Havia prometido para o dia seguinte mas só agora consegui disponibilizar para vocês o final. É que a versão defintiva só tenho no trabalho e como o dia seguinte era sábado, não pude atualizar a página até hoje.
Bem, lá o final dessa história que espero vocês gostem:
Aquilo havia escapado ao meu controle. Eu tinha virado o cash dispenser daquele sujeito. Como me livrar dele? Era o que eu começava a me perguntar agora que aquela sombra me perseguia à distância, monitorando os meus passos. Quando eu menos esperava estava ele lá, pronto para dar o bote. E não podíamos nos considerarmos amigos. Afinal eu praticamente o estava sustentando e ele sempre me mostrava a arma. O que não deixava dúvida: era uma ameaça que eu não podia subestimar.
Sua última tentativa de me assaltar aconteceu novamente numa situação semelhante do modo como nós havíamos nos conhecido. Mas dessa vez ele agiu diferente comigo. Parece que ele mesmo não queria mais fazer aquilo, mas o vício ou a necessidade falou mais alto.
Eu tinha saído para caminhar. Estava de agasalho e tênis. Encontrei-o nos altos da Fátima. Já havia anoitecido, mas como esse é meu percurso habitual não me dei conta do risco. Na altura do Cemitério novo da Vera Cruz, na divisa entre os bairros Fátima e Vera Cruz, um sujeito vindo em minha direção, com um moletom de capuz, mãos nos bolsos e cabeça abaixada, fez-me suspeitar que fosse ele. Hesitei entre voltar, atravessar a rua, ou simplesmente sair correndo. Acabei paralizado entre todas essas alternativas, caindo na boca da serpente. Era ele e havia me reconhecido.
- Caminhando, dotor? – perguntou ele quando me aproximei.
- É o que parece, não?
- Posso acompanhá?
- Ué? Tu não está indo em outra direção – respondi-lhe contrariado.
- Dotor... eu sou um tipo sem parada, o senhor já não percebeu isso?
O que fazer? O sujeito já estava do meu lado e caminhávamos agora na mesma direção.
Divertia-me, agora, que não tivesse nada nos bolsos. O que ele iria afinal tentar contra mim? Roubar-me os tênis? Não! Acho que esse não era o seu estilo. Por isso relaxei e procurei tirar daquela situação o que ela poderia me ensinar: quem era afinal esse sujeito? Qual a sua história? Por que chegara aquilo?
Caminhamos juntos algumas quadras e conversamos como dois amigos. Descobri algumas coisas da sua vida, ele descobriu coisas da minha. Começávamos a formar um elo de amizade, quando mais uma vez ele puxou da arma e resolveu me encostar na parede.
- Oh, dotor, não me leve a mal, mas é que eu estou precisando de um dinheirinho aí, o senhor sabe?
- Não, eu não sei, quem sabe você me explica.
- Como assim, dotor, o senhor não se deu conta ainda? Nós somos de mundos diferentes, dotor. Eu sou um João-ninguém. O senhor é alguém. Então o senhor tem que me dar algo. Algo que tu tem, eu não tenho e eu preciso. Fazer o quê? É a lei da selva, dotor.
- Achei que pudéssemos ser amigos.
- Acho que não, dotor.
- Só que, meu amigo, dessa vez tu te deu mal: eu estou sem nenhum. Tu não tá vendo? Estou sem carteira, sem cartões, sem documentos – disse triunfante.
- Não tem problema, dotor. Eu já contava com isso. A gente vai até a sua casa e você descola alguma coisa pra mim – respondeu-me com naturalidade, de quem sabia o que estava fazendo.
Aquilo mexeu comigo. Uma cena passou por minha cabeça. Eu chegando em casa, sob a mira de um revolver, expondo minha família àquela situação que eu havia alimentado. Não admitiria aquilo de jeito nenhum, nem que esse fosse o meu último ato antes de morrer. Havia chegado ao meu limite.
- De jeito nenhum, meu caro! – respondi-lhe com uma expressão nos olhos, que o assustou.
