendimento da poupança sobre o capital aplicado. Não lembro de quanto era este capital, mas equivaleria ao que hoje se obteria com a venda daquela porção de terra. Quando entrou o plano real, a casa que estava inacabada – erguida e coberta – inacabada ficou, pois o dinheiro foi todo consumido - juro e capital - para fazer os acabamentos. E ainda não foi suficiente, pois faltaram alguns detalhes, tais como as calçadas em volta de casa e toda a pintura. 
            Pois bem, fechado este parênteses histórico, voltamos à narrativa.
            Meu pai que foi mecânico a vida inteira guarda até hoje habilidades manuais que ele mesmo desconhecia, por isso quando lhe sobra tempo dos compromissos de uma aposentadoria comprometida com a sesta depois do almoço, o chimarrão e a fruição da paz e do sossego de uma cidadezinha pequena, seu Achiles – meu pai - pega da colher de pedreiro e põe-se a fazer muros e rebocos onde puder adiantar o trabalho que de outra forma teria de pagar para outro fazer.
            Leocádia que entardecer costuma sair para recolher a vaca de leite que possui, de onde a tinha levado pastar, no geral nos terrenos de baldios da redondeza,  passava às vezes pela frente da casa dos meus pais.
Numa dessas ocasiões, ao contemplar o trabalho minucioso e artístico de meu pai – uma característica recorrente dos trabalhos do velho – no remate final de um muro em frente de casa, com pequenas ondulações em seu cimo,saiu-se com esta:
-         Jééésus Marria! Quer dizer então que agora até carpintérrro é?! – querendo referir-se ao trabalho de pedreiro que o velho executava, num flagrante que mais uma vez punha meus pais em apuros para disfarçar o riso que lhes acometia.

December 15, 2010

CONTRATO DE CASAMENTO

Mais uma das antigas.

CONTRATO DE CASAMENTO

         O homem chegou para a mulher e disse:
         - Está bem, eu caso. Mas só se você me prometer: não implicar comigo por causa dos meus horários, seu eu chegar tarde em casa ou mais cedo; se eu chegar algum dia de porre ou se eu não quiser chegar. Se você não policiar meus gastos com livros, discos, roupas e bebidas; se você não implicar comigo quando ande de pijama pela casa até as 5 da tarde ou quando eu quiser dormir de madrugada ou antes da 08 da noite. Se ouvir som a todo volume ou quiser assistir aquele longa metragem que você acha chato. Se eu puder viajar sozinho pra Nova York quando o pacote for muito caro pra nos dois. Se eu puder reclamar da comida sinceramente quando não a achar boa como você gostaria que tivesse ficado. Se eu puder dormir de roupa quando estiver cansado demais sequer para tirá-la. Se puder receber em casa meus pais, irmãos e amigos para assistir o futebol, jogar cartas ou  simplesmente tomar um whisky. Se eu quiser ficar o fim de semana todo na cama para me refazer da semana. Quando eu viajar para a casa dos meus pais, um fim de semana sim, outro não. Quando eu quiser cozinhar qualquer droga na cozinha sem ouvir reclamações sobre a bagunça que eu deixei e a sujeira...
         A mulher se voltou, então, para ele e disse:
         - Tudo bem, mas só se você: não se importar se eu quiser dormir até às 10 todos os dias. Arrumar uma empregada em tempo integral que saiba cozinhar o trivial e pratos exóticos. Que você me ceda um talão de cheques e um cartão de crédito sem limite de gastos. Que eu possa viajar de vez em quando desacompanhada, sem precisar desfiar um rosário de explicações sobre aonde eu vou, com quem e por quê. Poder frequentar o salão de beleza e fazer comprar pelo menos uma vez por semana sem me sentir culpada pelas reclamações que você fizer. Ser livre para dizer na hora que você quiser fazer amor que não estou disposta, que prefiro dormir, sem precisar inventar qualquer dor de cabeça de última hora e sem que você se sinta preterido por outro qualquer de um suposto caso extra-conjugal. Sair sozinha com as amigas, nem que seja para ir na igreja. Que você aprenda a cozinhar e de vez em quando me faça alguma surpresa nesse sentido, além, naturalmente do indefectível churrasco de fim de semana. Que você me presenteie pelo menos nas datas mais importantes e nunca, jamais, ouviu bem? se esqueça de alguma delas, sobretudo, a do meu aniversário. Que você esteja sempre disposto a me ouvir e conversar sobre todos os tipos de assunto sem pretextar cansaço ou falta de tempo. Que você tenha paciência com meu jeito de ser e não me peça toda hora para agir assim ou assado, sobretudo diante dos teus amigos, irmãos e mãe. Que não implique com as roupas que eu quiser usar quando a gente for a alguma jantar da firma, mesmo quando eu esteja acintosamente com vontade de me mostrar...
         Chegados a este ponto ambos concordaram que esta palavrinha, casamento, implicava mais perdas que benefícios e decidiram por bem revogá-la antes mesmo que entrasse em vigor, a fim de que, afastados todos os inconvenientes dessa relação formal, eles pudessem continuar a viver o amor que sentiam um pelo outro.

December 14, 2010

Novas estórias

Depois de algum tempo ausente, volto a publicar.
Motivado pelo blog do meu amigo Paulo - nomadenomundo.blogspot.com, o qual recomendo - me senti desafiado a retomar algumas histórias há muito tempo escritas e que estavam na gaveta.
Para ter uma idéia, esta sequer eu havia passado para o computa. Estava datilografada ainda.
Escrevi-a em fevereiro de 2000.
Praticamente não mudei nada de como ela foi concebida.
Vai, portanto, aí uma nova história, ainda que nova ela seja apenas na divulgação.
Um pequeno causo à la Fellini.
Um abraço.
Espero que vcs apreciem.

                                                  UM MUDO NA FARMÁCIA





Gaurama é uma cidade pequena. Pequena e real. Encravada no norte o Estado mais meridional do Brasil, seria apenas mais uma cidadezinha do interior não fosse por uma particularidade que a distingue de todas as demais para mim: é minha terra natal. E é nela que se passa essa história, contada por meu pai, da última vez em que estivemos lá para visitá-lo.


Antes, porém, é preciso tecer algumas considerações sobre os hábitos de vida dos meus pais que pode lançar um pouco de luz sobre a peculiaridade de algumas histórias que costumamos ouvir dele e que distingue essa que vou lhes narrar de todas as demais: foi a primeira vez que a ouvimos, apesar de ter-se passado há muito tempo. Diversamente do que costuma se dar, pois os hábitos de vida dos meus pais não lhes permite trazer muitas novidades. De modo que ouvíamos com frequência a mesma história. Tanto que já sabíamos de cor muitas delas, exceto essa que pelo seu inusitado tínhamos certeza: era a primeira vez que a estávamos ouvindo. Uma história simples, enfim, de gente do interior, mas que na sua singeleza revela muito do lirismo e da inocência que os hábitos interioranos ainda conservam.


