Conforme o prometido, lá vai a sequência do conto Negócio Arriscado:
- Você é louco ou o quê, cara?
- Não, olhe aqui – disse eu me aproximando, quase familiar, como diante de um aluno que não tivesse entendido a situação. Sentia que podíamos chegar a um acordo.
- Hei, cara. Fica aí onde você está – fez-me retroceder, apontando a arma.
Só então me dei conta, novamente, com quem estava lidando.
- Tudo bem. Vai com calma, aí meu chapa. Só quero propor para você um negócio.
- Hum...
- É o seguinte: você viu aí que tem uma miséria nessa carteira. Para você ela vale esses estritos 30 reais. Já para mim ela vale bem mais. Sei que você não vai simplesmente me devolvê-la. Vai jogá-la fora, tentar negociar meu documentos com alguém ou simplesmente a destruir, por vingança ou para não deixar pistas.
- Hum... – ele parecia agora interessado no rumo daquela conversa, embora não desviasse a arma na minha direção. Tinha me feito voltar para as sombras do vão da garagem e se pusera também ele sob as sombras para evitar o farol dos poucos carros que por ali passavam. Não tinha também tirado o gorro que usava. Só de vez em quando conseguia ver o brilho atento dos seus olhos.
- Os cartões que aí estão também lhe serão dentro em breve inúteis. Logo serão bloqueados e as tentativas de sua utilização só servirão para a polícia seguir o seu rastro. Ademais tu não conheces a senha. A que eu te disser talvez não seja verdadeira.
- E daí?
- E daí que o que vou gastar para fazer a segunda via desses documentos, que para ti não valem nada, vai ser uma grana considerável. Além do tempo e da incomodação toda.
- Hum...
- Bem, o negócio é o seguinte: eu me proponho a ir contigo até um caixa eletrônico aqui perto. Eu saco o que o banco me permite sacar numa hora dessas – você deve saber que os bancos têm lá as suas normas - uns 100 reais, talvez um pouco mais, e tu me devolves a minha carteira, com os documentos e os meus cartões. O que tu acha?
O silêncio do outro lado indicava que ele estava pensando sobre aquela proposta. Maluca que ela fosse, parecia honesta da minha parte. Certamente ele avaliava os riscos que corria.
- Tu é louco? Como é que eu vou te levar até o banco com esse berro nas tuas costas. E a toca? Decerto eu vô te que tirá. Se não, o que vai parecer, nós dois passeando pelo centro. Um encapuzado e um bacana. É palhaçada.
- Que palhaçada, meu? Tu não tem imaginação? Tu guarda esse berro aí no bolso da jaqueta. Aliás, não precisa nem ficar apontando ele pra mim, tá bem, que não estou gostando mesmo dessa situação. A gente vai calmamente no banco. Tu me alcança o cartão, eu saco essa grana de que eu te falei e estamos conversados. Agora, é claro que tu vai ter que tirar esse gorro, aí né. Ou tu vai querer desfilar com ele pelo centro?
Eu, quando queria, sabia ser convincente. Estava mesmo a ponto de chamá-lo de burro para não aceitar uma propostas daquelas, mas também sabia que tinha que ir devagar, afinal quem não podia ser burro ali era eu.
No entanto ele parecia não ter se importado com o fato de eu estar lhe chamando a atenção. Estava concentrado avaliando as variáveis daquela proposta para se importar com isso. Mas parecia não se decidir. A grande questão ali era ele ter que revelar o seu rosto. Aquilo representava para ele um risco excessivo.
Adivinhando que essa era a dificuldade procurei lhe encorajar:
- Olha aqui. Fazemos assim: você me entrega agora o cartão do banco e fica com o resto da minha carteira. Você anda atrás de mim, a uma distância em que te sintas confortável. Eu vou na frente. Saco o dinheiro enquanto você me espera fora do banco. Não precisa entrar. Podes ficar mesmo do outro lado da rua. Eu prometo não fazer nada para não te identificar. Quando eu sair do banco, você vem ao meu encontro. Talvez aí eu veja o teu rosto. Mas será rápido. Prometo não me fixar nele. O que me interessa mesmo é a minha carteira. Eu te dou o dinheiro, você me devolve a carteira. O que tu acha?
Estava difícil ele se decidir. Por sua cabeça decerto passavam diversas idéias. Até mesmo no crime é preciso ter imaginação, revelar alguma competência. O poder de uma arma ou a força bruta não são garantias de sucesso. É preciso inteligência. Minha falação agora já não poderia mais me ajudar. Ao contrário, poderia deixá-lo nervoso. Por isso resolvi me calar. Cabia a ele se decidir. Eu não podia continuar daquela maneira conduzindo o negócio. Era prudente deixar-lhe um espaço no qual ele pudesse se movimentar.
Por fim ele se decidiu. Fez isso com um gesto, tirando o gorro da cabeça e me encarando com a arma em punho.
- Tudo bem! Mas vámo fazê do meu jeito. Vamo junto quem nem dois amigo. No banco eu te dô o cartão – fazendo isso, fez um movimento com o revólver me indicando o caminho a seguir.
