CONSIDERAÇÕES
Homens de olhos vazios
e seus pensamentos indagadores
anseiam respostas
na tarde que se esvai.
O sinal luminoso indica:
- Sua ficha foi premiada!
O pastel que pediu
está pronto.
November 30, 2007
October 24, 2007
Conto
Paulo, sabe aquele conto do qual lhe falei? Vou publicá-lo aqui. Veja o que vc acha.
Um abraço
OBRIGAÇÕES
Só faço aquilo a que sou obrigado. Não vejo porque haveria de agir diferente. Já nos deparamos com tantas dificuldades quando instados pelas necessidades por que haveríamos de proceder de outra forma quando só há adversidades pelo caminho?
Obrigação certamente não dá prazer, exceto pela satisfação de tê-la cumprido. Mas isso só vem no fim, quando a obrigação já acabou. No intercurso - palavra sugestiva, não? - de modo algum. Por isso acho que não tenho muito prazer na vida já que só faço aquilo a que sou obrigado.
Um modo de me rebelar, dirão uns, um ativista político pensarão outros, um abstrato chegarão mais próximos da verdade alguns mais. Mas não me importo o que os outros pensem de mim, afinal só faço aquilo a que sou obrigado: quem poderá atinar com minha verdadeira natureza?
Por causa dessa minha atitude incomodo-me às vezes aos domingos e feriados, quando todos saem de casa para se divertir e eu não tenho o que fazer. Geralmente procuro dar um jeito nisso procurando alguma obrigação atrasada para resolver, algum assunto semanal pendente que eu possa me dedicar nesses momentos de folga com mais vagar. Enfim, qualquer coisa relacionada com alguma obrigação que ponha minha consciência de acordo consigo mesma. Contudo, como tenho filhos pequenos os assuntos da paternidade me ocupam de tal maneira que não tenho tido esse tipo de problema ultimamente. Levar as criança na praça, jogar bola com meu filho, andar de bicicleta, tomar sol com eles, acaba ocupando todo o meu dia e, então, ao final, eu posso voltar para casa cansado e feliz.
Não posso compreender um mundo onde as obrigações não tenham importância. Sequer posso imaginar uma tal hipótese. Aos domingos ou em dias de folga procuro desanuviar meus pensamentos dessa ameaça com as obrigações, sempre as obrigações salvadoras que só por existirem no horizonte do meu dia são a prova para mim do caráter incontestável dessa verdade, contra a qual é inútil conservar ilusões. Afinal do que adianta um sábado e um domingo se depois tem uma segunda feira, uma terça e assim por diante?
Porém, apesar de toda essa ordem em minha vida, não posso negar que às vezes tenho a sensação de que está faltando algo, como um pequeno buraco negro em minha alma que ameaça tragar pra dentro de si minha existência inteira. Procuro afastar esses pensamentos com atividades edificantes, mas aquele ponto negro dentro de mim, como o equivalente negativo da fé em Cristo - um grão de mostarda - vai crescendo, crescendo até me deixar prostrado por causa de todos os esforços que envido para aplacar essas inquietações.
Isso de uns anos para cá tem aumentado de intensidade e começo a cogitar da possibilidade de vir a encará-lo como um fato e deixar de empurrá-lo para debaixo do tapete da minha consciência.
Este estado de espiríto se agravou particularmente depois que minha mulher disse para mim que não queria mais viver comigo. Ela chegou assim de repente e sem mais nem menos, quer dizer, fora do contexto de uma acalorada discussão, e me declarou sem titubear que não suportava mais viver comigo, alegando que precisava pensar um pouco mais em si e que pretendia voltar a estudar, trabalhar fora, fazer alguma coisa, enfim, que desse outro sentido para sua vida.
Fiquei sem entender até o dia em que ao chegar do serviço a casa estava vazia. A vizinha me informou que minha mulher tinha vindo com um caminhão de mudanças e carregado a mobília toda, sabe Deus para onde. E consigo também havia levado as crianças. Através dos irmãos dela fiquei sabendo que ela havia se mudado para a cidade de Caçador, em Santa Catarina, onde tem parentes.
Fiquei atônito com sua atitude e com a reviravolta que minha vida estava sofrendo em poucos dias. O edifício das minhas convicções passava por seu mais forte abalo e eu já não sabia se ele iria resistir. Afinal se eu não conhecia a pessoa com quem durante tanto tempo havia dividido o mesmo teto, como é que poderia dizer que ainda conhecia alguma coisa? A todo instante ficava me passando pela cabeça o que ela estaria pensando enquanto eu fazia os meus discursos sobre a vida. Será que ela estaria me escutando ou apenas fazendo de conta para não me magoar? O que de fato ela pensava de mim? A partir de que momento o amor havia deixado de existir? Qual a natureza dos meus sentimentos para com ela quando nos casamos? Não teria sido o mero cumprimento de uma obrigação por tê-la engravidado? Isso não era o suficiente? Além de tudo ela ainda queria amor? Mas ela nunca me cobrou isso, nem me pediu se eu a amava quando nos casamos, porque agora isso iria ser importante para ela?
Era inegável que eu havia me condicionado a levar aquela vida crivada de responsabilidades e baixado o nível das minhas expectativas desde o momento em que eu tinha sido chamado às obrigações de pai de família. Isso certamente contribuiu para tirar a espontaneidade de uma relação que estava apenas começando. O esforço que fiz para me adaptar àquela nova situação havia consumido minhas energias. Talvez eu tenha ficado cego para as dificuldades que ela também estava enfrentando. Quem sabe se eu não tivesse me esforçado tanto não teríamos sido mais felizes? Juntos ou separados, talvez teríamos sido mais felizes e não teríamos perdido tanto tempo das nossas vidas.
Agora, não sei o que fazer. Sinto saudades dela, das crianças e da rotina. Massacrante que fosse esta, mas era a minha rotina. Sinto que ela não devia ter feito isso comigo, roubado isso de mim. Mas como posso condená-la por ter me libertado?
Um abraço
OBRIGAÇÕES
Só faço aquilo a que sou obrigado. Não vejo porque haveria de agir diferente. Já nos deparamos com tantas dificuldades quando instados pelas necessidades por que haveríamos de proceder de outra forma quando só há adversidades pelo caminho?
Obrigação certamente não dá prazer, exceto pela satisfação de tê-la cumprido. Mas isso só vem no fim, quando a obrigação já acabou. No intercurso - palavra sugestiva, não? - de modo algum. Por isso acho que não tenho muito prazer na vida já que só faço aquilo a que sou obrigado.
Um modo de me rebelar, dirão uns, um ativista político pensarão outros, um abstrato chegarão mais próximos da verdade alguns mais. Mas não me importo o que os outros pensem de mim, afinal só faço aquilo a que sou obrigado: quem poderá atinar com minha verdadeira natureza?
Por causa dessa minha atitude incomodo-me às vezes aos domingos e feriados, quando todos saem de casa para se divertir e eu não tenho o que fazer. Geralmente procuro dar um jeito nisso procurando alguma obrigação atrasada para resolver, algum assunto semanal pendente que eu possa me dedicar nesses momentos de folga com mais vagar. Enfim, qualquer coisa relacionada com alguma obrigação que ponha minha consciência de acordo consigo mesma. Contudo, como tenho filhos pequenos os assuntos da paternidade me ocupam de tal maneira que não tenho tido esse tipo de problema ultimamente. Levar as criança na praça, jogar bola com meu filho, andar de bicicleta, tomar sol com eles, acaba ocupando todo o meu dia e, então, ao final, eu posso voltar para casa cansado e feliz.
Não posso compreender um mundo onde as obrigações não tenham importância. Sequer posso imaginar uma tal hipótese. Aos domingos ou em dias de folga procuro desanuviar meus pensamentos dessa ameaça com as obrigações, sempre as obrigações salvadoras que só por existirem no horizonte do meu dia são a prova para mim do caráter incontestável dessa verdade, contra a qual é inútil conservar ilusões. Afinal do que adianta um sábado e um domingo se depois tem uma segunda feira, uma terça e assim por diante?
Porém, apesar de toda essa ordem em minha vida, não posso negar que às vezes tenho a sensação de que está faltando algo, como um pequeno buraco negro em minha alma que ameaça tragar pra dentro de si minha existência inteira. Procuro afastar esses pensamentos com atividades edificantes, mas aquele ponto negro dentro de mim, como o equivalente negativo da fé em Cristo - um grão de mostarda - vai crescendo, crescendo até me deixar prostrado por causa de todos os esforços que envido para aplacar essas inquietações.
Isso de uns anos para cá tem aumentado de intensidade e começo a cogitar da possibilidade de vir a encará-lo como um fato e deixar de empurrá-lo para debaixo do tapete da minha consciência.
Este estado de espiríto se agravou particularmente depois que minha mulher disse para mim que não queria mais viver comigo. Ela chegou assim de repente e sem mais nem menos, quer dizer, fora do contexto de uma acalorada discussão, e me declarou sem titubear que não suportava mais viver comigo, alegando que precisava pensar um pouco mais em si e que pretendia voltar a estudar, trabalhar fora, fazer alguma coisa, enfim, que desse outro sentido para sua vida.
Fiquei sem entender até o dia em que ao chegar do serviço a casa estava vazia. A vizinha me informou que minha mulher tinha vindo com um caminhão de mudanças e carregado a mobília toda, sabe Deus para onde. E consigo também havia levado as crianças. Através dos irmãos dela fiquei sabendo que ela havia se mudado para a cidade de Caçador, em Santa Catarina, onde tem parentes.
Fiquei atônito com sua atitude e com a reviravolta que minha vida estava sofrendo em poucos dias. O edifício das minhas convicções passava por seu mais forte abalo e eu já não sabia se ele iria resistir. Afinal se eu não conhecia a pessoa com quem durante tanto tempo havia dividido o mesmo teto, como é que poderia dizer que ainda conhecia alguma coisa? A todo instante ficava me passando pela cabeça o que ela estaria pensando enquanto eu fazia os meus discursos sobre a vida. Será que ela estaria me escutando ou apenas fazendo de conta para não me magoar? O que de fato ela pensava de mim? A partir de que momento o amor havia deixado de existir? Qual a natureza dos meus sentimentos para com ela quando nos casamos? Não teria sido o mero cumprimento de uma obrigação por tê-la engravidado? Isso não era o suficiente? Além de tudo ela ainda queria amor? Mas ela nunca me cobrou isso, nem me pediu se eu a amava quando nos casamos, porque agora isso iria ser importante para ela?
Era inegável que eu havia me condicionado a levar aquela vida crivada de responsabilidades e baixado o nível das minhas expectativas desde o momento em que eu tinha sido chamado às obrigações de pai de família. Isso certamente contribuiu para tirar a espontaneidade de uma relação que estava apenas começando. O esforço que fiz para me adaptar àquela nova situação havia consumido minhas energias. Talvez eu tenha ficado cego para as dificuldades que ela também estava enfrentando. Quem sabe se eu não tivesse me esforçado tanto não teríamos sido mais felizes? Juntos ou separados, talvez teríamos sido mais felizes e não teríamos perdido tanto tempo das nossas vidas.
Agora, não sei o que fazer. Sinto saudades dela, das crianças e da rotina. Massacrante que fosse esta, mas era a minha rotina. Sinto que ela não devia ter feito isso comigo, roubado isso de mim. Mas como posso condená-la por ter me libertado?
October 03, 2007
Novo Poema
Escrevi ontem um poema do qual gostei muito. Seu tema: o bêbado, essa figura tão trágica e tão lírica que às vezes se encontra pelas ruas da cidade.
Um bêbado caminhando é impagável. É quando o homem revela o seu lado mais humano, se despe das máscaras às quais tanto nos agarramos e encara a vida de frente, apenas amparado em sua fragilidade.
Um bêbado é sempre tema para um poema porque põe em xeque os valores - muitos deles falsos - sociais.
Espero que apreciem.
A RETA TORTA VIA DE UM BÊBADO NA VOLTA PRA CASA
Não é reto o traço
que um bêbado descreve
em seu caminho
para casa?
Por mais que seu passo
seja cheio
de avanços e recuos
súbitos estacamentos
e hesitação
diante de um sinal fechado
uma rua para atravessar
cheio de voltas e
reticências o seu andar
um bêbado
em seu trajeto
de retorno ao lar
tem sempre a sensação
de andar reto.
Como a seta
o alvo a demandar.
Porque um bêbado
por mais que beba
sempre sabe
para quem voltar
e por mais voltas
que faça
seu passo
o regaço da amada
é o só que deseja
alcançar.
Por isso que se diz
da via de um bêbado:
reta torta forma
de o alcançar.
(No entanto,
também é preciso mencionar
nem sempre essas histórias
têm final felizes.
Aliás
quase nunca.)
Um bêbado caminhando é impagável. É quando o homem revela o seu lado mais humano, se despe das máscaras às quais tanto nos agarramos e encara a vida de frente, apenas amparado em sua fragilidade.
Um bêbado é sempre tema para um poema porque põe em xeque os valores - muitos deles falsos - sociais.
Espero que apreciem.
A RETA TORTA VIA DE UM BÊBADO NA VOLTA PRA CASA
Não é reto o traço
que um bêbado descreve
em seu caminho
para casa?
Por mais que seu passo
seja cheio
de avanços e recuos
súbitos estacamentos
e hesitação
diante de um sinal fechado
uma rua para atravessar
cheio de voltas e
reticências o seu andar
um bêbado
em seu trajeto
de retorno ao lar
tem sempre a sensação
de andar reto.
Como a seta
o alvo a demandar.
Porque um bêbado
por mais que beba
sempre sabe
para quem voltar
e por mais voltas
que faça
seu passo
o regaço da amada
é o só que deseja
alcançar.
Por isso que se diz
da via de um bêbado:
reta torta forma
de o alcançar.
(No entanto,
também é preciso mencionar
nem sempre essas histórias
têm final felizes.
Aliás
quase nunca.)
September 26, 2007
Mais um conto das antiga
Encorajado pelo elogio do meu amigo Paulo ao conto anterior - Casamento - vou publicar mais um conto - ou crônica - daqueles antigos.
Escrevi esse numa época muito interessante da minha vida, afinal as dificuldades nunca me impediram de sonhar e foi a época em que mais criei. Tento recuperar esse fôlego mas até agora não consegui. Mas não esquento. Talvez esteja vivendo também agora um momento mágico do qual amanhã sentirei saudade. A gente nunca sabe quando uma coisa pode melhorar ou piorar. Na dúvida, curtamos o que estamos vivendo.
Até!
Espero que gostem.
COMO UMA LATA ARRASTADA PELA CORRENTEZA
A chuva me pegou de surpresa. Tinha ido até o centro comprar qualquer coisa da qual nem me lembro mais o que era e na volta uma chuva miúda começou a incomodar minha calva, já rala nos últimos cabelos. Fiquei nos nervos por ter tão poucos cabelos. A menor chuva me incomodava. E só porque eu me revoltava contra aquela ninharia que a chuva pareceu de súbito engrossar como se me repreendesse por estar sendo tão injusto comigo mesmo: ninguém é culpado por ter perdido os cabelos tão novo. Assim tive que me sujeitar ao que detesto: esperar a chuva passar embaixo de uma marquise quando já o fato de ter saído de casa com tempo bom me incomodava. Agora mais esta - penso, enquanto os carros deslizam no asfalto - um língua escorregadia e negra lambuzada de luzes tremeluzentes.
O despropósito de estar ali sob a marquise aguçava meus sentidos aos pequenos acontecimentos que iam se processando a minha volta. De repente, uma lata vazia de refrigerante passa por mim levada pela água da chuva acumulada ao lado da calçada. Batendo no asfalto sob ela parecia incomodada também por ter sido tirada do seu lugar e estar sendo levada agora para a boca ameaçadora de um bueiro. É como se até as forças da natureza conspirassem com a civilização para manter a cidade limpa. Como eu, tinha sido tirada de circulação pela chuva. Só aí é que me lembrei dos pensamentos que há pouco tinham-me ocorrido a respeito do que representava ser um membro desta comunidade com a qual sinto-me tão pouco privar. A necessidade de ser um pouco louco em algum sentido para ser normal em todos os outros. Só então compreendi o que significa para mim ter esta mania: escrever. Este é o meu ópio como para outros é jogar futebol, tomar o seu trago, correr de carro nas madrugadas, fazer sexo como um louco. Tudo isso são válvulas de escape desta sociedade que não oferece aos seus membros a satisfação naquilo que fazem na maior parte do seu tempo. São todas formas de loucura ou desvio de conduta sem as quais esta organização viria abaixo. Então fico pensando: qual o objetivo desta sociedade se não é para dar satisfação aos seus membros? Só a apatia e a omissão da maioria deles podem ser responsáveis por este estado de coisas se perpetuar Porque não faz nenhum sentido que isso continue assim. Não pelo menos para aqueles que chegaram a alguma espécie de amadurecimento da consciência. A dignidade da vida e a incomensurabilidade de suas dimensões parecem tornar inacreditável que o homem se submeta a ser arrastado pela correnteza como esta lata de refrigerante, contra a sua vontade. No entanto ele o é e muitos mesmo sequer reclamam disso como esta latinha faz batendo nas pedras salientes do asfalto.
Temos uma dignidade menor do que a deste objeto destituído de vida e cujo único poder é o da inércia?
Reluto em acredita.
Mas não posso deixar de evocar essa sensação, por estar por um fio entre a loucura e a sanidade. E sobre isso recordo o esforço que fiz para parecer normal para a garota que me atendeu na fruteira depois desta constatação. Fiquei por dois segundos hesitante se devia levar ou não as mangas que ela pesava. Elas iam me custar cinco reais e diante do abuso do preço senti que não valia a pena. Recusei com naturalidade, mas tive vontade de levar apenas uma. Desisti em seguida, porém. Para dirimir qualquer má impressão, acrescentei:
- O Real agora vale, né?
Mas devo ter parecido pouco convincente porque ela não se deu ao trabalho de concordar comigo. Saí por fim incerto sobre a impressão que deixava no ambiente.
Enfim, estas sutilezas complicam a minha vida e o princípio da realidade acaba sempre se impondo quando se trata de privar com os demais.
Afinal também não podemos esquecer que o homem tem afetos. O que talvez explique porque as aberrações de que estava falando podem se perpetuar.
Escrevi esse numa época muito interessante da minha vida, afinal as dificuldades nunca me impediram de sonhar e foi a época em que mais criei. Tento recuperar esse fôlego mas até agora não consegui. Mas não esquento. Talvez esteja vivendo também agora um momento mágico do qual amanhã sentirei saudade. A gente nunca sabe quando uma coisa pode melhorar ou piorar. Na dúvida, curtamos o que estamos vivendo.
Até!
Espero que gostem.
COMO UMA LATA ARRASTADA PELA CORRENTEZA
A chuva me pegou de surpresa. Tinha ido até o centro comprar qualquer coisa da qual nem me lembro mais o que era e na volta uma chuva miúda começou a incomodar minha calva, já rala nos últimos cabelos. Fiquei nos nervos por ter tão poucos cabelos. A menor chuva me incomodava. E só porque eu me revoltava contra aquela ninharia que a chuva pareceu de súbito engrossar como se me repreendesse por estar sendo tão injusto comigo mesmo: ninguém é culpado por ter perdido os cabelos tão novo. Assim tive que me sujeitar ao que detesto: esperar a chuva passar embaixo de uma marquise quando já o fato de ter saído de casa com tempo bom me incomodava. Agora mais esta - penso, enquanto os carros deslizam no asfalto - um língua escorregadia e negra lambuzada de luzes tremeluzentes.
