Pessoal, é o seguinte: como tenho me dedicado ultimamente mais à prosa que a poesia, a partir de hoje vou publicar aqui meus contos. Como alguns são longos, contudo, vou fazê-los por partes, para não chateá-los e também para tentar pescá-los para que retornem à página para ver a continuação da história. Na verdade, este o maior mérito de um autor: despertar a curiosidade do leitor.
Para começar hoje vou publicar a primeira parte do conto Negócio Arriscado. Espero que gostem.
Um abraço.
NEGÓCIO ARRISCADO
Sábado à tardinha. Sai para caminhar. Precisa espairecer de um dia fechado em casa assistindo aos jogos da copa do mundo. Como de costume pensei em caminhar até a revisteira central, ver as novidades para as quais, durante a semana, não tenho tempo nem cabeça. Só ao chegar lá, no entanto, dei-me conta do excesso que cometia: a semana em cima do livros – sou professor universitário -, nos finais de semana preferia fazer coisa diferente. Embora ame os livros, para tudo tem um limite. Decidi então que poderia ir até uma loja de discos há pouco tempo reinaugurada próximo dali. Afinal depois dos livros os CDs são minha segunda paixão. Mas temia que àquela hora, de um sábado à noite, a loja não estivesse aberta. Chegando lá vi minhas previsões confirmadas. Pensei no shopping Bella Città. Não estava longe dali. Mas não tinha certeza de que lá houvesse uma loja de discos. As vezes em que lá estivera não me lembrava se aquela loja de jogos de videogame há pouco inaugurada também vendia discos. Hesitei. Pensei no outro shopping da cidade, suspirando de vontade de ter feito esta escolha ao sair de casa, pois só agora dava-me conta: ali encontraria o que estava procurando: um loja de discos onde o cliente ficava à vontade, sem a pressão ou a ansiedades dos vendedores. Sem falar que lá também pode se ouvir uma música ao vivo, nos finais de tarde, tomar um chopp acompanhando o movimento de quem chega, de quem sai, a uma distância confortável para ser visto por quem se deseja e evitado por quem se quer ignorar.
Mas como disse estava quase no outro extremo da cidade. Uma caminhada até lá seria o equivalente do que tinha caminhado até aquele momento e minhas pernas me diziam que já tinha feito um bom exercício.
No entanto, sem opção, não vi outra alternativa.
Na verdade eu morava nas redondezas do Bourbon – este outro shopping ou hipermercado, como queiram - e tinha evitado ir até lá como primeira opção justamente para caminhar. Voltar para casa ou ir até lá, então, dava praticamente no mesmo.
Fui.
Para tornar mais ágil meu retorno, escolhi descer pela Moron até a rodoviária. Para quem conhece a rua Moron à noite, após o cruzamento com a Benjamin Constant, sabe do que estou falando: uma prova incontestável de coragem. Próximo à rodoviária, então, um convite para ser assaltado. Mas como sou um otimista convicto e não tenha traumas desse tipo de experiência apostei no risco - e na adrenalina, porque não reconhecer – para quebrar a monotonia daquele dia.
Desci.
Como de hábito quando ando por esses lugares ermos e escuros, procuro acompanhar de longe o movimento dos que se aproximam, evitar passar próximo aos becos e entradas de garagens, a sombra das árvores sob as quais um vulto pode bem se esconder, os terrenos baldios e situações semelhantes. O fator surpresa é grande vantagem do bandido na abordagem das suas vítimas. Prevenir-se contra esse primeiro contato é o mínimo que alguém que queira evitar ser assaltado deve fazer.
Mas as coisas quando devem acontecer acontecem, façamos nós o que tivermos que fazer.
Foi tudo muito rápido. Ao menos assim me pareceu. Talvez eu não estivesse tão atento assim. Afinal como já disse nunca passei por uma experiência dessas e por mais que forjemos teorias sobre como evitar um acontecimento desses, se não tenhamos uma vez que seja na vida o experimentado, não temos autoridade para ensinar aos outros como agir. E, por mais prevenido que possamos ser, se não vivemos essa experiência, em algum momento iremos relaxar, achando lá no fundinho de nós mesmos, que essas coisas na verdade nunca acontecem. Nunca pelo menos conosco. É quando então começamos a baixar a guarda, desafiando o perigo com uma certa leviandade, testando os seus limites e os da razoabilidade, expondo-nos a situações de risco para sabermos sobre elas o que é fato, o que é mito. É esse o momento do bandido. E como o crime sobrevive: da nossa dificuldade de acreditar que as ameaças existem e podem se tornar reais.
Bem, o fato é que de repente eu me vi sob a mira do revólver e aquele encapuzado me forçou de encontro ao vão de uma porta de garagem com o cano da arma engatilhada nas minhas costelas.
- A carteira!!! Vâmo, a carteira, pó?
Sem tempo para refletir tateei o bolso de trás da calça e num átimo lhe entreguei a carteira que eu sabia não tinha muita coisa, não pelo menos daquilo que ele procurava: dinheiro. Pois há muito tempo, como a maioria das pessoas, deixei de andar com dinheiro na carteira. Em geral uso os cartões: de débito, de crédito, de farmácias, postos de gasolina, do mercado. Para que se expor ao risco que hoje eu via se confirmar, com tantas facilidades oferecidas pela tecnologia? Teria quanto muito uns 30 reais. Quantia pela qual, eu sabia, era um despropósito entregar-lhe a carteira onde eu tinha todos esses cartões, mais alguns indispensáveis documentos pessoais: carteira de motorista, documentos do carros, carteira funcional. Passava-me de repente pela cabeça o incômodo e a despesa que me dariam para obter uma segunda via: registro da ocorrência policial, requisição das segundas vias, romaria a diversas repartições públicas, pagamento de todo tipo de taxa, filas de banco, perda de um tempo, para mim, cada vez mais escasso e valioso. Então no momento em que a ameaça mais presente do cano da pistola nas costelas se afastou, com o bandido levando o seu butim, não pude deixar de lhe interpelar:
- Hei?! Quanto você quer pela minha carteira de volta?
Ele tinha se afastado apenas alguns passos, dando-me as costas. Por isso foi fácil para mim me fazer ouvir. Tinha me encorajado a sua atitude, afinal percebi que ele examinava, com a arma ainda em punho, o produto do seu roubo. Por um momento ocorreu-me que a sua decepção por conta do conteúdo tão pobre daquela carteira poderia se voltar contra mim e eu ser vítima de algo pior do que apenas uma roubo. Um disparo acidental daquela arma não estava descartado. Mas algo mais também havia me ocorrido: era lamentável eu entregar por tão pouco, o que me valia tanto. Era a oportunidade de um negócio que eu via ali, nada mais: eu dava-lhe de bom grado o que ele queria, e ele – de bom grado, eu esperava – devolvia-me o que era tão importante para mim..
- O quê? – ele me perguntou se voltando para mim, com uma indignação pela minha ousadia e pela miséria que ele tinha encontrado na carteira.
- É isso o que você ouviu: quanto você quer pela carteira de volta?
Continua amanhã...
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