Não vi onde ele guardou a arma. Acho que a pôs no bolso direito da jaqueta e, embora, ele não andasse com as mãos dentro do bolso sabia que não seria difícil para ele me acertar se fosse tentar qualquer coisa. Também eu não tinha essa intenção. Sabia que estava me saindo barato conseguir recuperar meus documentos. Não iria fazer nenhuma bobagem. Àquela hora o máximo de saque que o banco me permitiria seria uns R$ 100,00. Só de incômodo e tempo, eu perderia muito mais.
Subimos novamente a Moron em silêncio. Não havia como sermos amigos naquelas circuntâncias. Aos poucos fomos vindo para a luz. Procurava não encará-lo quando trocávamos uma ou outra palavra. Quando o fazia, sentia nele uma tensão que era bom não estimular.
Uma viatura da polícia passou por nós e senti nesse momento mais medo do que durante todo o assalto. Temia que de repente a Brigada o reconhecesse de alguma anterior passagem pela polícia e acabasse acontecendo uma confusão. Por sorte nada disso aconteceu. Espertamente ele nos fez parar diante de uma vitrine de celulares, simulando uma conversa entre amigos, sobre o último modelo de celular ali exposto, dando as costas para a rua. Por ali também já havia bastante pessoas circulando, de modo que os brigadianos acabaram sendo distraídos pelo movimento.
Chegamos no banco. Ele me deu o cartão e pediu para eu lhe entregar o celular que até aquele momento, parece, não tinha se dado conta que ainda estava comigo. Disse-me que me esperaria do outro lado da rua, diante da praça Marechal Floriano, num parada de ônibus que há ali. O disfarce perfeito para quem quer ficar de boboeira, enquanto observa ou espera alguém.
Entrei no banco e saquei o valor que eu sabia o banco me autorizaria àquela hora, R$ 100,00. Uma quantia irrisória para mim diante da incomodação de que estava me poupando.
De volta à rua, saí para lhe procurar. Imaginava-o me observando do outro lado da rua. Fui surpreendido pela súbita aparição dele às minhas costas.
- E aí, doutor, tudo certo?
- Sim – respondi atropelado pelo susto de vê-lo novamente tão perto.
- Tem o dinheiro aí? Quanto?
- Cem!
- Só isso?
- Eu lhe falei que a essa hora...
- Tá, tá. Eu já sei. Então passa logo aí.
- Primeiro a carteira.
- Não! Primeiro o dinheiro – a mão direita no bolso da jaqueta me convenceu de que eu não devia contrariá-lo.
Alcancei-lhe o dinheiro. Com apenas uma das mãos livres olhou as duas notas de cinqüenta, embolsando-as em seguida.
- Agora a carteira, certo?
Um movimento da mão direita dentro do bolso da jaqueta, fez-me pensar no tiro, no que sentiria em seguida. Doeria? Onde me atingiria? Seria fatal? Quais seriam as sequelas?
Mas para minha surpresa o que ele tinha no bolso da jaqueta era carteira. Acho que a arma ele havia guardado na cinta.
Alcançou-me a carteira com um sorriso diante da minha expressão de pânico.
– Foi um prazer fazer negócio contigo, doutor.
– Igualmente – não pude deixar de responder.
Por um momento, me pareceu, tínhamos nos tornado amigos. Quase nos estendemos a mão para nos cumprimentarmos, afinal tínhamos cumprido os termos do negócio. Mas recuamos no último instante. Ele atravessou a rua rapidamente, sumindo em seguida na escuridão da praça.
Segue amanhã.
May 31, 2007
May 30, 2007
News
Pessoal, é o seguinte: como tenho me dedicado ultimamente mais à prosa que a poesia, a partir de hoje vou publicar aqui meus contos. Como alguns são longos, contudo, vou fazê-los por partes, para não chateá-los e também para tentar pescá-los para que retornem à página para ver a continuação da história. Na verdade, este o maior mérito de um autor: despertar a curiosidade do leitor.
Para começar hoje vou publicar a primeira parte do conto Negócio Arriscado. Espero que gostem.
Um abraço.
NEGÓCIO ARRISCADO
Sábado à tardinha. Sai para caminhar. Precisa espairecer de um dia fechado em casa assistindo aos jogos da copa do mundo. Como de costume pensei em caminhar até a revisteira central, ver as novidades para as quais, durante a semana, não tenho tempo nem cabeça. Só ao chegar lá, no entanto, dei-me conta do excesso que cometia: a semana em cima do livros – sou professor universitário -, nos finais de semana preferia fazer coisa diferente. Embora ame os livros, para tudo tem um limite. Decidi então que poderia ir até uma loja de discos há pouco tempo reinaugurada próximo dali. Afinal depois dos livros os CDs são minha segunda paixão. Mas temia que àquela hora, de um sábado à noite, a loja não estivesse aberta. Chegando lá vi minhas previsões confirmadas. Pensei no shopping Bella Città. Não estava longe dali. Mas não tinha certeza de que lá houvesse uma loja de discos. As vezes em que lá estivera não me lembrava se aquela loja de jogos de videogame há pouco inaugurada também vendia discos. Hesitei. Pensei no outro shopping da cidade, suspirando de vontade de ter feito esta escolha ao sair de casa, pois só agora dava-me conta: ali encontraria o que estava procurando: um loja de discos onde o cliente ficava à vontade, sem a pressão ou a ansiedades dos vendedores. Sem falar que lá também pode se ouvir uma música ao vivo, nos finais de tarde, tomar um chopp acompanhando o movimento de quem chega, de quem sai, a uma distância confortável para ser visto por quem se deseja e evitado por quem se quer ignorar.