O despropósito de estar ali sob a marquise aguçava meus sentidos aos pequenos acontecimentos que iam se processando a minha volta. De repente, uma lata vazia de refrigerante passa por mim levada pela água da chuva acumulada ao lado da calçada. Batendo no asfalto sob ela parecia incomodada também por ter sido tirada do seu lugar e estar sendo levada agora para a boca ameaçadora de um bueiro. É como se até as forças da natureza conspirassem com a civilização para manter a cidade limpa. Como eu, tinha sido tirada de circulação pela chuva. Só aí é que me lembrei dos pensamentos que há pouco tinham-me ocorrido a respeito do que representava ser um membro desta comunidade com a qual sinto-me tão pouco privar. A necessidade de ser um pouco louco em algum sentido para ser normal em todos os outros. Só então compreendi o que significa para mim ter esta mania: escrever. Este é o meu ópio como para outros é jogar futebol, tomar o seu trago, correr de carro nas madrugadas, fazer sexo como um louco. Tudo isso são válvulas de escape desta sociedade que não oferece aos seus membros a satisfação naquilo que fazem na maior parte do seu tempo. São todas formas de loucura ou desvio de conduta sem as quais esta organização viria abaixo. Então fico pensando: qual o objetivo desta sociedade se não é para dar satisfação aos seus membros? Só a apatia e a omissão da maioria deles podem ser responsáveis por este estado de coisas se perpetuar Porque não faz nenhum sentido que isso continue assim. Não pelo menos para aqueles que chegaram a alguma espécie de amadurecimento da consciência. A dignidade da vida e a incomensurabilidade de suas dimensões parecem tornar inacreditável que o homem se submeta a ser arrastado pela correnteza como esta lata de refrigerante, contra a sua vontade. No entanto ele o é e muitos mesmo sequer reclamam disso como esta latinha faz batendo nas pedras salientes do asfalto.
Temos uma dignidade menor do que a deste objeto destituído de vida e cujo único poder é o da inércia?
Reluto em acredita.
Mas não posso deixar de evocar essa sensação, por estar por um fio entre a loucura e a sanidade. E sobre isso recordo o esforço que fiz para parecer normal para a garota que me atendeu na fruteira depois desta constatação. Fiquei por dois segundos hesitante se devia levar ou não as mangas que ela pesava. Elas iam me custar cinco reais e diante do abuso do preço senti que não valia a pena. Recusei com naturalidade, mas tive vontade de levar apenas uma. Desisti em seguida, porém. Para dirimir qualquer má impressão, acrescentei:
- O Real agora vale, né?
Mas devo ter parecido pouco convincente porque ela não se deu ao trabalho de concordar comigo. Saí por fim incerto sobre a impressão que deixava no ambiente.
Enfim, estas sutilezas complicam a minha vida e o princípio da realidade acaba sempre se impondo quando se trata de privar com os demais.
Afinal também não podemos esquecer que o homem tem afetos. O que talvez explique porque as aberrações de que estava falando podem se perpetuar.
September 22, 2007
Reconsideração
Tenho que reconsiderar minha decisão de não publicar mais aqui.
Me afeiçoei a esse espaço. Senti falta de postar aí minhas novas produções. Sei lá. Aqui me sinto mais seguro de postar meus novos contos, poemas e crônicas. A visualização deles a qualquer momento me infunde mais certeza de que eles estão ali e não perdidos no espaço virtual, como às vezes acontece com o overmundo.
Me motivou também retomar esse espaço o fato de que estou firmemente determinado a me tornar um escritor.
Estou retomando coisas que escrevi há dez anos ou mais, numa época em que eu ainda me sentia inseguro diante da vida, diante da carreira por escolher, diante da família por cuidar. Tive de abandonar em 95 o período mais profícuo da minha vida quando produzi um volume absurdo de contos, pensamentos, poemas e otras cositas más.
Sabia que um dia os iria retomar. Quando minha vida se definisse melhor. Acho que esse momento chegou. Estou retomando os contos que escrevi nessa época.
Hoje passei um a limpo. Não mudei praticamente nada. Apenas fiz algumas correções ortográficas e só. Me surpreendi positivamente com a sua qualidade. Veja se vocês concordam comigo.
CASAMENTO
De repente a constatação: elas me deixaram! Ocorreu-me isso de súbito, a partir da quarta hora de ausência delas. Jamais elas demoram assim. Tinham dito que iam ao mercado. E o mercado é aqui perto. Em duas horas, no máximo, já deviam estar de volta. Fui até lá para me certificar: nem sinal delas. Não que isso me desespere. É claro que ser deixado não é de maneira nenhuma uma sensação agradável. Mas nesse primeiro momento o que sinto é a liberdade, a imensa liberdade de estar só. Antes, aquela eterna confusão aqui em casa, as crianças se engalfinhando, ela gritando com elas e eu apenas querendo escutar o noticiário, ler um pouco ou escutar meus cds. Agora tudo isso me é franqueado com uma naturalidade assustadora. De tão empolgado sequer sei o que fazer antes. Primeiro quando elas me disseram que iam ao mercado e não fizeram questão que as acompanhasse, até estranhei, mas depois senti a euforia da libertação, nem que fosse apenas por algumas horas. Mas agora que já fazem umas cinco hora que saíram e ainda não voltaram começo a me dar conta que meus dias de pai de família, homem casado, compromissado e devidamente bem amarrado talvez tenham chegado ao fim. Me assusta um pouco esta perspectiva. Por outro lado, aquela sensação de pavor inicial amaina e dá lugar a uma sensação nova. A sensação de liberdade, ter o mundo aos seus pés, todas as possibilidades em gestação, como uma grande bolha, viva e quente, pulsando como um grande coração. Furá-la com a ponta do dedo e a penetrar começa a me instigar como aventura fascinante. Começo a pensar em tudo: pra quem ligar, pra onde sair, o que usar, rever meus hábitos e conceitos. Por outro lado, também é preciso não ter pressa. Afinal de contas, agora o tempo está do meu lado - time is on my side.
Não é à toa que penso dessa maneira. Há muito tempo nosso casamento já não era o mesmo. Brigávamos por nada, e não tínhamos mais o que conversar. Frequentemente ela me ameaçava, dizendo que iria embora com as crianças. Eu não levava a sério, mas um dia ela foi mesmo, sem me avisar. Ficou uma semana na casa dos pais, no interior. Fiquei preocupado que não voltasse mais. Fui até lá. A gente acabou se entendendo de novo e voltamos, sobretudo por causa das crianças que não se acostumavam com minha ausência. Mas agora acho que é pra valer. Eu também procuro minha felicidade. De repente ser livre de novo se tornou vital para mim. Não conseguia fazer o que gosto, não conseguia manter uma amizade. A vida familiar se tornou sufocante para mim. A decisão dela, acho, representou a decisão que eu não tive a coragem de tomar. Será melhor para todos nós.
Agora preciso ver o que farei primeiro.
- Marcelo, é o Ivo. Tem compromisso hoje de noite?
- Ivo? Que milagre! Achei que tinha perdido um amigo.
- Pois é, sabe como é que é... Essa vidinha de pai de família...
- Tá sozinho?
- Como que você advinhou?
- Ora, para você me ligar pra sairmos juntos, só se ela te deu uma folga.
- Na mosca! Acho que ela me deixou de novo. Só que agora eu não vou mais atrás.
- Bem que faz! Você tem que viver mais, cara. Esses anos todos você tem se dedicado demais a essa família. Se dá um tempo.
- É isso aí. E então? Tem compromisso?
- Pois é cara. Se tu tivesse ligado antes. Agora já tá tudo armado com a Norminha. Nós vamos jantar na Pizzaria do Zebra. Mas se tu quiser pintar por lá...
- Não, não... Que é isso companheiro? Eu ficar segurando a vela pra vocês? Só o que me faltava. Não tem problema, não. Eu me arranjo.
- Quem sabe a gente não sai amanhã? Eu consigo um habeas corpus com a Norminha.
- Iiih, já tá assim, cara. Olha, abre o olho, hein. Quando menos espera tu também tá enrolado. Que nem eu.
- Tu acha?
- Tô te falando. Começa assim. Tu tendo que impetrar um habeas quando solteiro... Depois de casado nem com ordem judicial tu consegue sair de novo.
- É... bicho. Pior que é isso mesmo... As mulheres são todas iguais. Querem exclusividade até com os amigos da gente.
- Ééé... vamos deixar assim. Amanhã, se for o caso, eu te ligo ou tu me liga. Tá combinado?
- Sem erro. Ah, vê se sai, hein? Não vai ficar aí amarrando o bode só porque está sem companhia. Não se preocupa comigo. Vai lá e curte a tua noite. Até!
É isso aí. A gente assume uma vida de casado. Muda de hábitos, perde o contato com os amigos e depois quando quer voltar,. é difícil se entrosar de novo. Talvez ficar em casa, curtir um filminho na TV também não seja uma má idéia, afinal de conta agora eu não tenho que dar satisfação da minha vida a ninguém. Se quiser, inclusive,. levar uma uma vida de ermitão, quem se oporá a isso? Estou cansado de tentar parecer normal. Se trabalho, ganho meu sustento honestamente, pago minha contas, não devo nada a ninguém. Agora, se eu quiser andar de cuecas dentro de casa, plantar bananeira no meio da sala, quem me dirá que não, que isso é feio, não é normal?
É essa parte da liberdade que me agrada. Na vida, a gente tem que seguir tantas regras. Em casa quero ser eu mesmo, me libertar de todas as amarras, viver intensamente todas as possibilidades. Casar, de repente, representou para mim trazer para dentro de casa as normas sociais. É claro que isso me ajudou a vibrar no mesmo nível do meu meio, mas a partir de determinado ponto isso também deixou de ser importante. Afinal de conta, perdi o medo de mim mesmo. Já me sinto mais seguro de ser eu mesmo sem ter o medo que disso resulte um bicho, um monstro ou um assassino. Exorcizei meu demônios. Agora quero viver.
É, o melhor é sair mesmo. Tem razão o Marcelo em me dizer isso. Ficar em casa nesse momento seria dar chance ao azar, quer dizer, começar a pensar na família, no vazio deixado por elas. Só saindo, encontrando gente nova para justificar essa minha ânsia por uma vida nova. Ficar em casa seria representar o papel do passarinho preso depois da porta da gaiola ter sido aberta.
- Mello? É o Ivo. Vai sair hoje a noite?
- Ivo! É você, cara?! Quanto tempo!
- Pois é. Sabe como é que é... Me diz: qual é o programa hoje?
- Cara, nem me fala. Hoje eu quero é ficar em casa. Depois de ontem... a maior zorra. Hoje, cama cedo.
- Poxa, que bola fora!
- Mas me diz: e a patroa?
- Não sei.Saiu. Acho que foi pra casa dos pais de novo. Levou as crianças.
- De novo, cara?! E agora? Que tu vai fazer? Não vai me dizer que vai atrás dela de novo? Chega, né, bicho! O casamento de vocês, faz tempo que vem nesse chove não molha. Me desculpe a franqueza, mas acho que tu também tem que assumir uma posição.
- Pois é cara... tu sabe... as crianças...
- Mas, bicho, pensa bem. As crianças crescem. Elas acabam entendendo. Mas vocês têm que se dar uma segunda chance.
- Não, quanto a isso tá tranquilo. Só que eu preciso me encontrar de novo, né cara. Por isso tô ligando. Mas já vi que eu estou completamente fora de forma. O Marcelo também já falou que tá em outra hoje.
- Olha, cara, eu teria o maior prazer em te acompanhar hoje nesse reingresso na velha vida, mas é que realmente hoje eu tô pregado. Ontem foi demais e hoje eu quero repor as energias. Mas, oh, se tu quiser passar por aqui pra levar um lero não tem galho. Eu só não quero é sair. Não vou dormir assim tão cedo. Ok?
- Olha, cara, vamos deixar assim. Quem sabe amanhã a gente se fala. Eu também não estou com esse tesão todo para sair. Era só para recomeçar de novo, aos poucos, sabe como é que é: tou destreinado.
- Que nada, cara. Logo tu entra em forma de novo. Se tu quiser vou tar em casa, falô?
De novo outro carão. Definitivamente estou sem programa. De qualquer maneira, vou sair. Dar um rolé pela city ver se encontro alguém. Ir começando de novo, sem estress.
Pronto. Agora é só ver o efeito que causo. Roupinha toda em cima, perfume, gel no cabelo, grana no bolso. Só resta saber onde é o point da cidade.
No entanto, quando vou abrir a porta:
- Oi querido, demoramos? Também nem sabe quem encontrei no mercado? A Vilminha, lembra? A Vilminha do Euclides. Foi aquela confusão. Beijinhos pra lá, beijinho pra cá. E ela fez questão que eu fosse até a casa dela. Cheguei até a esquecer da hora e de te avisar. Ué? Vais sair?
- Nãooo... Quem? Eu?
Nos separamos uma semana depois.
Me afeiçoei a esse espaço. Senti falta de postar aí minhas novas produções. Sei lá. Aqui me sinto mais seguro de postar meus novos contos, poemas e crônicas. A visualização deles a qualquer momento me infunde mais certeza de que eles estão ali e não perdidos no espaço virtual, como às vezes acontece com o overmundo.
Me motivou também retomar esse espaço o fato de que estou firmemente determinado a me tornar um escritor.
Estou retomando coisas que escrevi há dez anos ou mais, numa época em que eu ainda me sentia inseguro diante da vida, diante da carreira por escolher, diante da família por cuidar. Tive de abandonar em 95 o período mais profícuo da minha vida quando produzi um volume absurdo de contos, pensamentos, poemas e otras cositas más.
Sabia que um dia os iria retomar. Quando minha vida se definisse melhor. Acho que esse momento chegou. Estou retomando os contos que escrevi nessa época.
Hoje passei um a limpo. Não mudei praticamente nada. Apenas fiz algumas correções ortográficas e só. Me surpreendi positivamente com a sua qualidade. Veja se vocês concordam comigo.
CASAMENTO
De repente a constatação: elas me deixaram! Ocorreu-me isso de súbito, a partir da quarta hora de ausência delas. Jamais elas demoram assim. Tinham dito que iam ao mercado. E o mercado é aqui perto. Em duas horas, no máximo, já deviam estar de volta. Fui até lá para me certificar: nem sinal delas. Não que isso me desespere. É claro que ser deixado não é de maneira nenhuma uma sensação agradável. Mas nesse primeiro momento o que sinto é a liberdade, a imensa liberdade de estar só. Antes, aquela eterna confusão aqui em casa, as crianças se engalfinhando, ela gritando com elas e eu apenas querendo escutar o noticiário, ler um pouco ou escutar meus cds. Agora tudo isso me é franqueado com uma naturalidade assustadora. De tão empolgado sequer sei o que fazer antes. Primeiro quando elas me disseram que iam ao mercado e não fizeram questão que as acompanhasse, até estranhei, mas depois senti a euforia da libertação, nem que fosse apenas por algumas horas. Mas agora que já fazem umas cinco hora que saíram e ainda não voltaram começo a me dar conta que meus dias de pai de família, homem casado, compromissado e devidamente bem amarrado talvez tenham chegado ao fim. Me assusta um pouco esta perspectiva. Por outro lado, aquela sensação de pavor inicial amaina e dá lugar a uma sensação nova. A sensação de liberdade, ter o mundo aos seus pés, todas as possibilidades em gestação, como uma grande bolha, viva e quente, pulsando como um grande coração. Furá-la com a ponta do dedo e a penetrar começa a me instigar como aventura fascinante. Começo a pensar em tudo: pra quem ligar, pra onde sair, o que usar, rever meus hábitos e conceitos. Por outro lado, também é preciso não ter pressa. Afinal de contas, agora o tempo está do meu lado - time is on my side.
Não é à toa que penso dessa maneira. Há muito tempo nosso casamento já não era o mesmo. Brigávamos por nada, e não tínhamos mais o que conversar. Frequentemente ela me ameaçava, dizendo que iria embora com as crianças. Eu não levava a sério, mas um dia ela foi mesmo, sem me avisar. Ficou uma semana na casa dos pais, no interior. Fiquei preocupado que não voltasse mais. Fui até lá. A gente acabou se entendendo de novo e voltamos, sobretudo por causa das crianças que não se acostumavam com minha ausência. Mas agora acho que é pra valer. Eu também procuro minha felicidade. De repente ser livre de novo se tornou vital para mim. Não conseguia fazer o que gosto, não conseguia manter uma amizade. A vida familiar se tornou sufocante para mim. A decisão dela, acho, representou a decisão que eu não tive a coragem de tomar. Será melhor para todos nós.
Agora preciso ver o que farei primeiro.
- Marcelo, é o Ivo. Tem compromisso hoje de noite?
- Ivo? Que milagre! Achei que tinha perdido um amigo.
- Pois é, sabe como é que é... Essa vidinha de pai de família...
- Tá sozinho?
- Como que você advinhou?
- Ora, para você me ligar pra sairmos juntos, só se ela te deu uma folga.
- Na mosca! Acho que ela me deixou de novo. Só que agora eu não vou mais atrás.
- Bem que faz! Você tem que viver mais, cara. Esses anos todos você tem se dedicado demais a essa família. Se dá um tempo.
- É isso aí. E então? Tem compromisso?
- Pois é cara. Se tu tivesse ligado antes. Agora já tá tudo armado com a Norminha. Nós vamos jantar na Pizzaria do Zebra. Mas se tu quiser pintar por lá...
- Não, não... Que é isso companheiro? Eu ficar segurando a vela pra vocês? Só o que me faltava. Não tem problema, não. Eu me arranjo.
- Quem sabe a gente não sai amanhã? Eu consigo um habeas corpus com a Norminha.
- Iiih, já tá assim, cara. Olha, abre o olho, hein. Quando menos espera tu também tá enrolado. Que nem eu.
- Tu acha?
- Tô te falando. Começa assim. Tu tendo que impetrar um habeas quando solteiro... Depois de casado nem com ordem judicial tu consegue sair de novo.
- É... bicho. Pior que é isso mesmo... As mulheres são todas iguais. Querem exclusividade até com os amigos da gente.
- Ééé... vamos deixar assim. Amanhã, se for o caso, eu te ligo ou tu me liga. Tá combinado?
- Sem erro. Ah, vê se sai, hein? Não vai ficar aí amarrando o bode só porque está sem companhia. Não se preocupa comigo. Vai lá e curte a tua noite. Até!
É isso aí. A gente assume uma vida de casado. Muda de hábitos, perde o contato com os amigos e depois quando quer voltar,. é difícil se entrosar de novo. Talvez ficar em casa, curtir um filminho na TV também não seja uma má idéia, afinal de conta agora eu não tenho que dar satisfação da minha vida a ninguém. Se quiser, inclusive,. levar uma uma vida de ermitão, quem se oporá a isso? Estou cansado de tentar parecer normal. Se trabalho, ganho meu sustento honestamente, pago minha contas, não devo nada a ninguém. Agora, se eu quiser andar de cuecas dentro de casa, plantar bananeira no meio da sala, quem me dirá que não, que isso é feio, não é normal?
É essa parte da liberdade que me agrada. Na vida, a gente tem que seguir tantas regras. Em casa quero ser eu mesmo, me libertar de todas as amarras, viver intensamente todas as possibilidades. Casar, de repente, representou para mim trazer para dentro de casa as normas sociais. É claro que isso me ajudou a vibrar no mesmo nível do meu meio, mas a partir de determinado ponto isso também deixou de ser importante. Afinal de conta, perdi o medo de mim mesmo. Já me sinto mais seguro de ser eu mesmo sem ter o medo que disso resulte um bicho, um monstro ou um assassino. Exorcizei meu demônios. Agora quero viver.
É, o melhor é sair mesmo. Tem razão o Marcelo em me dizer isso. Ficar em casa nesse momento seria dar chance ao azar, quer dizer, começar a pensar na família, no vazio deixado por elas. Só saindo, encontrando gente nova para justificar essa minha ânsia por uma vida nova. Ficar em casa seria representar o papel do passarinho preso depois da porta da gaiola ter sido aberta.