Havia um mudo no serviço público local que fazia o serviço do lixo da cidade. Colega do meu pai, que era mecânico, era também colega de tantos outros mandriões que gostavam de brincar com o mudinho e dos esforços que este fazia para se comunicar. Aos gestos nervosos ajuntava os indefectíveis guturais “ dá, dá, dá” que lhe valeram o apelido: Dadá. Nas suas andanças pela cidade atrás do caminhão do lixo ou capinando o mato que emergia do vão dos paralelepípedos, Dadá e seus colegas encontravam muitas oportunidades de se entreterem com o movimento das ruas e o que se passava na cidade, mexericos e escaramuças do interior. Ao menos não ficavam como muitos em cidades grandes, enclausurados em seus locais de trabalho, perdendo o que uma vida ao ar livre e de observações pode proporcionar. Funcionários públicos estáveis, então, encontravam muitas ocasiões de se divertir entre uma parada e outra do caminhão do lixo ou escorados no cabo da enxada que, de instrumento de trabalho, transformava-se em instrumento de apoio e inspiração. Foi numa dessas ocasiões que os malandros decidiram pregar uma peça no mudinho, também ele um malandro ao seu modo, silencioso. Sua gestualidade desembaraçada e uma sem-vergonhice mal disfarçada pela expressão arteira e maliciosa encorajavam-nos a ainda mais a folgar com o atrevido mudo: mandaram-no comprar camisinhas na farmácia da cidade, naquele momento atendida só por moças, enquanto, do lado de fora, os mandriões esperavam para ver como o infeliz se desencumbia da sua missão.


Não sei porque o mudo não relutou em pagar esse mico, se por bravata, se por ingenuidade, se por humildade e espírito de submissão, só sei que o mudo foi e uma vez no interior do estabelecimento podemos imaginá-lo tentando fazer se entender, do modo o menos embaraçoso possível, não só para ele, que parece só então deu-se conta do mico que estava pagando, como para as moças que não queriam acreditar que o mudinho não fosse o santo que as pessoas costumam achar que as outras são só porque elas tem alguma deficiência. E os amigos ainda tinham-lhe ensinado como gesticular para se fazer entender, do mesmo modo como o próprio mudo em outras ocasiões tinha-lhes mostrado como fazia. Usavam, portanto, da sua própria linguagem para testá-lo na frente das meninas, a ver se o malandro mantinha a galhardia com que em outras tantas vezes tinha até lhes aborrecido com suas história de bravatas mudo-sexuais. Gestos que consistiam basicamente disto: com o dedo aos lábios como a encher um balão imaginário, sopro e gesto depravado de enfiar o preservativo no pênis. Agir dessa maneira entre amigos, era uma coisa. Bem diferente era agir desse modo em público diante das moças do balcão. Mas o mudo não via como se sair dessa diante dos amigos que de fora o instigavam a continuar toda vez que ele, desolado, olha para fora em busca de arrego.


- Vai, vai! – lhe faziam os malandros, fingindo estarem ocupados com o trabalho e não estarem dando importância a uma bagatela daquelas: comprar camisinhas. Enquanto o mundo se debatia em seu sofrimento.


E eles a lhe atiçar:


- Faz assim, óh – e lhe mostravam o gesto odioso que ele não tinha coragem de reproduzir na frente das moças e dos clientes.


Por fim, irritado, cansado de se fazer por santo e ser mal entendido o mundo levou os dedos aos lábios, assoprou o balão imaginário e enfiou-o alegoricamente no membro, gesticulando diante das donzelas – umas nem tanto – horrorrizadas, mas iluminadas para o que afinal o infeliz queria.


Lá fora a turma a se dobrar de rir da cena que o pobre diabo tinha protagonizado diante das moças e do público em geral.


Difícil depois era dizer com que expressão o mudo saiu da farmácia: se de triunfo, de imbecilidade, de interrogação ou de safadeza e satisfação pela missão cumprida. Talvez, um misto de tudo isso.


O certo, porém é que depois desse fato, o mudo se tornou outra pessoa, bem mais contida nas suas bravatas e demonstrações gestuais.

September 17, 2010

IMPÉRIO DO NOVO

Por ocasião de algumas fotos que estávamos olhando, eu e Zanette - o responsável pelo site http://www.projetopasso.com.br/ -  da rua Independência e seus casarões antigos, hoje não mais existentes, me ocorreu que já havia escrito sobre isso.
Segue abaixo o poema.

IMPÉRIO DO NOVO
(Homenagem aos prédios antigos de Passo Fundo,
muitos postos a baixo na calada da noite)

Ergue-se o novo
no lugar do antigo.

Apaga-se da memória
um pouco
muito
da história
de Passo Fundo.
Casarões
que vêm a baixo
de mansinho
para não despertar
o ódio escarninho
de quem ali
também
se vê um pouco
derrubar.

Roubam o passado
comum
de um povo
a quem
nem de um ovo
ninguém se sente devedor.

Terá a propriedade
tal autoridade
para abolir
as idades
de quem as viveu?

No creo
pero
que las casas
no hay más!

E não há
quem as resssuscite
depois de mortas.

Como recuperar
a vida de uma casa
revelada
nos tijolos
-         gastos –
na madeira
-         carrunchada
recuperada
falquejada
pela vida?

Impossível!

O espírito que as habitou
já navegou
para outras paragens.
Desalojaram-no
volta para o Tempo
que é o alimento
que o mantém
por anos
em determinado
lugar.
Ainda haverá de passar
muito
até que outro espírito
habite
o novo
que derrogou o antigo.

E até lá
já não garanto
chegar.

September 12, 2010

NEGÓCIO ARRISCADO

NEGÓCIO ARRISCADO

Sábado à tardinha. Sai para caminhar. Precisava espairecer de um dia fechado em casa assistindo aos jogos da Copa do Mundo. Como de costume pensei em caminhar até a revisteira, no centro da cidade. Ver as novidades para as quais, durante a semana, não tenho tempo, nem cabeça. Só ao chegar lá, no entanto, dei-me conta do excesso que cometia: a semana em cima dos livros – sou professor universitário -, nos finais de semana preferia fazer coi-sa diferente. Embora ame os livros, para tudo tem um limite. Decidi então que poderia ir até uma loja de discos, há pouco tempo inaugurada, próximo dali. Afinal, depois dos livros, os CDs são minha segunda paixão. Mas temia que àquela hora, de um sábado à noite, a loja não estivesse aberta. Chegando lá vi minhas previsões confirmadas. Pensei no shopping Bella Città. Não es-tava longe. Mas não tinha certeza de que lá houvesse uma loja de discos. Das vezes em que lá estivera não me lembrava se aquela loja de jogos também vendia CDs. Hesitei. Pensei no outro shopping da cidade, suspirando de von-tade de ter feito esta escolha ao sair de casa, pois só agora dava-me conta: ali encontraria o que estava procurando: um loja de discos onde o cliente ficava à vontade, sem a pressão ou a ansiedades dos vendedores. Sem falar que lá também pode se ouvir uma música ao vivo, nos finais de tarde, tomar um chope acompanhando o movimento de quem chega, de quem sai, a uma dis-tância confortável para ser visto por quem se deseja e evitado por quem se quer ignorar.

Mas como disse estava quase no outro extremo da cidade. Uma cami-nhada até lá seria o equivalente do que tinha caminhado até aquele momento e minhas pernas me diziam que já tinha feito um bom exercício.

No entanto, sem opção, não vi outra alternativa.

Na verdade eu morava nas redondezas do Bourbon – este outro shop-ping ou hipermercado, como queiram - e tinha evitado ir até lá como primei-ra opção justamente para caminhar. Voltar para casa ou ir até lá, então, dava praticamente no mesmo.

Fui.

Para tornar mais ágil meu retorno, escolhi descer pela Moron até a ro-doviária. Para quem conhece a rua Moron à noite, após o cruzamento com a Fagundes ou com a Benjamin Constant, sabe do que estou falando: uma pro-va incontestável de coragem. Próximo à rodoviária, então, um convite para ser assaltado. Mas como sou um otimista convicto e não tenha traumas desse tipo de experiência apostei no risco.

Desci.

