De vez em quando nos ocorrem idéias cujas sutilezas envolvem um esforço de concentração e realização acima do normal. Nem sempre somos bem sucedidos. Em casos assim o gosto amargo que nos fica na boca nos incita constantemente à retomada do assunto. É isso o que considero a obsessão do criador. É preciso, inclusive, ter o cuidado para não enlouquecer por conta disso.
Acontece, comigo, contantamente me deparar com essa situação. A inspiração às vezes nos escapa durante a realização. Deixamos de dizer aquilo precisamente que queríamos ter dito. Retomar o assunto, então, se torna inevitável. Para autores inciantes, contudo, isso não deixa de ser um excelente exercício. É preciso, no entanto, enfrentar com brio essa empreitada. Afinal, às vezes, se é vencido por ela. Não é à toa que se diz ser este um desafio. Quer dizer: o risco de fracassar é real.
É isto que aconteceu comigo, há alguns tempos atrás, quando escrevi a crônica - ou pequeno conto, como o queiram - Medo na Praça. Senti que a idéia que a deu origem era mais forte que o produto final. Era preciso a retomar.
Enchi-me de energia e coragem e, enfim, a retomei. Espero ter sido bem sucedido. Digam vocês.
De tudo, ainda, restou-me um lição: o escritor deve sempre evitar a tentação de fazer pregação. Literatura não tem nada a ver com isso. Criar pode ter um fundo moral. Mas isso, de maneira nenhuma, deve ficar evidente. A polissemia é resultado maior dessa disciplina. Feliz o autor que a alcança.
Republico, pois, aqui o resultado desse intento. Vocês podem inclusive comparar os resultados de um texto e outro, pois meses atrás publiquei aqui, neste mesmo espaço a primeira versão dessa idéia.
Ao julgamento de vocês, meus eventuais e fiéis leitores, me submeto. Afinal, há um momento em que é preciso confessar, em relação a essa idéia: é o que podia ter feito!
MEDO NA PRAÇA
Entrei na praça que àquela hora já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de existência, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês antes se sai do trabalho com o sol ainda alto, agora se depara com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de adaptar o caminho à nova estação.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já seria a época de andar pelas ruas mais iluminadas.
Como já tinha entrado na praça, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida que fui andando pelo caminho que a atravessa de uma ponta a outra, em sentido transversal, comecei a ficar preocupado. Troncos volumosos de arvores, sombras sob copas fechadas, moitas escuras bem podiam ser o esconderijo onde se homiziava meu executor.
Tenho por hábito andar com cautela na cidade. O que inclui a salutar providência de não deixar ninguém suspeito se aproximar. Atravesso a rua, retardo ou apresso o passo, olho com freqüência para trás. Tudo na intenção de manter uma distância que me permita correr se for preciso. Como eu disse, essas providências têm me permitido chegar aos 40 anos sem nunca ter sido assaltado. Aquela noite, contudo, parecia ser diferente.
Havia pouco movimento na praça. Apenas a silhueta de um casal de namorados contra as luzes distantes da rua, à direita do caminho, sob a sombra das árvores, distraídos demais consigo mesmos para prestar a atenção em qualquer coisa que acontecesse à sua volta; uma senhora de agasalho, na outra via que também cortava a praça, em sentido perpendicular ao meu e, mais atrás, um homem, distraído como eu, voltava para casa.
Enfim quase ninguém que pudesse me socorrer em um eventual ataque.
Ali, também, percebi, que não tinha como pôr em prática meu hábito de manter distância de suspeitos. O caminho passava por baixo de copas de árvores fechadas e apenas a poucos passos de moitas e troncos. Um salto e o bandido estaria sobre mim. Inobstante isso, procurava antecipar algum movimento estranho.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira e as chaves de casa. Na cinta, o celular. O celular na certa seria o primeiro objeto requisitado e a carteira em seguida. Nela, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais. O ladrão certamente não ficaria satisfeito.
Pensei nos aborrecimentos que teria para cancelar os cartões, tirar a segunda via dos documentos. Será que ele me permitiria argumentar que aqueles documentos não teriam valor algum para ele?
Não tinha certeza se isso seria uma boa idéia.
Provavelmente ele estaria nervoso demais para me escutar. Quem sabe drogado. E falar poderia deixá-lo mais nervoso, ou ele entenderia isso como excesso de confiança de minha parte. Me daria um tiro, ou uma facada, só para mostrar quem mandava ali. Se eu fosse ele, faria isso. Afinal, numa situação destas é preciso mostrar quem está no controle.
No entanto - só então me dei conta - já tinha atravessado a praça e nada havia acontecido. Para minha surpresa. Afinal estava preparado para o pior.
Por isso não podia negar: estava desapontado.
Estranho. Pois de maneira nenhuma desejava o ataque.
Mas havia me preparado. Estava pronto para isso.
No entanto...nada!
Teriam sido em vãos meus cuidados de todos esses anos?
Aquilo me deixava confuso. E despreparado - intuía. Pior do que se o ataque tivesse se confirmado.
Minhas previsões frustradas, dali para frente, podiam ser o gérmen do meu fim.
Sabia disso. Mas não podia evitar. A realidade não havia contribuído comigo. Teria de, agora em diante, botá-la à prova.
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