COSMOGOMIA
O sentido da vida é o daqueles que nascem acreditando firmemente num, enquanto outros absolutamente não crêem.
Da mistura dessas duas disposições de espírito resulta uns dando ânimo aos outros, e quando anos mais tarde os primeiros já perderam suas esperanças, os segundos já viveram o bastante para simplesmente darem um fim em suas vidas. Afinal agora eles têm um passado, uma história de sobrevivência e não mais como antes apenas um futuro incerto e sem sentido a sua frente.
Então estes antes desalentados sobreviventes dão hoje ânimo àqueles que perderam a sua fé, mesmo estes achando isso totalmente sem sentido.
E assim a Humanidade que teve um começo incerto e talvez não encontrasse razão para sua existência, hoje mergulha em sua História e dela extrai forças e um milhão de motivos para continuar, mesmo achando que a vida...não faz nenhum sentido.
June 24, 2007
June 18, 2007
Olá
Dando continuidade aquela vontade de que vos falei na publicação anterior, gostaria de dividir com vocês um texto que escrevi outro dia sobre a Leveza na escrita e na vida, em oposição ao peso. Vejam o que vocês acham.
O Elogio da Leveza
Leve, muito leve. Sou adepto da leveza. Para manipular suas armas um soldado so-bretudo tem de ser leve, se movimentar com rapidez, sem deixar de ser mortal. E para sê-lo, não precisa muito. Basta-lhe uma boa arma e pontaria. Assim o escritor. Convém não se municiar demais para a viagem, sob pena de não se completar a jor-nada. É preciso ser leve, lembra? Leve sem abrir mão da profundidade. Mas sem exagero. Apenas um corte profundo e rápido, como o produzido por um bisturi - o que há de mais leve que este instrumento?! Já para se livrar dos golpes do inimigo basta mobilidade. E isso não se consegue com pesadas armaduras.
Há uma história bastante ilustrativa desse fato na Bíblia.
Quando Davi foi enfrentar Golias, Samuel, o rei dos judeus, emprestou-lhe a sua armadura. Davi, para não desagradar ao rei aceitou. Mas ao experimentá-la sentiu que era pesada demais e lhe tolhia os movimentos. Por isso, preferiu ir sem ela, munido apenas com sua funda.
O final dessa história todos nós conhecemos.
Outro exemplo:
O Titanic só não conseguiu desviar do iceberg porque era grande e pesado demais. Uma vez posto em movimento a força da inércia gerada por seu peso – ou seja, aquela força que tende a manter um corpo em seu estado de repouso ou movimento indefinidamente – dificultou a ação do motores para detê-lo, assim como dos lemes. O desastre, àquela altura, era inevitável.
Assim, poderíamos citar outro sem número de exemplos sobre a leveza em oposição ao peso, como fatores determinantes do sucesso ou fracasso de um empreendimento. Mas basta-nos esses dois para não sobrecarregar o leitor. O suficiente para municiá-lo para a batalha.
Batalha da vida e da escrita.
O Elogio da Leveza
Leve, muito leve. Sou adepto da leveza. Para manipular suas armas um soldado so-bretudo tem de ser leve, se movimentar com rapidez, sem deixar de ser mortal. E para sê-lo, não precisa muito. Basta-lhe uma boa arma e pontaria. Assim o escritor. Convém não se municiar demais para a viagem, sob pena de não se completar a jor-nada. É preciso ser leve, lembra? Leve sem abrir mão da profundidade. Mas sem exagero. Apenas um corte profundo e rápido, como o produzido por um bisturi - o que há de mais leve que este instrumento?! Já para se livrar dos golpes do inimigo basta mobilidade. E isso não se consegue com pesadas armaduras.
Há uma história bastante ilustrativa desse fato na Bíblia.
Quando Davi foi enfrentar Golias, Samuel, o rei dos judeus, emprestou-lhe a sua armadura. Davi, para não desagradar ao rei aceitou. Mas ao experimentá-la sentiu que era pesada demais e lhe tolhia os movimentos. Por isso, preferiu ir sem ela, munido apenas com sua funda.
O final dessa história todos nós conhecemos.
Outro exemplo:
O Titanic só não conseguiu desviar do iceberg porque era grande e pesado demais. Uma vez posto em movimento a força da inércia gerada por seu peso – ou seja, aquela força que tende a manter um corpo em seu estado de repouso ou movimento indefinidamente – dificultou a ação do motores para detê-lo, assim como dos lemes. O desastre, àquela altura, era inevitável.
Assim, poderíamos citar outro sem número de exemplos sobre a leveza em oposição ao peso, como fatores determinantes do sucesso ou fracasso de um empreendimento. Mas basta-nos esses dois para não sobrecarregar o leitor. O suficiente para municiá-lo para a batalha.
Batalha da vida e da escrita.
June 15, 2007
Olá
Depois De alguns Dias ausente, estou De volta.Não reparem que estou escrevenDo os Ds em letra maiúscula. É que Devo ter acionaDo alguma tecla que teima em minimizar a tela Do micro toDa vez que a Digito. Maiúscula, porém, não. Por isso estou a usando assim.
´
Para quem escreve isto que vou falar talvez não soe estranho. Não sei se vocês comungam dessa mesma sensação. Às vezes a vontade de escrever é tão forte que a gente simplesmente tem vontaDe De sair escrevenDo sobre qualquer assunto. Acho que isso é váliDo e tem que ser aproveitaDo ao menos com um belo exercício. Esses exercícios muitas vezes proDuzem algumas coisas belas e descompromissaDas como essa que escrevi outro dia. Vejam o que vocês acham.
MONALISA
Ela olhou para mim e sorriu. Há muito tempo uma mulher não olhava pra mim e sorria. Não com interesse. Ela, porém, o demonstrou.
Não era bonita. Não podemos dizer que fosse, mas tinha um belo corpo e um sorriso também.
A beleza não é uma qualidade abstrata. É algo que vamos acrescentando em alguém com os contornos da afeição, da simpatia que vai crescendo à medida que sentimos que é recíproca. E o sorriso de uma mulher, a nos olhar com interesse, é como a Monalisa a nos mirar, não do quadro imóvel e eterno de Leonardo, mas em carne e osso como se estivesse na nossa presença. O que é sempre mais interessante que o mero prazer da contemplação.
Ah, amar! Que enlevo nos envolve quando estamos enamorados. Um recomeço para quem há muito tempo não experimentava dessa sensação. Uma aventura fascinante para quem a vive pela primeira vez. Aventura de conseqüências imprevisíveis.
Sobretudo quando já se é casado.
´
Para quem escreve isto que vou falar talvez não soe estranho. Não sei se vocês comungam dessa mesma sensação. Às vezes a vontade de escrever é tão forte que a gente simplesmente tem vontaDe De sair escrevenDo sobre qualquer assunto. Acho que isso é váliDo e tem que ser aproveitaDo ao menos com um belo exercício. Esses exercícios muitas vezes proDuzem algumas coisas belas e descompromissaDas como essa que escrevi outro dia. Vejam o que vocês acham.
MONALISA
Ela olhou para mim e sorriu. Há muito tempo uma mulher não olhava pra mim e sorria. Não com interesse. Ela, porém, o demonstrou.
Não era bonita. Não podemos dizer que fosse, mas tinha um belo corpo e um sorriso também.
A beleza não é uma qualidade abstrata. É algo que vamos acrescentando em alguém com os contornos da afeição, da simpatia que vai crescendo à medida que sentimos que é recíproca. E o sorriso de uma mulher, a nos olhar com interesse, é como a Monalisa a nos mirar, não do quadro imóvel e eterno de Leonardo, mas em carne e osso como se estivesse na nossa presença. O que é sempre mais interessante que o mero prazer da contemplação.