- Mello? É o Ivo. Vai sair hoje a noite?
- Ivo! É você, cara?! Quanto tempo!
- Pois é. Sabe como é que é... Me diz: qual é o programa hoje?
- Cara, nem me fala. Hoje eu quero é ficar em casa. Depois de ontem... a maior zorra. Hoje, cama cedo.
- Poxa, que bola fora!
- Mas me diz: e a patroa?
- Não sei.Saiu. Acho que foi pra casa dos pais de novo. Levou as crianças.
- De novo, cara?! E agora? Que tu vai fazer? Não vai me dizer que vai atrás dela de novo? Chega, né, bicho! O casamento de vocês, faz tempo que vem nesse chove não molha. Me desculpe a franqueza, mas acho que tu também tem que assumir uma posição.
- Pois é cara... tu sabe... as crianças...
- Mas, bicho, pensa bem. As crianças crescem. Elas acabam entendendo. Mas vocês têm que se dar uma segunda chance.
- Não, quanto a isso tá tranquilo. Só que eu preciso me encontrar de novo, né cara. Por isso tô ligando. Mas já vi que eu estou completamente fora de forma. O Marcelo também já falou que tá em outra hoje.
- Olha, cara, eu teria o maior prazer em te acompanhar hoje nesse reingresso na velha vida, mas é que realmente hoje eu tô pregado. Ontem foi demais e hoje eu quero repor as energias. Mas, oh, se tu quiser passar por aqui pra levar um lero não tem galho. Eu só não quero é sair. Não vou dormir assim tão cedo. Ok?
- Olha, cara, vamos deixar assim. Quem sabe amanhã a gente se fala. Eu também não estou com esse tesão todo para sair. Era só para recomeçar de novo, aos poucos, sabe como é que é: tou destreinado.
- Que nada, cara. Logo tu entra em forma de novo. Se tu quiser vou tar em casa, falô?
De novo outro carão. Definitivamente estou sem programa. De qualquer maneira, vou sair. Dar um rolé pela city ver se encontro alguém. Ir começando de novo, sem estress.
Pronto. Agora é só ver o efeito que causo. Roupinha toda em cima, perfume, gel no cabelo, grana no bolso. Só resta saber onde é o point da cidade.
No entanto, quando vou abrir a porta:
- Oi querido, demoramos? Também nem sabe quem encontrei no mercado? A Vilminha, lembra? A Vilminha do Euclides. Foi aquela confusão. Beijinhos pra lá, beijinho pra cá. E ela fez questão que eu fosse até a casa dela. Cheguei até a esquecer da hora e de te avisar. Ué? Vais sair?
- Nãooo... Quem? Eu?
Nos separamos uma semana depois.
September 11, 2007
Good Bye!
Estou inclinado a deixar de manter este blog. Estou publicando no site overmundo, o qual tem me dado mais retorno. Aqui a exposição é pequena, o retorno quase nenhum. E um artista, sabe-se, vive do seu público. Quando este falta, seca-se-lhe a voz, crispa-se a mão, cai dela a caneta, o pincel ou o cinzel. Emudece a criação.
Está na hora de partir. Outras plagas alcançar... só me resta agradecer quem me leu este tempo e pôs, aqui e ali, um comentário.
No overmundo há mais troca. Tem sido mais instigante para mim.
Não digo que não voltarei, mas há um forte movimento para não olhar para trás.
Hasta...
Está na hora de partir. Outras plagas alcançar... só me resta agradecer quem me leu este tempo e pôs, aqui e ali, um comentário.
No overmundo há mais troca. Tem sido mais instigante para mim.
Não digo que não voltarei, mas há um forte movimento para não olhar para trás.
Hasta...
September 06, 2007
3° Poema
RAIO
A nuvem que segura o raio
transita sobre a terra
várias vezes
antes de o despejar.
Quando o faz
descarrega a carga
- mortífera
mortal –
que guardou durante meses
semanas
e dias.
Assim a palavra
da boca de Deus
do poeta
e do orador:
alveja com precisão.
A nuvem que segura o raio
transita sobre a terra
várias vezes
antes de o despejar.
Quando o faz
descarrega a carga
- mortífera
mortal –
que guardou durante meses
semanas
e dias.
Assim a palavra
da boca de Deus
do poeta
e do orador:
alveja com precisão.
September 04, 2007
2° Poema
Da minha última produção - 3 poemas - lá vai o segundo. Simples. Como simples, quiçá, é a vida.
ESTAÇÕES
O verão se acerca.
As tardes se alongam.
O espírito
junto com o corpo
se distende
fugindo
dos rigores do frio.
Depois do recolhimento de meses
é bom se deparar
com horizontes
que se alongam
no espaço
e no tempo.
A liberdade de movimento
induz à meditação.
O frio é bom
porque faz
ansiar o verão.
ESTAÇÕES
O verão se acerca.
As tardes se alongam.
O espírito
junto com o corpo
se distende
fugindo
dos rigores do frio.
Depois do recolhimento de meses
é bom se deparar
com horizontes
que se alongam
no espaço
e no tempo.
A liberdade de movimento
induz à meditação.
O frio é bom
porque faz
ansiar o verão.
September 02, 2007
Olá
Depois de ler o Galera - Daniel Galera, em seu primeiro livro, Dentes Guardados, de contos - ando meio assombrado com a prosa.
Fazia tempo que ninguém me assombrava desse jeito, sobretudo um autor vivo. Autor, aliás, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente por ocasião da Jornada de Literatura. Não, porém, por causa da Jornada, mas por causa do show do Cachorro Grande. Aliás, estes, outros jovens que, igualmente ao Galera, dão-me esperança de que os babacas não irão dominar o mundo.
A prosa vigorosa do Galera nesse livro - que pode ser baixado via internet, basta digitar Daniel Galera no google - fez-me rever meus conceitos sobre prosa. Quando manejada por quem entende do ofício ela se torna dúctil como o barro na mão do escultor.
O que me leva, de novo, a desejar a poesia. Gênero em que, creio, tenho alguma chance.
Por conta disso e de duas garrafas de vinho, hoje, produzi, 3 novos poemas.
Vou publicá-los aqui.
Um de cada vez.
Veja o que "oceis" acham do primeiro.
CÃO SEM DONO
Teu poder de sedução
me faz rastejar
como um cão.
Lamber tua mão
sequioso do alimento
que podes dar.
É o que pensas
pelos dons
com que a natureza
te dotou.
Te enganas...
pois posso dizer
não.
Preservar
a independência
de cão
- sem dono -
que prefere comer do lixo
do que viver
nessa prisão
de beleza
e sedução.
Uma associação, talvez inconsciente, entre o segundo livro do Galera - Até o dia em que o cão morreu e o título do filme do Jorge Furtado baseado nesse livro, Cão sem Dono. Vai entender...
Fazia tempo que ninguém me assombrava desse jeito, sobretudo um autor vivo. Autor, aliás, que tive o privilégio de conhecer pessoalmente por ocasião da Jornada de Literatura. Não, porém, por causa da Jornada, mas por causa do show do Cachorro Grande. Aliás, estes, outros jovens que, igualmente ao Galera, dão-me esperança de que os babacas não irão dominar o mundo.
A prosa vigorosa do Galera nesse livro - que pode ser baixado via internet, basta digitar Daniel Galera no google - fez-me rever meus conceitos sobre prosa. Quando manejada por quem entende do ofício ela se torna dúctil como o barro na mão do escultor.
O que me leva, de novo, a desejar a poesia. Gênero em que, creio, tenho alguma chance.
Por conta disso e de duas garrafas de vinho, hoje, produzi, 3 novos poemas.
Vou publicá-los aqui.
Um de cada vez.
Veja o que "oceis" acham do primeiro.
CÃO SEM DONO
Teu poder de sedução
me faz rastejar
como um cão.
Lamber tua mão
sequioso do alimento
que podes dar.
É o que pensas
pelos dons
com que a natureza
te dotou.
Te enganas...
pois posso dizer
não.
Preservar
a independência
de cão
- sem dono -
que prefere comer do lixo
do que viver
nessa prisão
de beleza
e sedução.
Uma associação, talvez inconsciente, entre o segundo livro do Galera - Até o dia em que o cão morreu e o título do filme do Jorge Furtado baseado nesse livro, Cão sem Dono. Vai entender...
August 26, 2007
E aí?
De vez em quando nos ocorrem idéias cujas sutilezas envolvem um esforço de concentração e realização acima do normal. Nem sempre somos bem sucedidos. Em casos assim o gosto amargo que nos fica na boca nos incita constantemente à retomada do assunto. É isso o que considero a obsessão do criador. É preciso, inclusive, ter o cuidado para não enlouquecer por conta disso.
Acontece, comigo, contantamente me deparar com essa situação. A inspiração às vezes nos escapa durante a realização. Deixamos de dizer aquilo precisamente que queríamos ter dito. Retomar o assunto, então, se torna inevitável. Para autores inciantes, contudo, isso não deixa de ser um excelente exercício. É preciso, no entanto, enfrentar com brio essa empreitada. Afinal, às vezes, se é vencido por ela. Não é à toa que se diz ser este um desafio. Quer dizer: o risco de fracassar é real.
É isto que aconteceu comigo, há alguns tempos atrás, quando escrevi a crônica - ou pequeno conto, como o queiram - Medo na Praça. Senti que a idéia que a deu origem era mais forte que o produto final. Era preciso a retomar.
Enchi-me de energia e coragem e, enfim, a retomei. Espero ter sido bem sucedido. Digam vocês.
De tudo, ainda, restou-me um lição: o escritor deve sempre evitar a tentação de fazer pregação. Literatura não tem nada a ver com isso. Criar pode ter um fundo moral. Mas isso, de maneira nenhuma, deve ficar evidente. A polissemia é resultado maior dessa disciplina. Feliz o autor que a alcança.
Republico, pois, aqui o resultado desse intento. Vocês podem inclusive comparar os resultados de um texto e outro, pois meses atrás publiquei aqui, neste mesmo espaço a primeira versão dessa idéia.
Ao julgamento de vocês, meus eventuais e fiéis leitores, me submeto. Afinal, há um momento em que é preciso confessar, em relação a essa idéia: é o que podia ter feito!
MEDO NA PRAÇA
Entrei na praça que àquela hora já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de existência, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês antes se sai do trabalho com o sol ainda alto, agora se depara com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de adaptar o caminho à nova estação.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já seria a época de andar pelas ruas mais iluminadas.
Como já tinha entrado na praça, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida que fui andando pelo caminho que a atravessa de uma ponta a outra, em sentido transversal, comecei a ficar preocupado. Troncos volumosos de arvores, sombras sob copas fechadas, moitas escuras bem podiam ser o esconderijo onde se homiziava meu executor.
Tenho por hábito andar com cautela na cidade. O que inclui a salutar providência de não deixar ninguém suspeito se aproximar. Atravesso a rua, retardo ou apresso o passo, olho com freqüência para trás. Tudo na intenção de manter uma distância que me permita correr se for preciso. Como eu disse, essas providências têm me permitido chegar aos 40 anos sem nunca ter sido assaltado. Aquela noite, contudo, parecia ser diferente.
Havia pouco movimento na praça. Apenas a silhueta de um casal de namorados contra as luzes distantes da rua, à direita do caminho, sob a sombra das árvores, distraídos demais consigo mesmos para prestar a atenção em qualquer coisa que acontecesse à sua volta; uma senhora de agasalho, na outra via que também cortava a praça, em sentido perpendicular ao meu e, mais atrás, um homem, distraído como eu, voltava para casa.
Enfim quase ninguém que pudesse me socorrer em um eventual ataque.
Ali, também, percebi, que não tinha como pôr em prática meu hábito de manter distância de suspeitos. O caminho passava por baixo de copas de árvores fechadas e apenas a poucos passos de moitas e troncos. Um salto e o bandido estaria sobre mim. Inobstante isso, procurava antecipar algum movimento estranho.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira e as chaves de casa. Na cinta, o celular. O celular na certa seria o primeiro objeto requisitado e a carteira em seguida. Nela, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais. O ladrão certamente não ficaria satisfeito.
Pensei nos aborrecimentos que teria para cancelar os cartões, tirar a segunda via dos documentos. Será que ele me permitiria argumentar que aqueles documentos não teriam valor algum para ele?
Não tinha certeza se isso seria uma boa idéia.
Provavelmente ele estaria nervoso demais para me escutar. Quem sabe drogado. E falar poderia deixá-lo mais nervoso, ou ele entenderia isso como excesso de confiança de minha parte. Me daria um tiro, ou uma facada, só para mostrar quem mandava ali. Se eu fosse ele, faria isso. Afinal, numa situação destas é preciso mostrar quem está no controle.
No entanto - só então me dei conta - já tinha atravessado a praça e nada havia acontecido. Para minha surpresa. Afinal estava preparado para o pior.
Por isso não podia negar: estava desapontado.
Estranho. Pois de maneira nenhuma desejava o ataque.
Mas havia me preparado. Estava pronto para isso.
No entanto...nada!
Teriam sido em vãos meus cuidados de todos esses anos?
Aquilo me deixava confuso. E despreparado - intuía. Pior do que se o ataque tivesse se confirmado.
Minhas previsões frustradas, dali para frente, podiam ser o gérmen do meu fim.
Sabia disso. Mas não podia evitar. A realidade não havia contribuído comigo. Teria de, agora em diante, botá-la à prova.
Acontece, comigo, contantamente me deparar com essa situação. A inspiração às vezes nos escapa durante a realização. Deixamos de dizer aquilo precisamente que queríamos ter dito. Retomar o assunto, então, se torna inevitável. Para autores inciantes, contudo, isso não deixa de ser um excelente exercício. É preciso, no entanto, enfrentar com brio essa empreitada. Afinal, às vezes, se é vencido por ela. Não é à toa que se diz ser este um desafio. Quer dizer: o risco de fracassar é real.
É isto que aconteceu comigo, há alguns tempos atrás, quando escrevi a crônica - ou pequeno conto, como o queiram - Medo na Praça. Senti que a idéia que a deu origem era mais forte que o produto final. Era preciso a retomar.
Enchi-me de energia e coragem e, enfim, a retomei. Espero ter sido bem sucedido. Digam vocês.
De tudo, ainda, restou-me um lição: o escritor deve sempre evitar a tentação de fazer pregação. Literatura não tem nada a ver com isso. Criar pode ter um fundo moral. Mas isso, de maneira nenhuma, deve ficar evidente. A polissemia é resultado maior dessa disciplina. Feliz o autor que a alcança.
Republico, pois, aqui o resultado desse intento. Vocês podem inclusive comparar os resultados de um texto e outro, pois meses atrás publiquei aqui, neste mesmo espaço a primeira versão dessa idéia.
Ao julgamento de vocês, meus eventuais e fiéis leitores, me submeto. Afinal, há um momento em que é preciso confessar, em relação a essa idéia: é o que podia ter feito!
MEDO NA PRAÇA
Entrei na praça que àquela hora já se encontrava às escuras. Normalmente evito lugares assim. Precaução que me rendeu, em 40 anos de existência, nunca ter sido assaltado. Mas, naquele fim de tarde, me distrai e entrei na praça quando a noite já havia caído. Quando me dei conta, já era tarde.
Agora que terminou o verão as noites caem rapidamente e depois que o horário de verão acaba escurece ainda mais cedo. A gente nem tem tempo de se acostumar aos ritmos da natureza e já está tudo mudado. No horário em que apenas um mês antes se sai do trabalho com o sol ainda alto, agora se depara com a noite se aproximando. É normal que nos confundamos antes de adaptar o caminho à nova estação.
Quando é verão a praça, a essa hora, ainda está cheia. Escolho passar por aqui porque é agradável ver as pessoas. Agora, contudo, já seria a época de andar pelas ruas mais iluminadas.
Como já tinha entrado na praça, no entanto, não quis voltar atrás, afinal olhando adiante não havia nenhuma ameaça aparente. Porém, à medida que fui andando pelo caminho que a atravessa de uma ponta a outra, em sentido transversal, comecei a ficar preocupado. Troncos volumosos de arvores, sombras sob copas fechadas, moitas escuras bem podiam ser o esconderijo onde se homiziava meu executor.
Tenho por hábito andar com cautela na cidade. O que inclui a salutar providência de não deixar ninguém suspeito se aproximar. Atravesso a rua, retardo ou apresso o passo, olho com freqüência para trás. Tudo na intenção de manter uma distância que me permita correr se for preciso. Como eu disse, essas providências têm me permitido chegar aos 40 anos sem nunca ter sido assaltado. Aquela noite, contudo, parecia ser diferente.
Havia pouco movimento na praça. Apenas a silhueta de um casal de namorados contra as luzes distantes da rua, à direita do caminho, sob a sombra das árvores, distraídos demais consigo mesmos para prestar a atenção em qualquer coisa que acontecesse à sua volta; uma senhora de agasalho, na outra via que também cortava a praça, em sentido perpendicular ao meu e, mais atrás, um homem, distraído como eu, voltava para casa.
Enfim quase ninguém que pudesse me socorrer em um eventual ataque.
Ali, também, percebi, que não tinha como pôr em prática meu hábito de manter distância de suspeitos. O caminho passava por baixo de copas de árvores fechadas e apenas a poucos passos de moitas e troncos. Um salto e o bandido estaria sobre mim. Inobstante isso, procurava antecipar algum movimento estranho.
Consultei mentalmente o que trazia nos bolsos, antecipando o prejuízo. Minha carteira e as chaves de casa. Na cinta, o celular. O celular na certa seria o primeiro objeto requisitado e a carteira em seguida. Nela, apenas uns 30 reais. Lamentei não ter mais. O ladrão certamente não ficaria satisfeito.
Pensei nos aborrecimentos que teria para cancelar os cartões, tirar a segunda via dos documentos. Será que ele me permitiria argumentar que aqueles documentos não teriam valor algum para ele?
Não tinha certeza se isso seria uma boa idéia.
Provavelmente ele estaria nervoso demais para me escutar. Quem sabe drogado. E falar poderia deixá-lo mais nervoso, ou ele entenderia isso como excesso de confiança de minha parte. Me daria um tiro, ou uma facada, só para mostrar quem mandava ali. Se eu fosse ele, faria isso. Afinal, numa situação destas é preciso mostrar quem está no controle.
No entanto - só então me dei conta - já tinha atravessado a praça e nada havia acontecido. Para minha surpresa. Afinal estava preparado para o pior.
Por isso não podia negar: estava desapontado.
Estranho. Pois de maneira nenhuma desejava o ataque.
Mas havia me preparado. Estava pronto para isso.
No entanto...nada!
Teriam sido em vãos meus cuidados de todos esses anos?
Aquilo me deixava confuso. E despreparado - intuía. Pior do que se o ataque tivesse se confirmado.
Minhas previsões frustradas, dali para frente, podiam ser o gérmen do meu fim.
Sabia disso. Mas não podia evitar. A realidade não havia contribuído comigo. Teria de, agora em diante, botá-la à prova.
August 21, 2007
relato de viagem - continuação
Conseguimos ainda chegar a tempo de ouvir sua primeira palestra, sob uma estrutura de madeira, em forma de círculo, diante dos renques das videiras com que a empresa trabalha. Para minha satisfação, entre elas, divisei a variedade Gamay, cujo vinho atualmente é meu preferido. (Falo atualmente porque nossos gostos mudam, assim como nossos recursos, afinal conhecemos o que a experiência nos permite e esta é condicionada por aqueles. O que significa dizer, para o mundo do vinho, que essa experiência pode ser ilimitada.)
Em seguida adentramos o interior da fábrica que, confesso, superou todas as minhas expectativas. Ambiente de primeiro mundo, padrão de qualidade incosteste! Uma grata satisfação para quem, como eu, me considero um aprendiz na arte de apreciar um bom vinho.
