March 28, 2007

Olá

Para provar que não sou uma voz isolada no universo, vou publicar nesse espaço um poema que uma amiga me mandou outro dia.
Como não tinha autoria declarada tive que consultá-la para me certificar que era a autora. Como ela é uma pessoa extremamente modesta para esses assuntos de literatura, a resposta me deu infundiu a certeza que de fato ela é a autora desse belo excerto de pensamento.
Não podia deixar isso passar em branco, por isso venho a público - embora devo admitir, até esse momento um público bastante reduzido - dizer: não sou mais uma voz que clama no deserto. Alguém ouviu e não só isso, começa a trazer a lume, também seus frutos. Quem sabe possamos um dia sentarmos juntos em uma grande roda de novos autores para comê-los juntos.
Um abraço SMI.
Poema:

Se a vida perde o brilho
alguma luz eu acendo
onde tem falha eu emendo
coloco o que posso no trilho
separo o que não presta
o que não serve para nada
e da penumbra que me resta
faço piada

2 comments:

Anonymous said...

Olá Julio
Ainda que você não tenha feito a tréplica ao meu último comentário no blog, e ainda que eu não tenha intuito ou talento pra crítica literária, apenas com a intenção de aproveitar um pouco das leituras que faço e dar alguma "vazão" a elas, me atrevo a escrever de novo para partilhar leituras de poesia que fiz ultimamente, esperando que você faça o mesmo a partir das tuas leituras.
AUGUSTO F. SCHMIDT: li um pequeno volume, uma antologia, e não gostei. Não recomendo. A poesia é de versos livres, mas é mais uma prosa em forma de verso, nada poética; por exemplo: "as nuvens que passam preparam o temporal
o vento levanta folhas
e mexe os galhos das árvores..." (estou inventando de memória), ou seja, apenas lugares-comuns, linguagem direta, nunca um verso transcendente, isto é, "poesia propriamente dita".
O URAGUAI (B. da Gama): na verdade, "O Uruguai"; muito bom, eu não esperava tanto. A história das reduções, Sepé Tiarajú, as batalhas da resistência ao português, a ambientação às margens do grande rio nosso conhecido, um épico-heróico convincente.
MARÍLIA DE DIRCEU: vale a pena, não achei tão bom quanto o Uraguai, mas vale pela diversidade de ritmos e versificação, o poeta alterna diversos estilos poéticos, a maioria desconhecidos pra mim, é uma gramática do verso e vale também por alguns momentos de boa "poesia de amor" ou romântica.
A. MEYER: gaúcho, a poesia é relativamente boa, não achei momentos de alto brilho, mas a "prosa poética" (pequenos textos poéticos, pequenos contos) é impressionante, quase me lembrou do Cortázar; por exemplo: 1 - "... o homem sabe que todos os caminhos (oh os caminhos da aventura, terras ignoradas, partir um dia sem avisar a ninguém, deixando só o mistério da ausência) levam sempre ao caminho de casa. é o destino de todos, e tudo volta afinal à ordem. O vagabundo encontra no fim das suas fugas o refúgio do desencanto, como a sombra da derrota..." 2 - "...um último impulso e me sumo na região intemporal. Passam na disparada rápida fetos de planetas gorados, astros de cabeleira fosfórea, nebulosas, chuvas de estrelas distraindo o espaço enfastiado, meteoros riscam o negrume do caos. Agora vem a região do eterno silêncio..."
E tem muito mais de onde saiu isso e ainda melhor.
G. MISTRAL: poetisa chilena, prêmio Nobel, no começo eu não gostei ou não entendi, mas à medida que você continuar a leitura a poesia dela vai te impregnando e se mostrando de uma densidade avassaladora, mas é uma poesia que exige o máximo da atenção, é como chuva miúda que precisa de tempo pra irrigar a terra. Vai uma amostra:

A MEIA-NOITE
Fina, a meia-noite.
Ouço os nós do rosal:
a seiva sobe dando impulso à rosa.

Ouço
as raias ardentes do tigre
real: não o deixam dormir.

Ouço a estrofe de alguém
a crescer dentro da noite
como a duna.

Ouço
a minha mãe adormecida
com dois respiros
(durmo em seu seio
aos cinco anos).

Ouço o Ródano
que baixa e me leva, pai
cego de espuma cega.

Nada mais ouço, após,
senão que vou tombando
entre os muros arlesianos
repletos de sol."

É isso. Nunca esquecendo, claro, que a apreciação da obra de arte é subjetiva, cada um terá uma opinião, um gosto, não existe uma interpretação mais correta e sim uma escritura aberta ao infinito...

Um abraço

Poeta Passo Fundo said...

Paulo, essa vou ficar te devendo. Devo confessar que entrei num período de maresia. Um certo desalento que já comentei contigo outro dia se apoderou de mim e me leva a nutrir um certo desencanto com tudo. Sei que isso é passageiro e é que são desses período que venho à tona novamente para continuar criando, que é, atualmente o que verdadeiramente me interessa. De toda forma, as leituras para mim nunca foram um fim em si. Sempre as vi como um meio para expressar de uma forma melhor aquilo que sinto. Para ser franco contigo, poucos foram os livros e os escritores que verdadeiramente causaram em mim uma impressão real(Kafka, Camus, Sartre o Deserto dos Tártaros de Buzzati e outros). Talvez por isso não tenha seguido a carreira de professor. Sou um amador - do verbo amar - da literatura e assim quero permanecer - ao menos no conhecimento de outros autores. Só me interessa aquilo que verdadeiramente tenha significado para seu autor um sentimento ou uma experiência de vida verdadeira. Não acredito no conceito da arte pela arte. A arte é apenas um veículo - conceito do budismo - para uma iluminação, uma visão mais profunda da vida. É claro, que há os momentos de descontração e do puro jogo da criação. Mas a arte verdadeiramente só sobrevive como uma necessidade vital para seu autor de expressão. De outra forma há muito tempo teria acabado, ou seria apenas o privilégio de alguns poucos privilegiados que podem dar-se ao sabor de se dedicar a ela, sem outras preocupações. Para nós, porém, sobreviventes de um meio cultural paupérrimo a arte sobrevive em nós apenas como essa necessidade vital de expressar o Belo.
Um abraço