Mas como disse estava quase no outro extremo da cidade. Uma caminhada até lá seria o equivalente do que tinha caminhado até aquele momento e minhas pernas me diziam que já tinha feito um bom exercício.
No entanto, sem opção, não vi outra alternativa.
Na verdade eu morava nas redondezas do Bourbon – este outro shopping ou hipermercado, como queiram - e tinha evitado ir até lá como primeira opção justamente para caminhar. Voltar para casa ou ir até lá, então, dava praticamente no mesmo.
Fui.
Para tornar mais ágil meu retorno, escolhi descer pela Moron até a rodoviária. Para quem conhece a rua Moron à noite, após o cruzamento com a Benjamin Constant, sabe do que estou falando: uma prova incontestável de coragem. Próximo à rodoviária, então, um convite para ser assaltado. Mas como sou um otimista convicto e não tenha traumas desse tipo de experiência apostei no risco - e na adrenalina, porque não reconhecer – para quebrar a monotonia daquele dia.
Desci.
Como de hábito quando ando por esses lugares ermos e escuros, procuro acompanhar de longe o movimento dos que se aproximam, evitar passar próximo aos becos e entradas de garagens, a sombra das árvores sob as quais um vulto pode bem se esconder, os terrenos baldios e situações semelhantes. O fator surpresa é grande vantagem do bandido na abordagem das suas vítimas. Prevenir-se contra esse primeiro contato é o mínimo que alguém que queira evitar ser assaltado deve fazer.
Mas as coisas quando devem acontecer acontecem, façamos nós o que tivermos que fazer.
Foi tudo muito rápido. Ao menos assim me pareceu. Talvez eu não estivesse tão atento assim. Afinal como já disse nunca passei por uma experiência dessas e por mais que forjemos teorias sobre como evitar um acontecimento desses, se não tenhamos uma vez que seja na vida o experimentado, não temos autoridade para ensinar aos outros como agir. E, por mais prevenido que possamos ser, se não vivemos essa experiência, em algum momento iremos relaxar, achando lá no fundinho de nós mesmos, que essas coisas na verdade nunca acontecem. Nunca pelo menos conosco. É quando então começamos a baixar a guarda, desafiando o perigo com uma certa leviandade, testando os seus limites e os da razoabilidade, expondo-nos a situações de risco para sabermos sobre elas o que é fato, o que é mito. É esse o momento do bandido. E como o crime sobrevive: da nossa dificuldade de acreditar que as ameaças existem e podem se tornar reais.
Bem, o fato é que de repente eu me vi sob a mira do revólver e aquele encapuzado me forçou de encontro ao vão de uma porta de garagem com o cano da arma engatilhada nas minhas costelas.
- A carteira!!! Vâmo, a carteira, pó?
Sem tempo para refletir tateei o bolso de trás da calça e num átimo lhe entreguei a carteira que eu sabia não tinha muita coisa, não pelo menos daquilo que ele procurava: dinheiro. Pois há muito tempo, como a maioria das pessoas, deixei de andar com dinheiro na carteira. Em geral uso os cartões: de débito, de crédito, de farmácias, postos de gasolina, do mercado. Para que se expor ao risco que hoje eu via se confirmar, com tantas facilidades oferecidas pela tecnologia? Teria quanto muito uns 30 reais. Quantia pela qual, eu sabia, era um despropósito entregar-lhe a carteira onde eu tinha todos esses cartões, mais alguns indispensáveis documentos pessoais: carteira de motorista, documentos do carros, carteira funcional. Passava-me de repente pela cabeça o incômodo e a despesa que me dariam para obter uma segunda via: registro da ocorrência policial, requisição das segundas vias, romaria a diversas repartições públicas, pagamento de todo tipo de taxa, filas de banco, perda de um tempo, para mim, cada vez mais escasso e valioso. Então no momento em que a ameaça mais presente do cano da pistola nas costelas se afastou, com o bandido levando o seu butim, não pude deixar de lhe interpelar:
- Hei?! Quanto você quer pela minha carteira de volta?
