Pessoal, estou publicando a primeira parte de um novo conto.
Veja o que vocês acham.
Um abraço
O INTERFONE
Cheguei cansado do serviço. Eram sete horas passadas e eu ainda precisava ir até o mercado, pois não tinha nada na geladeira.
Como de hábito comprei cervejas, salsichas e algumas frutas.
“Preciso comer melhor. Essas malditas salsichas devem estar aumentando o meu colesterol. Sem falar que estou engordando a olhos vistos”. “Pelo menos compenso com as frutas no café da manhã” – argumentei em favor do comodismo e do cansaço.
Estava tão cansado que nem me toquei que moro sozinho já há um bom tempo. O camarada com quem dividia o apartamento voltou para a casa dos pais e eu acabei ficando só já faz alguns meses. Não encontrei mais ninguém com quem dividir o aluguel. Por outro lado, passei a ganhar um pouco melhor depois da promoção e isso tem me possibilitado viver sozinho num apartamento de 2 quartos. Me acostumei à privacidade que a vida de um solitário permite e, na verdade, já não tenho mais interesse em arrumar com quem dividir meu espaço.
No entanto, por força do hábito ou por estar cansado e carregado das sacolas do mercado e com preguiça de procurar nos bolsos das calças a chave de casa, esqueci-me desse detalhe e apertei o número do apartamento em que moro, para alguém que não estava mais ali e pudesse abrir para mim a porta de casa. Só depois do segundo toque é que me dei conta de onde é que eu andava com a cabeça. Dei de ombros e comecei a me apalpar para encontrar as chaves quando, para minha surpresa, alguém atendeu sem dizer nada e acionou o interruptor que abriu a porta.
Não dei importância para aquilo porque achei que tivesse errado o número ao apertar o 704 – o número de casa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, afinal não tinham dito nada e que história era essa de as pessoas irem assim abrindo a porta do prédio para qualquer um que tocava o interfone? Onde é que estava a segurança daquele edifício que todas as vezes que tínhamos reunião de condomínio – pelo menos de todas que participei – tinha sido o tema constante das preocupações gerais?
Não conformado com isso, larguei as sacolas das compras diante do elevador que não se mexia no sétimo andar e voltei até o painel. Para me certificar que tinha apertado mesmo o número de casa fui até lá e apertei o 704. Esperei dois segundos e só então dei-me conta do papel ridículo que estava fazendo: apertar o número do próprio apartamento em que morava sozinho! Se alguém me visse naquela situação iria achar que eu tinha pirado. Era melhor esquecer isso. Na primeira oportunidade reclamaria com o síndico a falta de cuidado dos moradores daquele edifício, afinal estava provado que tinha me enganado, apertara o número errado e alguém simplesmente abrira a porta sem ao menos perguntar quem era.
No entanto, ao virar as costas para voltar às compras abandonadas na frente do elevedor, qual não foi minha surpresa: alguém de novo liberou a porta da rua sem ao menos dizer alô. E o que é pior: tinha certeza de que não tinha me enganado. Apertara deveras o 704! O número de casa!
“ Que raios está acontecendo aqui?” Voltei de novo e apertei mais uma vez o 704. Alguns segundos depois o zzzz da porta acionada não deixava dúvida: havia alguém em minha casa!
Procurei passar rapidamente em retrospecto todas as pessoas que podiam ter as chaves do meu apartamento. Alguma ex-namorada, meu amigo que tivesse voltado para buscar alguma coisa esquecida, meus pais vindos do interior... Ninguém! Ninguém que tivesse a chave do meu apartamento. Pelo menos que eu soubesse ou lembrasse. E mesmo se tivesse, por que não dizer pelo menos um alô? Quem fala? Aqui é fulano, beltrana de tal.
O que estava se passando ali? Um ladrão? Mas um ladrão que atendia interfone? Aquilo era absurdo. O que fazer naquele momento senão subir e conferir o que estava acontecendo? Não seria no entanto prudente procurar primeiro pelo zelador? Não! Vou ver o que está acontecendo. Pelo menos até o corredor do meu andar.
E esse elevador? Parado no sétimo. O que está havendo?
Bati na porta externa para ver se liberavam-no afinal. Alguns segundos e ele começou a descer.
