Conforme o prometido, lá vai a sequência do conto Negócio Arriscado:
- Você é louco ou o quê, cara?
- Não, olhe aqui – disse eu me aproximando, quase familiar, como diante de um aluno que não tivesse entendido a situação. Sentia que podíamos chegar a um acordo.
- Hei, cara. Fica aí onde você está – fez-me retroceder, apontando a arma.
Só então me dei conta, novamente, com quem estava lidando.
- Tudo bem. Vai com calma, aí meu chapa. Só quero propor para você um negócio.
- Hum...
- É o seguinte: você viu aí que tem uma miséria nessa carteira. Para você ela vale esses estritos 30 reais. Já para mim ela vale bem mais. Sei que você não vai simplesmente me devolvê-la. Vai jogá-la fora, tentar negociar meu documentos com alguém ou simplesmente a destruir, por vingança ou para não deixar pistas.
- Hum... – ele parecia agora interessado no rumo daquela conversa, embora não desviasse a arma na minha direção. Tinha me feito voltar para as sombras do vão da garagem e se pusera também ele sob as sombras para evitar o farol dos poucos carros que por ali passavam. Não tinha também tirado o gorro que usava. Só de vez em quando conseguia ver o brilho atento dos seus olhos.
- Os cartões que aí estão também lhe serão dentro em breve inúteis. Logo serão bloqueados e as tentativas de sua utilização só servirão para a polícia seguir o seu rastro. Ademais tu não conheces a senha. A que eu te disser talvez não seja verdadeira.
- E daí?
- E daí que o que vou gastar para fazer a segunda via desses documentos, que para ti não valem nada, vai ser uma grana considerável. Além do tempo e da incomodação toda.
- Hum...
- Bem, o negócio é o seguinte: eu me proponho a ir contigo até um caixa eletrônico aqui perto. Eu saco o que o banco me permite sacar numa hora dessas – você deve saber que os bancos têm lá as suas normas - uns 100 reais, talvez um pouco mais, e tu me devolves a minha carteira, com os documentos e os meus cartões. O que tu acha?
O silêncio do outro lado indicava que ele estava pensando sobre aquela proposta. Maluca que ela fosse, parecia honesta da minha parte. Certamente ele avaliava os riscos que corria.
- Tu é louco? Como é que eu vou te levar até o banco com esse berro nas tuas costas. E a toca? Decerto eu vô te que tirá. Se não, o que vai parecer, nós dois passeando pelo centro. Um encapuzado e um bacana. É palhaçada.
- Que palhaçada, meu? Tu não tem imaginação? Tu guarda esse berro aí no bolso da jaqueta. Aliás, não precisa nem ficar apontando ele pra mim, tá bem, que não estou gostando mesmo dessa situação. A gente vai calmamente no banco. Tu me alcança o cartão, eu saco essa grana de que eu te falei e estamos conversados. Agora, é claro que tu vai ter que tirar esse gorro, aí né. Ou tu vai querer desfilar com ele pelo centro?
Eu, quando queria, sabia ser convincente. Estava mesmo a ponto de chamá-lo de burro para não aceitar uma propostas daquelas, mas também sabia que tinha que ir devagar, afinal quem não podia ser burro ali era eu.
No entanto ele parecia não ter se importado com o fato de eu estar lhe chamando a atenção. Estava concentrado avaliando as variáveis daquela proposta para se importar com isso. Mas parecia não se decidir. A grande questão ali era ele ter que revelar o seu rosto. Aquilo representava para ele um risco excessivo.
Adivinhando que essa era a dificuldade procurei lhe encorajar:
- Olha aqui. Fazemos assim: você me entrega agora o cartão do banco e fica com o resto da minha carteira. Você anda atrás de mim, a uma distância em que te sintas confortável. Eu vou na frente. Saco o dinheiro enquanto você me espera fora do banco. Não precisa entrar. Podes ficar mesmo do outro lado da rua. Eu prometo não fazer nada para não te identificar. Quando eu sair do banco, você vem ao meu encontro. Talvez aí eu veja o teu rosto. Mas será rápido. Prometo não me fixar nele. O que me interessa mesmo é a minha carteira. Eu te dou o dinheiro, você me devolve a carteira. O que tu acha?