Ah, amar! Que enlevo nos envolve quando estamos enamorados. Um recomeço para quem há muito tempo não experimentava dessa sensação. Uma aventura fascinante para quem a vive pela primeira vez. Aventura de conseqüências imprevisíveis.
Sobretudo quando já se é casado.
June 07, 2007
Conto - Final
E aí, pessoal, o que vocês acharam do visual novo do meu blog? Legal, não? Pois é, uma coisa que estou descobrindo é que sem só de conteúdo vive o homem, mas tudo o que lhe entra pelos olhos também. Por isso resolvi dar uma incrementada no meu blog, até para tornar a leitura de vocês mais agradável também.
Estou publicando hoje o final do conto O Interfone. Espero comentários, hein.
O Interfone - Continuação...
Com o pé esquerdo empurrou a porta que fechou com um forte estalo e com um movimento rápido montou sobre mim. Começou a se reclinar como se quisesse me dizer alguma coisa junto ao ouvido, antes de me atravessar com aquela lâmina. No entanto, quando abriu a boca para falar, o que ouvi não era voz humana, mas um forte zumbido metálico como a campainha do interfone.
Acordei com a estridência do interfone de casa, insistentemente acionado.
Cansado como estava tinha adormecido no sofá, e o que me sufocava não era nenhuma mão assassina, mas sim a almofada que tinha sobre o corpo, e tapava minha respiração. A faca em meu flanco nada mais era que o controle da TV a me cutucar durante aquele sono rápido e pesado.
Deveras eu tinha ficado impressionado demais com tudo o que tinha acontecido. No entanto, aquilo tinha parecido tão real...
Acordei suado de terror. Sem entender ainda bem o que tinha acontecido atendi o interfone que não parava de tocar.
- E aí, cara, tá pronto?
- Quem fala?
- Como quem fala, meu? É o Juca, não tá me reconhecendo?
- Juca? Que Juca?
- Como assim que Juca, cara? Teu colega de serviço. Esqueceu da festa da Lorena?
- Putz, cara. Esqueci...Esqueci completamente. Acabei pegando no sono aqui no sofá. Acordei agora com você tocando esse bendito – ou maldito - interfone.
- Ah, não brinca? Como esqueceu, bicho?
- Esqueci. Aconteceram umas paradas meio estranhas aqui em casa. Acabei esquecendo.
- Mas e aí, tu vai ou não vai?
- Cara, vai indo na frente. Se eu me animar vou atrás.
- Tu não quer que a gente te espera?
- Não cara. Tá tranqüilo. Agora até nem sei se ainda vou. Tô pregado! Tive até um pesadelo agora há pouco. Amanhã eu te conto no escritório.
- Tu que sabe. Vai perder um festão...
- Eu sei...
Era o Juca, meu colega e amigo do escritório. Tinha esquecido mesmo da festa. Com tudo o que acontecera acabei esquecendo dessa festinha há tanto tempo esperada pelo pessoal que não perdoava: quem entrava no escritório tinha que pagar uma festa de confraternização. Para o pessoal conhecer melhor o novo colega, alegavam. Porém, tudo acabava em bebedeira e ressaca noutro dia. Por isso, estava mais inclinado a ficar.
No entanto, quando desliguei o interfone algo me golpeou por trás. Na altura da nuca, não tive chance de reação. Cai sobre o piso da cozinha, batendo com a cabeça no chão.
Antes de apagar, ainda pude ver a porta ser bruscamente aberta pelo vulto que havia me atingido, em fuga, até tudo escurecer como as luzes no entreato, quando a cena muda.
Fim.
Estou publicando hoje o final do conto O Interfone. Espero comentários, hein.
O Interfone - Continuação...
Com o pé esquerdo empurrou a porta que fechou com um forte estalo e com um movimento rápido montou sobre mim. Começou a se reclinar como se quisesse me dizer alguma coisa junto ao ouvido, antes de me atravessar com aquela lâmina. No entanto, quando abriu a boca para falar, o que ouvi não era voz humana, mas um forte zumbido metálico como a campainha do interfone.
Acordei com a estridência do interfone de casa, insistentemente acionado.
Cansado como estava tinha adormecido no sofá, e o que me sufocava não era nenhuma mão assassina, mas sim a almofada que tinha sobre o corpo, e tapava minha respiração. A faca em meu flanco nada mais era que o controle da TV a me cutucar durante aquele sono rápido e pesado.
Deveras eu tinha ficado impressionado demais com tudo o que tinha acontecido. No entanto, aquilo tinha parecido tão real...
Acordei suado de terror. Sem entender ainda bem o que tinha acontecido atendi o interfone que não parava de tocar.
- E aí, cara, tá pronto?
- Quem fala?
- Como quem fala, meu? É o Juca, não tá me reconhecendo?
- Juca? Que Juca?
- Como assim que Juca, cara? Teu colega de serviço. Esqueceu da festa da Lorena?
- Putz, cara. Esqueci...Esqueci completamente. Acabei pegando no sono aqui no sofá. Acordei agora com você tocando esse bendito – ou maldito - interfone.
- Ah, não brinca? Como esqueceu, bicho?
- Esqueci. Aconteceram umas paradas meio estranhas aqui em casa. Acabei esquecendo.
- Mas e aí, tu vai ou não vai?
- Cara, vai indo na frente. Se eu me animar vou atrás.
- Tu não quer que a gente te espera?
- Não cara. Tá tranqüilo. Agora até nem sei se ainda vou. Tô pregado! Tive até um pesadelo agora há pouco. Amanhã eu te conto no escritório.
- Tu que sabe. Vai perder um festão...
- Eu sei...
Era o Juca, meu colega e amigo do escritório. Tinha esquecido mesmo da festa. Com tudo o que acontecera acabei esquecendo dessa festinha há tanto tempo esperada pelo pessoal que não perdoava: quem entrava no escritório tinha que pagar uma festa de confraternização. Para o pessoal conhecer melhor o novo colega, alegavam. Porém, tudo acabava em bebedeira e ressaca noutro dia. Por isso, estava mais inclinado a ficar.
No entanto, quando desliguei o interfone algo me golpeou por trás. Na altura da nuca, não tive chance de reação. Cai sobre o piso da cozinha, batendo com a cabeça no chão.
Antes de apagar, ainda pude ver a porta ser bruscamente aberta pelo vulto que havia me atingido, em fuga, até tudo escurecer como as luzes no entreato, quando a cena muda.
Fim.
June 06, 2007
Um novo conto
Pessoal, estou publicando a primeira parte de um novo conto.
Veja o que vocês acham.
Um abraço
O INTERFONE
Cheguei cansado do serviço. Eram sete horas passadas e eu ainda precisava ir até o mercado, pois não tinha nada na geladeira.
Como de hábito comprei cervejas, salsichas e algumas frutas.
“Preciso comer melhor. Essas malditas salsichas devem estar aumentando o meu colesterol. Sem falar que estou engordando a olhos vistos”. “Pelo menos compenso com as frutas no café da manhã” – argumentei em favor do comodismo e do cansaço.
Estava tão cansado que nem me toquei que moro sozinho já há um bom tempo. O camarada com quem dividia o apartamento voltou para a casa dos pais e eu acabei ficando só já faz alguns meses. Não encontrei mais ninguém com quem dividir o aluguel. Por outro lado, passei a ganhar um pouco melhor depois da promoção e isso tem me possibilitado viver sozinho num apartamento de 2 quartos. Me acostumei à privacidade que a vida de um solitário permite e, na verdade, já não tenho mais interesse em arrumar com quem dividir meu espaço.
