Ora, dane-se as minhas precaucões. Escrevi ontem um poema belo demais para guardar só pra mim. Veja o que vocês acham:
ORAÇÃO DE UM INFARTADO
Agarro-me
do lado de cá
pois não sei
o que me espera
do lado de lá.
Por isso
se há algo
que me prenda aqui
prefiro adiar
partir.
Até que seja inevitável.
Depois
seja o que Deus quiser
- se Ele houver.
3 comments:
Amigo Julio, gostei desse poema, esse formato com versos curtos me agrada há muito tempo e também venho tentando produzir alguma coisa nesse estilo. Vejo que você caminha a passos largos para um segundo livro, talvez melhor do que o primeiro, e quando procuro uma semelhança noto cada vez mais que o teu lirismo se aproxima do M. Bandeira, como eu já te disse. Quanto à possibilidade de você encontrar editor/financiamento para o livro, acho remota. Nunca esqueço que o próprio Drummond, no auge, mesmo depois de ter publicado, na minha modesta opinião, obras geniais para a história da poesia 'mundial' como "A rosa do povo" e "Sentimento do mundo", pois mesmo ele vendia apenas em torno de 5.000 exemplares por ano, e provavelmente não era era o sonho dos editores, ou seja, poesia não é economicamente viável na ótica míope da indústria editorial. Por falar em poesia, andei lendo "A
escola das facas" do 'teu' Cabral, que eu achava fosse uma obra inicial, mas é da maturidade do poeta, e fiquei mais impressionado do que já era, é um poeta absolutamente cerebral, conceitual, filosófico (o 'estilo' de poeta que eu mais admiro, pois a maioria dos meus preferidos têm esse perfil, muitos estudaram filosofia de verdade: Eliot, Orides Fontela, F. Pessoa, Drummond, Emily Dickinson, além do próprio Cabral, etc.). Pra finalizar, uma dica: o livro "Caminhando" do H. THOREAU (ed. José Olympio), eu não li, mas o comentário sobre o livro me atraiu: "exalta as caminhadas e o prefácio lembra outros escritores-andarilhos". Indico apenas porque é um tema caro pra mim - talvez não te interesse minimamente -, pois não canso de observar, cada vez que saio pra correr ou caminhar, como a endorfina age provocando um bem-estar que só encontro equivalente na bebida e nas eventuais saídas noturnas que ficaram no passado e que me davam um franco gosto de liberdade. Eu me convenço cada vez mais que o
escritor, ao par de muitos outros atributos, muitas vezes encontrou a motivação, a 'ignição', numa caminhada, na bebida, no amor, muitos no uso de psicotrópicos, etc., o que quero dizer é que "no seco" fica mais difícil. Lendo uma entrevista com o Pahmuk deparei com outro "motivador" importante: a escrita como terapia. Eu lembro que comecei a querer escrever imitando estórias infanto-juvenis e depois, perto dos 20 anos, numa fase difícil, descobri, ao mesmo tempo, a poesia e a escrita como terapia de uma forma muito intensa e particular. Entretanto, a lição do Rilke talvez seja a mais definitiva: "...procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo..."
Um abraço.
Amigo Paulo,
Obrigado por sua palavras motivadoras, mas devo confessar que ando ultimamente francamente desmotivado. Só para tu teres uma idéia do meu grau de desmotivação, tenho escrito uns 3 poemas que os considero bons para constar de um eventual segundo livro, mas não encontro motivação nem ao menos para sequer passá-los a limpo!Para tu veres a quantas anda minha desmotivação com os assuntos da cultura.
Durante muito tempo considerei que o maior obstáculo para um autor era a questão da técnica. Hoje começo a me perguntar se é só isso. A indiferença do nosso meio para com as coisas da cultura é decepcionante. Fico às vezes imaginando o quanto poderia produzir e crescer se o meio em que vivemos fosse mais favorável.
Tu mais do que ninguém é testemunha de como sou uma pessoa que não tem medo de expor, que vai a luta e dá a cara a tapa. Mas,às vezes, te confesso tenho vontade de mandar tudo a merda. O meio em que vivemos não merece tanto esforço. Se faço o que faço não é por outro coisa que não o amor pela literatura, pois a se esperar alguma coisa desse meio é ridículo.
Um abraço
Julio
Julio:
entendo o teu desabafo, mas ao mesmo tempo vejo que as coisas dificilmente poderiam ser diferentes. Você não pode esperar motivação de fora, especialmente de um público leitor que é franca minoria (o brasileiro não lê, muito menos poesia) ou de um mundo cultural que aqui não existe (talvez exista em algumas capitais) – vide a nossa Jornada de Literatura, que é pouco mais do que uma ocasião para professores conseguirem um certificado e ultimamente discute mais política e direitos de minorias do que literatura.
Você tem que buscar motivação em ti mesmo, como diz o Rilke, pois a prática do literário é basicamente solitária, tanto a leitura quanto a escrita.
Não posso deixar de admitir que a tua determinação em publicar e em se expor ao debate estão a merecer a vitalidade de um centro cultural, mas aqui estamos longe disso.
Um abraço
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