Antes que ele recuasse para fazer mira, agarrei-lhe a mão desviando o revólver para longe de mim. Entramos em luta corporal. Um tiro disparou para o alto quando caí sobre ele, passando a centímetros da minha cabeça, mas não me assustei. Só uma coisa eu tinha em mente: não podia largar a arma que ainda estava em suas mãos. Com eu era mais forte e mais pesado, isso me deu confiança. Mas com a mão esquerda ele me socava o rosto. De repente, senti que ele tentava agarra-me o saco. Sabia que ele me renderia se conseguisse me apertar os testículos. Ainda pude ver, ao longe, transeuntes assustados do outro lado da rua. Era inútil pedir socorro. Em breve a Brigada seria acionada, mas até lá eu poderia estar morto. Por isso aferrei-me com mais força ainda em sua mão armada, conseguindo a trazer para baixo, entre nossos corpos. Não tinha a mão no gatilho, mas quando premi com mais força a sua mão, como um torniquete, usando o peso do meu corpo contra o seu, embaixo, escutei um disparo. Surdo, rouco, abafado. Parecia ao longe, como se alguém o tivesse alvejado, tirando-me daquela situação. Mas o cheiro de pólvora e sangue e um calor inusitado encharcando meu agasalho, não deixava dúvida: o disparo tinha acontecido entre nós!
Não sabia se eu ou ele tinha sido o alvo daquela bala. Não havia sentido nada, mas não tinha certeza. Só soube o que havia acontecido quando senti seus movimentos cederem e pude então tomar-lhe a arma das mãos. Nossos rostos quase encostados – eu ainda deitado sobre ele – e os seus olhos vidrados deram-me um retrato da morte como nunca antes havia visto. Não pelo menos de tão perto.
Eu o havia matado!
Havia matado aquele sujeito com o qual, até há poucos minutos, conversávamos como amigos e talvez até já o considerasse um, não fosse o fato de o destino nos ter colocado em posições tão opostas que, nem eu nem ele havíamos conseguido, superar.
Fim.
3 comments:
Grande Poeta. Estou lhe devendo uma análise esmiuçada de seus contos. Porém tenho passado uns dias péssimos: gripe, asma, dor de garganta e inflamações musculares. E ainda sou cínico de dizer que adoro inverno. Seu conto é engraçado e o final policialesco. Preciso lê-lo melhor, mas creio que ele saiu como deveria ter ocorrido: de um jato. Além disso, é fácil de ler. Gostoso. Porém, creio que, como em toda literatura, precisa ser reescrito, oferecendo mais sensações ao leitor: cheiros, olhares, trejeitos, texturas, toques. Porém, provavelmente, você esteja em uma fase de criação e pensar em burilar contos não seja a melhor idéia. O melhor é produzir o máximo possível e, quando der aquela falta de criatividade, começar a retrabalhá-los. Uma boa maneira de escrever contos, quando falta assunto, é utilizar-se da erudição. Ou seja, pegar temas técnicos, históricos e científicos e inserí-los em pílulas na narrativa. Vou acompanhar de perto suas postagens. Abraços
Adorei a sua análise. Embora bastante sucinta, para mim, muito interessante, pois nunca tive a oportunidade de fazer um curso regular sobre a escrita. Tenho aprendido de ouvido, mas noto que isso é pouco para quem efetivamente pretanda se lançar nesse mundo da criação literária. Mesmo os grandes, antes de publicar, participavam de movimentos que lhes serviam como caldo de cultura onde eram cozinhados até estarem no ponto. Sinto falta disso na capital nacional da literatura (putz, acredita nisso?). Por isso essa minha busca desenfreada por parceiros para formarmos um grupo de discussão de literatura, trocarmos experiência, crescermos unidos.
Um abraço
Ministrei uma oficina literária na feira do livro de 2006, mas, por incrível que pareça, tive somente duas alunas. Não sou o mais indicado para lecionar, mas se tiver algum grupo, podemos combinar um sábado à tarde que vou para Passo Fundo ensinar o pouco que sei. Recomendo começar lendo A arte do roteiro, de Sid Fields. Utilize como leitura de apoio a novela O turista acidental, assistindo posteriormente o filme. Depois assista Guerra dos Mundos, buscando identificar a estrutura apresentada na Arte do Roteiro. Essas dicas são para dar estrutura a narrativa. Sobre a necessária concisão e uso mínimo de adjetivos e máximo de sensações e descrições - porém sem exageros -, Sugiro, ainda, ler qualquer coisa do Amilcar Bettega Barbosa (dá para achar algo no Google). Uma boa revista on-line para acompanhar é http://www.bestiario.com.br/. Por ora é isso.
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