No entanto, por força do hábito ou por estar cansado e carregado das sacolas do mercado e com preguiça de procurar nos bolsos das calças a chave de casa, esqueci-me desse detalhe e apertei o número do apartamento em que moro, para alguém que não estava mais ali e pudesse abrir para mim a porta de casa. Só depois do segundo toque é que me dei conta de onde é que eu andava com a cabeça. Dei de ombros e comecei a me apalpar para encontrar as chaves quando, para minha surpresa, alguém atendeu sem dizer nada e acionou o interruptor que abriu a porta.
Não dei importância para aquilo porque achei que tivesse errado o número ao apertar o 704 – o número de casa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, afinal não tinham dito nada e que história era essa de as pessoas irem assim abrindo a porta do prédio para qualquer um que tocava o interfone? Onde é que estava a segurança daquele edifício que todas as vezes que tínhamos reunião de condomínio – pelo menos de todas que participei – tinha sido o tema constante das preocupações gerais?
Não conformado com isso, larguei as sacolas das compras diante do elevador que não se mexia no sétimo andar e voltei até o painel. Para me certificar que tinha apertado mesmo o número de casa fui até lá e apertei o 704. Esperei dois segundos e só então dei-me conta do papel ridículo que estava fazendo: apertar o número do próprio apartamento em que morava sozinho! Se alguém me visse naquela situação iria achar que eu tinha pirado. Era melhor esquecer isso. Na primeira oportunidade reclamaria com o síndico a falta de cuidado dos moradores daquele edifício, afinal estava provado que tinha me enganado, apertara o número errado e alguém simplesmente abrira a porta sem ao menos perguntar quem era.
No entanto, ao virar as costas para voltar às compras abandonadas na frente do elevedor, qual não foi minha surpresa: alguém de novo liberou a porta da rua sem ao menos dizer alô. E o que é pior: tinha certeza de que não tinha me enganado. Apertara deveras o 704! O número de casa!
“ Que raios está acontecendo aqui?” Voltei de novo e apertei mais uma vez o 704. Alguns segundos depois o zzzz da porta acionada não deixava dúvida: havia alguém em minha casa!
Procurei passar rapidamente em retrospecto todas as pessoas que podiam ter as chaves do meu apartamento. Alguma ex-namorada, meu amigo que tivesse voltado para buscar alguma coisa esquecida, meus pais vindos do interior... Ninguém! Ninguém que tivesse a chave do meu apartamento. Pelo menos que eu soubesse ou lembrasse. E mesmo se tivesse, por que não dizer pelo menos um alô? Quem fala? Aqui é fulano, beltrana de tal.
O que estava se passando ali? Um ladrão? Mas um ladrão que atendia interfone? Aquilo era absurdo. O que fazer naquele momento senão subir e conferir o que estava acontecendo? Não seria no entanto prudente procurar primeiro pelo zelador? Não! Vou ver o que está acontecendo. Pelo menos até o corredor do meu andar.
E esse elevador? Parado no sétimo. O que está havendo?
Bati na porta externa para ver se liberavam-no afinal. Alguns segundos e ele começou a descer.
Eram quase 8 horas, por isso não encontrei ninguém no elevador para dividir minha apreensão. O prédio estava silencioso e sem vida. Exceto pelo barulho residual das ruas, dos cabos do elevador, dos pneus dos carros na garagem não se ouvia movimento de viv’alma. Tudo no mais absoluto silêncio, embora aquele horário isso fosse de hábito. Quem estava para chegar em casa já tinha chegado, quem precisava sair já tinha saído. Eventualmente encontrava alguém nesses momentos. Até por isso conhecia bem pouco meus vizinhos. Nos finais-de-semana saía pouco e tarde de casa de modo que raramente encontrava aquelas crianças que escutava fazendo algazarra nos apartamentos superiores, nas escadas e corredores. Apenas sabia que a minha esquerda morava uma família de quatro pessoas, pai e mãe e duas crianças e a minha direita um casal de velhinho que ocasionalmente recebiam a visita dos filhos e dos netos. Por causa, no entanto, do que estava acontecendo, aquele silêncio me incomodova. Preferia ter encontrado alguém, sobretudo do meu andar, para recuperar um pouco o senso da realidade, mas sabia de antemão que esta expectativa seria frustrada.
No meu andar, nada que denunciasse alguma situação excepcional. Só então pude escutar as primeiras vozes vindo dos apartamentos vizinhos. Isso ao mesmo tempo que me tranqüilizava, por outro aumentava a minha apreensão, pois se algo estava errado seria apenas em meu apartamento. Ninguém havia tomado conhecimento do que estaria se passando ali.
A porta de casa também não denunciava sinais de arrombamento.
Sentia-me ridículo por estar chegando em minha própria casa com tanta cautela. Mas o que fazer se o que podia encontrar ali não seria nada agradável: uma casa revirada, objetos furtados ou até mesmo a presença de um alguém não desejado me esperando no escuro? Tudo isso me passava pela cabeça enquanto girava a chave com cautela na fechadura, procurando fazer o menos de barulho possível. Tinha planejado abrir a porta de repente, de um empurrão e correr para o fundo do corredor, em direção as escadas. Por isso deixei longe de mim, as sacolas que carregava, para não me atrapalharem numa eventual fuga.
Executei a manobra planejada mas nada aconteceu. A porta escancarada assim ficou durante os minutos em que ofegante fiquei a observar da distância das escadas no fundo do corredor, pronto para voar escada abaixo em qualquer eventualidade. Mas nada, nem ninguém saiu dali. Quem me visse naquele momento jamais entenderia a cena: um homem fugindo da própria casa. Seria difícil explicar sem parecer completamente pirado. Mas o que me importava o que os outros pensariam se bem podia ser que minha vida corria perigo? E o fato de ninguém ter se apresentado porta afora, não afastava a possibilidade de alguém estar a espreita no interior de casa. E só agora eu me dava conta de que com essa manobra bem poderia ter prestado uma serviço a um virtual bandido ou fosse lá quem poderia estar ali. Tinha-o prevenido que tinha chegado! Se quem estava ali não fosse apenas um ladrão de domicílios, bastaria esperar que sua vítima se aproximasse, já quase suplicante, para acabar logo com aquilo, desferindo-lhe o golpe final.
Pensei em acender a luz de casa antes de entrar. Mesmo um assassino experiente não executaria sua vítima às claras.
Corri até a porta, liguei a luz de casa e voltei. Aguardei mais alguns minutos e resolvi de novo me esgueirar até lá. Escutar alguma coisa, espionar para dentro.
Nada de anormal. Tudo em ordem. Absoluto silêncio, exceto pelos vizinhos ruidosos ao lado, pelo motor do elevador enfim acionado, pelo barulho das ruas. Entrei. Mas não fechei a porta nem trouxe para dentro as sacolas esquecidas no corredor.
Precisava me acalmar a cada metro avançado no “terreno inimigo”. Mas não encontrei nada, nem ninguém dentro de casa. Revisei todos os cômodos e nada. Ninguém dentro do armário, ninguém em baixo da cama, ninguém no Box do banheiro, atrás da máquina de lavar na área de serviço. Naquela altura também se alguém houvesse ali eu seria uma vítima fácil. Tinha me irritado com aquela cautela inútil e por fim revisado tudo como quem procura um objeto perdido, não um bandido. Só não entendia uma coisa: quem teria aberto a porta de casa? Quem teria atendido o interfone?
Por fim esqueci daquilo, afinal minhas compras estavam lá no corredor e eu tinha ainda que tomar um banho, comer alguma coisa, descansar de um dia de trabalho.
Baixei a guarda.
Fui buscar as compras esquecidas no corredor.