Ao fim desse passeio, a degustação. Foi quando me dei conta de ter feito a melhor escolha ao ter adquirido o bônus Bronze, pois os vinhos que foram oferecidos para degustação, correspondiam à categoria do bônus adquirido. Naturalmente o bônus Bronze era adequado a inciantes e com poderes de consumo mais modestos, como era o meu caso.
De todos os vinhos servidos, senti-me particularmente seduzido por um. Justamente da variedade Shiraz, contra a qual, alías, havia formado uma opinião desfavorável em outra ocasião. Opinião esta fundada, agora podia perceber, em um falso julgamento oriundo de uma aquisição infeliz que havia feito em Passo Fundo de um lote dessa varidade. Naquela oportunidade tive uma péssima impressão desse vinho. Que surpresa, então, descobrir agora nesse mesmo vinho o melhor entre todos servidos!
Como sou um homem aberto a novos conceitos, não tive dúvidas em admitir: aquele lote adquirido em Passo Fundo certamente estaria estragado! Um lote de rolhas, quiçá, ou um grau alcóolico insuficiente par guardar um vinho por mais tempo. Não sei. O fato é que agora, diante dessa nova evidência, já havia tomado uma decisão: levaria o vinho daquela variedade!
Encerramos o passeio com um céu nublado, de um entardecer prematuro e frio. O que me fazia lembrar que não tínhamos ainda um lugar para ficar.
Saímos do Vale e fomos à cidade para nos hospedar.
Ficamos num hotel no centro: Vinocap. R$ 130,00 a diária para eu e as duas crianças. Um hotel de péssima qualidade pelo preço cobrado. Mas para quem estava cansado e com duas crianças para abrigar, um ótimo refúgio.
Jantamos e fomos dormir.
No dia seguinte, fizemos novamente as malas rumo a Gramado. Antes, porém queria conhecer o Caminho de Pedras, já que as crianças haviam refugado o passeio de Maria Fumaça que há ali, entre Bento Gonçalves e Carlos Barbosa. Um passeio que se realiza à tarde e para o qual é preciso reservar 4 horas do seu dia. O que representava para nós passar mais uma noite em Bento. Como tínhamos confirmado naquela manhã a reserva em Gramado para esse mesmo dia, corríamos o risco de perdê-la por conta desse atraso. Nesse ponto, as crianças foram mais sensatas do que eu. Do meu lado, devo confessar, suspirei aliviado que elas tivesse preferido partir. O passeio custava R$ 55,00 reais por pessoa, o que, no meu caso, representava um desembolso nada desprezível de R$ 165,00, sem contar outras despesas menores que, certamente, seriam realizadas no local.
Antes, contudo, de nos despedirmos de Bento, queria conhecer esse Caminho de Pedras, do qual ouvira falar ainda em Passo Fundo. Passe esse que se constitui mais uma atração turística da cidade.
Trata-se de um caminho pela colônia de Bento, pontuado por diversas atrações.
Achado o local, contudo, tinha agora que descobrir a chave para esse outro mundo de encantamentos. Decidimos parar diante de uma casa em estilo típico da região, por conta de um ônibus de turistas que se encontrava ali. Intuí, corretamente, que por conta desse detalhe a parada devia valer a pena. Não me enganei! O lugar era muito acolhedor e, para começar, logo na entrada, batemos uma foto da Júlia - minha filha de 12 anos - segurando no colo uma ovelhinha. Depois fomos até o potreiro nos fundos da casa, em suave aclive em relação à rua, ver as ovelhas no pasto. Mais uma oportunidade de bater algumas fotos já que o dia estava frio e a atmosfera limpa. Condições estas perfeitas para fotos externas. Voltamos para a casa, no térro da qual havia diversos produtos de ovelha em exposição. Tudo, porém, muito caro. Quase não adquirimos nada. Apenas dois iogurtes produzidos no local, com o leite das ovelhas da raça lacony como aprendemos num vídeo de 8 minutos que assistemos no pavimento superior da casa. Casa que, não por acaso, se chama Casa da Ovelha.
Seguimos adiante até chegarmos em outro lugar onde um novo aglomerado de pessoas fez-me crer que valia a pena mais uma parada.
Tratava-se de uma pequena ervateira artesanal, cujos soques de ervas ainda são movimentados por uma roda d´água existente na entrada. Conhecemos o processo de secagem da erva e o barbaquá, espécie de forno enterrado utilizado nessa finalidade. Do outro lado da rua, fizemos a prova do mate com a erva produzida ali e conhecemos outros produtos do artesanato local dispostos à venda.
Aquela lugar era o último atrativo do Caminho. Com certeza outros havia, pelos quais talvez passáramos sem nos dar conta. Mas a hora já ia adiantada e convinha partir, pois tencionava almoçar na estrada e não sabia o quanto teria que andar para achar um lugar que prestasse para tanto.
Continua...
Em seguida adentramos o interior da fábrica que, confesso, superou todas as minhas expectativas. Ambiente de primeiro mundo, padrão de qualidade incosteste! Uma grata satisfação para quem, como eu, me considero um aprendiz na arte de apreciar um bom vinho.
Ao fim desse passeio, a degustação. Foi quando me dei conta de ter feito a melhor escolha ao ter adquirido o bônus Bronze, pois os vinhos que foram oferecidos para degustação, correspondiam à categoria do bônus adquirido. Naturalmente o bônus Bronze era adequado a inciantes e com poderes de consumo mais modestos, como era o meu caso.
De todos os vinhos servidos, senti-me particularmente seduzido por um. Justamente da variedade Shiraz, contra a qual, alías, havia formado uma opinião desfavorável em outra ocasião. Opinião esta fundada, agora podia perceber, em um falso julgamento oriundo de uma aquisição infeliz que havia feito em Passo Fundo de um lote dessa varidade. Naquela oportunidade tive uma péssima impressão desse vinho. Que surpresa, então, descobrir agora nesse mesmo vinho o melhor entre todos servidos!
Como sou um homem aberto a novos conceitos, não tive dúvidas em admitir: aquele lote adquirido em Passo Fundo certamente estaria estragado! Um lote de rolhas, quiçá, ou um grau alcóolico insuficiente par guardar um vinho por mais tempo. Não sei. O fato é que agora, diante dessa nova evidência, já havia tomado uma decisão: levaria o vinho daquela variedade!
Encerramos o passeio com um céu nublado, de um entardecer prematuro e frio. O que me fazia lembrar que não tínhamos ainda um lugar para ficar.
Saímos do Vale e fomos à cidade para nos hospedar.
Ficamos num hotel no centro: Vinocap. R$ 130,00 a diária para eu e as duas crianças. Um hotel de péssima qualidade pelo preço cobrado. Mas para quem estava cansado e com duas crianças para abrigar, um ótimo refúgio.
Jantamos e fomos dormir.
No dia seguinte, fizemos novamente as malas rumo a Gramado. Antes, porém queria conhecer o Caminho de Pedras, já que as crianças haviam refugado o passeio de Maria Fumaça que há ali, entre Bento Gonçalves e Carlos Barbosa. Um passeio que se realiza à tarde e para o qual é preciso reservar 4 horas do seu dia. O que representava para nós passar mais uma noite em Bento. Como tínhamos confirmado naquela manhã a reserva em Gramado para esse mesmo dia, corríamos o risco de perdê-la por conta desse atraso. Nesse ponto, as crianças foram mais sensatas do que eu. Do meu lado, devo confessar, suspirei aliviado que elas tivesse preferido partir. O passeio custava R$ 55,00 reais por pessoa, o que, no meu caso, representava um desembolso nada desprezível de R$ 165,00, sem contar outras despesas menores que, certamente, seriam realizadas no local.
Antes, contudo, de nos despedirmos de Bento, queria conhecer esse Caminho de Pedras, do qual ouvira falar ainda em Passo Fundo. Passe esse que se constitui mais uma atração turística da cidade.
Trata-se de um caminho pela colônia de Bento, pontuado por diversas atrações.
Achado o local, contudo, tinha agora que descobrir a chave para esse outro mundo de encantamentos. Decidimos parar diante de uma casa em estilo típico da região, por conta de um ônibus de turistas que se encontrava ali. Intuí, corretamente, que por conta desse detalhe a parada devia valer a pena. Não me enganei! O lugar era muito acolhedor e, para começar, logo na entrada, batemos uma foto da Júlia - minha filha de 12 anos - segurando no colo uma ovelhinha. Depois fomos até o potreiro nos fundos da casa, em suave aclive em relação à rua, ver as ovelhas no pasto. Mais uma oportunidade de bater algumas fotos já que o dia estava frio e a atmosfera limpa. Condições estas perfeitas para fotos externas. Voltamos para a casa, no térro da qual havia diversos produtos de ovelha em exposição. Tudo, porém, muito caro. Quase não adquirimos nada. Apenas dois iogurtes produzidos no local, com o leite das ovelhas da raça lacony como aprendemos num vídeo de 8 minutos que assistemos no pavimento superior da casa. Casa que, não por acaso, se chama Casa da Ovelha.
Seguimos adiante até chegarmos em outro lugar onde um novo aglomerado de pessoas fez-me crer que valia a pena mais uma parada.
Tratava-se de uma pequena ervateira artesanal, cujos soques de ervas ainda são movimentados por uma roda d´água existente na entrada. Conhecemos o processo de secagem da erva e o barbaquá, espécie de forno enterrado utilizado nessa finalidade. Do outro lado da rua, fizemos a prova do mate com a erva produzida ali e conhecemos outros produtos do artesanato local dispostos à venda.
Aquela lugar era o último atrativo do Caminho. Com certeza outros havia, pelos quais talvez passáramos sem nos dar conta. Mas a hora já ia adiantada e convinha partir, pois tencionava almoçar na estrada e não sabia o quanto teria que andar para achar um lugar que prestasse para tanto.
Continua...
August 16, 2007
Crônica
Quebrando um pouquinho a sequência da minha narrativa de viagem que venho fazendo aqui, vou brindá-los com uma recente produção que muito me empolgou, porque acho que consegui pegar o anjo por uma perna, digo, a idéia inspiradora, e fixá-la nessa crônica - que inicialmente pensei tratar-se de um conto, mas que depois, analisando melhor vi tratar-se desse outro gênero - sobre um acontecimento real que presenciei há algum tempo.
Poderia ser um poema. Optei pela prosa.
Vejam o que vocës acham, se fui feliz.
Um abraço.
A MORTE DO PINHEIRO
Cuidadosamente planejada, a morte do pinheiro foi um plano arquitetado para não levantar suspeitas nas autoridades responsáveis pela fiscalização. O terreno não era grande e o jovem e infeliz pinheiro havia nascido bem no meio, justamente onde os novos donos do lugar pretendiam levantar a casa.
Como se sabe o pinheiro da família das araucárias é uma árvore nativa do Sul do Brasil e como tal, protegida por lei. Não seria nada fácil, para não dizer impossível, obter a licença para a sua derrubada. Pelo menos era o que o havia dito o engenheiro. O projeto não podia ser executado com o pinheiro ali.
Deram um jeito nele.
Suspeito que usaram daquela abominável técnica de furar o caule da planta e pôr ali óleo queimado ou secante para envenená-la. Depois de morta seria mais fácil obter a licença para seu corte.
O pinheiro é uma árvore rústica e resistente. Por isso estranhei quando vi as suas folhas – que se chamam grimpas – secarem. De imediato pensei no pior. O terreno havia sido limpo. Só ele havia sobrado. Os novos moradores queriam construir. Ele atrapalhava seus planos. Para ligar uma coisa a outra não foi difícil.
Como morava na redondeza e costumava passar por ali com os cachorros que levava para passear, pude acompanhar a lenta decadência daquele belo exemplar das araucárias, jovem e vigoroso.
Não saberia precisar sua idade. Tinha uns 8 metros de altura e um caule que na base devia medir uns 40 centímetros. Teria furos ali? O cercado em volta do terreno e uma capoeira alta o suficiente para esconder uma jararaca me impediam de ver se as minhas suspeitas eram verdadeiras. Talvez se eu tivesse visto pudesse ter evitado aquele crime. Agora, porém, era tarde.
Poucos meses depois acabei me mudando dali. Ele já estava seco o suficiente para ser derrubado. O fim estava próximo. Contudo, não havia ainda sinais de que a construção iria sair, o que me dava alguma esperança. Quem sabe não seria tudo conjecturas da minha cabeça? O ser humano não seria tão maquiavélico assim, para se bater silenciosa e covardemente durante meses com um árvore para, só depois que o fato estivesse consumado, pô-la abaixo. Quem sabe o pinheiro havia morrido de alguma doença desconhecida e eu imaginava coisas?
Mas eu me enganava.
Percebi isso quando as valas da construção começaram a ser abertas, e elas incluíam o lugar onde até então o pinheiro sempre estivera – naquela altura já derrubado.
Inobstante isso, ainda resisti à idéia de que desde o começo tudo fora mesmo pensado. Resistência que caiu à vista da primeira parede levantada onde antes se erguia o elegante caule.
Que decepção, nessa cidade murada, enxergar mais uma parede onde antes se via algo tão gracioso! Algo que nos evoca as nossas raízes, a nossa infância, a região em que fomos criados e onde acostumamos a vista à sua presença em meio a mata, pontuando-a com o seu porte esguio e sobranceiro ou no campo, quebrando a monotonia da paisagem. Que falta de imaginação! Com tantas soluções que a engenharia moderna oferece era difícil acreditar que aquele terreno não podia ser dividido com a planta, que para todos os efeitos, já estava ali. Mas onde esperar o reconhecimento de direitos de um vegetal que não tem boca para reclamar e mãos para se defender?
A partir daquele dia senti que, por mais bela que fosse a casa que seria construída ali, não conseguiria a admirar. Pois cada vez que passava pelo local e a olhava, o que eu via nela não era sua beleza, mas o fantasma do pinheiro que houvera ali e que por causa dela teve de ser derrubado.
Poderia ser um poema. Optei pela prosa.
Vejam o que vocës acham, se fui feliz.
Um abraço.
A MORTE DO PINHEIRO
Cuidadosamente planejada, a morte do pinheiro foi um plano arquitetado para não levantar suspeitas nas autoridades responsáveis pela fiscalização. O terreno não era grande e o jovem e infeliz pinheiro havia nascido bem no meio, justamente onde os novos donos do lugar pretendiam levantar a casa.
Como se sabe o pinheiro da família das araucárias é uma árvore nativa do Sul do Brasil e como tal, protegida por lei. Não seria nada fácil, para não dizer impossível, obter a licença para a sua derrubada. Pelo menos era o que o havia dito o engenheiro. O projeto não podia ser executado com o pinheiro ali.
Deram um jeito nele.
Suspeito que usaram daquela abominável técnica de furar o caule da planta e pôr ali óleo queimado ou secante para envenená-la. Depois de morta seria mais fácil obter a licença para seu corte.
O pinheiro é uma árvore rústica e resistente. Por isso estranhei quando vi as suas folhas – que se chamam grimpas – secarem. De imediato pensei no pior. O terreno havia sido limpo. Só ele havia sobrado. Os novos moradores queriam construir. Ele atrapalhava seus planos. Para ligar uma coisa a outra não foi difícil.
Como morava na redondeza e costumava passar por ali com os cachorros que levava para passear, pude acompanhar a lenta decadência daquele belo exemplar das araucárias, jovem e vigoroso.
Não saberia precisar sua idade. Tinha uns 8 metros de altura e um caule que na base devia medir uns 40 centímetros. Teria furos ali? O cercado em volta do terreno e uma capoeira alta o suficiente para esconder uma jararaca me impediam de ver se as minhas suspeitas eram verdadeiras. Talvez se eu tivesse visto pudesse ter evitado aquele crime. Agora, porém, era tarde.
Poucos meses depois acabei me mudando dali. Ele já estava seco o suficiente para ser derrubado. O fim estava próximo. Contudo, não havia ainda sinais de que a construção iria sair, o que me dava alguma esperança. Quem sabe não seria tudo conjecturas da minha cabeça? O ser humano não seria tão maquiavélico assim, para se bater silenciosa e covardemente durante meses com um árvore para, só depois que o fato estivesse consumado, pô-la abaixo. Quem sabe o pinheiro havia morrido de alguma doença desconhecida e eu imaginava coisas?
Mas eu me enganava.
Percebi isso quando as valas da construção começaram a ser abertas, e elas incluíam o lugar onde até então o pinheiro sempre estivera – naquela altura já derrubado.
Inobstante isso, ainda resisti à idéia de que desde o começo tudo fora mesmo pensado. Resistência que caiu à vista da primeira parede levantada onde antes se erguia o elegante caule.
Que decepção, nessa cidade murada, enxergar mais uma parede onde antes se via algo tão gracioso! Algo que nos evoca as nossas raízes, a nossa infância, a região em que fomos criados e onde acostumamos a vista à sua presença em meio a mata, pontuando-a com o seu porte esguio e sobranceiro ou no campo, quebrando a monotonia da paisagem. Que falta de imaginação! Com tantas soluções que a engenharia moderna oferece era difícil acreditar que aquele terreno não podia ser dividido com a planta, que para todos os efeitos, já estava ali. Mas onde esperar o reconhecimento de direitos de um vegetal que não tem boca para reclamar e mãos para se defender?
A partir daquele dia senti que, por mais bela que fosse a casa que seria construída ali, não conseguiria a admirar. Pois cada vez que passava pelo local e a olhava, o que eu via nela não era sua beleza, mas o fantasma do pinheiro que houvera ali e que por causa dela teve de ser derrubado.
August 14, 2007
relato de viagem - continuação...
Chegamos ali em pouco tempo, afinal de Veranópolis a Bento é um pulinho.
Baseando-me em um mapa que havia localizado na internet não tive dificuldade de encontrar o lugar. Logo estava na embocadura do Vale que se estende por um bela estrada asfalatada,em suave declive, do outro lado da Rodovia que passa em frente a Bento. Já na entrada deste Vale fui mais uma vez bafejado pela sorte ao parar em um Posto de Combustíveis para abastecer. Pedi a garota que me atendia referências sobre o local e esta me indicou um folheto para turistas que continha um mapa do lugar, com todos as vínicolas, pousadas e restaurantes interessantes para se visitar.
Confesso que de início não achei o lugar especial de qualquer maneira, eis que pontuado de parreirais adormecidos pelo frio do inverno, desprovidos de frutos e maiores encantos, com vinícolas aqui e ali, que, a princípio, não pareciam se oferecer de algum modo ao visitante, como havia lido na internet.
Fomos até o fim da rota, de acordo com o indicado no mapa e apenas ao final dela a vinícola Miolo - à esquerda - e outra, adiante, em forma de castelo, construído com pedras basalto - à direita - me chamaram a atenção. Tinha a intenção de primeiro dar uma geral por todo o Vale antes de me decidir o que fazer. Como o Vale é formado por duas vias de acesso, tencionava ir até o fim de uma delas para retornar pela outra. Para isso, contudo, tinha de repisar o mesmo trecho, até a altura da Miolo, para tomar a outra estrada, de modo que tinha que passar de novo pela vinícola em forma de castelo, por primeiro. Paramos ali para bater fotos já que a luz era favorável e de alguma forma precisávamos quebrar o gelo daquele passeio - o problema de fazer uma excursão solitária. Aproveitamos a oportunidade para conhecermos o local, no qual viemos a descobrir maravilhas: corredores em forma de calabouços, pipas enormes para a produção do vinho e um laboratório para análise do produto. Circulamos também pela loja no interior da construção, onde se comercializa vinho, consultando discretamente os preços praticados.
Fomos informado pela atendente que podíamos fazer um passeio acompanhado pelo local, com direito à degustação, ao módico preço de R$ 5,00. Valor este qua ainda podia ser convertido em bônus para aqusição de produtos no local. Informação esta que confirmava a que eu já havia obtido na internet.
