August 16, 2007

Crônica

Quebrando um pouquinho a sequência da minha narrativa de viagem que venho fazendo aqui, vou brindá-los com uma recente produção que muito me empolgou, porque acho que consegui pegar o anjo por uma perna, digo, a idéia inspiradora, e fixá-la nessa crônica - que inicialmente pensei tratar-se de um conto, mas que depois, analisando melhor vi tratar-se desse outro gênero - sobre um acontecimento real que presenciei há algum tempo.
Poderia ser um poema. Optei pela prosa.
Vejam o que vocës acham, se fui feliz.
Um abraço.

A MORTE DO PINHEIRO

Cuidadosamente planejada, a morte do pinheiro foi um plano arquitetado para não levantar suspeitas nas autoridades responsáveis pela fiscalização. O terreno não era grande e o jovem e infeliz pinheiro havia nascido bem no meio, justamente onde os novos donos do lugar pretendiam levantar a casa.
Como se sabe o pinheiro da família das araucárias é uma árvore nativa do Sul do Brasil e como tal, protegida por lei. Não seria nada fácil, para não dizer impossível, obter a licença para a sua derrubada. Pelo menos era o que o havia dito o engenheiro. O projeto não podia ser executado com o pinheiro ali.
Deram um jeito nele.
Suspeito que usaram daquela abominável técnica de furar o caule da planta e pôr ali óleo queimado ou secante para envenená-la. Depois de morta seria mais fácil obter a licença para seu corte.
O pinheiro é uma árvore rústica e resistente. Por isso estranhei quando vi as suas folhas – que se chamam grimpas – secarem. De imediato pensei no pior. O terreno havia sido limpo. Só ele havia sobrado. Os novos moradores queriam construir. Ele atrapalhava seus planos. Para ligar uma coisa a outra não foi difícil.
Como morava na redondeza e costumava passar por ali com os cachorros que levava para passear, pude acompanhar a lenta decadência daquele belo exemplar das araucárias, jovem e vigoroso.
Não saberia precisar sua idade. Tinha uns 8 metros de altura e um caule que na base devia medir uns 40 centímetros. Teria furos ali? O cercado em volta do terreno e uma capoeira alta o suficiente para esconder uma jararaca me impediam de ver se as minhas suspeitas eram verdadeiras. Talvez se eu tivesse visto pudesse ter evitado aquele crime. Agora, porém, era tarde.
Poucos meses depois acabei me mudando dali. Ele já estava seco o suficiente para ser derrubado. O fim estava próximo. Contudo, não havia ainda sinais de que a construção iria sair, o que me dava alguma esperança. Quem sabe não seria tudo conjecturas da minha cabeça? O ser humano não seria tão maquiavélico assim, para se bater silenciosa e covardemente durante meses com um árvore para, só depois que o fato estivesse consumado, pô-la abaixo. Quem sabe o pinheiro havia morrido de alguma doença desconhecida e eu imaginava coisas?
Mas eu me enganava.
Percebi isso quando as valas da construção começaram a ser abertas, e elas incluíam o lugar onde até então o pinheiro sempre estivera – naquela altura já derrubado.
Inobstante isso, ainda resisti à idéia de que desde o começo tudo fora mesmo pensado. Resistência que caiu à vista da primeira parede levantada onde antes se erguia o elegante caule.
Que decepção, nessa cidade murada, enxergar mais uma parede onde antes se via algo tão gracioso! Algo que nos evoca as nossas raízes, a nossa infância, a região em que fomos criados e onde acostumamos a vista à sua presença em meio a mata, pontuando-a com o seu porte esguio e sobranceiro ou no campo, quebrando a monotonia da paisagem. Que falta de imaginação! Com tantas soluções que a engenharia moderna oferece era difícil acreditar que aquele terreno não podia ser dividido com a planta, que para todos os efeitos, já estava ali. Mas onde esperar o reconhecimento de direitos de um vegetal que não tem boca para reclamar e mãos para se defender?
A partir daquele dia senti que, por mais bela que fosse a casa que seria construída ali, não conseguiria a admirar. Pois cada vez que passava pelo local e a olhava, o que eu via nela não era sua beleza, mas o fantasma do pinheiro que houvera ali e que por causa dela teve de ser derrubado.

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