Nesse momento a luz do corredor apagou e tive que contar com apenas a luz de dentro de casa. Voltei em direção a porta aberta. No entanto, ao entrar alguma coisa escura e muito rápida saltou sobre mim e antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, tapou minha boca com um forte aperto, quase me sufocando. Ao mesmo tempo em que me aplicava um golpe, derrubando-me no chão, com uma lâmina encostada nas costelas. Vi que estava dominado e que não devia reagir, de outro modo seria furado por aquela faca. No entanto, a expressão nos olhos do meu agressor não me davam muita esperança. Era a morte que eu via neles!
Veja o que vocês acham.
Um abraço
O INTERFONE
Cheguei cansado do serviço. Eram sete horas passadas e eu ainda precisava ir até o mercado, pois não tinha nada na geladeira.
Como de hábito comprei cervejas, salsichas e algumas frutas.
“Preciso comer melhor. Essas malditas salsichas devem estar aumentando o meu colesterol. Sem falar que estou engordando a olhos vistos”. “Pelo menos compenso com as frutas no café da manhã” – argumentei em favor do comodismo e do cansaço.
Estava tão cansado que nem me toquei que moro sozinho já há um bom tempo. O camarada com quem dividia o apartamento voltou para a casa dos pais e eu acabei ficando só já faz alguns meses. Não encontrei mais ninguém com quem dividir o aluguel. Por outro lado, passei a ganhar um pouco melhor depois da promoção e isso tem me possibilitado viver sozinho num apartamento de 2 quartos. Me acostumei à privacidade que a vida de um solitário permite e, na verdade, já não tenho mais interesse em arrumar com quem dividir meu espaço.
No entanto, por força do hábito ou por estar cansado e carregado das sacolas do mercado e com preguiça de procurar nos bolsos das calças a chave de casa, esqueci-me desse detalhe e apertei o número do apartamento em que moro, para alguém que não estava mais ali e pudesse abrir para mim a porta de casa. Só depois do segundo toque é que me dei conta de onde é que eu andava com a cabeça. Dei de ombros e comecei a me apalpar para encontrar as chaves quando, para minha surpresa, alguém atendeu sem dizer nada e acionou o interruptor que abriu a porta.
Não dei importância para aquilo porque achei que tivesse errado o número ao apertar o 704 – o número de casa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, afinal não tinham dito nada e que história era essa de as pessoas irem assim abrindo a porta do prédio para qualquer um que tocava o interfone? Onde é que estava a segurança daquele edifício que todas as vezes que tínhamos reunião de condomínio – pelo menos de todas que participei – tinha sido o tema constante das preocupações gerais?
Não conformado com isso, larguei as sacolas das compras diante do elevador que não se mexia no sétimo andar e voltei até o painel. Para me certificar que tinha apertado mesmo o número de casa fui até lá e apertei o 704. Esperei dois segundos e só então dei-me conta do papel ridículo que estava fazendo: apertar o número do próprio apartamento em que morava sozinho! Se alguém me visse naquela situação iria achar que eu tinha pirado. Era melhor esquecer isso. Na primeira oportunidade reclamaria com o síndico a falta de cuidado dos moradores daquele edifício, afinal estava provado que tinha me enganado, apertara o número errado e alguém simplesmente abrira a porta sem ao menos perguntar quem era.
No entanto, ao virar as costas para voltar às compras abandonadas na frente do elevedor, qual não foi minha surpresa: alguém de novo liberou a porta da rua sem ao menos dizer alô. E o que é pior: tinha certeza de que não tinha me enganado. Apertara deveras o 704! O número de casa!
“ Que raios está acontecendo aqui?” Voltei de novo e apertei mais uma vez o 704. Alguns segundos depois o zzzz da porta acionada não deixava dúvida: havia alguém em minha casa!
Procurei passar rapidamente em retrospecto todas as pessoas que podiam ter as chaves do meu apartamento. Alguma ex-namorada, meu amigo que tivesse voltado para buscar alguma coisa esquecida, meus pais vindos do interior... Ninguém! Ninguém que tivesse a chave do meu apartamento. Pelo menos que eu soubesse ou lembrasse. E mesmo se tivesse, por que não dizer pelo menos um alô? Quem fala? Aqui é fulano, beltrana de tal.
O que estava se passando ali? Um ladrão? Mas um ladrão que atendia interfone? Aquilo era absurdo. O que fazer naquele momento senão subir e conferir o que estava acontecendo? Não seria no entanto prudente procurar primeiro pelo zelador? Não! Vou ver o que está acontecendo. Pelo menos até o corredor do meu andar.
E esse elevador? Parado no sétimo. O que está havendo?
Bati na porta externa para ver se liberavam-no afinal. Alguns segundos e ele começou a descer.
Eram quase 8 horas, por isso não encontrei ninguém no elevador para dividir minha apreensão. O prédio estava silencioso e sem vida. Exceto pelo barulho residual das ruas, dos cabos do elevador, dos pneus dos carros na garagem não se ouvia movimento de viv’alma. Tudo no mais absoluto silêncio, embora aquele horário isso fosse de hábito. Quem estava para chegar em casa já tinha chegado, quem precisava sair já tinha saído. Eventualmente encontrava alguém nesses momentos. Até por isso conhecia bem pouco meus vizinhos. Nos finais-de-semana saía pouco e tarde de casa de modo que raramente encontrava aquelas crianças que escutava fazendo algazarra nos apartamentos superiores, nas escadas e corredores. Apenas sabia que a minha esquerda morava uma família de quatro pessoas, pai e mãe e duas crianças e a minha direita um casal de velhinho que ocasionalmente recebiam a visita dos filhos e dos netos. Por causa, no entanto, do que estava acontecendo, aquele silêncio me incomodova. Preferia ter encontrado alguém, sobretudo do meu andar, para recuperar um pouco o senso da realidade, mas sabia de antemão que esta expectativa seria frustrada.
No meu andar, nada que denunciasse alguma situação excepcional. Só então pude escutar as primeiras vozes vindo dos apartamentos vizinhos. Isso ao mesmo tempo que me tranqüilizava, por outro aumentava a minha apreensão, pois se algo estava errado seria apenas em meu apartamento. Ninguém havia tomado conhecimento do que estaria se passando ali.
A porta de casa também não denunciava sinais de arrombamento.
Sentia-me ridículo por estar chegando em minha própria casa com tanta cautela. Mas o que fazer se o que podia encontrar ali não seria nada agradável: uma casa revirada, objetos furtados ou até mesmo a presença de um alguém não desejado me esperando no escuro? Tudo isso me passava pela cabeça enquanto girava a chave com cautela na fechadura, procurando fazer o menos de barulho possível. Tinha planejado abrir a porta de repente, de um empurrão e correr para o fundo do corredor, em direção as escadas. Por isso deixei longe de mim, as sacolas que carregava, para não me atrapalharem numa eventual fuga.
Executei a manobra planejada mas nada aconteceu. A porta escancarada assim ficou durante os minutos em que ofegante fiquei a observar da distância das escadas no fundo do corredor, pronto para voar escada abaixo em qualquer eventualidade. Mas nada, nem ninguém saiu dali. Quem me visse naquele momento jamais entenderia a cena: um homem fugindo da própria casa. Seria difícil explicar sem parecer completamente pirado. Mas o que me importava o que os outros pensariam se bem podia ser que minha vida corria perigo? E o fato de ninguém ter se apresentado porta afora, não afastava a possibilidade de alguém estar a espreita no interior de casa. E só agora eu me dava conta de que com essa manobra bem poderia ter prestado uma serviço a um virtual bandido ou fosse lá quem poderia estar ali. Tinha-o prevenido que tinha chegado! Se quem estava ali não fosse apenas um ladrão de domicílios, bastaria esperar que sua vítima se aproximasse, já quase suplicante, para acabar logo com aquilo, desferindo-lhe o golpe final.
Pensei em acender a luz de casa antes de entrar. Mesmo um assassino experiente não executaria sua vítima às claras.