Como de hábito quando ando por esses lugares ermos e escuros, procu-ro acompanhar de longe o movimento dos que se aproximam, evitar passar próximo aos becos e entradas de garagens, a sombra das árvores sob as quais um vulto pode bem se esconder, os terrenos baldios e situações semelhantes. O fator surpresa é grande vantagem do bandido na abordagem das suas víti-mas. Prevenir-se contra esse primeiro contato é o mínimo que alguém que queira evitar ser assaltado ou morto deve fazer.

Mas as coisas quando devem acontecer acontecem, façamos nós o que tivermos que fazer.

Foi tudo muito rápido. Ao menos assim me pareceu. Talvez eu não es-tivesse tão atento assim. Afinal como já disse nunca passei por uma experiên-cia dessas.

O fato é que de repente eu me vi sob a mira do revólver e aquele enca-puzado me forçou de encontro ao vão de uma porta de garagem com o cano da arma engatilhada nas minhas costelas.

- A carteira!!! Vâmo, a carteira, pô?

Sem tempo para refletir tateei o bolso de trás da calça e lhe entreguei a carteira que eu sabia não tinha muita coisa, não pelo menos daquilo que ele procurava: dinheiro. Pois há muito tempo, como a maioria das pessoas, deixei de andar com dinheiro sonante na carteira. Em geral uso os cartões: de débito, de crédito, de farmácias, postos de gasolina, do mercado. Para que se expor ao risco, que hoje eu via se confirmar, com tantas facilidades oferecidas pela tecnologia? Teria quanto muito uns 30 reais em espécie. Quantia pela qual, eu sabia, era um despropósito entregar-lhe a carteira onde eu tinha todos es-ses cartões, mais alguns indispensáveis documentos pessoais: carteira de mo-torista, documentos do carro, identidade funcional. Passava-me de repente pela cabeça o incômodo e a despesa que me dariam para obter uma segunda via: registro da ocorrência policial, requisição das segundas vias, romaria a diversas repartições públicas, pagamento de todo tipo de taxa, filas de banco, perda de um tempo, para mim, cada vez mais escasso e valioso. Então no momento em que a ameaça mais presente do cano da pistola nas costelas se afastou, com o bandido levando o seu butim, não pude deixar de lhe interpe-lar:

- Hei?! Quanto você quer pela minha carteira de volta?

Ele tinha se afastado apenas alguns passos, dando-me as costas. Por is-so foi fácil para me fazer ouvir. Tinha me encorajado a sua atitude, afinal ele examinava, com a arma ainda em punho, o produto do seu roubo. Por um momento ocorreu-me que a sua decepção por conta do conteúdo pobre da carteira poderia se voltar contra mim e eu ser vítima de algo pior do que ape-nas um roubo. Um disparo acidental daquela arma não estava descartado. Mas algo mais também havia me ocorrido: era lamentável eu entregar por tão pouco, o que me valia tanto. Era a oportunidade de um negócio que eu via ali, nada mais: eu dava-lhe de bom grado o que ele queria, e ele – de bom grado, eu esperava – devolvia-me o que era importante para mim.

- O quê? – fez ele se voltando para mim, com indignação pela minha ousadia e pela miséria que ele tinha encontrado na carteira.

- É isso o que você ouviu: quanto você quer pela carteira de volta?

- Você é louco ou o quê, cara?

- Não, olhe aqui – disse eu me aproximando, quase familiar, como di-ante de um aluno que não tivesse entendido a situação. Sentia que podíamos chegar a um acordo.

- Hei, cara. Fica aí onde você está – fez-me retroceder, apontando a arma.

Só então me dei conta, novamente, com quem estava lidando.

- Tudo bem. Vai com calma, aí meu chapa. Só quero propor para vo-cê um negócio.

- Hum?

- É o seguinte: você viu aí que tem uma miséria nessa carteira. Para você ela vai vale só esses 30 pila. Já para mim ela vale bem mais. Sei que você não vai simplesmente devolvê-la. Vai jogá-la fora, ten-tar negociar meus documentos com alguém ou simplesmente a des-truir, por vingança ou para não deixar pistas.

- Hum? – ele parecia agora interessado no rumo daquela conversa, embora não desviasse a arma na minha direção. Tinha me feito vol-tar para as sombras do vão da garagem e se pusera também ele sob as sombras para evitar o farol dos carros. Só de vez em quando con-seguia ver o brilho atento dos seus olhos.

- Os cartões que aí estão também lhe serão dentro em breve inúteis. Logo serão bloqueados e as tentativas de sua utilização só servirão para a polícia seguir o seu rastro. Ademais tu não conhece a senha. A que eu te disser talvez não seja verdadeira.

- E daí?

- E daí que o que vou gastar para fazer a segunda via desses docu-mentos, que para ti não valem nada, vai ser uma grana considerável. Além do tempo e da incomodação toda.

- Hum?

- Bem, o negócio é o seguinte: eu me proponho a ir contigo até um caixa eletrônico aqui perto. Eu saco o que o banco me permite sacar numa hora dessas – você deve saber que os bancos têm lá as suas normas - uns 100 reais, talvez um pouco mais, e tu me devolve a carteira, com os documentos e os cartões. O que tu acha?

O silêncio do outro lado indicava que ele estava pensando. Certamente ele avaliava os riscos que correria.

- Tá loco, meu? Como é que eu vou te levar até o banco com esse berro nas tuas costas. E a tôca? Decerto eu vô te que tirá. Se não, o que vai parecer, nós dois passeando pelo centro. Um encapuzado e um bacana. É palhaçada!

- Que palhaçada, meu? Tu não tem imaginação? Tu guarda esse berro aí no bolso da jaqueta. Aliás, não precisa nem ficar apontando ele pra mim, tá bem? A gente vai calmamente no banco. Tu me alcança o cartão, eu saco essa grana de que eu te falei e estamos conversa-dos. Agora, é claro que tu vai ter que tirar esse gorro, aí né. Ou tu vai querer desfilar com ele pelo centro?

Eu, quando queria, sabia ser convincente. Estava mesmo a ponto de chamá-lo de burro para não aceitar uma proposta daquelas, mas também sabia que tinha que ir devagar com ele, afinal quem não podia ser burro ali era eu.

No entanto ele parecia não ter se importado com o fato de eu estar lhe chamando a atenção. Estava concentrado demais avaliando as variáveis da-quela proposta para se importar com isso. Mas parecia não se decidir. A grande questão ali era ele ter que revelar o seu rosto. Aquilo representava pa-ra ele um risco excessivo.

Adivinhando que essa era a dificuldade procurei lhe encorajar:

- Olha aqui. Fazemos assim: você me entrega agora o cartão do banco e fica com o resto da minha carteira. Você anda atrás de mim, a uma distância em que te sinta confortável. Eu vou na frente. Saco o di-nheiro enquanto você me espera fora do banco. Não precisa entrar. Pode ficar mesmo do outro lado da rua. Eu prometo não fazer nada para não te identificar. Quando eu sair do banco, você vem ao meu encontro. Talvez aí eu veja o teu rosto. Mas será rápido. Prometo não me fixar nele. O que me interessa mesmo é a minha carteira. Eu te dou o dinheiro, você me devolve a carteira. O que tu acha?

Estava difícil ele se decidir. Por sua cabeça decerto passavam diversas idéias. Até mesmo no crime é preciso ter imaginação, revelar alguma compe-tência. O poder de uma arma ou a força bruta não são garantias de sucesso. É preciso inteligência. Minha falação também, eu adivinhava, já não poderia mais me ajudar. Ao contrário, poderia deixá-lo nervoso. Por isso resolvi me calar. Agora era com ele. Eu não podia assim, muito ostensivamente, condu-zir o negócio. Era de bom tom deixar um espaço no qual ele pudesse se mo-vimentar.