Ele tinha se afastado apenas alguns passos, dando-me as costas. Por isso foi fácil para mim me fazer ouvir. Tinha me encorajado a sua atitude, afinal percebi que ele examinava, com a arma ainda em punho, o produto do seu roubo. Por um momento ocorreu-me que a sua decepção por conta do conteúdo tão pobre daquela carteira poderia se voltar contra mim e eu ser vítima de algo pior do que apenas uma roubo. Um disparo acidental daquela arma não estava descartado. Mas algo mais também havia me ocorrido: era lamentável eu entregar por tão pouco, o que me valia tanto. Era a oportunidade de um negócio que eu via ali, nada mais: eu dava-lhe de bom grado o que ele queria, e ele – de bom grado, eu esperava – devolvia-me o que era tão importante para mim..
- O quê? – ele me perguntou se voltando para mim, com uma indignação pela minha ousadia e pela miséria que ele tinha encontrado na carteira.
- É isso o que você ouviu: quanto você quer pela carteira de volta?
Continua amanhã...
Para começar hoje vou publicar a primeira parte do conto Negócio Arriscado. Espero que gostem.
Um abraço.
NEGÓCIO ARRISCADO
Sábado à tardinha. Sai para caminhar. Precisa espairecer de um dia fechado em casa assistindo aos jogos da copa do mundo. Como de costume pensei em caminhar até a revisteira central, ver as novidades para as quais, durante a semana, não tenho tempo nem cabeça. Só ao chegar lá, no entanto, dei-me conta do excesso que cometia: a semana em cima do livros – sou professor universitário -, nos finais de semana preferia fazer coisa diferente. Embora ame os livros, para tudo tem um limite. Decidi então que poderia ir até uma loja de discos há pouco tempo reinaugurada próximo dali. Afinal depois dos livros os CDs são minha segunda paixão. Mas temia que àquela hora, de um sábado à noite, a loja não estivesse aberta. Chegando lá vi minhas previsões confirmadas. Pensei no shopping Bella Città. Não estava longe dali. Mas não tinha certeza de que lá houvesse uma loja de discos. As vezes em que lá estivera não me lembrava se aquela loja de jogos de videogame há pouco inaugurada também vendia discos. Hesitei. Pensei no outro shopping da cidade, suspirando de vontade de ter feito esta escolha ao sair de casa, pois só agora dava-me conta: ali encontraria o que estava procurando: um loja de discos onde o cliente ficava à vontade, sem a pressão ou a ansiedades dos vendedores. Sem falar que lá também pode se ouvir uma música ao vivo, nos finais de tarde, tomar um chopp acompanhando o movimento de quem chega, de quem sai, a uma distância confortável para ser visto por quem se deseja e evitado por quem se quer ignorar.
Mas como disse estava quase no outro extremo da cidade. Uma caminhada até lá seria o equivalente do que tinha caminhado até aquele momento e minhas pernas me diziam que já tinha feito um bom exercício.
No entanto, sem opção, não vi outra alternativa.
Na verdade eu morava nas redondezas do Bourbon – este outro shopping ou hipermercado, como queiram - e tinha evitado ir até lá como primeira opção justamente para caminhar. Voltar para casa ou ir até lá, então, dava praticamente no mesmo.
Fui.
Para tornar mais ágil meu retorno, escolhi descer pela Moron até a rodoviária. Para quem conhece a rua Moron à noite, após o cruzamento com a Benjamin Constant, sabe do que estou falando: uma prova incontestável de coragem. Próximo à rodoviária, então, um convite para ser assaltado. Mas como sou um otimista convicto e não tenha traumas desse tipo de experiência apostei no risco - e na adrenalina, porque não reconhecer – para quebrar a monotonia daquele dia.
Desci.
Como de hábito quando ando por esses lugares ermos e escuros, procuro acompanhar de longe o movimento dos que se aproximam, evitar passar próximo aos becos e entradas de garagens, a sombra das árvores sob as quais um vulto pode bem se esconder, os terrenos baldios e situações semelhantes. O fator surpresa é grande vantagem do bandido na abordagem das suas vítimas. Prevenir-se contra esse primeiro contato é o mínimo que alguém que queira evitar ser assaltado deve fazer.
Mas as coisas quando devem acontecer acontecem, façamos nós o que tivermos que fazer.
Foi tudo muito rápido. Ao menos assim me pareceu. Talvez eu não estivesse tão atento assim. Afinal como já disse nunca passei por uma experiência dessas e por mais que forjemos teorias sobre como evitar um acontecimento desses, se não tenhamos uma vez que seja na vida o experimentado, não temos autoridade para ensinar aos outros como agir. E, por mais prevenido que possamos ser, se não vivemos essa experiência, em algum momento iremos relaxar, achando lá no fundinho de nós mesmos, que essas coisas na verdade nunca acontecem. Nunca pelo menos conosco. É quando então começamos a baixar a guarda, desafiando o perigo com uma certa leviandade, testando os seus limites e os da razoabilidade, expondo-nos a situações de risco para sabermos sobre elas o que é fato, o que é mito. É esse o momento do bandido. E como o crime sobrevive: da nossa dificuldade de acreditar que as ameaças existem e podem se tornar reais.
Bem, o fato é que de repente eu me vi sob a mira do revólver e aquele encapuzado me forçou de encontro ao vão de uma porta de garagem com o cano da arma engatilhada nas minhas costelas.