Corri até a porta, liguei a luz de casa e voltei. Aguardei mais alguns minutos e resolvi de novo me esgueirar até lá. Escutar alguma coisa, espionar para dentro.
Nada de anormal. Tudo em ordem. Absoluto silêncio, exceto pelos vizinhos ruidosos ao lado, pelo motor do elevador enfim acionado, pelo barulho das ruas. Entrei. Mas não fechei a porta nem trouxe para dentro as sacolas esquecidas no corredor.
Precisava me acalmar a cada metro avançado no “terreno inimigo”. Mas não encontrei nada, nem ninguém dentro de casa. Revisei todos os cômodos e nada. Ninguém dentro do armário, ninguém em baixo da cama, ninguém no Box do banheiro, atrás da máquina de lavar na área de serviço. Naquela altura também se alguém houvesse ali eu seria uma vítima fácil. Tinha me irritado com aquela cautela inútil e por fim revisado tudo como quem procura um objeto perdido, não um bandido. Só não entendia uma coisa: quem teria aberto a porta de casa? Quem teria atendido o interfone?
Por fim esqueci daquilo, afinal minhas compras estavam lá no corredor e eu tinha ainda que tomar um banho, comer alguma coisa, descansar de um dia de trabalho.
Baixei a guarda.
Fui buscar as compras esquecidas no corredor.
Nesse momento a luz do corredor apagou e tive que contar com apenas a luz de dentro de casa. Voltei em direção a porta aberta. No entanto, ao entrar alguma coisa escura e muito rápida saltou sobre mim e antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, tapou minha boca com um forte aperto, quase me sufocando. Ao mesmo tempo em que me aplicava um golpe, derrubando-me no chão, com uma lâmina encostada nas costelas. Vi que estava dominado e que não devia reagir, de outro modo seria furado por aquela faca. No entanto, a expressão nos olhos do meu agressor não me davam muita esperança. Era a morte que eu via neles!
June 05, 2007
Uma parábola
Desde que eu começei a escrever com uma certa regularidade - regularidade esta interrompida por toda sorte de interrupação, se é que vocês me entendem - ocorreu-me que o escritor é como um náufrago numa ilha, lançando mensagens ao mar do qual espera resposta. Sabe-se que normalmente esta resposta nunca chega, mas também não é possível dizer que nunca chegará. Por isso a angústia que deve assolar todo aquele que, escritor iniciante, lança-se a essa aventura.
Escrevi isso através de uma pequena parábola a qual reproduzo abaixo.
Vejam o que vocês acham.
NÁUFRAGO OU A DEFINICÃO DE UM ESCRITOR
Tenho passado meu tempo escrevendo mensagens em garrafas e as lançado ao mar, em busca de socorro. Mas, através dos anos, não tenho obtido resposta. No entanto,o ato de escrever estas mensagens tem me proporcionado um prazer que não conhecia. O prazer de produzir histórias. A solidão a que fui constrangido nesta ilha tem me permitido isso. Afinal, cansado de pedir socorro, comecei a inventar histórias. Assim, tenho passado a maior parte do meu tempo nessa atividade.
Atualmente estou escrevendo a história desastrada da minha chegada nesta ilha, o que tem absorvido os meus esforços durante o dia. E já planejo para breve uma outra história com ingredientes mais picantes, histórias de piratas, tesouros escondidos e as descobertas incríveis de um náufrago numa ilha deserta.
Enfim, as possibilidades são muitas!
Todos os dias lanço um capítulo novo ao mar na expectativa de resposta.
Até o momento não obtive sucesso.
Mas também isso já deixou de ter importância para mim.
Escrevi isso através de uma pequena parábola a qual reproduzo abaixo.
Vejam o que vocês acham.
NÁUFRAGO OU A DEFINICÃO DE UM ESCRITOR
Tenho passado meu tempo escrevendo mensagens em garrafas e as lançado ao mar, em busca de socorro. Mas, através dos anos, não tenho obtido resposta. No entanto,o ato de escrever estas mensagens tem me proporcionado um prazer que não conhecia. O prazer de produzir histórias. A solidão a que fui constrangido nesta ilha tem me permitido isso. Afinal, cansado de pedir socorro, comecei a inventar histórias. Assim, tenho passado a maior parte do meu tempo nessa atividade.
Atualmente estou escrevendo a história desastrada da minha chegada nesta ilha, o que tem absorvido os meus esforços durante o dia. E já planejo para breve uma outra história com ingredientes mais picantes, histórias de piratas, tesouros escondidos e as descobertas incríveis de um náufrago numa ilha deserta.
Enfim, as possibilidades são muitas!
Todos os dias lanço um capítulo novo ao mar na expectativa de resposta.
Até o momento não obtive sucesso.
Mas também isso já deixou de ter importância para mim.
June 04, 2007
conto - o final
Havia prometido para o dia seguinte mas só agora consegui disponibilizar para vocês o final. É que a versão defintiva só tenho no trabalho e como o dia seguinte era sábado, não pude atualizar a página até hoje.
Bem, lá o final dessa história que espero vocês gostem:
Aquilo havia escapado ao meu controle. Eu tinha virado o cash dispenser daquele sujeito. Como me livrar dele? Era o que eu começava a me perguntar agora que aquela sombra me perseguia à distância, monitorando os meus passos. Quando eu menos esperava estava ele lá, pronto para dar o bote. E não podíamos nos considerarmos amigos. Afinal eu praticamente o estava sustentando e ele sempre me mostrava a arma. O que não deixava dúvida: era uma ameaça que eu não podia subestimar.
Sua última tentativa de me assaltar aconteceu novamente numa situação semelhante do modo como nós havíamos nos conhecido. Mas dessa vez ele agiu diferente comigo. Parece que ele mesmo não queria mais fazer aquilo, mas o vício ou a necessidade falou mais alto.
Eu tinha saído para caminhar. Estava de agasalho e tênis. Encontrei-o nos altos da Fátima. Já havia anoitecido, mas como esse é meu percurso habitual não me dei conta do risco. Na altura do Cemitério novo da Vera Cruz, na divisa entre os bairros Fátima e Vera Cruz, um sujeito vindo em minha direção, com um moletom de capuz, mãos nos bolsos e cabeça abaixada, fez-me suspeitar que fosse ele. Hesitei entre voltar, atravessar a rua, ou simplesmente sair correndo. Acabei paralizado entre todas essas alternativas, caindo na boca da serpente. Era ele e havia me reconhecido.
- Caminhando, dotor? – perguntou ele quando me aproximei.
- É o que parece, não?
- Posso acompanhá?
- Ué? Tu não está indo em outra direção – respondi-lhe contrariado.
- Dotor... eu sou um tipo sem parada, o senhor já não percebeu isso?
O que fazer? O sujeito já estava do meu lado e caminhávamos agora na mesma direção.
Divertia-me, agora, que não tivesse nada nos bolsos. O que ele iria afinal tentar contra mim? Roubar-me os tênis? Não! Acho que esse não era o seu estilo. Por isso relaxei e procurei tirar daquela situação o que ela poderia me ensinar: quem era afinal esse sujeito? Qual a sua história? Por que chegara aquilo?
Caminhamos juntos algumas quadras e conversamos como dois amigos. Descobri algumas coisas da sua vida, ele descobriu coisas da minha. Começávamos a formar um elo de amizade, quando mais uma vez ele puxou da arma e resolveu me encostar na parede.
- Oh, dotor, não me leve a mal, mas é que eu estou precisando de um dinheirinho aí, o senhor sabe?
- Não, eu não sei, quem sabe você me explica.
- Como assim, dotor, o senhor não se deu conta ainda? Nós somos de mundos diferentes, dotor. Eu sou um João-ninguém. O senhor é alguém. Então o senhor tem que me dar algo. Algo que tu tem, eu não tenho e eu preciso. Fazer o quê? É a lei da selva, dotor.