Para me contrariar, eu acho, ele por fim se decidiu. Fez isso com um gesto, tirando desafiadoramente o gorro da cabeça e me encarando com a ar-ma em punho.

- Tudo bem! Mas vámo fazê do meu jeito. Vamo junto quem nem dois amigo. No banco eu te dô o cartão – fazendo isso, fez um mo-vimento com o revólver me apontando o caminho.

Não vi onde ele guardou a arma. Acho que a pôs no bolso direito da ja-queta e, embora, ele não andasse com as mãos dentro do bolso sabia que não seria difícil para ele pegar a arma se eu fosse tentar qualquer coisa. Também eu não tinha essa intenção. Estava saindo barato recuperar meus documentos. Não iria fazer nenhuma bobagem. Àquela hora o máximo de saque que o banco me permitiria seria uns R$ 100,00. Só de incômodo e tempo, eu perde-ria muito mais.

Subimos novamente a Moron em silêncio. Não havia como sermos a-migos naquelas circunstâncias. Aos poucos fomos vindo para a luz. Procura-va não encará-lo quando trocávamos uma ou outra palavra. Quando o fazia, sentia nele uma tensão que era bom não estimular.

Uma viatura da polícia passou por nós e senti nesse momento mais medo do que durante todo o assalto. Temia que a Brigada o reconhecesse de alguma anterior passagem pela polícia, o que não era nenhum um pouco im-provável, e com isso acabasse acontecendo uma confusão que pusesse a mi-nha vida em risco. Por sorte nada disso aconteceu. Espertamente ele nos fez parar diante de uma vitrine de celulares, simulando uma conversa entre ami-gos, sobre o último modelo de celular ali exposto, dando as costas para a via-tura.

Chegamos no Banco. Ele me deu o cartão e pediu para eu lhe entregar o celular que até aquele momento, parece, não tinha se dado conta que ainda estava comigo. Disse-me que me esperaria do outro lado da rua, diante da praça, na parada de ônibus. O disfarce perfeito para quem quer ficar de bobei-ra, enquanto observa ou espera alguém.

Entrei no banco e saquei o valor. R$ 100,00. Uma quantia irrisória para mim diante dos aborrecimentos de que estava me livrando.

De volta à rua, saí para lhe procurar. Imaginava-o me observando do outro lado da rua. Fui surpreendido pela súbita aparição dele às minhas cos-tas.

- E aí, doutor, tudo certo?

- Sim.

- Tem o dinheiro aí? Quanto?

- Cem!

- Só isso?

- Eu lhe falei que a essa hora...

- Tá, tá. Eu já sei. Então passa logo aí.

- Primeiro a carteira.

- Não! Primeiro o dinheiro – a mão direita no bolso da jaqueta me convenceu de que eu não devia contrariá-lo.

Alcancei-lhe o dinheiro. Com apenas uma das mãos livres olhou as du-as notas de cinqüenta, embolsando-as em seguida.

- Agora a carteira, certo?

Um movimento da mão direita dentro do bolso da jaqueta, fez-me pen-sar no tiro, no que sentiria em seguida. Doeria? Onde me atingiria? Seria fa-tal? Quais seriam as sequelas? Mas para minha surpresa o que ele tinha no bolso era minha carteira. Acho que o berro ele tinha guardado na cinta.

Alcançou-me a carteira com um sorriso diante da minha expressão de pânico:

– Foi um prazer, doutor.

– Igualmente – respondi atrapalhado.

Por um momento, me pareceu, tínhamos nos tornado amigos. Quase lhe estendi a mão para apertar a sua, afinal tínhamos cumprido os termos do acordo. No último momento recuei. Não me pareceu uma boa idéia.

Ele atravessou a rua rapidamente, sumindo em seguida na escuridão da praça.



Dias depois saí para levar até o campus meu filho que tinha perdido o ônibus da faculdade. Na volta parei na sinaleira da rodoviária, quando fui surpreendido por alguém que entrou pela porta de trás do carro. Havia esque-cido de travá-la. Já tinha ouvido falar dessa modalidade de assalto. O sujeito entra e lhe mete o berro na nuca. Numa fração de segundo você chofer de bandido.

- Fica frio aí chefia e não olha pra trás. Quando abrir a sinaleira arranca normalmente. Vamô dá um rolé.

Isso tudo eu escutei sentindo através do banco o cano do que eu imagi-nei fosse da arma encostado nas minhas costas. Sem outra opção, segui as instruções, procurando manter o sangue frio.

Mandou-me ficar a direita. Na esquina seguinte, fez-me dobrar nessa sentido.

- Para onde estamos indo?

- Dar uma volta.

Andamos algumas quadras até ele mandar parar. Estacionamos sob a sombra das árvores. Era noite e as poucas luzes dos postes não penetram os ramos.

Alguma coisa na atitude daquele sujeito me era familiar. Mas ele não usava nenhuma toca ninja como o bandido da outra vez. Por um momento, desejei que fosse ele.

- E agora?

- Bem, agora, dotor, quem vai lhe propor um negócio sou eu?

Reconheci a dicção e o tom de voz. Era o mesmo sujeito. Voltei-me e pude ver: era o mesmo sorriso de superioridade.

- Você de novo?! – não pude deixar de exclamar.

- É isso aí.

- O que é que deu em você? Por que eu de novo? Você vem me cui-dando para me assaltar novamente?

- Mais ou menos.

- Como assim, mais ou menos?

- Foi por acaso, pode crê.

- Você acha que eu acredito em Papai Noel para acreditar que você me pegou de novo por acaso?

- Não! Quero dizer que foi por acaso que encontrei contigo outro dia. Me chamô a atenção. Tu passô de carro e eu lembrei de ti. Pensei comigo: tá aí sujeito gente boa. Procurei gravá na memória o teu carro. Quando te vi hoje na sinaleira, pensei em te fazer uma surpre-sa. Tava mesmo saindo prum trabalhinho aí. Não custava pegar uma carona contigo.

- Então quer dizer que tu vai querer que eu te deixe no local do cri-me?

- Isso também.

- ‘Ce ta de brincadeira comigo, tá?

- Dotor, não esqueça quem tá no comando aqui, tá? – e dizendo isso apertou de novo a arma de encontro às minhas costas, através do as-sento.

- Ok, ok. Onde é o lugar?

- Já te mostro. Mas antes vamô dá aquela passadinha no banco?

- Ah, quer dizer que isso também?

- O que tu acha?

- Tô sacando... – disse mordendo a língua por causa do trocadilho.

Assim de novo tive que passar no banco, sacar o cenzinho como da ou-tra vez. E ainda deixá-lo numa vila passando os trilhos do trem.

Aquilo começava a ficar engraçado: ser assaltado pela segunda vez pe-lo mesmo sujeito e ainda agradecer a ele, afinal ali eu bem podia ter perdido muito mais do que da outra vez: o carro e quase certo também, a vida. Embo-ra chata a sua atitude, de me escolher de novo para sua vítima, eu não podia deixar de reconhecer isso nele.

Assim mais uma vez dei de ombros para aquele fato e mais uma vez não registrei ocorrência na polícia: ia ser difícil fazer o pessoal acreditar na veracidade da história. Seria muita coisa para explicar.

Um domingo desses encontrei de novo o sujeito. Em pleno dia. Na pra-ça do Hospital da Cidade. Acho que ele estava com a família. Esposa, uma filha crescida e outra menor, andando de bicicleta na calçada em forma de círculo, no centro da Praça. Ele não me viu. Passei por ali em um passo a-pressado de quem está caminhando, confundindo-me com o movimento do fim de semana, dia de inverno, bonito e com sol, pessoas passeando com os cães, jogando bola com os filhos, namorando. Achei curioso o encontrá-lo assim. Ninguém diria que aquele pacato pai de família, a noite era um batedor de carteira, talvez um assassino profissional. Eu próprio – uma de suas víti-mas - senti que poderia de repente estar ali conversando com ele como se na-da tivesse acontecido. E por isso dei graças a Deus que ele não tenha me vis-to. Não saberia qual teria sido sua reação. Talvez me cumprimentasse, e eu não poderia deixar de retribuir. O que seria, no mínimo, embaraçoso.