- A carteira!!! Vâmo, a carteira, pó?
Sem tempo para refletir tateei o bolso de trás da calça e num átimo lhe entreguei a carteira que eu sabia não tinha muita coisa, não pelo menos daquilo que ele procurava: dinheiro. Pois há muito tempo, como a maioria das pessoas, deixei de andar com dinheiro na carteira. Em geral uso os cartões: de débito, de crédito, de farmácias, postos de gasolina, do mercado. Para que se expor ao risco que hoje eu via se confirmar, com tantas facilidades oferecidas pela tecnologia? Teria quanto muito uns 30 reais. Quantia pela qual, eu sabia, era um despropósito entregar-lhe a carteira onde eu tinha todos esses cartões, mais alguns indispensáveis documentos pessoais: carteira de motorista, documentos do carros, carteira funcional. Passava-me de repente pela cabeça o incômodo e a despesa que me dariam para obter uma segunda via: registro da ocorrência policial, requisição das segundas vias, romaria a diversas repartições públicas, pagamento de todo tipo de taxa, filas de banco, perda de um tempo, para mim, cada vez mais escasso e valioso. Então no momento em que a ameaça mais presente do cano da pistola nas costelas se afastou, com o bandido levando o seu butim, não pude deixar de lhe interpelar:
- Hei?! Quanto você quer pela minha carteira de volta?
Ele tinha se afastado apenas alguns passos, dando-me as costas. Por isso foi fácil para mim me fazer ouvir. Tinha me encorajado a sua atitude, afinal percebi que ele examinava, com a arma ainda em punho, o produto do seu roubo. Por um momento ocorreu-me que a sua decepção por conta do conteúdo tão pobre daquela carteira poderia se voltar contra mim e eu ser vítima de algo pior do que apenas uma roubo. Um disparo acidental daquela arma não estava descartado. Mas algo mais também havia me ocorrido: era lamentável eu entregar por tão pouco, o que me valia tanto. Era a oportunidade de um negócio que eu via ali, nada mais: eu dava-lhe de bom grado o que ele queria, e ele – de bom grado, eu esperava – devolvia-me o que era tão importante para mim..
- O quê? – ele me perguntou se voltando para mim, com uma indignação pela minha ousadia e pela miséria que ele tinha encontrado na carteira.
- É isso o que você ouviu: quanto você quer pela carteira de volta?
Continua amanhã...
May 15, 2007
Conto conceito
Como te prometi, Paulo, estou publicando aquele conto sobre o qual, outro dia, trocamos algumas idéias. Inicialmente havia pensado que a idéia que deu origem a este conto, fosse, efetivamente para um conto. No entanto, perquirindo um pouco mais essa idéia, perseguindo-a em seu bruxulear inicial - bruxulear, sim, porque o que me ocorreu foi apenas isso, um bruxulear - descobri que ela não havia nascido para um conto, propriamente, mas para algo parecido.
Já há algum tempo me ocorre de ilustrar uma idéia contando uma história. Como um metáfora para esclarecer melhor o que estou pensando. Vou publicar algumas aqui, para ilustrar melhor essa... técnica. Literariamente não sei exatamente como chamar a isso. Talvez seja uma fábula, uma parábola... Efetivamente não sei. Vou ter que pesquisar para saber. Mas isso não vem ao caso. Como lhe disse o importante é não desperdiçar o tema. Pode-se estragá-lo. Desperdiça-lo, porém, jamás!
Um abraço
MEDO: UMA DOENÇA SOCIAL
Entrei na praça que, àquela hora, já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de vida, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês atrás se saía do trabalho com o sol ainda alto, agora se sai com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de procurar as ruas mais iluminadas para voltar para casa.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já não é mais a época de voltar por este caminho.
Como já me encontrava dentro, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida em que fui avançando para o interior da praça, onde as sombras sob as árvores se avolumavam, comecei a ficar preocupado. A todo instante tinha a sensação de que alguém pularia de detrás de uma daquelas moitas e meteria uma faca na minha jugular ou contra as costelas, me forçando a entregar tudo o que tinha nos bolsos.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira, as chaves de casa e na cinta, o celular. Na carteira, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais dinheiro em espécie. Naturalmente isso deixaria mais satisfeito o ladrão. Nada, contudo, que me garantisse que eu sairia dessa com vida.
Instintivamente aprecei o passo, mas o caminho, antes tão curto, nunca me pareceu tão longo. Mesmo a presença de algumas pessoas por ali se exercitando – certamente moradores próximos – não fazia me sentir melhor. Preferia eu próprio garantir minha segurança.
Cheguei do outro lado, afinal, esbaforido, porém, vivo, para minha satisfação. Me congratulei por isso. As luzes e movimento das ruas me devolviam a segurança perdida durante aqueles instantes em que estivera à mercê da sorte.
Afinal de contas não costumo passar por lugares assim. Não me dou ao trabalho de correr riscos para me certificar que lugares como esses devem ser evitados quando a noite cai. A simples possibilidade de eles conterem uma ameaça já é suficiente para me manter afastado.