- Achei que pudéssemos ser amigos.
- Acho que não, dotor.
- Só que, meu amigo, dessa vez tu te deu mal: eu estou sem nenhum. Tu não tá vendo? Estou sem carteira, sem cartões, sem documentos – disse triunfante.
- Não tem problema, dotor. Eu já contava com isso. A gente vai até a sua casa e você descola alguma coisa pra mim – respondeu-me com naturalidade, de quem sabia o que estava fazendo.
Aquilo mexeu comigo. Uma cena passou por minha cabeça. Eu chegando em casa, sob a mira de um revolver, expondo minha família àquela situação que eu havia alimentado. Não admitiria aquilo de jeito nenhum, nem que esse fosse o meu último ato antes de morrer. Havia chegado ao meu limite.
- De jeito nenhum, meu caro! – respondi-lhe com uma expressão nos olhos, que o assustou.
Antes que ele recuasse para fazer mira, agarrei-lhe a mão desviando o revólver para longe de mim. Entramos em luta corporal. Um tiro disparou para o alto quando caí sobre ele, passando a centímetros da minha cabeça, mas não me assustei. Só uma coisa eu tinha em mente: não podia largar a arma que ainda estava em suas mãos. Com eu era mais forte e mais pesado, isso me deu confiança. Mas com a mão esquerda ele me socava o rosto. De repente, senti que ele tentava agarra-me o saco. Sabia que ele me renderia se conseguisse me apertar os testículos. Ainda pude ver, ao longe, transeuntes assustados do outro lado da rua. Era inútil pedir socorro. Em breve a Brigada seria acionada, mas até lá eu poderia estar morto. Por isso aferrei-me com mais força ainda em sua mão armada, conseguindo a trazer para baixo, entre nossos corpos. Não tinha a mão no gatilho, mas quando premi com mais força a sua mão, como um torniquete, usando o peso do meu corpo contra o seu, embaixo, escutei um disparo. Surdo, rouco, abafado. Parecia ao longe, como se alguém o tivesse alvejado, tirando-me daquela situação. Mas o cheiro de pólvora e sangue e um calor inusitado encharcando meu agasalho, não deixava dúvida: o disparo tinha acontecido entre nós!
Não sabia se eu ou ele tinha sido o alvo daquela bala. Não havia sentido nada, mas não tinha certeza. Só soube o que havia acontecido quando senti seus movimentos cederem e pude então tomar-lhe a arma das mãos. Nossos rostos quase encostados – eu ainda deitado sobre ele – e os seus olhos vidrados deram-me um retrato da morte como nunca antes havia visto. Não pelo menos de tão perto.
Eu o havia matado!
Havia matado aquele sujeito com o qual, até há poucos minutos, conversávamos como amigos e talvez até já o considerasse um, não fosse o fato de o destino nos ter colocado em posições tão opostas que, nem eu nem ele havíamos conseguido, superar.
Fim.
Bem, lá o final dessa história que espero vocês gostem:
Aquilo havia escapado ao meu controle. Eu tinha virado o cash dispenser daquele sujeito. Como me livrar dele? Era o que eu começava a me perguntar agora que aquela sombra me perseguia à distância, monitorando os meus passos. Quando eu menos esperava estava ele lá, pronto para dar o bote. E não podíamos nos considerarmos amigos. Afinal eu praticamente o estava sustentando e ele sempre me mostrava a arma. O que não deixava dúvida: era uma ameaça que eu não podia subestimar.
Sua última tentativa de me assaltar aconteceu novamente numa situação semelhante do modo como nós havíamos nos conhecido. Mas dessa vez ele agiu diferente comigo. Parece que ele mesmo não queria mais fazer aquilo, mas o vício ou a necessidade falou mais alto.
Eu tinha saído para caminhar. Estava de agasalho e tênis. Encontrei-o nos altos da Fátima. Já havia anoitecido, mas como esse é meu percurso habitual não me dei conta do risco. Na altura do Cemitério novo da Vera Cruz, na divisa entre os bairros Fátima e Vera Cruz, um sujeito vindo em minha direção, com um moletom de capuz, mãos nos bolsos e cabeça abaixada, fez-me suspeitar que fosse ele. Hesitei entre voltar, atravessar a rua, ou simplesmente sair correndo. Acabei paralizado entre todas essas alternativas, caindo na boca da serpente. Era ele e havia me reconhecido.
- Caminhando, dotor? – perguntou ele quando me aproximei.
- É o que parece, não?
- Posso acompanhá?
- Ué? Tu não está indo em outra direção – respondi-lhe contrariado.
- Dotor... eu sou um tipo sem parada, o senhor já não percebeu isso?
O que fazer? O sujeito já estava do meu lado e caminhávamos agora na mesma direção.
Divertia-me, agora, que não tivesse nada nos bolsos. O que ele iria afinal tentar contra mim? Roubar-me os tênis? Não! Acho que esse não era o seu estilo. Por isso relaxei e procurei tirar daquela situação o que ela poderia me ensinar: quem era afinal esse sujeito? Qual a sua história? Por que chegara aquilo?
Caminhamos juntos algumas quadras e conversamos como dois amigos. Descobri algumas coisas da sua vida, ele descobriu coisas da minha. Começávamos a formar um elo de amizade, quando mais uma vez ele puxou da arma e resolveu me encostar na parede.
- Oh, dotor, não me leve a mal, mas é que eu estou precisando de um dinheirinho aí, o senhor sabe?
- Não, eu não sei, quem sabe você me explica.
- Como assim, dotor, o senhor não se deu conta ainda? Nós somos de mundos diferentes, dotor. Eu sou um João-ninguém. O senhor é alguém. Então o senhor tem que me dar algo. Algo que tu tem, eu não tenho e eu preciso. Fazer o quê? É a lei da selva, dotor.
- Achei que pudéssemos ser amigos.
- Acho que não, dotor.
- Só que, meu amigo, dessa vez tu te deu mal: eu estou sem nenhum. Tu não tá vendo? Estou sem carteira, sem cartões, sem documentos – disse triunfante.
- Não tem problema, dotor. Eu já contava com isso. A gente vai até a sua casa e você descola alguma coisa pra mim – respondeu-me com naturalidade, de quem sabia o que estava fazendo.
Aquilo mexeu comigo. Uma cena passou por minha cabeça. Eu chegando em casa, sob a mira de um revolver, expondo minha família àquela situação que eu havia alimentado. Não admitiria aquilo de jeito nenhum, nem que esse fosse o meu último ato antes de morrer. Havia chegado ao meu limite.
- De jeito nenhum, meu caro! – respondi-lhe com uma expressão nos olhos, que o assustou.
Antes que ele recuasse para fazer mira, agarrei-lhe a mão desviando o revólver para longe de mim. Entramos em luta corporal. Um tiro disparou para o alto quando caí sobre ele, passando a centímetros da minha cabeça, mas não me assustei. Só uma coisa eu tinha em mente: não podia largar a arma que ainda estava em suas mãos. Com eu era mais forte e mais pesado, isso me deu confiança. Mas com a mão esquerda ele me socava o rosto. De repente, senti que ele tentava agarra-me o saco. Sabia que ele me renderia se conseguisse me apertar os testículos. Ainda pude ver, ao longe, transeuntes assustados do outro lado da rua. Era inútil pedir socorro. Em breve a Brigada seria acionada, mas até lá eu poderia estar morto. Por isso aferrei-me com mais força ainda em sua mão armada, conseguindo a trazer para baixo, entre nossos corpos. Não tinha a mão no gatilho, mas quando premi com mais força a sua mão, como um torniquete, usando o peso do meu corpo contra o seu, embaixo, escutei um disparo. Surdo, rouco, abafado. Parecia ao longe, como se alguém o tivesse alvejado, tirando-me daquela situação. Mas o cheiro de pólvora e sangue e um calor inusitado encharcando meu agasalho, não deixava dúvida: o disparo tinha acontecido entre nós!