Contudo, recusamos a oferta.
O lugar estava praticamente vazio e este tour seria feito só comigo - pois nesta viagem apenas meus dois filhos me acompanhavam. O que significa dizer que não havia no local outras pessoas para dividir comigo a atenção do meu eventual cicerone.
Mas aquilo já servira como um pequeno quebra-gelo para eu conhecer mais profundamente o lugar.
Inspirado por esta primeira proposta de visitação ao interior de uma vinícola, saimos dali com a convicção de fazer aquele passeio na empresa adiante, a qual eu supunha, teria mais movimento. Ou seja, na Vinícola Miola, a qual possui um amplo pátio onde se encontram diversas construções pintadas da cor da empresa - amarelo - destinados a produção e comercialização do vinho, assim como a recepção ao turista. Abrindo o lugar, um imponente pórtico com o nome da marca: Miolo.
Chegando ali, tomamos informação na portaria para confirmar se o entusiamso com que eu vinha da Vinícola anterior - Cave de Pedra - tinha correspondente na realidade. Ao que, a naturalidade com que o guarda me atendeu, indicando-me o prédio ao fundo para visitação, me provava que eu não estava enganado: era ali que começava a nossa aventura pelo mundo do vinho.
Galhardamente, fomos até lá, agora munido das palavras que me abririam as portas do lugar: bônus de visitação!
Havia de 3 categorias: Bronze, Prata e Ouro, correspodentes, respectivamente aos valores de R$ 5,00, R$ 10,00 e R$ 15,00. Modesto como sou - para as más linguas, pão-duro - fiquei com o Bronze. Decisão que depois se revelaria, não apenas a mais econômica, mas a mais acertada em todos os sentidos. Crianças não pagam, ainda me informou a atendente, pois este valor destinava-se, sobretudo, à degustação que é realizada ao final do passeio. Etapa que, naturalmente,as crianças não realizam. Tudo isso no exato instante em que um grupo já ia adiante, no pátio ensolarado, ciceroneado pela menina encarregada da apresentação da vinícola aos visitantes.
Continua na próxima...
Baseando-me em um mapa que havia localizado na internet não tive dificuldade de encontrar o lugar. Logo estava na embocadura do Vale que se estende por um bela estrada asfalatada,em suave declive, do outro lado da Rodovia que passa em frente a Bento. Já na entrada deste Vale fui mais uma vez bafejado pela sorte ao parar em um Posto de Combustíveis para abastecer. Pedi a garota que me atendia referências sobre o local e esta me indicou um folheto para turistas que continha um mapa do lugar, com todos as vínicolas, pousadas e restaurantes interessantes para se visitar.
Confesso que de início não achei o lugar especial de qualquer maneira, eis que pontuado de parreirais adormecidos pelo frio do inverno, desprovidos de frutos e maiores encantos, com vinícolas aqui e ali, que, a princípio, não pareciam se oferecer de algum modo ao visitante, como havia lido na internet.
Fomos até o fim da rota, de acordo com o indicado no mapa e apenas ao final dela a vinícola Miolo - à esquerda - e outra, adiante, em forma de castelo, construído com pedras basalto - à direita - me chamaram a atenção. Tinha a intenção de primeiro dar uma geral por todo o Vale antes de me decidir o que fazer. Como o Vale é formado por duas vias de acesso, tencionava ir até o fim de uma delas para retornar pela outra. Para isso, contudo, tinha de repisar o mesmo trecho, até a altura da Miolo, para tomar a outra estrada, de modo que tinha que passar de novo pela vinícola em forma de castelo, por primeiro. Paramos ali para bater fotos já que a luz era favorável e de alguma forma precisávamos quebrar o gelo daquele passeio - o problema de fazer uma excursão solitária. Aproveitamos a oportunidade para conhecermos o local, no qual viemos a descobrir maravilhas: corredores em forma de calabouços, pipas enormes para a produção do vinho e um laboratório para análise do produto. Circulamos também pela loja no interior da construção, onde se comercializa vinho, consultando discretamente os preços praticados.
Fomos informado pela atendente que podíamos fazer um passeio acompanhado pelo local, com direito à degustação, ao módico preço de R$ 5,00. Valor este qua ainda podia ser convertido em bônus para aqusição de produtos no local. Informação esta que confirmava a que eu já havia obtido na internet.
Contudo, recusamos a oferta.
O lugar estava praticamente vazio e este tour seria feito só comigo - pois nesta viagem apenas meus dois filhos me acompanhavam. O que significa dizer que não havia no local outras pessoas para dividir comigo a atenção do meu eventual cicerone.
Mas aquilo já servira como um pequeno quebra-gelo para eu conhecer mais profundamente o lugar.
Inspirado por esta primeira proposta de visitação ao interior de uma vinícola, saimos dali com a convicção de fazer aquele passeio na empresa adiante, a qual eu supunha, teria mais movimento. Ou seja, na Vinícola Miola, a qual possui um amplo pátio onde se encontram diversas construções pintadas da cor da empresa - amarelo - destinados a produção e comercialização do vinho, assim como a recepção ao turista. Abrindo o lugar, um imponente pórtico com o nome da marca: Miolo.
Chegando ali, tomamos informação na portaria para confirmar se o entusiamso com que eu vinha da Vinícola anterior - Cave de Pedra - tinha correspondente na realidade. Ao que, a naturalidade com que o guarda me atendeu, indicando-me o prédio ao fundo para visitação, me provava que eu não estava enganado: era ali que começava a nossa aventura pelo mundo do vinho.
Galhardamente, fomos até lá, agora munido das palavras que me abririam as portas do lugar: bônus de visitação!
Havia de 3 categorias: Bronze, Prata e Ouro, correspodentes, respectivamente aos valores de R$ 5,00, R$ 10,00 e R$ 15,00. Modesto como sou - para as más linguas, pão-duro - fiquei com o Bronze. Decisão que depois se revelaria, não apenas a mais econômica, mas a mais acertada em todos os sentidos. Crianças não pagam, ainda me informou a atendente, pois este valor destinava-se, sobretudo, à degustação que é realizada ao final do passeio. Etapa que, naturalmente,as crianças não realizam. Tudo isso no exato instante em que um grupo já ia adiante, no pátio ensolarado, ciceroneado pela menina encarregada da apresentação da vinícola aos visitantes.
Continua na próxima...
August 12, 2007
Relato de viagem
Conforme prometido, vou relatar, em partes, a viagem de férias que fiz à Serra Gaúcha, entre os dias 25 e 29 de julho.
Relatarei como venho escrevendo desde que de lá voltei. Em forma de diário.
29/07/2007
Voltei hoje de uma viagem de 5 dias à Serra Gaúcha. Viagem de férias, talvez uma das melhores que já tive. Embora de poucos dias, mas extremamente proveitosa para mim. Fiz o que há muito tempo queria fazer. Mais do que uma viagem de passeio, uma viagem de conhecimento e exploração.
Elaborei um roteiro - mental, é verdade, mas um roteiro - e segui uma programação que foi se ajustando de acordo com a realidade e as condições das minha finanças. Para se ter um idéia da "programação" de que estou falando, até a véspera de partir eu ainda não tinha certeza se iria. O dinheiro anda curto e como não recebi essas férias antecipadamente não me sentia muito à vontade para gastar por conta desse dinheiro que ainda não havia chegado. Moralmente, falando, por que na prática não havia problema algum. Usava apenas por alguns dias o cheque especial, o qual cubriria mais tarde, quando o dinheiro viesse. Em resumo, puro escrúpulo oriundo de uma educação voltada para a escassez, não para a abundância; para a renúncia, não para o prazer.
Ao fim, fiz algumas contas contas e vi que daria.
- Danem-se meus escrúpulos! - pensei. - Preciso sair!
Fui.
E tudo aconteceu de uma forma tão maravilhosa que só posso reputar obra de Deus me conceder esses dias de descanso.
Para começar, contudo, tive o mínimo cuidado de não sair de casa totalmente desprevinido. Teria que ao menos saber se encontraria na Serra lugar para ficar, pois até aquele momento não tinha reservado hotel e como as notícias eram de neve com certeza os hotéis estariam lotados por lá.
Entrei na internet e pesquisei: Gramado. Um sem número de hotéis ofereciam vagas, a preços os mais diversos. Cadastrei-me em 2 e no dia seguinte parti. Antes de sair, porém, dei uma olhadinha para ver se já tinha resposta de algum. Tive. De um apenas e negativa.
Não me deixei abater. Parti assim mesmo. No caminho confirmaria a reserva do outro, afinal eu não pretendia ir direto a Gramado. Pousaria em Bento Gonçalves e só no dia seguinte precisaria ter a confirmação da reserva para me dirigir até lá.
Meu roteiro começava por Veranópolis. Queria conhecer o restaurante giratório do qual vira uma reportagem na RBS TV. Fiquei encantado com aquela engenhoca a 30 metros de altura acionada por um motor em baixa rotação que faz com que o chão vá lentamente se movendo, permitindo que as pessoas possam almoçar apreciando uma paisagem em constante mutação. E tudo de uma forma lão lenta e segura que só com o decorrer de alguns minutos é possível notar que já não se está na mesma posição. Tanto que para o cliente desavisado é possível pregar uma peça. Se não o avisar de como o lugar funciona, ele só vai notar que algo está acontecendo após algum tempo, pois para fazer o giro completo o mecanismo leva 2 horas.
Saí de casa às 9 horas com a idéia de ao meio dia, talvez antes, estar ali para almoçar. Chegamos às 11 horas e um pouquinho afinal o lugar dista apenas 120 km de Passo Fundo. Andamos um pouco pela cidade e às 11:30 fomos para lá. Havia ainda poucas pessoas no ambiente. Fomos recebidos por um garçom atencioso que nos informou de imediato que a casa servia apenas 1 prato: galeto com massa. Sete tipos de massas ao custo de R$ 20,00 por pessoa. Ao que nos sentamos para sermos servidos, fascinado com o lugar. Comemos à larga e nos divertimos com a novidade. Bati fotos do interior do restaurante para demonstrar depois o seu deslocamento em relação ao local em que inicialmente havíamos sentado.
Senti estar realizando um pequeno sonho, pois quantas vezes não vemos coisas na TV ou ouvimos falar de lugares que gostaríamos de conhecer e deixamos a oportunidade passar. O que seria nesta viagem minha primeira descoberta: para realizarmos alguma coisa não podemos deixar a oportunidade passar, a chama se apagar. É preciso colher o fruto no momento em que ele amadurece. O verdadeiro sabor das coisas está aí, nesse primeiro momento em que a tensão está em alta e a sua realização vem como o raio que alveja a terra, descarregando a nuvem que cruza sobre ela.
Próxima parada do meu roteiro: Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Esse Vale do qual ouvira um colega falar com admiração ao meu chefe e que despertou em mim a curiosidade de vir a conhecê-lo.
Continua na próxima...
Relatarei como venho escrevendo desde que de lá voltei. Em forma de diário.
29/07/2007
Voltei hoje de uma viagem de 5 dias à Serra Gaúcha. Viagem de férias, talvez uma das melhores que já tive. Embora de poucos dias, mas extremamente proveitosa para mim. Fiz o que há muito tempo queria fazer. Mais do que uma viagem de passeio, uma viagem de conhecimento e exploração.
Elaborei um roteiro - mental, é verdade, mas um roteiro - e segui uma programação que foi se ajustando de acordo com a realidade e as condições das minha finanças. Para se ter um idéia da "programação" de que estou falando, até a véspera de partir eu ainda não tinha certeza se iria. O dinheiro anda curto e como não recebi essas férias antecipadamente não me sentia muito à vontade para gastar por conta desse dinheiro que ainda não havia chegado. Moralmente, falando, por que na prática não havia problema algum. Usava apenas por alguns dias o cheque especial, o qual cubriria mais tarde, quando o dinheiro viesse. Em resumo, puro escrúpulo oriundo de uma educação voltada para a escassez, não para a abundância; para a renúncia, não para o prazer.
Ao fim, fiz algumas contas contas e vi que daria.
- Danem-se meus escrúpulos! - pensei. - Preciso sair!
Fui.
E tudo aconteceu de uma forma tão maravilhosa que só posso reputar obra de Deus me conceder esses dias de descanso.
Para começar, contudo, tive o mínimo cuidado de não sair de casa totalmente desprevinido. Teria que ao menos saber se encontraria na Serra lugar para ficar, pois até aquele momento não tinha reservado hotel e como as notícias eram de neve com certeza os hotéis estariam lotados por lá.
Entrei na internet e pesquisei: Gramado. Um sem número de hotéis ofereciam vagas, a preços os mais diversos. Cadastrei-me em 2 e no dia seguinte parti. Antes de sair, porém, dei uma olhadinha para ver se já tinha resposta de algum. Tive. De um apenas e negativa.
Não me deixei abater. Parti assim mesmo. No caminho confirmaria a reserva do outro, afinal eu não pretendia ir direto a Gramado. Pousaria em Bento Gonçalves e só no dia seguinte precisaria ter a confirmação da reserva para me dirigir até lá.
Meu roteiro começava por Veranópolis. Queria conhecer o restaurante giratório do qual vira uma reportagem na RBS TV. Fiquei encantado com aquela engenhoca a 30 metros de altura acionada por um motor em baixa rotação que faz com que o chão vá lentamente se movendo, permitindo que as pessoas possam almoçar apreciando uma paisagem em constante mutação. E tudo de uma forma lão lenta e segura que só com o decorrer de alguns minutos é possível notar que já não se está na mesma posição. Tanto que para o cliente desavisado é possível pregar uma peça. Se não o avisar de como o lugar funciona, ele só vai notar que algo está acontecendo após algum tempo, pois para fazer o giro completo o mecanismo leva 2 horas.
Saí de casa às 9 horas com a idéia de ao meio dia, talvez antes, estar ali para almoçar. Chegamos às 11 horas e um pouquinho afinal o lugar dista apenas 120 km de Passo Fundo. Andamos um pouco pela cidade e às 11:30 fomos para lá. Havia ainda poucas pessoas no ambiente. Fomos recebidos por um garçom atencioso que nos informou de imediato que a casa servia apenas 1 prato: galeto com massa. Sete tipos de massas ao custo de R$ 20,00 por pessoa. Ao que nos sentamos para sermos servidos, fascinado com o lugar. Comemos à larga e nos divertimos com a novidade. Bati fotos do interior do restaurante para demonstrar depois o seu deslocamento em relação ao local em que inicialmente havíamos sentado.
Senti estar realizando um pequeno sonho, pois quantas vezes não vemos coisas na TV ou ouvimos falar de lugares que gostaríamos de conhecer e deixamos a oportunidade passar. O que seria nesta viagem minha primeira descoberta: para realizarmos alguma coisa não podemos deixar a oportunidade passar, a chama se apagar. É preciso colher o fruto no momento em que ele amadurece. O verdadeiro sabor das coisas está aí, nesse primeiro momento em que a tensão está em alta e a sua realização vem como o raio que alveja a terra, descarregando a nuvem que cruza sobre ela.
Próxima parada do meu roteiro: Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Esse Vale do qual ouvira um colega falar com admiração ao meu chefe e que despertou em mim a curiosidade de vir a conhecê-lo.
Continua na próxima...
August 11, 2007
relato de viagem
Olá, pessoal. Estou de volta. É incrível mas já fez mais de um mês que eu não publicava nada neste espaço. Não porque não tenha produzido nesse período. Apenas porque estive assoberbado de serviço e por ter me batido um certo desencanto com este meio de divulgação.
Mas, após umas férias de 10 dias que tirei ao final do mês de julho, recarreguei as bateria e estou de volta. Férias estas durante as quais realizei uma viagem à Serra Gaúcha das mais agradáveis que já realizei.
Esse passeio cuidadosamente programado - programação que no meu modo de agir consistiu em apenas ter traçado um pequeno roteiro mental, nada mais - teve o objetivo de resgatar um pouco das memórias que eu tinha do lugar e que há muito tempo eu não visitava. Para mim também representou um viagem de auto-conhecimento. Pois às vésperas de completar 40 anos estou sentindo necessidade de descobrir minha verdadeira identidade.
Fomos apenas eu e os meus filhos, o que me ajudou sobremaneira, sem a companhia da esposa, a fazer um viagem perfeita na consecução desses dois objetivos, sobretudo do segundo, pois só quem é casado sabe o quanto um mulher pode interferir na identidade de um homem.
Nos próximos dias quero reproduzir aqui o relato dessa experiência e dividir um pouco com vocês essa aventura exterior e interior de um homem de meia idade em busca da sua verdadeira identidade.
Um abraço e até mais.
Mas, após umas férias de 10 dias que tirei ao final do mês de julho, recarreguei as bateria e estou de volta. Férias estas durante as quais realizei uma viagem à Serra Gaúcha das mais agradáveis que já realizei.
Esse passeio cuidadosamente programado - programação que no meu modo de agir consistiu em apenas ter traçado um pequeno roteiro mental, nada mais - teve o objetivo de resgatar um pouco das memórias que eu tinha do lugar e que há muito tempo eu não visitava. Para mim também representou um viagem de auto-conhecimento. Pois às vésperas de completar 40 anos estou sentindo necessidade de descobrir minha verdadeira identidade.
Fomos apenas eu e os meus filhos, o que me ajudou sobremaneira, sem a companhia da esposa, a fazer um viagem perfeita na consecução desses dois objetivos, sobretudo do segundo, pois só quem é casado sabe o quanto um mulher pode interferir na identidade de um homem.
Nos próximos dias quero reproduzir aqui o relato dessa experiência e dividir um pouco com vocês essa aventura exterior e interior de um homem de meia idade em busca da sua verdadeira identidade.
Um abraço e até mais.
July 05, 2007
A pedido
A pedido de um amigo estou publicando o poema Domingo que se encontra no meu livro Expresso Instante - sucesso Dorinho!
DOMINGO
Chove!
A tarde é vadia.
Primavera
os pássaros
cantam
de modo especial.
Chove mui lentamente.
É possível ouvir
o respirar do mundo.
Bom que a semana terminou.
Quando Deus descansou
ele sabia o que estava fazendo:
dando aos homens
a oportunidade de saberem quem são:
homens tão somente.
DOMINGO
Chove!
A tarde é vadia.
Primavera
os pássaros
cantam
de modo especial.
Chove mui lentamente.
É possível ouvir
o respirar do mundo.
Bom que a semana terminou.
Quando Deus descansou
ele sabia o que estava fazendo:
dando aos homens
a oportunidade de saberem quem são:
homens tão somente.
July 04, 2007
I´m back!
Estou fascinado com uma nova - ou nem tanto assim - tecnologia: a fotografia digital. Que maravilha essa possibilidade de a gente de repente ter a disposição esse recurso relativamente tão barato e descobrir a arte da fotografia. Sim, arte, porque a fotografia há muito tempo é considerada uma arte. Mas entre você ouvir isso e ter a experiência de poder produzir essa arte, de uma forma barata e acessível, vai uma grande diferença.
Cada vez se torna mais evidente para mim de que as tecnologias modernas estão possibilitando que as pessoas descobram seus talentos, ou ao menos se expressem artisticamente e se reconheçam nessas expressões com mais frequência. É assim com o mp3 que possibilata que as pessoas montem a sua própria seleção de músicas, é assim com os blogs, orkuts e msns que permite que as pessoas tenham uma identidade virtual propria, criem comunidades e se relacionam com aquelas que tenham afinidades com elas, é assim com essa necessidade que cada vez mais os meios de comunicação têm de ouvir o seu público, permitindo formas de interação até há pouco há tempo não eram acessíveis.
Enfim é um sem número de possibilidades que se apresenta para as pessoas darem um rosto familiar aquilo que estão fazendo. E com a foto digital então muito mais. Agora é possível, por exemplo, ter como fundo de tela uma paisagem que você conhece e gosta, do seu cachorro ou do seu filho.
