May 15, 2007

Conto conceito

Como te prometi, Paulo, estou publicando aquele conto sobre o qual, outro dia, trocamos algumas idéias. Inicialmente havia pensado que a idéia que deu origem a este conto, fosse, efetivamente para um conto. No entanto, perquirindo um pouco mais essa idéia, perseguindo-a em seu bruxulear inicial - bruxulear, sim, porque o que me ocorreu foi apenas isso, um bruxulear - descobri que ela não havia nascido para um conto, propriamente, mas para algo parecido.
Já há algum tempo me ocorre de ilustrar uma idéia contando uma história. Como um metáfora para esclarecer melhor o que estou pensando. Vou publicar algumas aqui, para ilustrar melhor essa... técnica. Literariamente não sei exatamente como chamar a isso. Talvez seja uma fábula, uma parábola... Efetivamente não sei. Vou ter que pesquisar para saber. Mas isso não vem ao caso. Como lhe disse o importante é não desperdiçar o tema. Pode-se estragá-lo. Desperdiça-lo, porém, jamás!
Um abraço

MEDO: UMA DOENÇA SOCIAL

Entrei na praça que, àquela hora, já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de vida, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês atrás se saía do trabalho com o sol ainda alto, agora se sai com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de procurar as ruas mais iluminadas para voltar para casa.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já não é mais a época de voltar por este caminho.
Como já me encontrava dentro, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida em que fui avançando para o interior da praça, onde as sombras sob as árvores se avolumavam, comecei a ficar preocupado. A todo instante tinha a sensação de que alguém pularia de detrás de uma daquelas moitas e meteria uma faca na minha jugular ou contra as costelas, me forçando a entregar tudo o que tinha nos bolsos.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira, as chaves de casa e na cinta, o celular. Na carteira, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais dinheiro em espécie. Naturalmente isso deixaria mais satisfeito o ladrão. Nada, contudo, que me garantisse que eu sairia dessa com vida.
Instintivamente aprecei o passo, mas o caminho, antes tão curto, nunca me pareceu tão longo. Mesmo a presença de algumas pessoas por ali se exercitando – certamente moradores próximos – não fazia me sentir melhor. Preferia eu próprio garantir minha segurança.
Cheguei do outro lado, afinal, esbaforido, porém, vivo, para minha satisfação. Me congratulei por isso. As luzes e movimento das ruas me devolviam a segurança perdida durante aqueles instantes em que estivera à mercê da sorte.
Afinal de contas não costumo passar por lugares assim. Não me dou ao trabalho de correr riscos para me certificar que lugares como esses devem ser evitados quando a noite cai. A simples possibilidade de eles conterem uma ameaça já é suficiente para me manter afastado.
Contudo, durante aquela travessia – só então me dei conta - não havia notado ali nada que justificasse ter me assustado daquela maneira. Nenhuma ameaça, aparente ou velada, a minha integridade física.
O que me causou uma estranha sensação.
Afinal o que havia provocado aquele medo?
As árvores? As sombras? Os caminhos tortuosos daquele lugar?
Mas essas coisas poderiam ter me feito algum mal?
Acreditava eu em alma penada, lobo mau, bicho papão?
Não, já há muito tempo que aprendera a ser um homem racional e a crer em bem poucas coisas do sobrenatural. Nada, com certeza, que pusesse a minha vida em risco.
O que eu havia temido, então? – voltava-me a pergunta inquietadora, à qual a resposta que me vinha era ainda mais inquietadora.
Pois o que eu havia temido, em suma, era o bandido. Em outras palavras, o homem, o meu igual, que apenas por ser um desconhecido, estar escuro e ninguém por perto, podia ter se transformado em meu agressor. O mesmo que, em outro ocasião, poderia ter encontrado sem jamais suspeitar, talvez até cumprimentado, por nos reconhecermos iguais, mas que na primeira oportunidade se revelaria uma ameaça para mim. Só então pude me dar conta de quão doente é o meio em que vivemos. E quão doentes estamos nós, seus ocupantes.

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