Estava difícil ele se decidir. Por sua cabeça decerto passavam diversas idéias. Até mesmo no crime é preciso ter imaginação, revelar alguma competência. O poder de uma arma ou a força bruta não são garantias de sucesso. É preciso inteligência. Minha falação agora já não poderia mais me ajudar. Ao contrário, poderia deixá-lo nervoso. Por isso resolvi me calar. Cabia a ele se decidir. Eu não podia continuar daquela maneira conduzindo o negócio. Era prudente deixar-lhe um espaço no qual ele pudesse se movimentar.
Por fim ele se decidiu. Fez isso com um gesto, tirando o gorro da cabeça e me encarando com a arma em punho.
- Tudo bem! Mas vámo fazê do meu jeito. Vamo junto quem nem dois amigo. No banco eu te dô o cartão – fazendo isso, fez um movimento com o revólver me indicando o caminho a seguir.
Não vi onde ele guardou a arma. Acho que a pôs no bolso direito da jaqueta e, embora, ele não andasse com as mãos dentro do bolso sabia que não seria difícil para ele me acertar se fosse tentar qualquer coisa. Também eu não tinha essa intenção. Sabia que estava me saindo barato conseguir recuperar meus documentos. Não iria fazer nenhuma bobagem. Àquela hora o máximo de saque que o banco me permitiria seria uns R$ 100,00. Só de incômodo e tempo, eu perderia muito mais.
Subimos novamente a Moron em silêncio. Não havia como sermos amigos naquelas circuntâncias. Aos poucos fomos vindo para a luz. Procurava não encará-lo quando trocávamos uma ou outra palavra. Quando o fazia, sentia nele uma tensão que era bom não estimular.
Uma viatura da polícia passou por nós e senti nesse momento mais medo do que durante todo o assalto. Temia que de repente a Brigada o reconhecesse de alguma anterior passagem pela polícia e acabasse acontecendo uma confusão. Por sorte nada disso aconteceu. Espertamente ele nos fez parar diante de uma vitrine de celulares, simulando uma conversa entre amigos, sobre o último modelo de celular ali exposto, dando as costas para a rua. Por ali também já havia bastante pessoas circulando, de modo que os brigadianos acabaram sendo distraídos pelo movimento.
Chegamos no banco. Ele me deu o cartão e pediu para eu lhe entregar o celular que até aquele momento, parece, não tinha se dado conta que ainda estava comigo. Disse-me que me esperaria do outro lado da rua, diante da praça Marechal Floriano, num parada de ônibus que há ali. O disfarce perfeito para quem quer ficar de boboeira, enquanto observa ou espera alguém.
Entrei no banco e saquei o valor que eu sabia o banco me autorizaria àquela hora, R$ 100,00. Uma quantia irrisória para mim diante da incomodação de que estava me poupando.
De volta à rua, saí para lhe procurar. Imaginava-o me observando do outro lado da rua. Fui surpreendido pela súbita aparição dele às minhas costas.
- E aí, doutor, tudo certo?
- Sim – respondi atropelado pelo susto de vê-lo novamente tão perto.
- Tem o dinheiro aí? Quanto?
- Cem!
- Só isso?
- Eu lhe falei que a essa hora...
- Tá, tá. Eu já sei. Então passa logo aí.
- Primeiro a carteira.
- Não! Primeiro o dinheiro – a mão direita no bolso da jaqueta me convenceu de que eu não devia contrariá-lo.
Alcancei-lhe o dinheiro. Com apenas uma das mãos livres olhou as duas notas de cinqüenta, embolsando-as em seguida.
- Agora a carteira, certo?
Um movimento da mão direita dentro do bolso da jaqueta, fez-me pensar no tiro, no que sentiria em seguida. Doeria? Onde me atingiria? Seria fatal? Quais seriam as sequelas?
Mas para minha surpresa o que ele tinha no bolso da jaqueta era carteira. Acho que a arma ele havia guardado na cinta.
Alcançou-me a carteira com um sorriso diante da minha expressão de pânico.
– Foi um prazer fazer negócio contigo, doutor.
– Igualmente – não pude deixar de responder.
Por um momento, me pareceu, tínhamos nos tornado amigos. Quase nos estendemos a mão para nos cumprimentarmos, afinal tínhamos cumprido os termos do negócio. Mas recuamos no último instante. Ele atravessou a rua rapidamente, sumindo em seguida na escuridão da praça.
Segue amanhã.
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