Não sabia se eu ou ele tinha sido o alvo daquela bala. Não havia sentido nada, mas não tinha certeza. Só soube o que havia acontecido quando senti seus movimentos cederem e pude então tomar-lhe a arma das mãos. Nossos rostos quase encostados – eu ainda deitado sobre ele – e os seus olhos vidrados deram-me um retrato da morte como nunca antes havia visto. Não pelo menos de tão perto.
Eu o havia matado!
Havia matado aquele sujeito com o qual, até há poucos minutos, conversávamos como amigos e talvez até já o considerasse um, não fosse o fato de o destino nos ter colocado em posições tão opostas que, nem eu nem ele havíamos conseguido, superar.
Fim.
June 01, 2007
conto - continuação
Continuação:
Dias depois saí para levar até o campus meu filho que tinha perdido o ônibus da faculdade. Na volta parei na sinaleira da rodoviária, quando fui surpreendido por alguém que entrou rapidamente no carro pela porta de trás. Havia esquecido de travar as portas. Já tinha ouvido falar dessa modalidade de assalto que bandidos mais ousados estão aplicando.
- Fica frio aí chefia e não olha pra trás. Quando abrir a sinaleira arranca normalmente. Vamô dá um rolé.
Isso tudo eu escutei sentindo através do banco o cano do que só podia ser da arma encostado nas minhas costas. Sem outra opção, segui as suas instruções, procurando manter o sangue frio.
Mandou-me ficar à esquerda do trâfego. Na esquina seguinte, fez-me dobrar nessa sentido. Saíamos do Avenida Brasil, do movimento e das luzes.
- Para você está me levando?
- Dar uma volta.
Andamos algumas quadras até que ele me mandou parar sob a sombra das árvores. Era noite e as poucas luzes dos postes da rua não penetravam os ramos. Alguma coisa na atitude daquele sujeito me eram familiar. Mas ele não usava nenhum toca ninja como o bandido da outra vez. Não sei porque mais preferia que fosse ele.
- E agora?
- Bem, agora, dotor, quem vai lhe propor um negócio sou eu?
Reconheci a dicção e o tom de voz. Era o cara! O mesmo sujeito de outro dia! Novamente havia caído na sua armadilha.
Voltei-me para trás e pude ver: era mesmo ele com aquele seu sorriso de superioridade.
- Você de novo!? – não pude deixar de exclamar.
- É isso aí.
- O que é que deu em você? Por que eu de novo? Você vem me cuidando para me assaltar novamente?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Foi por acaso, pode crê.
- Você acha que eu acredito em papai Noel para acreditar que você me pegou de novo por acaso?
- Não! Quero dizer que foi por acaso que encontrei contigo outro dia. Me chamô a atenção. Tu passô de carro e eu lembrei de ti. Pensei comigo: tá aí sujeito gente boa. Procurei gravá na memória o teu carro. Quando te vi hoje na sinaleira, pensei em te fazer uma surpresa. Tava mesmo saindo prum trabalhinho aí. Não custava pegar uma carona contigo.
- Então quer dizer que tu vai querer que eu te deixe no local do crime?
- Isso também.
- ‘Ce ta de brincadeira comigo, tá?
- Dotor, não esqueça quem tá no comando aqui, ok? – e dizendo isso apertou de novo a arma de encontro às minhas costas, através do assento.
- Ok, ok. Onde é então o lugar.
- Já te mostro. Mas antes vamô dá aquela passadinha no banco?
- Ah, quer dizer que vai ter isso também?
- O que tu acha?
- Tô sacando... – disse eu só então me dando conta do trocadilho.
Assim tive de passar no banco, sacar o cenzinho como da outra vez e ainda deixá-lo na Vila Cruzeiro – uma das mais barra pesada da cidade - onde ele me pediu para ficar.
Aquilo começava a ficar engraçado: ser assaltado pela segunda vez pelo mesmo sujeito e ainda se sentir grato, afinal ele, agora, podia ter me levado mais do que a outra vez – o carro e a vida, para não deixar pistas.
No entanto, dei de ombros e mais uma vez não registrei ocorrência na polícia: ia ser difícil fazer o pessoal acreditar na veracidade daquele história. Seria muita coisa para explicar.
Um domingo desses eu mesmo encontrei o sujeito, em pleno dia, na praça do Hospital da Cidade. Acho que ele estava com a família. Esposa, uma filha crescida e outra menor. Esta última andando de bicicleta na calçada que tem ali em forma de círculo. Eles tomando chimarrão. Ele não me viu. Passei por ali em um passo apressado de quem está caminhando, confundindo-me com o movimento do fim de semana, dia de inverno e sol. Achei curioso encontrá-lo assim. Ninguém diria que aquele aparente pacato pai de família, à noite era um batedor de carteiras, talvez um assassino profissional. Eu próprio – uma de suas vítimas - senti que poderia estar ali conversando com ele sem suspeitar de nada. Por isso dei graças a Deus que ele não tenha me visto. Não saberia qual teria sido sua reação. Talvez me cumprimentasse, e eu não poderia me omitir de retribuir. O que não deixaria de ser bastante estranho.
Uma noite, eu e minha esposa saímos de um baile no Clube Caixeral no centro da cidade. Já seriam umas 3 horas da manhã. Era um baile de formatura, por isso as quadras estavam lotadas de carros quando havíamos chegado para a solenidade. Tive que deixar o carro umas duas quadras adiante, na direção da antiga Gare da Estação Férrea. Longe, portanto, das luzes e do movimento que, àquela hora, ainda havia na Independência. Estava frio, por isso nem nos demos conta do risco que corríamos ao percorrermos a pé uma distância daquelas. Só pensávamos no frio que sentíamos e no ar condicionado do carro que nos esperava. Íamos abraçados e em passos rápidos, eu tentando aurir um pouco do calor do casaco de pele que minha esposa usava por cima do vestido de alça.
Tínhamos bebido também um pouco. Não nos atínhamos para o risco que corríamos.
Quando chegamos no carro, antes de eu conseguisse entrar, um destes guardador de carros que sempre estão por ali, sobretudo em ocasiões como aquela de grande movimento, se aproximou - não vi donde - me pedindo uns trocados. Minha esposa já tinha entrado e só fazia pensar em ligar o ar condicionado, tanto que lhe alcancei as chaves do carro enquanto me apalpava para ver onde conseguiria arranjar umas moedas.
- Ô, dotor, não tá me reconhecendo?
- Aaah! – sim! Era o sujeito de novo! O meu assaltante particular, por assim dizer.
- Então, dotor, tu sabe que não é uma moedinha que eu vô querê , não é? – e ao falar assim afastou a aba do casacão que estava usando mostrando o cano da arma em minha direção.
- Tô sabendo – respondi-lhe com ar de resignação, recompondo-me para o que veria a seguir. – Pô, tu não tá vendo? Tô com a minha esposa aí dentro? – ainda tentei argumentar em vão.
- Tanto pior pra ti, dotor.
- Quanto vai ser então – disse já puxando a carteira. Por sorte, não teria que fazer a via sacra do banco. Tinha naquele dia algum dinheiro na carteira. Mais que o habitual pelo menos.
- O que tu tem aí?
- O de sempre.
- Cem?
- É. Mais ou menos.
- Passa tudo, dotor.
- Toma aí – disse estendendo-lhe o dinheiro em sua direção. As notas farfalhando ao vento.