Foi isso que tenho descoberto esses dias. E nesse afã de amador dessa mais nova forma de expressão artística que para mim se apresentou, vou publicar aqui algumas fotos de paisagens muito nossas e conhecidas que sempre quis ter registrado em foto e não sabia que ficaria tão bem. Veja o que vocês acham.
June 24, 2007
COSMOGOMIA
O sentido da vida é o daqueles que nascem acreditando firmemente num, enquanto outros absolutamente não crêem.
Da mistura dessas duas disposições de espírito resulta uns dando ânimo aos outros, e quando anos mais tarde os primeiros já perderam suas esperanças, os segundos já viveram o bastante para simplesmente darem um fim em suas vidas. Afinal agora eles têm um passado, uma história de sobrevivência e não mais como antes apenas um futuro incerto e sem sentido a sua frente.
Então estes antes desalentados sobreviventes dão hoje ânimo àqueles que perderam a sua fé, mesmo estes achando isso totalmente sem sentido.
E assim a Humanidade que teve um começo incerto e talvez não encontrasse razão para sua existência, hoje mergulha em sua História e dela extrai forças e um milhão de motivos para continuar, mesmo achando que a vida...não faz nenhum sentido.
O sentido da vida é o daqueles que nascem acreditando firmemente num, enquanto outros absolutamente não crêem.
Da mistura dessas duas disposições de espírito resulta uns dando ânimo aos outros, e quando anos mais tarde os primeiros já perderam suas esperanças, os segundos já viveram o bastante para simplesmente darem um fim em suas vidas. Afinal agora eles têm um passado, uma história de sobrevivência e não mais como antes apenas um futuro incerto e sem sentido a sua frente.
Então estes antes desalentados sobreviventes dão hoje ânimo àqueles que perderam a sua fé, mesmo estes achando isso totalmente sem sentido.
E assim a Humanidade que teve um começo incerto e talvez não encontrasse razão para sua existência, hoje mergulha em sua História e dela extrai forças e um milhão de motivos para continuar, mesmo achando que a vida...não faz nenhum sentido.
June 18, 2007
Olá
Dando continuidade aquela vontade de que vos falei na publicação anterior, gostaria de dividir com vocês um texto que escrevi outro dia sobre a Leveza na escrita e na vida, em oposição ao peso. Vejam o que vocês acham.
O Elogio da Leveza
Leve, muito leve. Sou adepto da leveza. Para manipular suas armas um soldado so-bretudo tem de ser leve, se movimentar com rapidez, sem deixar de ser mortal. E para sê-lo, não precisa muito. Basta-lhe uma boa arma e pontaria. Assim o escritor. Convém não se municiar demais para a viagem, sob pena de não se completar a jor-nada. É preciso ser leve, lembra? Leve sem abrir mão da profundidade. Mas sem exagero. Apenas um corte profundo e rápido, como o produzido por um bisturi - o que há de mais leve que este instrumento?! Já para se livrar dos golpes do inimigo basta mobilidade. E isso não se consegue com pesadas armaduras.
Há uma história bastante ilustrativa desse fato na Bíblia.
Quando Davi foi enfrentar Golias, Samuel, o rei dos judeus, emprestou-lhe a sua armadura. Davi, para não desagradar ao rei aceitou. Mas ao experimentá-la sentiu que era pesada demais e lhe tolhia os movimentos. Por isso, preferiu ir sem ela, munido apenas com sua funda.
O final dessa história todos nós conhecemos.
Outro exemplo:
O Titanic só não conseguiu desviar do iceberg porque era grande e pesado demais. Uma vez posto em movimento a força da inércia gerada por seu peso – ou seja, aquela força que tende a manter um corpo em seu estado de repouso ou movimento indefinidamente – dificultou a ação do motores para detê-lo, assim como dos lemes. O desastre, àquela altura, era inevitável.
Assim, poderíamos citar outro sem número de exemplos sobre a leveza em oposição ao peso, como fatores determinantes do sucesso ou fracasso de um empreendimento. Mas basta-nos esses dois para não sobrecarregar o leitor. O suficiente para municiá-lo para a batalha.
Batalha da vida e da escrita.
O Elogio da Leveza
Leve, muito leve. Sou adepto da leveza. Para manipular suas armas um soldado so-bretudo tem de ser leve, se movimentar com rapidez, sem deixar de ser mortal. E para sê-lo, não precisa muito. Basta-lhe uma boa arma e pontaria. Assim o escritor. Convém não se municiar demais para a viagem, sob pena de não se completar a jor-nada. É preciso ser leve, lembra? Leve sem abrir mão da profundidade. Mas sem exagero. Apenas um corte profundo e rápido, como o produzido por um bisturi - o que há de mais leve que este instrumento?! Já para se livrar dos golpes do inimigo basta mobilidade. E isso não se consegue com pesadas armaduras.
Há uma história bastante ilustrativa desse fato na Bíblia.
Quando Davi foi enfrentar Golias, Samuel, o rei dos judeus, emprestou-lhe a sua armadura. Davi, para não desagradar ao rei aceitou. Mas ao experimentá-la sentiu que era pesada demais e lhe tolhia os movimentos. Por isso, preferiu ir sem ela, munido apenas com sua funda.
O final dessa história todos nós conhecemos.
Outro exemplo:
O Titanic só não conseguiu desviar do iceberg porque era grande e pesado demais. Uma vez posto em movimento a força da inércia gerada por seu peso – ou seja, aquela força que tende a manter um corpo em seu estado de repouso ou movimento indefinidamente – dificultou a ação do motores para detê-lo, assim como dos lemes. O desastre, àquela altura, era inevitável.
Assim, poderíamos citar outro sem número de exemplos sobre a leveza em oposição ao peso, como fatores determinantes do sucesso ou fracasso de um empreendimento. Mas basta-nos esses dois para não sobrecarregar o leitor. O suficiente para municiá-lo para a batalha.
Batalha da vida e da escrita.
June 15, 2007
Olá
Depois De alguns Dias ausente, estou De volta.Não reparem que estou escrevenDo os Ds em letra maiúscula. É que Devo ter acionaDo alguma tecla que teima em minimizar a tela Do micro toDa vez que a Digito. Maiúscula, porém, não. Por isso estou a usando assim.
´
Para quem escreve isto que vou falar talvez não soe estranho. Não sei se vocês comungam dessa mesma sensação. Às vezes a vontade de escrever é tão forte que a gente simplesmente tem vontaDe De sair escrevenDo sobre qualquer assunto. Acho que isso é váliDo e tem que ser aproveitaDo ao menos com um belo exercício. Esses exercícios muitas vezes proDuzem algumas coisas belas e descompromissaDas como essa que escrevi outro dia. Vejam o que vocês acham.
MONALISA
Ela olhou para mim e sorriu. Há muito tempo uma mulher não olhava pra mim e sorria. Não com interesse. Ela, porém, o demonstrou.
Não era bonita. Não podemos dizer que fosse, mas tinha um belo corpo e um sorriso também.
A beleza não é uma qualidade abstrata. É algo que vamos acrescentando em alguém com os contornos da afeição, da simpatia que vai crescendo à medida que sentimos que é recíproca. E o sorriso de uma mulher, a nos olhar com interesse, é como a Monalisa a nos mirar, não do quadro imóvel e eterno de Leonardo, mas em carne e osso como se estivesse na nossa presença. O que é sempre mais interessante que o mero prazer da contemplação.
Ah, amar! Que enlevo nos envolve quando estamos enamorados. Um recomeço para quem há muito tempo não experimentava dessa sensação. Uma aventura fascinante para quem a vive pela primeira vez. Aventura de conseqüências imprevisíveis.
Sobretudo quando já se é casado.
´
Para quem escreve isto que vou falar talvez não soe estranho. Não sei se vocês comungam dessa mesma sensação. Às vezes a vontade de escrever é tão forte que a gente simplesmente tem vontaDe De sair escrevenDo sobre qualquer assunto. Acho que isso é váliDo e tem que ser aproveitaDo ao menos com um belo exercício. Esses exercícios muitas vezes proDuzem algumas coisas belas e descompromissaDas como essa que escrevi outro dia. Vejam o que vocês acham.
MONALISA
Ela olhou para mim e sorriu. Há muito tempo uma mulher não olhava pra mim e sorria. Não com interesse. Ela, porém, o demonstrou.
Não era bonita. Não podemos dizer que fosse, mas tinha um belo corpo e um sorriso também.
A beleza não é uma qualidade abstrata. É algo que vamos acrescentando em alguém com os contornos da afeição, da simpatia que vai crescendo à medida que sentimos que é recíproca. E o sorriso de uma mulher, a nos olhar com interesse, é como a Monalisa a nos mirar, não do quadro imóvel e eterno de Leonardo, mas em carne e osso como se estivesse na nossa presença. O que é sempre mais interessante que o mero prazer da contemplação.
Ah, amar! Que enlevo nos envolve quando estamos enamorados. Um recomeço para quem há muito tempo não experimentava dessa sensação. Uma aventura fascinante para quem a vive pela primeira vez. Aventura de conseqüências imprevisíveis.
Sobretudo quando já se é casado.
June 07, 2007
Conto - Final
E aí, pessoal, o que vocês acharam do visual novo do meu blog? Legal, não? Pois é, uma coisa que estou descobrindo é que sem só de conteúdo vive o homem, mas tudo o que lhe entra pelos olhos também. Por isso resolvi dar uma incrementada no meu blog, até para tornar a leitura de vocês mais agradável também.
Estou publicando hoje o final do conto O Interfone. Espero comentários, hein.
O Interfone - Continuação...
Com o pé esquerdo empurrou a porta que fechou com um forte estalo e com um movimento rápido montou sobre mim. Começou a se reclinar como se quisesse me dizer alguma coisa junto ao ouvido, antes de me atravessar com aquela lâmina. No entanto, quando abriu a boca para falar, o que ouvi não era voz humana, mas um forte zumbido metálico como a campainha do interfone.
Acordei com a estridência do interfone de casa, insistentemente acionado.
Cansado como estava tinha adormecido no sofá, e o que me sufocava não era nenhuma mão assassina, mas sim a almofada que tinha sobre o corpo, e tapava minha respiração. A faca em meu flanco nada mais era que o controle da TV a me cutucar durante aquele sono rápido e pesado.
Deveras eu tinha ficado impressionado demais com tudo o que tinha acontecido. No entanto, aquilo tinha parecido tão real...
Acordei suado de terror. Sem entender ainda bem o que tinha acontecido atendi o interfone que não parava de tocar.
- E aí, cara, tá pronto?
- Quem fala?
- Como quem fala, meu? É o Juca, não tá me reconhecendo?
- Juca? Que Juca?
- Como assim que Juca, cara? Teu colega de serviço. Esqueceu da festa da Lorena?
- Putz, cara. Esqueci...Esqueci completamente. Acabei pegando no sono aqui no sofá. Acordei agora com você tocando esse bendito – ou maldito - interfone.
- Ah, não brinca? Como esqueceu, bicho?
- Esqueci. Aconteceram umas paradas meio estranhas aqui em casa. Acabei esquecendo.
- Mas e aí, tu vai ou não vai?
- Cara, vai indo na frente. Se eu me animar vou atrás.
- Tu não quer que a gente te espera?
- Não cara. Tá tranqüilo. Agora até nem sei se ainda vou. Tô pregado! Tive até um pesadelo agora há pouco. Amanhã eu te conto no escritório.
- Tu que sabe. Vai perder um festão...
- Eu sei...
Era o Juca, meu colega e amigo do escritório. Tinha esquecido mesmo da festa. Com tudo o que acontecera acabei esquecendo dessa festinha há tanto tempo esperada pelo pessoal que não perdoava: quem entrava no escritório tinha que pagar uma festa de confraternização. Para o pessoal conhecer melhor o novo colega, alegavam. Porém, tudo acabava em bebedeira e ressaca noutro dia. Por isso, estava mais inclinado a ficar.
No entanto, quando desliguei o interfone algo me golpeou por trás. Na altura da nuca, não tive chance de reação. Cai sobre o piso da cozinha, batendo com a cabeça no chão.
Antes de apagar, ainda pude ver a porta ser bruscamente aberta pelo vulto que havia me atingido, em fuga, até tudo escurecer como as luzes no entreato, quando a cena muda.
Fim.
Estou publicando hoje o final do conto O Interfone. Espero comentários, hein.
O Interfone - Continuação...
Com o pé esquerdo empurrou a porta que fechou com um forte estalo e com um movimento rápido montou sobre mim. Começou a se reclinar como se quisesse me dizer alguma coisa junto ao ouvido, antes de me atravessar com aquela lâmina. No entanto, quando abriu a boca para falar, o que ouvi não era voz humana, mas um forte zumbido metálico como a campainha do interfone.
Acordei com a estridência do interfone de casa, insistentemente acionado.
Cansado como estava tinha adormecido no sofá, e o que me sufocava não era nenhuma mão assassina, mas sim a almofada que tinha sobre o corpo, e tapava minha respiração. A faca em meu flanco nada mais era que o controle da TV a me cutucar durante aquele sono rápido e pesado.
Deveras eu tinha ficado impressionado demais com tudo o que tinha acontecido. No entanto, aquilo tinha parecido tão real...
Acordei suado de terror. Sem entender ainda bem o que tinha acontecido atendi o interfone que não parava de tocar.
- E aí, cara, tá pronto?
- Quem fala?
- Como quem fala, meu? É o Juca, não tá me reconhecendo?
- Juca? Que Juca?
- Como assim que Juca, cara? Teu colega de serviço. Esqueceu da festa da Lorena?
- Putz, cara. Esqueci...Esqueci completamente. Acabei pegando no sono aqui no sofá. Acordei agora com você tocando esse bendito – ou maldito - interfone.
- Ah, não brinca? Como esqueceu, bicho?
- Esqueci. Aconteceram umas paradas meio estranhas aqui em casa. Acabei esquecendo.
- Mas e aí, tu vai ou não vai?
- Cara, vai indo na frente. Se eu me animar vou atrás.
- Tu não quer que a gente te espera?
- Não cara. Tá tranqüilo. Agora até nem sei se ainda vou. Tô pregado! Tive até um pesadelo agora há pouco. Amanhã eu te conto no escritório.
- Tu que sabe. Vai perder um festão...
- Eu sei...
Era o Juca, meu colega e amigo do escritório. Tinha esquecido mesmo da festa. Com tudo o que acontecera acabei esquecendo dessa festinha há tanto tempo esperada pelo pessoal que não perdoava: quem entrava no escritório tinha que pagar uma festa de confraternização. Para o pessoal conhecer melhor o novo colega, alegavam. Porém, tudo acabava em bebedeira e ressaca noutro dia. Por isso, estava mais inclinado a ficar.
No entanto, quando desliguei o interfone algo me golpeou por trás. Na altura da nuca, não tive chance de reação. Cai sobre o piso da cozinha, batendo com a cabeça no chão.
Antes de apagar, ainda pude ver a porta ser bruscamente aberta pelo vulto que havia me atingido, em fuga, até tudo escurecer como as luzes no entreato, quando a cena muda.
Fim.
June 06, 2007
Um novo conto
Pessoal, estou publicando a primeira parte de um novo conto.
Veja o que vocês acham.
Um abraço
O INTERFONE
Cheguei cansado do serviço. Eram sete horas passadas e eu ainda precisava ir até o mercado, pois não tinha nada na geladeira.
Como de hábito comprei cervejas, salsichas e algumas frutas.
“Preciso comer melhor. Essas malditas salsichas devem estar aumentando o meu colesterol. Sem falar que estou engordando a olhos vistos”. “Pelo menos compenso com as frutas no café da manhã” – argumentei em favor do comodismo e do cansaço.
Estava tão cansado que nem me toquei que moro sozinho já há um bom tempo. O camarada com quem dividia o apartamento voltou para a casa dos pais e eu acabei ficando só já faz alguns meses. Não encontrei mais ninguém com quem dividir o aluguel. Por outro lado, passei a ganhar um pouco melhor depois da promoção e isso tem me possibilitado viver sozinho num apartamento de 2 quartos. Me acostumei à privacidade que a vida de um solitário permite e, na verdade, já não tenho mais interesse em arrumar com quem dividir meu espaço.
No entanto, por força do hábito ou por estar cansado e carregado das sacolas do mercado e com preguiça de procurar nos bolsos das calças a chave de casa, esqueci-me desse detalhe e apertei o número do apartamento em que moro, para alguém que não estava mais ali e pudesse abrir para mim a porta de casa. Só depois do segundo toque é que me dei conta de onde é que eu andava com a cabeça. Dei de ombros e comecei a me apalpar para encontrar as chaves quando, para minha surpresa, alguém atendeu sem dizer nada e acionou o interruptor que abriu a porta.
Não dei importância para aquilo porque achei que tivesse errado o número ao apertar o 704 – o número de casa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, afinal não tinham dito nada e que história era essa de as pessoas irem assim abrindo a porta do prédio para qualquer um que tocava o interfone? Onde é que estava a segurança daquele edifício que todas as vezes que tínhamos reunião de condomínio – pelo menos de todas que participei – tinha sido o tema constante das preocupações gerais?
Não conformado com isso, larguei as sacolas das compras diante do elevador que não se mexia no sétimo andar e voltei até o painel. Para me certificar que tinha apertado mesmo o número de casa fui até lá e apertei o 704. Esperei dois segundos e só então dei-me conta do papel ridículo que estava fazendo: apertar o número do próprio apartamento em que morava sozinho! Se alguém me visse naquela situação iria achar que eu tinha pirado. Era melhor esquecer isso. Na primeira oportunidade reclamaria com o síndico a falta de cuidado dos moradores daquele edifício, afinal estava provado que tinha me enganado, apertara o número errado e alguém simplesmente abrira a porta sem ao menos perguntar quem era.
No entanto, ao virar as costas para voltar às compras abandonadas na frente do elevedor, qual não foi minha surpresa: alguém de novo liberou a porta da rua sem ao menos dizer alô. E o que é pior: tinha certeza de que não tinha me enganado. Apertara deveras o 704! O número de casa!
“ Que raios está acontecendo aqui?” Voltei de novo e apertei mais uma vez o 704. Alguns segundos depois o zzzz da porta acionada não deixava dúvida: havia alguém em minha casa!
Procurei passar rapidamente em retrospecto todas as pessoas que podiam ter as chaves do meu apartamento. Alguma ex-namorada, meu amigo que tivesse voltado para buscar alguma coisa esquecida, meus pais vindos do interior... Ninguém! Ninguém que tivesse a chave do meu apartamento. Pelo menos que eu soubesse ou lembrasse. E mesmo se tivesse, por que não dizer pelo menos um alô? Quem fala? Aqui é fulano, beltrana de tal.
O que estava se passando ali? Um ladrão? Mas um ladrão que atendia interfone? Aquilo era absurdo. O que fazer naquele momento senão subir e conferir o que estava acontecendo? Não seria no entanto prudente procurar primeiro pelo zelador? Não! Vou ver o que está acontecendo. Pelo menos até o corredor do meu andar.
E esse elevador? Parado no sétimo. O que está havendo?
Bati na porta externa para ver se liberavam-no afinal. Alguns segundos e ele começou a descer.