Uma noite, eu e minha esposa saímos de um baile no Clube, no centro da cidade. Já seriam bem umas 3 horas da manhã. Era um baile de formatura, por isso as quadras estavam lotadas de carros quando havíamos chegado para a solenidade e depois para o baile. Tive que deixar o carro umas duas quadras adiante dali, próximo a antiga Gare da Estação Férrea. Longe, portanto, das luzes e do movimento. Estava frio, por isso nem nos demos conta do risco que corríamos ao percorrermos a pé uma distância daquelas. Só pensávamos no frio que sentíamos e no ar condicionado do carro que nos esperava. Íamos abraçados e em passos rápidos, eu tentando aurir um pouco do calor do casa-co de pele que ela usava por cima do vestido.

Tínhamos bebido um pouco.

Quando chegamos no carro, desliguei o alarme com o controle, mas an-tes de eu conseguir entrar um destes guardador de carros que sempre estão por ali, sobretudo em ocasiões de grande movimento, se aproximou - não consegui ver da onde - me pedindo uns trocados. Minha esposa já tinha en-trado e só fazia pensar em ligar o ar condicionado, tanto que lhe alcancei as chaves do carro enquanto me apalpava para conseguir umas moedas o guar-dador.

- Ô, dotor, não tá me reconhecendo?

Era o sujeito de novo. O meu assaltante particular, por assim dizer.

- Então, dotor, tu sabe que não é uma moedinha que eu vô querê , não é? – e ao falar assim afastou a aba do casacão que estava usando mostrando a arma na cintura.

- Tô sabendo – respondi com ar de resignação. – Pô, tu não tá vendo? Tô com a minha mulher aí dentro? – ainda tentei argumentar em vão.

- Tanto pior pra ti, dotor.

- Quanto vai ser então – disse já puxando a carteira. Por sorte, não te-ria que fazer a via sacra do banco. Tinha algum dinheiro na carteira. Mais que o habitual pelo menos.

- O que tu tem aí?

- O de sempre.

- Cem?

- É. Mais ou menos.

- Passa tudo, dotor.

- Toma aí – disse estendendo-lhe o dinheiro em sua direção. As notas farfalhando ao vento.

- Não leve a mal, dotor. É que estou precisando, sabe. Minha filha, a mais nova, tá doente. Teve que baixá o Hospital. Pneumonia me disseram. Preciso pros remédios.

- Tudo bem – ainda tive que lhe dizer, a contragosto, virando-me para entrar no carro. – Mas ela está bem? – escapou-me, de repente, a pergunta, antes de fechar a porta, lembrando-me da cena na praça.

- Sim, ela já está bem melhor. Mas tomamo um grande susto.

- Uhm.. .

- Bom retorno, dotor.



De fato aquilo havia escapado ao meu controle. Parece que eu tinha vi-rado o cash dispenser daquele sujeito. Como me livar dele? Era o que eu co-meçava a me perguntar agora que aquela sombra me perseguia de dia e de noite.

Teria eu feito amizade com ele sem querer? Era assim que ele me con-siderava? Alguém a quem procurar em momentos de dificuldade?

Não sabia mais como avaliar aquela situação. Mas uma coisa era certa. Isso tinha que acabar.



Sua última tentativa de me assaltar aconteceu novamente numa situa-ção semelhante do modo como nós nos conhecemos. Mas dessa vez ele agiu diferente. Parece que ele mesmo não queria mais aquilo, mas o vício ou a ne-cessidade falou mais alto.

Eu tinha saído para caminhar. Estava de agasalho e tênis. Encontrei-o próximo ao campo de futebol do antigo quartel do Exército. Já havia anoite-cido e como esse é meu percurso habitual não me dei conta do risco que cor-ria. Havia muitas pessoas caminhando àquela hora em volta do campo, na pista de atletismo. Talvez se eu estivesse caminhando ali fosse mais seguro. Mas não gosto de ficar dando voltas no campo, como se fosse um peregrino de Meca em volta da Caaba. Por isso, normalmente, caminho pela rua, e ao passar pela frente do campo, encontrei novamente “meu amigo” que estava sentado, junto com outras pessoas, no muro de pedra que separa o campo da rua, sob a sombra das árvores.

Quando me aproximei ele pulou do muro, diretamente ao meu lado. Levei um tremendo susto, mas não perdi o sangue frio. Sobretudo após havê-lo reconhecido. Como falei já éramos quase amigos.

- Caminhando, dotor? – me perguntou, após ter-me refeito do susto.

- É o que parece, não? Oh, rapaz, você quase me matou de susto. Isso é jeito de chegar nas pessoas.

- Oh, foi mal aí, dotor. Desculpe.

- E vê se para com essa mania de me chamar de doutor. Que doutor, que, rapaz. Eu lá sou médico pra tu ficar aí me chamando de doutor, toda ho-ra.

- Ta bom, do... digo, seu... Má, como é que eu vô te chamar se eu nem sei o seu nome?

Era verdade! Não nos tínhamos apresentados ainda. Aqueles nossos encontros fortuitos e infelizes não nos tinham proporcionado essa opor-tunidade.

Parei e fitando-os nos olhos – ele devia ter o que? 28, no máximo 30 anos? – lhe perguntei finalmente após muito tempo:

- Oh, bicho, o que você afinal quer de mim? Já não foi o bastante o que eu já fiz por você?

Sem saber o que responder, baixou a cabeça, embaraçado.

Pela primeira vez senti que ele também não sabia o que queria de mim: amizade? amparo? dinheiro, somente dinheiro?

Queria evitar, mas não pude. Estendi o braço e toquei no seu ombro, como para o encorajar, mas não soube o que dizer. As palavras não saíram. Ele levantou os olhos e por um momento me pareceu que neles haviam lá-grimas. Mas não tenho certeza.

De imediato senti que algo me cutucava as costelas. Era o cano da arma novamente se interpondo entre nós como um fosso instransponível.

- Oh, dotor, não me leve a mal mas é que eu te precisando um dinheiro aí? O senhor é um cara bacana e tudo – nesse momento ele secou na manga do casaco o nariz que escorria. – Mas é que entre nós jamais vai ser possível haver uma amizade, sabe?

- Desse jeito não vai ser possível mesmo – respondi-lhe um tanto de-cepcionado por sua atitude. Até um segundo atrás eu começava acreditar que pudesse ser diferente.

- O senhor, por exemplo, me convidaria para sua casa? Nós poderíamos sair juntos de vez em quando, bater uma bolinha, assar uma carne? Quando? Me responda isso? O senhor me apresentaria para seus amigos? Como o quê? O seu batedor de carteiras particular? Dotor, eu não sei fazer outra coisa – é verdade, eu nunca quis aprender – mas também, oh, nunca matei ninguém.

- Com essa arma que você anda toda hora pra cima e pra baixo é difícil acreditar nisso – disse, dando-lhe as costas, disposto a cortar aquele papo, retomar minha caminhada.

- O, o, o, pera aí, onde tu vai? – agarrou-me pelo braço, fazendo-me vi-rar em sua direção. A arma, agora, dissimulado sob o casaco. Havia pessoas por perto.

