Continuação:
Dias depois saí para levar até o campus meu filho que tinha perdido o ônibus da faculdade. Na volta parei na sinaleira da rodoviária, quando fui surpreendido por alguém que entrou rapidamente no carro pela porta de trás. Havia esquecido de travar as portas. Já tinha ouvido falar dessa modalidade de assalto que bandidos mais ousados estão aplicando.
- Fica frio aí chefia e não olha pra trás. Quando abrir a sinaleira arranca normalmente. Vamô dá um rolé.
Isso tudo eu escutei sentindo através do banco o cano do que só podia ser da arma encostado nas minhas costas. Sem outra opção, segui as suas instruções, procurando manter o sangue frio.
Mandou-me ficar à esquerda do trâfego. Na esquina seguinte, fez-me dobrar nessa sentido. Saíamos do Avenida Brasil, do movimento e das luzes.
- Para você está me levando?
- Dar uma volta.
Andamos algumas quadras até que ele me mandou parar sob a sombra das árvores. Era noite e as poucas luzes dos postes da rua não penetravam os ramos. Alguma coisa na atitude daquele sujeito me eram familiar. Mas ele não usava nenhum toca ninja como o bandido da outra vez. Não sei porque mais preferia que fosse ele.
- E agora?
- Bem, agora, dotor, quem vai lhe propor um negócio sou eu?
Reconheci a dicção e o tom de voz. Era o cara! O mesmo sujeito de outro dia! Novamente havia caído na sua armadilha.
Voltei-me para trás e pude ver: era mesmo ele com aquele seu sorriso de superioridade.
- Você de novo!? – não pude deixar de exclamar.
- É isso aí.
- O que é que deu em você? Por que eu de novo? Você vem me cuidando para me assaltar novamente?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Foi por acaso, pode crê.
- Você acha que eu acredito em papai Noel para acreditar que você me pegou de novo por acaso?
- Não! Quero dizer que foi por acaso que encontrei contigo outro dia. Me chamô a atenção. Tu passô de carro e eu lembrei de ti. Pensei comigo: tá aí sujeito gente boa. Procurei gravá na memória o teu carro. Quando te vi hoje na sinaleira, pensei em te fazer uma surpresa. Tava mesmo saindo prum trabalhinho aí. Não custava pegar uma carona contigo.
- Então quer dizer que tu vai querer que eu te deixe no local do crime?
- Isso também.
- ‘Ce ta de brincadeira comigo, tá?
- Dotor, não esqueça quem tá no comando aqui, ok? – e dizendo isso apertou de novo a arma de encontro às minhas costas, através do assento.
- Ok, ok. Onde é então o lugar.
- Já te mostro. Mas antes vamô dá aquela passadinha no banco?
- Ah, quer dizer que vai ter isso também?
- O que tu acha?
- Tô sacando... – disse eu só então me dando conta do trocadilho.
Assim tive de passar no banco, sacar o cenzinho como da outra vez e ainda deixá-lo na Vila Cruzeiro – uma das mais barra pesada da cidade - onde ele me pediu para ficar.
Aquilo começava a ficar engraçado: ser assaltado pela segunda vez pelo mesmo sujeito e ainda se sentir grato, afinal ele, agora, podia ter me levado mais do que a outra vez – o carro e a vida, para não deixar pistas.
No entanto, dei de ombros e mais uma vez não registrei ocorrência na polícia: ia ser difícil fazer o pessoal acreditar na veracidade daquele história. Seria muita coisa para explicar.
Um domingo desses eu mesmo encontrei o sujeito, em pleno dia, na praça do Hospital da Cidade. Acho que ele estava com a família. Esposa, uma filha crescida e outra menor. Esta última andando de bicicleta na calçada que tem ali em forma de círculo. Eles tomando chimarrão. Ele não me viu. Passei por ali em um passo apressado de quem está caminhando, confundindo-me com o movimento do fim de semana, dia de inverno e sol. Achei curioso encontrá-lo assim. Ninguém diria que aquele aparente pacato pai de família, à noite era um batedor de carteiras, talvez um assassino profissional. Eu próprio – uma de suas vítimas - senti que poderia estar ali conversando com ele sem suspeitar de nada. Por isso dei graças a Deus que ele não tenha me visto. Não saberia qual teria sido sua reação. Talvez me cumprimentasse, e eu não poderia me omitir de retribuir. O que não deixaria de ser bastante estranho.
Uma noite, eu e minha esposa saímos de um baile no Clube Caixeral no centro da cidade. Já seriam umas 3 horas da manhã. Era um baile de formatura, por isso as quadras estavam lotadas de carros quando havíamos chegado para a solenidade. Tive que deixar o carro umas duas quadras adiante, na direção da antiga Gare da Estação Férrea. Longe, portanto, das luzes e do movimento que, àquela hora, ainda havia na Independência. Estava frio, por isso nem nos demos conta do risco que corríamos ao percorrermos a pé uma distância daquelas. Só pensávamos no frio que sentíamos e no ar condicionado do carro que nos esperava. Íamos abraçados e em passos rápidos, eu tentando aurir um pouco do calor do casaco de pele que minha esposa usava por cima do vestido de alça.
Tínhamos bebido também um pouco. Não nos atínhamos para o risco que corríamos.
Quando chegamos no carro, antes de eu conseguisse entrar, um destes guardador de carros que sempre estão por ali, sobretudo em ocasiões como aquela de grande movimento, se aproximou - não vi donde - me pedindo uns trocados. Minha esposa já tinha entrado e só fazia pensar em ligar o ar condicionado, tanto que lhe alcancei as chaves do carro enquanto me apalpava para ver onde conseguiria arranjar umas moedas.
- Ô, dotor, não tá me reconhecendo?
- Aaah! – sim! Era o sujeito de novo! O meu assaltante particular, por assim dizer.
- Então, dotor, tu sabe que não é uma moedinha que eu vô querê , não é? – e ao falar assim afastou a aba do casacão que estava usando mostrando o cano da arma em minha direção.
- Tô sabendo – respondi-lhe com ar de resignação, recompondo-me para o que veria a seguir. – Pô, tu não tá vendo? Tô com a minha esposa aí dentro? – ainda tentei argumentar em vão.
- Tanto pior pra ti, dotor.
- Quanto vai ser então – disse já puxando a carteira. Por sorte, não teria que fazer a via sacra do banco. Tinha naquele dia algum dinheiro na carteira. Mais que o habitual pelo menos.
- O que tu tem aí?
- O de sempre.
- Cem?
- É. Mais ou menos.
- Passa tudo, dotor.
- Toma aí – disse estendendo-lhe o dinheiro em sua direção. As notas farfalhando ao vento.
- Não leve a mal, dotor. É que estou precisando, sabe? Minha filha. A mais nova. Tá doente. Teve que baixá o hospital. Pneumonia me disseram. Preciso pros remédios.
- Tudo bem – ainda tive que lhe dizer, a contragosto, virando-me para entrar no carro. – Mas ela está bem? – escapou-me, de repente, a pergunta, lembrando-me da cena na praça.
- Sim, ela já está bem melhor. Mas tomamo um grande susto.
- Uhm. Bom retorno, dotor.
Continua amanhã... (muito longo?) Amanhã sai o final.
No comments:
Post a Comment