Eram quase 8 horas, por isso não encontrei ninguém no elevador para dividir minha apreensão. O prédio estava silencioso e sem vida. Exceto pelo barulho residual das ruas, dos cabos do elevador, dos pneus dos carros na garagem não se ouvia movimento de viv’alma. Tudo no mais absoluto silêncio, embora aquele horário isso fosse de hábito. Quem estava para chegar em casa já tinha chegado, quem precisava sair já tinha saído. Eventualmente encontrava alguém nesses momentos. Até por isso conhecia bem pouco meus vizinhos. Nos finais-de-semana saía pouco e tarde de casa de modo que raramente encontrava aquelas crianças que escutava fazendo algazarra nos apartamentos superiores, nas escadas e corredores. Apenas sabia que a minha esquerda morava uma família de quatro pessoas, pai e mãe e duas crianças e a minha direita um casal de velhinho que ocasionalmente recebiam a visita dos filhos e dos netos. Por causa, no entanto, do que estava acontecendo, aquele silêncio me incomodova. Preferia ter encontrado alguém, sobretudo do meu andar, para recuperar um pouco o senso da realidade, mas sabia de antemão que esta expectativa seria frustrada.
No meu andar, nada que denunciasse alguma situação excepcional. Só então pude escutar as primeiras vozes vindo dos apartamentos vizinhos. Isso ao mesmo tempo que me tranqüilizava, por outro aumentava a minha apreensão, pois se algo estava errado seria apenas em meu apartamento. Ninguém havia tomado conhecimento do que estaria se passando ali.
A porta de casa também não denunciava sinais de arrombamento.
Sentia-me ridículo por estar chegando em minha própria casa com tanta cautela. Mas o que fazer se o que podia encontrar ali não seria nada agradável: uma casa revirada, objetos furtados ou até mesmo a presença de um alguém não desejado me esperando no escuro? Tudo isso me passava pela cabeça enquanto girava a chave com cautela na fechadura, procurando fazer o menos de barulho possível. Tinha planejado abrir a porta de repente, de um empurrão e correr para o fundo do corredor, em direção as escadas. Por isso deixei longe de mim, as sacolas que carregava, para não me atrapalharem numa eventual fuga.
Executei a manobra planejada mas nada aconteceu. A porta escancarada assim ficou durante os minutos em que ofegante fiquei a observar da distância das escadas no fundo do corredor, pronto para voar escada abaixo em qualquer eventualidade. Mas nada, nem ninguém saiu dali. Quem me visse naquele momento jamais entenderia a cena: um homem fugindo da própria casa. Seria difícil explicar sem parecer completamente pirado. Mas o que me importava o que os outros pensariam se bem podia ser que minha vida corria perigo? E o fato de ninguém ter se apresentado porta afora, não afastava a possibilidade de alguém estar a espreita no interior de casa. E só agora eu me dava conta de que com essa manobra bem poderia ter prestado uma serviço a um virtual bandido ou fosse lá quem poderia estar ali. Tinha-o prevenido que tinha chegado! Se quem estava ali não fosse apenas um ladrão de domicílios, bastaria esperar que sua vítima se aproximasse, já quase suplicante, para acabar logo com aquilo, desferindo-lhe o golpe final.
Pensei em acender a luz de casa antes de entrar. Mesmo um assassino experiente não executaria sua vítima às claras.
Corri até a porta, liguei a luz de casa e voltei. Aguardei mais alguns minutos e resolvi de novo me esgueirar até lá. Escutar alguma coisa, espionar para dentro.
Nada de anormal. Tudo em ordem. Absoluto silêncio, exceto pelos vizinhos ruidosos ao lado, pelo motor do elevador enfim acionado, pelo barulho das ruas. Entrei. Mas não fechei a porta nem trouxe para dentro as sacolas esquecidas no corredor.
Precisava me acalmar a cada metro avançado no “terreno inimigo”. Mas não encontrei nada, nem ninguém dentro de casa. Revisei todos os cômodos e nada. Ninguém dentro do armário, ninguém em baixo da cama, ninguém no Box do banheiro, atrás da máquina de lavar na área de serviço. Naquela altura também se alguém houvesse ali eu seria uma vítima fácil. Tinha me irritado com aquela cautela inútil e por fim revisado tudo como quem procura um objeto perdido, não um bandido. Só não entendia uma coisa: quem teria aberto a porta de casa? Quem teria atendido o interfone?
Por fim esqueci daquilo, afinal minhas compras estavam lá no corredor e eu tinha ainda que tomar um banho, comer alguma coisa, descansar de um dia de trabalho.
Baixei a guarda.
Fui buscar as compras esquecidas no corredor.
Nesse momento a luz do corredor apagou e tive que contar com apenas a luz de dentro de casa. Voltei em direção a porta aberta. No entanto, ao entrar alguma coisa escura e muito rápida saltou sobre mim e antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, tapou minha boca com um forte aperto, quase me sufocando. Ao mesmo tempo em que me aplicava um golpe, derrubando-me no chão, com uma lâmina encostada nas costelas. Vi que estava dominado e que não devia reagir, de outro modo seria furado por aquela faca. No entanto, a expressão nos olhos do meu agressor não me davam muita esperança. Era a morte que eu via neles!
Veja o que vocês acham.
Um abraço
O INTERFONE
Cheguei cansado do serviço. Eram sete horas passadas e eu ainda precisava ir até o mercado, pois não tinha nada na geladeira.
Como de hábito comprei cervejas, salsichas e algumas frutas.
“Preciso comer melhor. Essas malditas salsichas devem estar aumentando o meu colesterol. Sem falar que estou engordando a olhos vistos”. “Pelo menos compenso com as frutas no café da manhã” – argumentei em favor do comodismo e do cansaço.
Estava tão cansado que nem me toquei que moro sozinho já há um bom tempo. O camarada com quem dividia o apartamento voltou para a casa dos pais e eu acabei ficando só já faz alguns meses. Não encontrei mais ninguém com quem dividir o aluguel. Por outro lado, passei a ganhar um pouco melhor depois da promoção e isso tem me possibilitado viver sozinho num apartamento de 2 quartos. Me acostumei à privacidade que a vida de um solitário permite e, na verdade, já não tenho mais interesse em arrumar com quem dividir meu espaço.
No entanto, por força do hábito ou por estar cansado e carregado das sacolas do mercado e com preguiça de procurar nos bolsos das calças a chave de casa, esqueci-me desse detalhe e apertei o número do apartamento em que moro, para alguém que não estava mais ali e pudesse abrir para mim a porta de casa. Só depois do segundo toque é que me dei conta de onde é que eu andava com a cabeça. Dei de ombros e comecei a me apalpar para encontrar as chaves quando, para minha surpresa, alguém atendeu sem dizer nada e acionou o interruptor que abriu a porta.
Não dei importância para aquilo porque achei que tivesse errado o número ao apertar o 704 – o número de casa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, afinal não tinham dito nada e que história era essa de as pessoas irem assim abrindo a porta do prédio para qualquer um que tocava o interfone? Onde é que estava a segurança daquele edifício que todas as vezes que tínhamos reunião de condomínio – pelo menos de todas que participei – tinha sido o tema constante das preocupações gerais?
Não conformado com isso, larguei as sacolas das compras diante do elevador que não se mexia no sétimo andar e voltei até o painel. Para me certificar que tinha apertado mesmo o número de casa fui até lá e apertei o 704. Esperei dois segundos e só então dei-me conta do papel ridículo que estava fazendo: apertar o número do próprio apartamento em que morava sozinho! Se alguém me visse naquela situação iria achar que eu tinha pirado. Era melhor esquecer isso. Na primeira oportunidade reclamaria com o síndico a falta de cuidado dos moradores daquele edifício, afinal estava provado que tinha me enganado, apertara o número errado e alguém simplesmente abrira a porta sem ao menos perguntar quem era.
No entanto, ao virar as costas para voltar às compras abandonadas na frente do elevedor, qual não foi minha surpresa: alguém de novo liberou a porta da rua sem ao menos dizer alô. E o que é pior: tinha certeza de que não tinha me enganado. Apertara deveras o 704! O número de casa!
“ Que raios está acontecendo aqui?” Voltei de novo e apertei mais uma vez o 704. Alguns segundos depois o zzzz da porta acionada não deixava dúvida: havia alguém em minha casa!
Procurei passar rapidamente em retrospecto todas as pessoas que podiam ter as chaves do meu apartamento. Alguma ex-namorada, meu amigo que tivesse voltado para buscar alguma coisa esquecida, meus pais vindos do interior... Ninguém! Ninguém que tivesse a chave do meu apartamento. Pelo menos que eu soubesse ou lembrasse. E mesmo se tivesse, por que não dizer pelo menos um alô? Quem fala? Aqui é fulano, beltrana de tal.
O que estava se passando ali? Um ladrão? Mas um ladrão que atendia interfone? Aquilo era absurdo. O que fazer naquele momento senão subir e conferir o que estava acontecendo? Não seria no entanto prudente procurar primeiro pelo zelador? Não! Vou ver o que está acontecendo. Pelo menos até o corredor do meu andar.
E esse elevador? Parado no sétimo. O que está havendo?
Bati na porta externa para ver se liberavam-no afinal. Alguns segundos e ele começou a descer.
Eram quase 8 horas, por isso não encontrei ninguém no elevador para dividir minha apreensão. O prédio estava silencioso e sem vida. Exceto pelo barulho residual das ruas, dos cabos do elevador, dos pneus dos carros na garagem não se ouvia movimento de viv’alma. Tudo no mais absoluto silêncio, embora aquele horário isso fosse de hábito. Quem estava para chegar em casa já tinha chegado, quem precisava sair já tinha saído. Eventualmente encontrava alguém nesses momentos. Até por isso conhecia bem pouco meus vizinhos. Nos finais-de-semana saía pouco e tarde de casa de modo que raramente encontrava aquelas crianças que escutava fazendo algazarra nos apartamentos superiores, nas escadas e corredores. Apenas sabia que a minha esquerda morava uma família de quatro pessoas, pai e mãe e duas crianças e a minha direita um casal de velhinho que ocasionalmente recebiam a visita dos filhos e dos netos. Por causa, no entanto, do que estava acontecendo, aquele silêncio me incomodova. Preferia ter encontrado alguém, sobretudo do meu andar, para recuperar um pouco o senso da realidade, mas sabia de antemão que esta expectativa seria frustrada.
No meu andar, nada que denunciasse alguma situação excepcional. Só então pude escutar as primeiras vozes vindo dos apartamentos vizinhos. Isso ao mesmo tempo que me tranqüilizava, por outro aumentava a minha apreensão, pois se algo estava errado seria apenas em meu apartamento. Ninguém havia tomado conhecimento do que estaria se passando ali.
A porta de casa também não denunciava sinais de arrombamento.
Sentia-me ridículo por estar chegando em minha própria casa com tanta cautela. Mas o que fazer se o que podia encontrar ali não seria nada agradável: uma casa revirada, objetos furtados ou até mesmo a presença de um alguém não desejado me esperando no escuro? Tudo isso me passava pela cabeça enquanto girava a chave com cautela na fechadura, procurando fazer o menos de barulho possível. Tinha planejado abrir a porta de repente, de um empurrão e correr para o fundo do corredor, em direção as escadas. Por isso deixei longe de mim, as sacolas que carregava, para não me atrapalharem numa eventual fuga.
Executei a manobra planejada mas nada aconteceu. A porta escancarada assim ficou durante os minutos em que ofegante fiquei a observar da distância das escadas no fundo do corredor, pronto para voar escada abaixo em qualquer eventualidade. Mas nada, nem ninguém saiu dali. Quem me visse naquele momento jamais entenderia a cena: um homem fugindo da própria casa. Seria difícil explicar sem parecer completamente pirado. Mas o que me importava o que os outros pensariam se bem podia ser que minha vida corria perigo? E o fato de ninguém ter se apresentado porta afora, não afastava a possibilidade de alguém estar a espreita no interior de casa. E só agora eu me dava conta de que com essa manobra bem poderia ter prestado uma serviço a um virtual bandido ou fosse lá quem poderia estar ali. Tinha-o prevenido que tinha chegado! Se quem estava ali não fosse apenas um ladrão de domicílios, bastaria esperar que sua vítima se aproximasse, já quase suplicante, para acabar logo com aquilo, desferindo-lhe o golpe final.
Pensei em acender a luz de casa antes de entrar. Mesmo um assassino experiente não executaria sua vítima às claras.
Corri até a porta, liguei a luz de casa e voltei. Aguardei mais alguns minutos e resolvi de novo me esgueirar até lá. Escutar alguma coisa, espionar para dentro.
Nada de anormal. Tudo em ordem. Absoluto silêncio, exceto pelos vizinhos ruidosos ao lado, pelo motor do elevador enfim acionado, pelo barulho das ruas. Entrei. Mas não fechei a porta nem trouxe para dentro as sacolas esquecidas no corredor.
Precisava me acalmar a cada metro avançado no “terreno inimigo”. Mas não encontrei nada, nem ninguém dentro de casa. Revisei todos os cômodos e nada. Ninguém dentro do armário, ninguém em baixo da cama, ninguém no Box do banheiro, atrás da máquina de lavar na área de serviço. Naquela altura também se alguém houvesse ali eu seria uma vítima fácil. Tinha me irritado com aquela cautela inútil e por fim revisado tudo como quem procura um objeto perdido, não um bandido. Só não entendia uma coisa: quem teria aberto a porta de casa? Quem teria atendido o interfone?
Por fim esqueci daquilo, afinal minhas compras estavam lá no corredor e eu tinha ainda que tomar um banho, comer alguma coisa, descansar de um dia de trabalho.
Baixei a guarda.
Fui buscar as compras esquecidas no corredor.
Nesse momento a luz do corredor apagou e tive que contar com apenas a luz de dentro de casa. Voltei em direção a porta aberta. No entanto, ao entrar alguma coisa escura e muito rápida saltou sobre mim e antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, tapou minha boca com um forte aperto, quase me sufocando. Ao mesmo tempo em que me aplicava um golpe, derrubando-me no chão, com uma lâmina encostada nas costelas. Vi que estava dominado e que não devia reagir, de outro modo seria furado por aquela faca. No entanto, a expressão nos olhos do meu agressor não me davam muita esperança. Era a morte que eu via neles!
June 05, 2007
Uma parábola
Desde que eu começei a escrever com uma certa regularidade - regularidade esta interrompida por toda sorte de interrupação, se é que vocês me entendem - ocorreu-me que o escritor é como um náufrago numa ilha, lançando mensagens ao mar do qual espera resposta. Sabe-se que normalmente esta resposta nunca chega, mas também não é possível dizer que nunca chegará. Por isso a angústia que deve assolar todo aquele que, escritor iniciante, lança-se a essa aventura.
Escrevi isso através de uma pequena parábola a qual reproduzo abaixo.
Vejam o que vocês acham.
NÁUFRAGO OU A DEFINICÃO DE UM ESCRITOR
Tenho passado meu tempo escrevendo mensagens em garrafas e as lançado ao mar, em busca de socorro. Mas, através dos anos, não tenho obtido resposta. No entanto,o ato de escrever estas mensagens tem me proporcionado um prazer que não conhecia. O prazer de produzir histórias. A solidão a que fui constrangido nesta ilha tem me permitido isso. Afinal, cansado de pedir socorro, comecei a inventar histórias. Assim, tenho passado a maior parte do meu tempo nessa atividade.
Atualmente estou escrevendo a história desastrada da minha chegada nesta ilha, o que tem absorvido os meus esforços durante o dia. E já planejo para breve uma outra história com ingredientes mais picantes, histórias de piratas, tesouros escondidos e as descobertas incríveis de um náufrago numa ilha deserta.
Enfim, as possibilidades são muitas!
Todos os dias lanço um capítulo novo ao mar na expectativa de resposta.
Até o momento não obtive sucesso.
Mas também isso já deixou de ter importância para mim.
Escrevi isso através de uma pequena parábola a qual reproduzo abaixo.
Vejam o que vocês acham.
NÁUFRAGO OU A DEFINICÃO DE UM ESCRITOR
Tenho passado meu tempo escrevendo mensagens em garrafas e as lançado ao mar, em busca de socorro. Mas, através dos anos, não tenho obtido resposta. No entanto,o ato de escrever estas mensagens tem me proporcionado um prazer que não conhecia. O prazer de produzir histórias. A solidão a que fui constrangido nesta ilha tem me permitido isso. Afinal, cansado de pedir socorro, comecei a inventar histórias. Assim, tenho passado a maior parte do meu tempo nessa atividade.
Atualmente estou escrevendo a história desastrada da minha chegada nesta ilha, o que tem absorvido os meus esforços durante o dia. E já planejo para breve uma outra história com ingredientes mais picantes, histórias de piratas, tesouros escondidos e as descobertas incríveis de um náufrago numa ilha deserta.
Enfim, as possibilidades são muitas!
Todos os dias lanço um capítulo novo ao mar na expectativa de resposta.
Até o momento não obtive sucesso.
Mas também isso já deixou de ter importância para mim.
June 04, 2007
conto - o final
Havia prometido para o dia seguinte mas só agora consegui disponibilizar para vocês o final. É que a versão defintiva só tenho no trabalho e como o dia seguinte era sábado, não pude atualizar a página até hoje.
Bem, lá o final dessa história que espero vocês gostem:
Aquilo havia escapado ao meu controle. Eu tinha virado o cash dispenser daquele sujeito. Como me livrar dele? Era o que eu começava a me perguntar agora que aquela sombra me perseguia à distância, monitorando os meus passos. Quando eu menos esperava estava ele lá, pronto para dar o bote. E não podíamos nos considerarmos amigos. Afinal eu praticamente o estava sustentando e ele sempre me mostrava a arma. O que não deixava dúvida: era uma ameaça que eu não podia subestimar.
Sua última tentativa de me assaltar aconteceu novamente numa situação semelhante do modo como nós havíamos nos conhecido. Mas dessa vez ele agiu diferente comigo. Parece que ele mesmo não queria mais fazer aquilo, mas o vício ou a necessidade falou mais alto.
Eu tinha saído para caminhar. Estava de agasalho e tênis. Encontrei-o nos altos da Fátima. Já havia anoitecido, mas como esse é meu percurso habitual não me dei conta do risco. Na altura do Cemitério novo da Vera Cruz, na divisa entre os bairros Fátima e Vera Cruz, um sujeito vindo em minha direção, com um moletom de capuz, mãos nos bolsos e cabeça abaixada, fez-me suspeitar que fosse ele. Hesitei entre voltar, atravessar a rua, ou simplesmente sair correndo. Acabei paralizado entre todas essas alternativas, caindo na boca da serpente. Era ele e havia me reconhecido.
- Caminhando, dotor? – perguntou ele quando me aproximei.
- É o que parece, não?
- Posso acompanhá?
- Ué? Tu não está indo em outra direção – respondi-lhe contrariado.
- Dotor... eu sou um tipo sem parada, o senhor já não percebeu isso?
O que fazer? O sujeito já estava do meu lado e caminhávamos agora na mesma direção.
Divertia-me, agora, que não tivesse nada nos bolsos. O que ele iria afinal tentar contra mim? Roubar-me os tênis? Não! Acho que esse não era o seu estilo. Por isso relaxei e procurei tirar daquela situação o que ela poderia me ensinar: quem era afinal esse sujeito? Qual a sua história? Por que chegara aquilo?
Caminhamos juntos algumas quadras e conversamos como dois amigos. Descobri algumas coisas da sua vida, ele descobriu coisas da minha. Começávamos a formar um elo de amizade, quando mais uma vez ele puxou da arma e resolveu me encostar na parede.
- Oh, dotor, não me leve a mal, mas é que eu estou precisando de um dinheirinho aí, o senhor sabe?
- Não, eu não sei, quem sabe você me explica.
- Como assim, dotor, o senhor não se deu conta ainda? Nós somos de mundos diferentes, dotor. Eu sou um João-ninguém. O senhor é alguém. Então o senhor tem que me dar algo. Algo que tu tem, eu não tenho e eu preciso. Fazer o quê? É a lei da selva, dotor.
- Achei que pudéssemos ser amigos.
- Acho que não, dotor.
- Só que, meu amigo, dessa vez tu te deu mal: eu estou sem nenhum. Tu não tá vendo? Estou sem carteira, sem cartões, sem documentos – disse triunfante.