- Não leve a mal, dotor. É que estou precisando, sabe? Minha filha. A mais nova. Tá doente. Teve que baixá o hospital. Pneumonia me disseram. Preciso pros remédios.
- Tudo bem – ainda tive que lhe dizer, a contragosto, virando-me para entrar no carro. – Mas ela está bem? – escapou-me, de repente, a pergunta, lembrando-me da cena na praça.
- Sim, ela já está bem melhor. Mas tomamo um grande susto.
- Uhm. Bom retorno, dotor.
Continua amanhã... (muito longo?) Amanhã sai o final.
Dias depois saí para levar até o campus meu filho que tinha perdido o ônibus da faculdade. Na volta parei na sinaleira da rodoviária, quando fui surpreendido por alguém que entrou rapidamente no carro pela porta de trás. Havia esquecido de travar as portas. Já tinha ouvido falar dessa modalidade de assalto que bandidos mais ousados estão aplicando.
- Fica frio aí chefia e não olha pra trás. Quando abrir a sinaleira arranca normalmente. Vamô dá um rolé.
Isso tudo eu escutei sentindo através do banco o cano do que só podia ser da arma encostado nas minhas costas. Sem outra opção, segui as suas instruções, procurando manter o sangue frio.
Mandou-me ficar à esquerda do trâfego. Na esquina seguinte, fez-me dobrar nessa sentido. Saíamos do Avenida Brasil, do movimento e das luzes.
- Para você está me levando?
- Dar uma volta.
Andamos algumas quadras até que ele me mandou parar sob a sombra das árvores. Era noite e as poucas luzes dos postes da rua não penetravam os ramos. Alguma coisa na atitude daquele sujeito me eram familiar. Mas ele não usava nenhum toca ninja como o bandido da outra vez. Não sei porque mais preferia que fosse ele.
- E agora?
- Bem, agora, dotor, quem vai lhe propor um negócio sou eu?
Reconheci a dicção e o tom de voz. Era o cara! O mesmo sujeito de outro dia! Novamente havia caído na sua armadilha.
Voltei-me para trás e pude ver: era mesmo ele com aquele seu sorriso de superioridade.
- Você de novo!? – não pude deixar de exclamar.
- É isso aí.
- O que é que deu em você? Por que eu de novo? Você vem me cuidando para me assaltar novamente?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Foi por acaso, pode crê.
- Você acha que eu acredito em papai Noel para acreditar que você me pegou de novo por acaso?
- Não! Quero dizer que foi por acaso que encontrei contigo outro dia. Me chamô a atenção. Tu passô de carro e eu lembrei de ti. Pensei comigo: tá aí sujeito gente boa. Procurei gravá na memória o teu carro. Quando te vi hoje na sinaleira, pensei em te fazer uma surpresa. Tava mesmo saindo prum trabalhinho aí. Não custava pegar uma carona contigo.
- Então quer dizer que tu vai querer que eu te deixe no local do crime?
- Isso também.
- ‘Ce ta de brincadeira comigo, tá?
- Dotor, não esqueça quem tá no comando aqui, ok? – e dizendo isso apertou de novo a arma de encontro às minhas costas, através do assento.
- Ok, ok. Onde é então o lugar.
- Já te mostro. Mas antes vamô dá aquela passadinha no banco?
- Ah, quer dizer que vai ter isso também?
- O que tu acha?
- Tô sacando... – disse eu só então me dando conta do trocadilho.
Assim tive de passar no banco, sacar o cenzinho como da outra vez e ainda deixá-lo na Vila Cruzeiro – uma das mais barra pesada da cidade - onde ele me pediu para ficar.
Aquilo começava a ficar engraçado: ser assaltado pela segunda vez pelo mesmo sujeito e ainda se sentir grato, afinal ele, agora, podia ter me levado mais do que a outra vez – o carro e a vida, para não deixar pistas.
No entanto, dei de ombros e mais uma vez não registrei ocorrência na polícia: ia ser difícil fazer o pessoal acreditar na veracidade daquele história. Seria muita coisa para explicar.
Um domingo desses eu mesmo encontrei o sujeito, em pleno dia, na praça do Hospital da Cidade. Acho que ele estava com a família. Esposa, uma filha crescida e outra menor. Esta última andando de bicicleta na calçada que tem ali em forma de círculo. Eles tomando chimarrão. Ele não me viu. Passei por ali em um passo apressado de quem está caminhando, confundindo-me com o movimento do fim de semana, dia de inverno e sol. Achei curioso encontrá-lo assim. Ninguém diria que aquele aparente pacato pai de família, à noite era um batedor de carteiras, talvez um assassino profissional. Eu próprio – uma de suas vítimas - senti que poderia estar ali conversando com ele sem suspeitar de nada. Por isso dei graças a Deus que ele não tenha me visto. Não saberia qual teria sido sua reação. Talvez me cumprimentasse, e eu não poderia me omitir de retribuir. O que não deixaria de ser bastante estranho.
Uma noite, eu e minha esposa saímos de um baile no Clube Caixeral no centro da cidade. Já seriam umas 3 horas da manhã. Era um baile de formatura, por isso as quadras estavam lotadas de carros quando havíamos chegado para a solenidade. Tive que deixar o carro umas duas quadras adiante, na direção da antiga Gare da Estação Férrea. Longe, portanto, das luzes e do movimento que, àquela hora, ainda havia na Independência. Estava frio, por isso nem nos demos conta do risco que corríamos ao percorrermos a pé uma distância daquelas. Só pensávamos no frio que sentíamos e no ar condicionado do carro que nos esperava. Íamos abraçados e em passos rápidos, eu tentando aurir um pouco do calor do casaco de pele que minha esposa usava por cima do vestido de alça.
Tínhamos bebido também um pouco. Não nos atínhamos para o risco que corríamos.
Quando chegamos no carro, antes de eu conseguisse entrar, um destes guardador de carros que sempre estão por ali, sobretudo em ocasiões como aquela de grande movimento, se aproximou - não vi donde - me pedindo uns trocados. Minha esposa já tinha entrado e só fazia pensar em ligar o ar condicionado, tanto que lhe alcancei as chaves do carro enquanto me apalpava para ver onde conseguiria arranjar umas moedas.
- Ô, dotor, não tá me reconhecendo?
- Aaah! – sim! Era o sujeito de novo! O meu assaltante particular, por assim dizer.
- Então, dotor, tu sabe que não é uma moedinha que eu vô querê , não é? – e ao falar assim afastou a aba do casacão que estava usando mostrando o cano da arma em minha direção.
- Tô sabendo – respondi-lhe com ar de resignação, recompondo-me para o que veria a seguir. – Pô, tu não tá vendo? Tô com a minha esposa aí dentro? – ainda tentei argumentar em vão.
- Tanto pior pra ti, dotor.
- Quanto vai ser então – disse já puxando a carteira. Por sorte, não teria que fazer a via sacra do banco. Tinha naquele dia algum dinheiro na carteira. Mais que o habitual pelo menos.
- O que tu tem aí?
- O de sempre.
- Cem?
- É. Mais ou menos.
- Passa tudo, dotor.
- Toma aí – disse estendendo-lhe o dinheiro em sua direção. As notas farfalhando ao vento.
- Não leve a mal, dotor. É que estou precisando, sabe? Minha filha. A mais nova. Tá doente. Teve que baixá o hospital. Pneumonia me disseram. Preciso pros remédios.
- Tudo bem – ainda tive que lhe dizer, a contragosto, virando-me para entrar no carro. – Mas ela está bem? – escapou-me, de repente, a pergunta, lembrando-me da cena na praça.
- Sim, ela já está bem melhor. Mas tomamo um grande susto.
- Uhm. Bom retorno, dotor.
Continua amanhã... (muito longo?) Amanhã sai o final.
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