- O que vai ser agora? Vai querer me assaltar de novo? Só que dessa vez, meu amigo, tu te deu mal. Estou sem nada. Sem carteira, sem cartões... tu não tá vendo – disse puxando os bolsos da calça do abrigo e do casaco para fora, erguendo as mãos.

- Não tem problema, dotor. – respondeu-me ele com o maior sangue frio. – Eu já contava com isso. A gente vai até a sua casa e você descola lá alguma coisa pra mim.

Aquilo absolutamente mexeu comigo. Uma cena passou rapidamente por minha cabeça. Eu chegando, sob a mira de um revólver, dentro de casa, expondo minha família àquela situação absurda que eu mesmo havia alimen-tado. Eu não podia admitir aquilo de jeito nenhum, nem que esse fosse o meu último ato antes de morrer. Eu havia chegado ao meu limite.

- De jeito nenhum, meu caro – respondi-lhe na cara. Decerto com uma expressão nos olhos que o assustou e antes que ele recuasse e pudesse fazer mira em mim, a uma distância mais segura, agarrei-lhe a mão armada, desvi-ando o revolver para longe de mim.

Entramos em luta e um tiro disparou para o alto, assustando as pessoas que estavam próximas. Caí sobre ele e escutei o zunido de uma nova bala passar a centímetros do meu ouvido, mas nem isso me desviou do meu obje-tivo. Ao contrário, fui tomado de uma raiva que me deu ainda mais força. Senti que podia matá-lo com minhas próprias mãos, mesmo que ele conse-guisse me atingir. Eu era mais forte e pesado, mas ele parecia uma enguia sob mim. Em poucos segundos conseguiu escapar com o quadril sob meu peso e ameaçava montar sobre minhas costas, torcendo meus braços, com a arma entrelaçadas por entre nossas mãos. Apertei-a com mais força, até que ouvi um novo estampido, e um som abafado de bala penetrando um corpo.

Algo quente escorreu por minhas mãos e a pressão que eu sentia nelas foi se desfazendo.

Ainda pude escutar o som da cabeça do bandido-pai de família - quase meu amigo - bater de encontro ao chão.

Eu o havia matado.

August 24, 2010

COMEÇOS

Conversa entreouvida no bar.

COMEÇOS


- Tá esperando alguém?

- Não.

- Senta aqui, tomar uma cerveja comigo.

- É que eu já tou de saída.

- Não tem problema. Quando for pra tu sair, tu sai igual.


E assim começa a conversa que pode ser o início de uma nova história de amor entre um homem e uma mulher.
Uma história que pode ter um desfecho bonito, doloroso ou indiferente, ou se estender ao infinito, através das gerações que vão surgir.
O imponderável da vida e o aleatório das coisas - como elas acontecem - assim se revelam.
É só começar.

June 10, 2010

OS DOIS LOUCOS - Poema

Sem explicações.
Un abraccio a tutti!

OS DOIS LOUCOS

Andava um louco pelo caminho
da vida
muitas loucuras fazendo
até encontrar outro
que mais loucuras
que ele
fazia.

E o louco pensou:
- Tenho que me cuidar! Esse cara é louco!

Assim curou-se o louco
das loucuras que fazia
por obra de outro
que mais do que ele
outras loucuras
podia.

May 22, 2010

UM HOMEM SÓ

UM HOMEM SÓ

Um homem só
conversa no bar
conversa no bar
conversa no bar.

Um homem só.

Um homem só
um homem só
um homem só.

Um homem só
conversa no bar
conversa no bar
conversa no bar.

Com a garçonete.

Um homem só.

Só um homem
conversa no bar

com a garçonete.


Com a garçonete
só um homem
conversa no bar.

Com a garçonete.

Com a garçonete

só um homem
conversa no bar.

Com a garçonete só
só um homem só
conversa no bar.

April 23, 2010

Novo

Recém saído do forno. Por ocasião da morte do pai de um colega de trabalho. Acompanhar o funeral de alguém conhecido é sempre um momento oportuno para a reflexão. Esse surgiu disso.
Um abraço e boa leitura!


O CORPO DO MORTO

O corpo do morto é pesado.
O corpo do morto.
O corpo.

O corpo do morto
é.

Morto o corpo
o morto
não é.

April 10, 2010

Poema

Ói eu aqui travéiz. Com um poema, só para não perder o hábito.
Um abraço!

MAR DE RESSACA

O mar se revolta
ganha volume
invade o calçadão
arrasta construções à beira-mar
destroi
os moles de contenção
e o que era
para impor respeito
vira atração
da curiosidade
geral
diversão
dos surfistas
que nunca
viram
um mar assim

em Copacabana.

April 01, 2010

Artigo

Publico aqui em primeira mão, mas pretendo enviar também para outros meios de comunicação.
Escrevi outro dia. Acho que diz um pouco do que é a vida de quem se dedica a fazer cultura no Brasil.
Espero que apreciem.
Informo que também estou postando alguma coisa no site Recanto das Letras.
Segue abaixo o link para quem quiser dar uma passadinha por lá.
Ah, não deixe de comentar. Faz bem pro ego da gente. Pode criticar também. Eu aguento.
Um abraço a todos.
http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=70776

CULTURA NÃO DÁ DINHEIRO

Cultura não dá dinheiro, e nem tem que dar mesmo. Se queres ganhar dinheiro, vai fazer outra coisa!
Contudo o homem não vive sem cultura.
Desde as manifestações mais rudimentares, como as pinturas rupestres, até as mais sofisticadas, o homem é por essência um ser cultural, produto do seu meio e do seu tempo.
Por isso cultura - e o artista, por conseqüência -, tem de compor o leque das políticas de Estado, receber apoio e incentivo dos Órgãos Oficiais e das entidades privadas, com ou sem finalidades lucrativas.
No entanto, poucos se dão conta disso. A maioria tem preconceito contra as pessoas que se dedicam a fazer cultura. Rotulam-nas, ou de malucas ou de otárias, como se o único valor realmente relevante da vida fosse a persecução do lucro e da riqueza. Por outro lado não deixam de escutar o seu artista preferido, assistir a um bom filme, ler um bom livro, apreciar uma obra de arte, como se estes fossem produtos de geração espontânea, não de homens, feitos de carne e osso, que precisam de meios para sobreviver. E, enquanto o reconhecimento não vem, tem de lutar pelo seu pão de alguma forma. É assim que muitos acabam tendo de se sujeitar a todo tipo de ocupação, as quais, na maioria das vezes, nada tem a ver com sua vocação, até conseguir penetrar no mercado e sobreviver do seu ofício.
Só que essa não é uma tarefa fácil, e a maioria acaba se perdendo pelo caminho.
Por isso a ajuda do Estado e das entidades ligadas à promoção da cultura – e aqui incluo a Academia, enquanto guardiã do saber consagrado, a qual costuma dar as costas ao que se produz para além dos seus muros - é fundamental nessa fase. De outro sorte passaremos o resto dos nossos dias glorificando as obras do passado, quando se sabe que a cultura precisa se renovar e isso só se faz com novos artistas/autores.
Mas cabe ao público também fazer a sua parte.
Se de um lado as iniciativas oficiais tem de ser apoiadas, o consumo consciente de obras de autores iniciantes – e aqui me refiro a toda forma de arte -, é fundamental para que coisas novas e de qualidade surjam. Não dá pra deixar exclusivamente nas mãos do mercado decidir o que presta e o que não presta. De outro modo nos tornaremos reféns do mercado e de produtos culturais de qualidade artística duvidosa, pois o mercado quer vender e o que vende é o que cai fácil no gosto popular, só que isso não é critério de qualidade e o que acaba acontecendo é a produção de uma arte pasteurizada, de baixa qualidade e em geral com algum apelo sensual envolvido. É o que se vê, por exemplo, de tempos em tempos com sucessos meteóricos e, como tais passageiros, da música popular, tais como o bonde do tigrão, bundinha da garrafa, eguinha pocotó e por aí vai.
Ora um produto cultural de qualidade para se firmar e ficar no mercado precisa de conteúdo e por traz dele um autor de qualidade, o qual não se faz da noite para o dia. Deixar nas mãos do acaso e da sorte o surgimento e a sobrevivência de um ser assim é obra de uma sociedade sem consciência da importância da arte.
Cultura tem de parar de ser encarada como apenas mais um produto do mercado e o artista, lançado às feras do jogo de ganha-perde desse meio. Como dito anteriormente a cultura - mas aquela cultura que está se fazendo hoje e não apenas a do passado -, tem de compor o leque das ações do Estado, e ser encarada como um bem de interesse social, recebendo o apoio e o incentivo dos Órgão oficiais e das entidades afins.
Nunca é demais lembrar que a Renascença só foi possível graças ao apoio da igreja, da nobreza italiana e dos grandes comerciantes. Os chamados mecenas, a quem verdadeiramente devemos um Michelangelo, um Da Vinci e um Rafael. O mesmo podendo se dizer em relação aos grandes da música erudita mais tarde na Alemanha.
Então temos de parar com esse preconceito contra as iniciativas oficiais de financiamento de novos autores e também fazer a nossa parte, consumindo as obras de autores iniciantes.
No mesmo sentido, compete à Academia, abrir as suas portas para o que se faz fora, para o que ainda não obteve a chancela da tradição, pois a história já comprovou que o anômico ( de anomia: sem regra, sem lei) de hoje, muitas vezes, tem se tornado o canônico (de cânon: modelo, padrão) de amanhã.