Contudo, durante aquela travessia – só então me dei conta - não havia notado ali nada que justificasse ter me assustado daquela maneira. Nenhuma ameaça, aparente ou velada, a minha integridade física.
O que me causou uma estranha sensação.
Afinal o que havia provocado aquele medo?
As árvores? As sombras? Os caminhos tortuosos daquele lugar?
Mas essas coisas poderiam ter me feito algum mal?
Acreditava eu em alma penada, lobo mau, bicho papão?
Não, já há muito tempo que aprendera a ser um homem racional e a crer em bem poucas coisas do sobrenatural. Nada, com certeza, que pusesse a minha vida em risco.
O que eu havia temido, então? – voltava-me a pergunta inquietadora, à qual a resposta que me vinha era ainda mais inquietadora.
Pois o que eu havia temido, em suma, era o bandido. Em outras palavras, o homem, o meu igual, que apenas por ser um desconhecido, estar escuro e ninguém por perto, podia ter se transformado em meu agressor. O mesmo que, em outro ocasião, poderia ter encontrado sem jamais suspeitar, talvez até cumprimentado, por nos reconhecermos iguais, mas que na primeira oportunidade se revelaria uma ameaça para mim. Só então pude me dar conta de quão doente é o meio em que vivemos. E quão doentes estamos nós, seus ocupantes.
Já há algum tempo me ocorre de ilustrar uma idéia contando uma história. Como um metáfora para esclarecer melhor o que estou pensando. Vou publicar algumas aqui, para ilustrar melhor essa... técnica. Literariamente não sei exatamente como chamar a isso. Talvez seja uma fábula, uma parábola... Efetivamente não sei. Vou ter que pesquisar para saber. Mas isso não vem ao caso. Como lhe disse o importante é não desperdiçar o tema. Pode-se estragá-lo. Desperdiça-lo, porém, jamás!
Um abraço
MEDO: UMA DOENÇA SOCIAL
Entrei na praça que, àquela hora, já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de vida, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês atrás se saía do trabalho com o sol ainda alto, agora se sai com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de procurar as ruas mais iluminadas para voltar para casa.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já não é mais a época de voltar por este caminho.
Como já me encontrava dentro, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida em que fui avançando para o interior da praça, onde as sombras sob as árvores se avolumavam, comecei a ficar preocupado. A todo instante tinha a sensação de que alguém pularia de detrás de uma daquelas moitas e meteria uma faca na minha jugular ou contra as costelas, me forçando a entregar tudo o que tinha nos bolsos.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira, as chaves de casa e na cinta, o celular. Na carteira, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais dinheiro em espécie. Naturalmente isso deixaria mais satisfeito o ladrão. Nada, contudo, que me garantisse que eu sairia dessa com vida.
Instintivamente aprecei o passo, mas o caminho, antes tão curto, nunca me pareceu tão longo. Mesmo a presença de algumas pessoas por ali se exercitando – certamente moradores próximos – não fazia me sentir melhor. Preferia eu próprio garantir minha segurança.
Cheguei do outro lado, afinal, esbaforido, porém, vivo, para minha satisfação. Me congratulei por isso. As luzes e movimento das ruas me devolviam a segurança perdida durante aqueles instantes em que estivera à mercê da sorte.
Afinal de contas não costumo passar por lugares assim. Não me dou ao trabalho de correr riscos para me certificar que lugares como esses devem ser evitados quando a noite cai. A simples possibilidade de eles conterem uma ameaça já é suficiente para me manter afastado.
Contudo, durante aquela travessia – só então me dei conta - não havia notado ali nada que justificasse ter me assustado daquela maneira. Nenhuma ameaça, aparente ou velada, a minha integridade física.
O que me causou uma estranha sensação.
Afinal o que havia provocado aquele medo?
As árvores? As sombras? Os caminhos tortuosos daquele lugar?
Mas essas coisas poderiam ter me feito algum mal?
Acreditava eu em alma penada, lobo mau, bicho papão?
Não, já há muito tempo que aprendera a ser um homem racional e a crer em bem poucas coisas do sobrenatural. Nada, com certeza, que pusesse a minha vida em risco.
O que eu havia temido, então? – voltava-me a pergunta inquietadora, à qual a resposta que me vinha era ainda mais inquietadora.
Pois o que eu havia temido, em suma, era o bandido. Em outras palavras, o homem, o meu igual, que apenas por ser um desconhecido, estar escuro e ninguém por perto, podia ter se transformado em meu agressor. O mesmo que, em outro ocasião, poderia ter encontrado sem jamais suspeitar, talvez até cumprimentado, por nos reconhecermos iguais, mas que na primeira oportunidade se revelaria uma ameaça para mim. Só então pude me dar conta de quão doente é o meio em que vivemos. E quão doentes estamos nós, seus ocupantes.