Eram quase 8 horas, por isso não encontrei ninguém no elevador para dividir minha apreensão. O prédio estava silencioso e sem vida. Exceto pelo barulho residual das ruas, dos cabos do elevador, dos pneus dos carros na garagem não se ouvia movimento de viv’alma. Tudo no mais absoluto silêncio, embora aquele horário isso fosse de hábito. Quem estava para chegar em casa já tinha chegado, quem precisava sair já tinha saído. Eventualmente encontrava alguém nesses momentos. Até por isso conhecia bem pouco meus vizinhos. Nos finais-de-semana saía pouco e tarde de casa de modo que raramente encontrava aquelas crianças que escutava fazendo algazarra nos apartamentos superiores, nas escadas e corredores. Apenas sabia que a minha esquerda morava uma família de quatro pessoas, pai e mãe e duas crianças e a minha direita um casal de velhinho que ocasionalmente recebiam a visita dos filhos e dos netos. Por causa, no entanto, do que estava acontecendo, aquele silêncio me incomodova. Preferia ter encontrado alguém, sobretudo do meu andar, para recuperar um pouco o senso da realidade, mas sabia de antemão que esta expectativa seria frustrada.
No meu andar, nada que denunciasse alguma situação excepcional. Só então pude escutar as primeiras vozes vindo dos apartamentos vizinhos. Isso ao mesmo tempo que me tranqüilizava, por outro aumentava a minha apreensão, pois se algo estava errado seria apenas em meu apartamento. Ninguém havia tomado conhecimento do que estaria se passando ali.
A porta de casa também não denunciava sinais de arrombamento.
Sentia-me ridículo por estar chegando em minha própria casa com tanta cautela. Mas o que fazer se o que podia encontrar ali não seria nada agradável: uma casa revirada, objetos furtados ou até mesmo a presença de um alguém não desejado me esperando no escuro? Tudo isso me passava pela cabeça enquanto girava a chave com cautela na fechadura, procurando fazer o menos de barulho possível. Tinha planejado abrir a porta de repente, de um empurrão e correr para o fundo do corredor, em direção as escadas. Por isso deixei longe de mim, as sacolas que carregava, para não me atrapalharem numa eventual fuga.
Executei a manobra planejada mas nada aconteceu. A porta escancarada assim ficou durante os minutos em que ofegante fiquei a observar da distância das escadas no fundo do corredor, pronto para voar escada abaixo em qualquer eventualidade. Mas nada, nem ninguém saiu dali. Quem me visse naquele momento jamais entenderia a cena: um homem fugindo da própria casa. Seria difícil explicar sem parecer completamente pirado. Mas o que me importava o que os outros pensariam se bem podia ser que minha vida corria perigo? E o fato de ninguém ter se apresentado porta afora, não afastava a possibilidade de alguém estar a espreita no interior de casa. E só agora eu me dava conta de que com essa manobra bem poderia ter prestado uma serviço a um virtual bandido ou fosse lá quem poderia estar ali. Tinha-o prevenido que tinha chegado! Se quem estava ali não fosse apenas um ladrão de domicílios, bastaria esperar que sua vítima se aproximasse, já quase suplicante, para acabar logo com aquilo, desferindo-lhe o golpe final.
Pensei em acender a luz de casa antes de entrar. Mesmo um assassino experiente não executaria sua vítima às claras.
Corri até a porta, liguei a luz de casa e voltei. Aguardei mais alguns minutos e resolvi de novo me esgueirar até lá. Escutar alguma coisa, espionar para dentro.
Nada de anormal. Tudo em ordem. Absoluto silêncio, exceto pelos vizinhos ruidosos ao lado, pelo motor do elevador enfim acionado, pelo barulho das ruas. Entrei. Mas não fechei a porta nem trouxe para dentro as sacolas esquecidas no corredor.
Precisava me acalmar a cada metro avançado no “terreno inimigo”. Mas não encontrei nada, nem ninguém dentro de casa. Revisei todos os cômodos e nada. Ninguém dentro do armário, ninguém em baixo da cama, ninguém no Box do banheiro, atrás da máquina de lavar na área de serviço. Naquela altura também se alguém houvesse ali eu seria uma vítima fácil. Tinha me irritado com aquela cautela inútil e por fim revisado tudo como quem procura um objeto perdido, não um bandido. Só não entendia uma coisa: quem teria aberto a porta de casa? Quem teria atendido o interfone?
Por fim esqueci daquilo, afinal minhas compras estavam lá no corredor e eu tinha ainda que tomar um banho, comer alguma coisa, descansar de um dia de trabalho.
Baixei a guarda.
Fui buscar as compras esquecidas no corredor.
Nesse momento a luz do corredor apagou e tive que contar com apenas a luz de dentro de casa. Voltei em direção a porta aberta. No entanto, ao entrar alguma coisa escura e muito rápida saltou sobre mim e antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, tapou minha boca com um forte aperto, quase me sufocando. Ao mesmo tempo em que me aplicava um golpe, derrubando-me no chão, com uma lâmina encostada nas costelas. Vi que estava dominado e que não devia reagir, de outro modo seria furado por aquela faca. No entanto, a expressão nos olhos do meu agressor não me davam muita esperança. Era a morte que eu via neles!
No comments:
Post a Comment