March 29, 2010

CRETINAS

Da série, Cretinas, que acabo de criar, segue abaixo uma piadinha que, pretende-se, abrirá a série:

Chefe para empregado:
- O senhor não tem sido pontual, ultimamente!
- Aí que o senhor se engana.
- Como assim?
- Pelo menos 50% das vezes sou pontual.
- Continuo não entendendo.
- Sempre saio na hora.

March 10, 2010

BANAL

A moça gentil
sorriu
sorriu
sorriu
sorriu
como um rio
um rio
um rio
um rio
um rio
que corre pro mar
o mar
o mar
o mar
o mar.
Para amar
amar
amar
amar
amar.
Foi o que sentiu
sentiu
sentiu
sentiu
sentiu
o tio
o tio
o tio
o tio
quando a moça gentil...

E ela
a pensar
como ia pagar
a prestação da cama
atrasada.
O que dizer pro namorado
depois da briga.
Como tirar a nota
de que precisava na prova
daquela noite...

March 04, 2010

Ser Poeta

Uma declaração, sempre oportuna: o que o autor entende sobre o seu ofício, o que o faz escrever. Em última instância, qual o anelo mais profundo da sua alma, esse desejo de fuga que às vezes é poesia, às vezes ilusão.
No meu caso deu em poesia - que pode bem ser ilusão -, mas enfim, como diz o poema: pago meu preço.
Espero que apreciem.
Boa leitura!
PS: um dica para quem não costuma ler poesia: leia no silêncio, pode ser até em voz alta, escutando os sons das palvras, mas sobretudo sem o acompanhamento de música. Todo poema tem seu ritmo próprio. Um ritmo estranho pode prejudicar a devida apreciação dos versos.



SER POETA

Se eu pudesse
me mudava.
Me mudava
pra terra das palavras.

Lá onde elas são belas
como caravelas
singrando ao sol
no mar da imaginação.

Sem a pressa
- premente -
das coisas do mundo
dessas que só servem
pra tirar
nossa atenção
- delas.

Se eu pudesse
me mudava
do mundo
me mudava da vida
e reinventava
uma forma nova
de existir.

Existir entre a coisas
sem pressa
sem a fobia
do amor
a carestia
da vida
a sabedoria
da dor.

Se eu pudesse
eu mudava o mundo
e ia viver
desbragada
e impunemente
de ilusão.
E convidava
todo mundo
que quisesse
pra essa mansão.

Castelo de areia
palácio de cristal
que me importam
as pechas
que o mundo
dá.

O mundo que se aquiete.
Pago meu preço
mas não tenho apreço
por isso.

É o meu compromisso.

O que exigem
de mim.

Mais...
não podem
- enfim.

February 09, 2010

Novo

Escrevi hoje.
Não é autobiográfico. Também se fosse, não teria problema. Só faço a ressalva para ressaltar que nem tudo que um escritor escreve é sobre si. Aliás a maturidade de um escritor está nisso: sair de si.
Espero ter tido êxito nesta empreitada.
Un abraccio!

MINHA MULHER

Zelo
pra que
minha mulher
só dê
para mim.

Zelo
por
minha
mulher.

Zelo
por
mim.

Zelo
pra quê?

Pra que
minha
mulher...

para
mim.

Só para mim...
minha mulher.

Minha mulher

para mim.

Minha mulher
só.

Só,
minha mulher

para mim.


minha mulher

para mim?


minha mulher!

Ao zelar por ela
zelo por mim.

Minha!


para mim.

January 11, 2010

Conto

Só para variar vou postar um conto.
Talvez vocês já o conheçam, mas fiz algumas alterações.