Conto conceito
Como te prometi, Paulo, estou publicando aquele conto sobre o qual, outro dia, trocamos algumas idéias. Inicialmente havia pensado que a idéia que deu origem a este conto, fosse, efetivamente para um conto. No entanto, perquirindo um pouco mais essa idéia, perseguindo-a em seu bruxulear inicial - bruxulear, sim, porque o que me ocorreu foi apenas isso, um bruxulear - descobri que ela não havia nascido para um conto, propriamente, mas para algo parecido.
Já há algum tempo me ocorre de ilustrar uma idéia contando uma história. Como um metáfora para esclarecer melhor o que estou pensando. Vou publicar algumas aqui, para ilustrar melhor essa... técnica. Literariamente não sei exatamente como chamar a isso. Talvez seja uma fábula, uma parábola... Efetivamente não sei. Vou ter que pesquisar para saber. Mas isso não vem ao caso. Como lhe disse o importante é não desperdiçar o tema. Pode-se estragá-lo. Desperdiça-lo, porém, jamás!
Um abraço
MEDO: UMA DOENÇA SOCIAL
Entrei na praça que, àquela hora, já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de vida, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês atrás se saía do trabalho com o sol ainda alto, agora se sai com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de procurar as ruas mais iluminadas para voltar para casa.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já não é mais a época de voltar por este caminho.
Como já me encontrava dentro, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida em que fui avançando para o interior da praça, onde as sombras sob as árvores se avolumavam, comecei a ficar preocupado. A todo instante tinha a sensação de que alguém pularia de detrás de uma daquelas moitas e meteria uma faca na minha jugular ou contra as costelas, me forçando a entregar tudo o que tinha nos bolsos.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira, as chaves de casa e na cinta, o celular. Na carteira, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais dinheiro em espécie. Naturalmente isso deixaria mais satisfeito o ladrão. Nada, contudo, que me garantisse que eu sairia dessa com vida.
Instintivamente aprecei o passo, mas o caminho, antes tão curto, nunca me pareceu tão longo. Mesmo a presença de algumas pessoas por ali se exercitando – certamente moradores próximos – não fazia me sentir melhor. Preferia eu próprio garantir minha segurança.
Cheguei do outro lado, afinal, esbaforido, porém, vivo, para minha satisfação. Me congratulei por isso. As luzes e movimento das ruas me devolviam a segurança perdida durante aqueles instantes em que estivera à mercê da sorte.
Afinal de contas não costumo passar por lugares assim. Não me dou ao trabalho de correr riscos para me certificar que lugares como esses devem ser evitados quando a noite cai. A simples possibilidade de eles conterem uma ameaça já é suficiente para me manter afastado.
Contudo, durante aquela travessia – só então me dei conta - não havia notado ali nada que justificasse ter me assustado daquela maneira. Nenhuma ameaça, aparente ou velada, a minha integridade física.
O que me causou uma estranha sensação.
Afinal o que havia provocado aquele medo?
As árvores? As sombras? Os caminhos tortuosos daquele lugar?
Mas essas coisas poderiam ter me feito algum mal?
Acreditava eu em alma penada, lobo mau, bicho papão?
Não, já há muito tempo que aprendera a ser um homem racional e a crer em bem poucas coisas do sobrenatural. Nada, com certeza, que pusesse a minha vida em risco.
O que eu havia temido, então? – voltava-me a pergunta inquietadora, à qual a resposta que me vinha era ainda mais inquietadora.
Pois o que eu havia temido, em suma, era o bandido. Em outras palavras, o homem, o meu igual, que apenas por ser um desconhecido, estar escuro e ninguém por perto, podia ter se transformado em meu agressor. O mesmo que, em outro ocasião, poderia ter encontrado sem jamais suspeitar, talvez até cumprimentado, por nos reconhecermos iguais, mas que na primeira oportunidade se revelaria uma ameaça para mim. Só então pude me dar conta de quão doente é o meio em que vivemos. E quão doentes estamos nós, seus ocupantes.
Já há algum tempo me ocorre de ilustrar uma idéia contando uma história. Como um metáfora para esclarecer melhor o que estou pensando. Vou publicar algumas aqui, para ilustrar melhor essa... técnica. Literariamente não sei exatamente como chamar a isso. Talvez seja uma fábula, uma parábola... Efetivamente não sei. Vou ter que pesquisar para saber. Mas isso não vem ao caso. Como lhe disse o importante é não desperdiçar o tema. Pode-se estragá-lo. Desperdiça-lo, porém, jamás!
Um abraço
MEDO: UMA DOENÇA SOCIAL
Entrei na praça que, àquela hora, já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de vida, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês atrás se saía do trabalho com o sol ainda alto, agora se sai com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de procurar as ruas mais iluminadas para voltar para casa.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já não é mais a época de voltar por este caminho.
Como já me encontrava dentro, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida em que fui avançando para o interior da praça, onde as sombras sob as árvores se avolumavam, comecei a ficar preocupado. A todo instante tinha a sensação de que alguém pularia de detrás de uma daquelas moitas e meteria uma faca na minha jugular ou contra as costelas, me forçando a entregar tudo o que tinha nos bolsos.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira, as chaves de casa e na cinta, o celular. Na carteira, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais dinheiro em espécie. Naturalmente isso deixaria mais satisfeito o ladrão. Nada, contudo, que me garantisse que eu sairia dessa com vida.
