February 23, 2007

olá

Nada a declarar. Apenas mais um poema:

ESSA VOZ MINHA VOZ

Um dia
essa voz vai se calar
não porque
não tenha o que dizer
mas por já ter dito tudo
o que tinha para falar.
E quando esse dia chegar
já não me importa
de partir
outras plagas
alcançar
esse grão de poeira cósmica
que é minha alma
por onde ela navegar.

Se é que a consciência manterei
de um dia ter sido
essa unidade pensante.

É preciso mesmo renovar
as vozes que cantam
as mentes que pensam
os corações que amam.
Dar a oportunidade
de outros se expressar.

A morte não é o fim
apenas a necessidade de mudar.

É isso aí. Tchau!

2 comments:

Anonymous said...

Amigo Júlio, nesse poema você conseguiu algo difícil: tocar num tema tão complicado quanto o da morte (pra muitos o fim da vida consciente) com uma leveza surpreendente e sem cair no altissonante ou melodramático(me lembrou da leveza que o Nietzsche magistralmente descreve como sendo o estilo de Machiavel no 'Príncipe', na comparação com o passo arrastado e duro da prosa alemão, "expondo o assunto mais sério num indomável 'allegrissimo' - talvez com maliciosa percepção artística do contraste que ousa: os pensamentos, difíceis, prolongados, duros, perigosos e um 'tempo' de galope e do bom humor mais caprichoso..." - 'Além do bem e do mal', aforisma 28). Você pegou o tema mais denso com asas nos pés, encabrestou-o em rédea curta e saiu aos pinotes campo afora, atropelando...
O bom senso e a coragem de calar somente quanto não tiver mais nada pra dizer; a generosidade de reconhecer que outros também devem ter espaço e devem se manifestar, renovando o 'status quo'; o altruísmo de aceitar a mudança; por fim, um verso que é a confluência de tudo e que des-vela o tema central: a morte e que talvez ela apenas seja um outro nome para 'a necessidade de mudança', eu diria, no caso, para a inevitabilidade da mudança.

Poeta Passo Fundo said...

Obrigado! O que mais poderia dizer? Alegra-me sobremaneira estar atingindo meu objetivo. Sobretudo o que disseste: o bom senso e a coragem de calar somente quando não tiver mais nada para dizer. É isso aí. O cerne da questão é ser verdadeiro. sobretudo na poesia não temos como camuflar. Ela nasce da emoção - diante de um fato, de um acontecimento, de uma situação - quando ela acaba, temos também que acabar, sob pena de cairmos no vazio. Aí o mais importante para um verdadeiro poeta: ter o pulso firme - como disseste também com muito felicidade: pegar o tema com asas nos pés, encabrestá-lo e sair dando pinotes -, seguir a emoção com atenção e tensão, até onde ela nos levar, com a caneta praticamente pscicografando o coração. É difícil, nem sempre é fácil ouvir esse sutis murmúrios da alma, mas temos de ficar de ouvidos a postos e uma caneta sempre a mão.
Grato.
Esse diálogo está interessante.
Vamos continuar.
Um abraço
Julio