O INTERFONE

Cheguei cansado do serviço. Eram sete horas e eu ainda precisava ir ao mercado.
Como de hábito comprei cervejas, salsichas e frutas.
“Preciso comer melhor. Essas malditas salsichas devem estar me engordando” – pensava enquanto enchia a cestinha.
“Pelo menos compenso com as frutas no café da manhã” – argumentei para aplacar minha consciência.
Estava tão cansado que nem me toquei que moro sozinho há alguns meses. O camarada com quem dividia o apartamento voltou para a casa dos pais e eu acabei ficando só num apartamento de 2 quartos. Não encontrei com quem dividir o aluguel. Por outro lado, passei a ganhar um pouco melhor depois da promoção e isso tem me permitido viver sozinho. Acabei me acostumando à privacidade da vida de um solitário.
No entanto, não sei se por força do hábito ou por causa da preguiça em procurar nos bolsos a chave de casa, esqueci-me desse detalhe e apertei o número do apartamento em que moro, no painel do interfone. Só depois do segundo toque é que me dei conta de onde é que eu andava com a cabeça. Dei de ombros e comecei a me apalpar para encontrar as chaves quando, para minha surpresa, alguém atendeu sem dizer nada e acionou o interruptor, abrindo a porta.
Não dei importância para aquilo, pois achei que tivesse errado o número de casa ao apertar o 704. Mas fiquei com aquilo na cabeça, afinal não tinham dito nada e que história era essa de as pessoas irem abrindo a porta do prédio para qualquer um que tocava o interfone? Onde é que estava a segurança daquele edifício que sempre que havia reunião do condomínio era o tema constante das preocupações de todos?
Não conformado com isso, larguei as sacolas diante do elevador e voltei até o painel. Para me certificar que tinha apertado mesmo o número de casa fui até lá e apertei o 704 de novo. Esperei dois segundos e só então dei-me conta do papel ridículo que estava fazendo: apertar o número do próprio apartamento em que morava sozinho! Se alguém me visse naquela situação iria achar que eu havia pirado. Era melhor esquecer. Na primeira oportunidade reclamaria com o síndico a falta de cuidado dos moradores daquele edifício, afinal estava provado que tinha me enganado, apertara o número errado e alguém simplesmente abrira a porta sem ao menos perguntar quem era.
No entanto, ao virar as costas para voltar às compras abandonadas na frente do elevador alguém de novo liberou a porta sem ao menos dizer alô. E o que é pior: tinha certeza de que não tinha me enganado. Apertara o 704.
“ Que diabos está acontecendo aqui?” Voltei de novo e apertei mais uma vez. Alguns segundos depois o zzzz da porta acionada não deixava dúvida: havia alguém em minha casa!
Procurei repassar mentalmente todas as pessoas que podiam ter as chaves do meu apartamento. Alguma ex-namorada, meu amigo que tivesse voltado para buscar os livros esquecidos, meus pais vindos do interior... Ninguém! Pelo menos que eu soubesse ou lembrasse. E mesmo se tivesse, por que não dizer um alô? Quem fala? Aqui é fulano, beltrana de tal.
O que fazer senão subir e conferir o que estava acontecendo?
Embora amedrontado, a curiosidade falou mais alto. Iria pelo menos até meu andar para verificar se havia alguma errada.
O elevador, contudo, permanecia parado no sétimo.
Bati na porta externa para ver se o liberavam, até que em alguns segundos ele começou a descer.
Eram quase 8 horas. Horário normalmente em que as pessoas já estão em casa e os que devem sair já saíram. Por isso não encontrei ninguém no elevador para dividir minha apreensão. O prédio estava em silêncio. Apenas o barulho residual das ruas, dos cabos do elevador, dos pneus dos carros na garagem e dos aparelhos de tvs ligados.
Chegando no meu andar, nada que denunciasse alguma situação excepcional. Só então pude escutar as primeiras vozes vindo dos apartamentos vizinhos. Isso ao mesmo tempo que me tranqüilizava, por outro aumentava a minha apreensão, pois se algo estava errado seria apenas em meu apartamento.
A porta, contudo, não denunciava sinais de arrombamento.
Sentia-me ridículo por estar chegando em minha própria casa com tanta cautela. Mas o que fazer se o que podia encontrar ali não seria nada agradável: uma casa revirada, objetos furtados ou até mesmo a presença de alguém não desejado me esperando no escuro. Tudo isso me passava pela cabeça enquanto girava a chave com cautela na fechadura, procurando fazer o menor barulho possível. Tinha planejado abrir a porta de um empurrão e correr para o fundo do corredor, em direção às escadas. Por isso deixei longe de mim as sacolas para não me atrapalharem na fuga.
Executei a manobra planejada mas nada aconteceu. A porta escancarada assim ficou durante os minutos em que ofegante fiquei a observar à distância. Mas nada, nem ninguém saiu dali.
O fato, porém, de ninguém ter se apresentado não afastava a possibilidade de ainda estar à espreita dentro de casa. Ao que, só agora eu me dava por conta: com o que havia feito, sem querer, tinha a alertado.
Resolvi, então, me aproximar sorrateiramente da porta e acender a luz de casa, batendo de novo em retirada. Certamente a luz poria para correr até mesmo um assassino experiente, pois ele não executaria sua vítima às claras.
Decorrido alguns minutos, nada de anormal. Tudo em ordem e no mais absoluto silêncio, exceto pelos ruídos que vinham dos apartamentos ao lado.
Encorajei-me afinal e resolvi entrar. Já estava irritado com a situação ridícula que estava vivendo.
Entrei, mas não fechei a porta nem trouxe para dentro as sacolas esquecidas no corredor.
Precisava avançar com cautela no “terreno inimigo”.
Mas, ao final de uma vasta revisão por todos os quartos e cômodos da casa, não encontrei nada, nem ninguém estranho. Naquela altura também se alguém houvesse eu teria sido uma vítima fácil. Mas o que fazer senão pagar o preço. Tinha me irritado com aquela cautela inútil e, por fim, preferia o golpe mortal do que continuar com aquela cautela torturante.
Só continuava a não entender uma coisa: quem tinha atendido o interfone?
Por fim esqueci do ocorrido. Minhas compras estavam lá no corredor e eu ainda tinha que tomar banho, jantar e descansar de um dia que tinha sido uma batalha no escritório.
Relaxei.
Fui buscar as compras esquecidas lá fora.
Nesse momento a luz do corredor apagou e tive que contar com apenas a luz de dentro de casa. Voltei às escuras, me guiando pela fraca luz vazada da porta entre-aberta.
Ao entrar, no entanto, alguma coisa escura e muito rápida saltou sobre mim, me derrubando no chão, e antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, tapou minha boca com um forte aperto, quase me sufocando, ao mesmo tempo que me cutucava as costelas com uma faca da qual apenas o brilho tinha visto de relance. Percebi que estava dominado e que não devia reagir, de outro modo seria atravessado pela enorme lâmina. No entanto, a expressão nos olhos do meu agressor não me dava muita esperança. Era a morte que eu via neles!
Com os pés empurrou a porta, fechando-a com um forte estalo e com um movimento rápido montou sobre mim. Começou a se reclinar como se quisesse me dizer alguma coisa ao ouvido, antes de me matar. No entanto, quando abriu a boca para falar, o que ouvi não era voz humana, mas um forte zumbido metálico como a campainha de um interfone.
Acordei com a estridência do interfone de casa, insistentemente acionado.
Cansado como estava tinha adormecido no sofá, e o que me sufocava não era nenhuma mão assassina, mas sim a almofada que tinha sobre o corpo, e tapava minha respiração. A faca em meu flanco nada mais era que o controle da TV a me cutucar durante aquele sono rápido e pesado.
Deveras eu tinha ficado impressionado demais com tudo o que tinha acontecido.
No entanto, tinha parecido tão real...
Acordei esbaforido, suado de terror e sem entender ainda bem o que tinha acontecido. Atendi confuso o interfone que não parava de tocar.
- E aí, cara, tá pronto?
- Quem fala?
- Como quem fala, meu? É o Juca, não tá me reconhecendo?
- Juca? Que Juca?
- Como assim que Juca, cara? Teu colega de serviço. Esqueceu da festa da Lorena.
- Putz, cara, esqueci... Esqueci completamente. Acabei pegando no sono aqui no sofá. Acordei agora com você tocando esse bendito – ou maldito - interfone.
- Ah, não brinca? Como esqueceu, bicho?
- Esqueci. Aconteceram umas paradas meio estranhas aqui e eu acabei esquecendo... Relaxei no sofá... Dormi.
- Mas e aí. Tu vai ou não vai?
- ... Cara, vai indo na frente. Se eu me animar eu vou atrás.
- Tu não quer que a gente te espera?
- Não... Tá tranqüilo. Agora até nem sei se vou. Tô pregado! Tive até um pesadelo agora há pouco. Amanhã eu te conto no escritório.
- Tu que sabe. Vai perder um festão...
- Eu sei...

Era o Juca, meu colega do escritório. Tinha esquecido da festa na casa da Lorena. Com tudo o que havia acontecido acabei esquecendo dessa festa de boas vindas a nova colega de trabalho.
Agora já não sabia se iria. Estava atrasado, confuso e ainda tinha de tomar banho, me arrumar...
Quando desliguei o interfone, o golpe me atingiu na altura das costelas. Só senti a queimação da lâmina entrando do lado esquerdo. Não tão fundo que atingisse o coração. Mas forte o suficiente para me derrubar.
Ainda pude ver os olhos do vulto que me atacava pelas costas. Foi a última coisa que vi com nitidez antes de cair no chão da cozinha e apagar.
A imagem da porta de casa bruscamente aberta pelo vulto em fuga, e assim deixada para minha sorte, foi se tornando cada vez mais fraca, turva e embaralhada, até se apagar como as luzes no teatro, entre uma cena e outra.