Instintivamente aprecei o passo, mas o caminho, antes tão curto, nunca me pareceu tão longo. Mesmo a presença de algumas pessoas por ali se exercitando – certamente moradores próximos – não fazia me sentir melhor. Preferia eu próprio garantir minha segurança.
Cheguei do outro lado, afinal, esbaforido, porém, vivo, para minha satisfação. Me congratulei por isso. As luzes e movimento das ruas me devolviam a segurança perdida durante aqueles instantes em que estivera à mercê da sorte.
Afinal de contas não costumo passar por lugares assim. Não me dou ao trabalho de correr riscos para me certificar que lugares como esses devem ser evitados quando a noite cai. A simples possibilidade de eles conterem uma ameaça já é suficiente para me manter afastado.
Contudo, durante aquela travessia – só então me dei conta - não havia notado ali nada que justificasse ter me assustado daquela maneira. Nenhuma ameaça, aparente ou velada, a minha integridade física.
O que me causou uma estranha sensação.
Afinal o que havia provocado aquele medo?
As árvores? As sombras? Os caminhos tortuosos daquele lugar?
Mas essas coisas poderiam ter me feito algum mal?
Acreditava eu em alma penada, lobo mau, bicho papão?
Não, já há muito tempo que aprendera a ser um homem racional e a crer em bem poucas coisas do sobrenatural. Nada, com certeza, que pusesse a minha vida em risco.
O que eu havia temido, então? – voltava-me a pergunta inquietadora, à qual a resposta que me vinha era ainda mais inquietadora.
Pois o que eu havia temido, em suma, era o bandido. Em outras palavras, o homem, o meu igual, que apenas por ser um desconhecido, estar escuro e ninguém por perto, podia ter se transformado em meu agressor. O mesmo que, em outro ocasião, poderia ter encontrado sem jamais suspeitar, talvez até cumprimentado, por nos reconhecermos iguais, mas que na primeira oportunidade se revelaria uma ameaça para mim. Só então pude me dar conta de quão doente é o meio em que vivemos. E quão doentes estamos nós, seus ocupantes.
May 04, 2007
Talento
Para provar que o talento nasce com a pessoa, dêem uma olhada na poesia da Mariana, filha de uma amiga minha, de apenas 9 anos.
O toque infantil é inegável, o que não a impede de trabalhar com conceitos abstratos como "contagiosa" e "visual", raros num escrito de um criança.
Parabéns, Mariana. Quem sabe não teremos logo mais uma escritora de talento entre nós!
O Pôr-do-Sol
O Pôr-do-Sol é lindo
A vida maravilhosa
As montanhas belas
E a alegria, contagiosa.
A Terra
As montanhas
A água
E o Sol
Juntos formam um belo visual.
O toque infantil é inegável, o que não a impede de trabalhar com conceitos abstratos como "contagiosa" e "visual", raros num escrito de um criança.
Parabéns, Mariana. Quem sabe não teremos logo mais uma escritora de talento entre nós!
O Pôr-do-Sol
O Pôr-do-Sol é lindo
A vida maravilhosa
As montanhas belas
E a alegria, contagiosa.
A Terra
As montanhas
A água
E o Sol
Juntos formam um belo visual.
May 02, 2007
Desafio
Quero propor um desafio aos meus leitores - na hipótese de haver mais de um, mas enfim, se for só o Paulo que seja - , Paulo, um desafio: quero escrever uma crônica com o seguinte título: A vida está nas ruas.
Tenho tentado elaborar esse tema, mas ele tem me escapado.
Quero falar sobre a diversidade de vida, pessoas, situações, coisas que se encontram nas ruas, nos dias mais movimentados do comércio, da luta pela sobrevivência.
Sócrates frequentava o mercado quando este fervilhava para falar de filosofia.
Essa idéia me seduz.
Quero algo que bordeje esse tema: Sócrates no mercado.
Se forem capazes de elaborar algo, gostaria de publicara aqui.
Também estou nessa labuta.
O resultado veremos nos próximos dias, se aceitarem o desafio.
Alea jacta est.
É uma incitação.
Vejamos o que sai.
Um abraço.
Tenho tentado elaborar esse tema, mas ele tem me escapado.
Quero falar sobre a diversidade de vida, pessoas, situações, coisas que se encontram nas ruas, nos dias mais movimentados do comércio, da luta pela sobrevivência.
Sócrates frequentava o mercado quando este fervilhava para falar de filosofia.
Essa idéia me seduz.
Quero algo que bordeje esse tema: Sócrates no mercado.
Se forem capazes de elaborar algo, gostaria de publicara aqui.
Também estou nessa labuta.
O resultado veremos nos próximos dias, se aceitarem o desafio.
Alea jacta est.
É uma incitação.
Vejamos o que sai.
Um abraço.
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