- Não tem problema, dotor. Eu já contava com isso. A gente vai até a sua casa e você descola alguma coisa pra mim – respondeu-me com naturalidade, de quem sabia o que estava fazendo.
Aquilo mexeu comigo. Uma cena passou por minha cabeça. Eu chegando em casa, sob a mira de um revolver, expondo minha família àquela situação que eu havia alimentado. Não admitiria aquilo de jeito nenhum, nem que esse fosse o meu último ato antes de morrer. Havia chegado ao meu limite.
- De jeito nenhum, meu caro! – respondi-lhe com uma expressão nos olhos, que o assustou.
Antes que ele recuasse para fazer mira, agarrei-lhe a mão desviando o revólver para longe de mim. Entramos em luta corporal. Um tiro disparou para o alto quando caí sobre ele, passando a centímetros da minha cabeça, mas não me assustei. Só uma coisa eu tinha em mente: não podia largar a arma que ainda estava em suas mãos. Com eu era mais forte e mais pesado, isso me deu confiança. Mas com a mão esquerda ele me socava o rosto. De repente, senti que ele tentava agarra-me o saco. Sabia que ele me renderia se conseguisse me apertar os testículos. Ainda pude ver, ao longe, transeuntes assustados do outro lado da rua. Era inútil pedir socorro. Em breve a Brigada seria acionada, mas até lá eu poderia estar morto. Por isso aferrei-me com mais força ainda em sua mão armada, conseguindo a trazer para baixo, entre nossos corpos. Não tinha a mão no gatilho, mas quando premi com mais força a sua mão, como um torniquete, usando o peso do meu corpo contra o seu, embaixo, escutei um disparo. Surdo, rouco, abafado. Parecia ao longe, como se alguém o tivesse alvejado, tirando-me daquela situação. Mas o cheiro de pólvora e sangue e um calor inusitado encharcando meu agasalho, não deixava dúvida: o disparo tinha acontecido entre nós!
Não sabia se eu ou ele tinha sido o alvo daquela bala. Não havia sentido nada, mas não tinha certeza. Só soube o que havia acontecido quando senti seus movimentos cederem e pude então tomar-lhe a arma das mãos. Nossos rostos quase encostados – eu ainda deitado sobre ele – e os seus olhos vidrados deram-me um retrato da morte como nunca antes havia visto. Não pelo menos de tão perto.
Eu o havia matado!
Havia matado aquele sujeito com o qual, até há poucos minutos, conversávamos como amigos e talvez até já o considerasse um, não fosse o fato de o destino nos ter colocado em posições tão opostas que, nem eu nem ele havíamos conseguido, superar.
Fim.
Bem, lá o final dessa história que espero vocês gostem:
Aquilo havia escapado ao meu controle. Eu tinha virado o cash dispenser daquele sujeito. Como me livrar dele? Era o que eu começava a me perguntar agora que aquela sombra me perseguia à distância, monitorando os meus passos. Quando eu menos esperava estava ele lá, pronto para dar o bote. E não podíamos nos considerarmos amigos. Afinal eu praticamente o estava sustentando e ele sempre me mostrava a arma. O que não deixava dúvida: era uma ameaça que eu não podia subestimar.
Sua última tentativa de me assaltar aconteceu novamente numa situação semelhante do modo como nós havíamos nos conhecido. Mas dessa vez ele agiu diferente comigo. Parece que ele mesmo não queria mais fazer aquilo, mas o vício ou a necessidade falou mais alto.
Eu tinha saído para caminhar. Estava de agasalho e tênis. Encontrei-o nos altos da Fátima. Já havia anoitecido, mas como esse é meu percurso habitual não me dei conta do risco. Na altura do Cemitério novo da Vera Cruz, na divisa entre os bairros Fátima e Vera Cruz, um sujeito vindo em minha direção, com um moletom de capuz, mãos nos bolsos e cabeça abaixada, fez-me suspeitar que fosse ele. Hesitei entre voltar, atravessar a rua, ou simplesmente sair correndo. Acabei paralizado entre todas essas alternativas, caindo na boca da serpente. Era ele e havia me reconhecido.
- Caminhando, dotor? – perguntou ele quando me aproximei.
- É o que parece, não?
- Posso acompanhá?
- Ué? Tu não está indo em outra direção – respondi-lhe contrariado.
- Dotor... eu sou um tipo sem parada, o senhor já não percebeu isso?
O que fazer? O sujeito já estava do meu lado e caminhávamos agora na mesma direção.
Divertia-me, agora, que não tivesse nada nos bolsos. O que ele iria afinal tentar contra mim? Roubar-me os tênis? Não! Acho que esse não era o seu estilo. Por isso relaxei e procurei tirar daquela situação o que ela poderia me ensinar: quem era afinal esse sujeito? Qual a sua história? Por que chegara aquilo?
Caminhamos juntos algumas quadras e conversamos como dois amigos. Descobri algumas coisas da sua vida, ele descobriu coisas da minha. Começávamos a formar um elo de amizade, quando mais uma vez ele puxou da arma e resolveu me encostar na parede.
- Oh, dotor, não me leve a mal, mas é que eu estou precisando de um dinheirinho aí, o senhor sabe?
- Não, eu não sei, quem sabe você me explica.
- Como assim, dotor, o senhor não se deu conta ainda? Nós somos de mundos diferentes, dotor. Eu sou um João-ninguém. O senhor é alguém. Então o senhor tem que me dar algo. Algo que tu tem, eu não tenho e eu preciso. Fazer o quê? É a lei da selva, dotor.
- Achei que pudéssemos ser amigos.
- Acho que não, dotor.
- Só que, meu amigo, dessa vez tu te deu mal: eu estou sem nenhum. Tu não tá vendo? Estou sem carteira, sem cartões, sem documentos – disse triunfante.
- Não tem problema, dotor. Eu já contava com isso. A gente vai até a sua casa e você descola alguma coisa pra mim – respondeu-me com naturalidade, de quem sabia o que estava fazendo.
Aquilo mexeu comigo. Uma cena passou por minha cabeça. Eu chegando em casa, sob a mira de um revolver, expondo minha família àquela situação que eu havia alimentado. Não admitiria aquilo de jeito nenhum, nem que esse fosse o meu último ato antes de morrer. Havia chegado ao meu limite.
- De jeito nenhum, meu caro! – respondi-lhe com uma expressão nos olhos, que o assustou.
Antes que ele recuasse para fazer mira, agarrei-lhe a mão desviando o revólver para longe de mim. Entramos em luta corporal. Um tiro disparou para o alto quando caí sobre ele, passando a centímetros da minha cabeça, mas não me assustei. Só uma coisa eu tinha em mente: não podia largar a arma que ainda estava em suas mãos. Com eu era mais forte e mais pesado, isso me deu confiança. Mas com a mão esquerda ele me socava o rosto. De repente, senti que ele tentava agarra-me o saco. Sabia que ele me renderia se conseguisse me apertar os testículos. Ainda pude ver, ao longe, transeuntes assustados do outro lado da rua. Era inútil pedir socorro. Em breve a Brigada seria acionada, mas até lá eu poderia estar morto. Por isso aferrei-me com mais força ainda em sua mão armada, conseguindo a trazer para baixo, entre nossos corpos. Não tinha a mão no gatilho, mas quando premi com mais força a sua mão, como um torniquete, usando o peso do meu corpo contra o seu, embaixo, escutei um disparo. Surdo, rouco, abafado. Parecia ao longe, como se alguém o tivesse alvejado, tirando-me daquela situação. Mas o cheiro de pólvora e sangue e um calor inusitado encharcando meu agasalho, não deixava dúvida: o disparo tinha acontecido entre nós!
Não sabia se eu ou ele tinha sido o alvo daquela bala. Não havia sentido nada, mas não tinha certeza. Só soube o que havia acontecido quando senti seus movimentos cederem e pude então tomar-lhe a arma das mãos. Nossos rostos quase encostados – eu ainda deitado sobre ele – e os seus olhos vidrados deram-me um retrato da morte como nunca antes havia visto. Não pelo menos de tão perto.
Eu o havia matado!
Havia matado aquele sujeito com o qual, até há poucos minutos, conversávamos como amigos e talvez até já o considerasse um, não fosse o fato de o destino nos ter colocado em posições tão opostas que, nem eu nem ele havíamos conseguido, superar.
Fim.
June 01, 2007
conto - continuação
Continuação:
Dias depois saí para levar até o campus meu filho que tinha perdido o ônibus da faculdade. Na volta parei na sinaleira da rodoviária, quando fui surpreendido por alguém que entrou rapidamente no carro pela porta de trás. Havia esquecido de travar as portas. Já tinha ouvido falar dessa modalidade de assalto que bandidos mais ousados estão aplicando.
- Fica frio aí chefia e não olha pra trás. Quando abrir a sinaleira arranca normalmente. Vamô dá um rolé.
Isso tudo eu escutei sentindo através do banco o cano do que só podia ser da arma encostado nas minhas costas. Sem outra opção, segui as suas instruções, procurando manter o sangue frio.
Mandou-me ficar à esquerda do trâfego. Na esquina seguinte, fez-me dobrar nessa sentido. Saíamos do Avenida Brasil, do movimento e das luzes.
- Para você está me levando?
- Dar uma volta.
Andamos algumas quadras até que ele me mandou parar sob a sombra das árvores. Era noite e as poucas luzes dos postes da rua não penetravam os ramos. Alguma coisa na atitude daquele sujeito me eram familiar. Mas ele não usava nenhum toca ninja como o bandido da outra vez. Não sei porque mais preferia que fosse ele.
- E agora?
- Bem, agora, dotor, quem vai lhe propor um negócio sou eu?
Reconheci a dicção e o tom de voz. Era o cara! O mesmo sujeito de outro dia! Novamente havia caído na sua armadilha.
Voltei-me para trás e pude ver: era mesmo ele com aquele seu sorriso de superioridade.
- Você de novo!? – não pude deixar de exclamar.
- É isso aí.
- O que é que deu em você? Por que eu de novo? Você vem me cuidando para me assaltar novamente?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Foi por acaso, pode crê.
- Você acha que eu acredito em papai Noel para acreditar que você me pegou de novo por acaso?
- Não! Quero dizer que foi por acaso que encontrei contigo outro dia. Me chamô a atenção. Tu passô de carro e eu lembrei de ti. Pensei comigo: tá aí sujeito gente boa. Procurei gravá na memória o teu carro. Quando te vi hoje na sinaleira, pensei em te fazer uma surpresa. Tava mesmo saindo prum trabalhinho aí. Não custava pegar uma carona contigo.
- Então quer dizer que tu vai querer que eu te deixe no local do crime?
- Isso também.
- ‘Ce ta de brincadeira comigo, tá?
- Dotor, não esqueça quem tá no comando aqui, ok? – e dizendo isso apertou de novo a arma de encontro às minhas costas, através do assento.
- Ok, ok. Onde é então o lugar.
- Já te mostro. Mas antes vamô dá aquela passadinha no banco?
- Ah, quer dizer que vai ter isso também?
- O que tu acha?
- Tô sacando... – disse eu só então me dando conta do trocadilho.
Assim tive de passar no banco, sacar o cenzinho como da outra vez e ainda deixá-lo na Vila Cruzeiro – uma das mais barra pesada da cidade - onde ele me pediu para ficar.
Aquilo começava a ficar engraçado: ser assaltado pela segunda vez pelo mesmo sujeito e ainda se sentir grato, afinal ele, agora, podia ter me levado mais do que a outra vez – o carro e a vida, para não deixar pistas.
No entanto, dei de ombros e mais uma vez não registrei ocorrência na polícia: ia ser difícil fazer o pessoal acreditar na veracidade daquele história. Seria muita coisa para explicar.
Um domingo desses eu mesmo encontrei o sujeito, em pleno dia, na praça do Hospital da Cidade. Acho que ele estava com a família. Esposa, uma filha crescida e outra menor. Esta última andando de bicicleta na calçada que tem ali em forma de círculo. Eles tomando chimarrão. Ele não me viu. Passei por ali em um passo apressado de quem está caminhando, confundindo-me com o movimento do fim de semana, dia de inverno e sol. Achei curioso encontrá-lo assim. Ninguém diria que aquele aparente pacato pai de família, à noite era um batedor de carteiras, talvez um assassino profissional. Eu próprio – uma de suas vítimas - senti que poderia estar ali conversando com ele sem suspeitar de nada. Por isso dei graças a Deus que ele não tenha me visto. Não saberia qual teria sido sua reação. Talvez me cumprimentasse, e eu não poderia me omitir de retribuir. O que não deixaria de ser bastante estranho.
Uma noite, eu e minha esposa saímos de um baile no Clube Caixeral no centro da cidade. Já seriam umas 3 horas da manhã. Era um baile de formatura, por isso as quadras estavam lotadas de carros quando havíamos chegado para a solenidade. Tive que deixar o carro umas duas quadras adiante, na direção da antiga Gare da Estação Férrea. Longe, portanto, das luzes e do movimento que, àquela hora, ainda havia na Independência. Estava frio, por isso nem nos demos conta do risco que corríamos ao percorrermos a pé uma distância daquelas. Só pensávamos no frio que sentíamos e no ar condicionado do carro que nos esperava. Íamos abraçados e em passos rápidos, eu tentando aurir um pouco do calor do casaco de pele que minha esposa usava por cima do vestido de alça.
Tínhamos bebido também um pouco. Não nos atínhamos para o risco que corríamos.
Quando chegamos no carro, antes de eu conseguisse entrar, um destes guardador de carros que sempre estão por ali, sobretudo em ocasiões como aquela de grande movimento, se aproximou - não vi donde - me pedindo uns trocados. Minha esposa já tinha entrado e só fazia pensar em ligar o ar condicionado, tanto que lhe alcancei as chaves do carro enquanto me apalpava para ver onde conseguiria arranjar umas moedas.
- Ô, dotor, não tá me reconhecendo?
- Aaah! – sim! Era o sujeito de novo! O meu assaltante particular, por assim dizer.
- Então, dotor, tu sabe que não é uma moedinha que eu vô querê , não é? – e ao falar assim afastou a aba do casacão que estava usando mostrando o cano da arma em minha direção.
- Tô sabendo – respondi-lhe com ar de resignação, recompondo-me para o que veria a seguir. – Pô, tu não tá vendo? Tô com a minha esposa aí dentro? – ainda tentei argumentar em vão.
- Tanto pior pra ti, dotor.
- Quanto vai ser então – disse já puxando a carteira. Por sorte, não teria que fazer a via sacra do banco. Tinha naquele dia algum dinheiro na carteira. Mais que o habitual pelo menos.
- O que tu tem aí?
- O de sempre.
- Cem?
- É. Mais ou menos.
- Passa tudo, dotor.
- Toma aí – disse estendendo-lhe o dinheiro em sua direção. As notas farfalhando ao vento.
- Não leve a mal, dotor. É que estou precisando, sabe? Minha filha. A mais nova. Tá doente. Teve que baixá o hospital. Pneumonia me disseram. Preciso pros remédios.
- Tudo bem – ainda tive que lhe dizer, a contragosto, virando-me para entrar no carro. – Mas ela está bem? – escapou-me, de repente, a pergunta, lembrando-me da cena na praça.
- Sim, ela já está bem melhor. Mas tomamo um grande susto.
- Uhm. Bom retorno, dotor.
Continua amanhã... (muito longo?) Amanhã sai o final.
Dias depois saí para levar até o campus meu filho que tinha perdido o ônibus da faculdade. Na volta parei na sinaleira da rodoviária, quando fui surpreendido por alguém que entrou rapidamente no carro pela porta de trás. Havia esquecido de travar as portas. Já tinha ouvido falar dessa modalidade de assalto que bandidos mais ousados estão aplicando.
- Fica frio aí chefia e não olha pra trás. Quando abrir a sinaleira arranca normalmente. Vamô dá um rolé.
Isso tudo eu escutei sentindo através do banco o cano do que só podia ser da arma encostado nas minhas costas. Sem outra opção, segui as suas instruções, procurando manter o sangue frio.
Mandou-me ficar à esquerda do trâfego. Na esquina seguinte, fez-me dobrar nessa sentido. Saíamos do Avenida Brasil, do movimento e das luzes.
- Para você está me levando?
- Dar uma volta.
Andamos algumas quadras até que ele me mandou parar sob a sombra das árvores. Era noite e as poucas luzes dos postes da rua não penetravam os ramos. Alguma coisa na atitude daquele sujeito me eram familiar. Mas ele não usava nenhum toca ninja como o bandido da outra vez. Não sei porque mais preferia que fosse ele.
- E agora?
- Bem, agora, dotor, quem vai lhe propor um negócio sou eu?
Reconheci a dicção e o tom de voz. Era o cara! O mesmo sujeito de outro dia! Novamente havia caído na sua armadilha.
Voltei-me para trás e pude ver: era mesmo ele com aquele seu sorriso de superioridade.
- Você de novo!? – não pude deixar de exclamar.
- É isso aí.
- O que é que deu em você? Por que eu de novo? Você vem me cuidando para me assaltar novamente?
- Mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- Foi por acaso, pode crê.
- Você acha que eu acredito em papai Noel para acreditar que você me pegou de novo por acaso?
- Não! Quero dizer que foi por acaso que encontrei contigo outro dia. Me chamô a atenção. Tu passô de carro e eu lembrei de ti. Pensei comigo: tá aí sujeito gente boa. Procurei gravá na memória o teu carro. Quando te vi hoje na sinaleira, pensei em te fazer uma surpresa. Tava mesmo saindo prum trabalhinho aí. Não custava pegar uma carona contigo.
- Então quer dizer que tu vai querer que eu te deixe no local do crime?
- Isso também.
- ‘Ce ta de brincadeira comigo, tá?
- Dotor, não esqueça quem tá no comando aqui, ok? – e dizendo isso apertou de novo a arma de encontro às minhas costas, através do assento.
- Ok, ok. Onde é então o lugar.
- Já te mostro. Mas antes vamô dá aquela passadinha no banco?
- Ah, quer dizer que vai ter isso também?
- O que tu acha?
- Tô sacando... – disse eu só então me dando conta do trocadilho.
Assim tive de passar no banco, sacar o cenzinho como da outra vez e ainda deixá-lo na Vila Cruzeiro – uma das mais barra pesada da cidade - onde ele me pediu para ficar.
Aquilo começava a ficar engraçado: ser assaltado pela segunda vez pelo mesmo sujeito e ainda se sentir grato, afinal ele, agora, podia ter me levado mais do que a outra vez – o carro e a vida, para não deixar pistas.
No entanto, dei de ombros e mais uma vez não registrei ocorrência na polícia: ia ser difícil fazer o pessoal acreditar na veracidade daquele história. Seria muita coisa para explicar.
Um domingo desses eu mesmo encontrei o sujeito, em pleno dia, na praça do Hospital da Cidade. Acho que ele estava com a família. Esposa, uma filha crescida e outra menor. Esta última andando de bicicleta na calçada que tem ali em forma de círculo. Eles tomando chimarrão. Ele não me viu. Passei por ali em um passo apressado de quem está caminhando, confundindo-me com o movimento do fim de semana, dia de inverno e sol. Achei curioso encontrá-lo assim. Ninguém diria que aquele aparente pacato pai de família, à noite era um batedor de carteiras, talvez um assassino profissional. Eu próprio – uma de suas vítimas - senti que poderia estar ali conversando com ele sem suspeitar de nada. Por isso dei graças a Deus que ele não tenha me visto. Não saberia qual teria sido sua reação. Talvez me cumprimentasse, e eu não poderia me omitir de retribuir. O que não deixaria de ser bastante estranho.
Uma noite, eu e minha esposa saímos de um baile no Clube Caixeral no centro da cidade. Já seriam umas 3 horas da manhã. Era um baile de formatura, por isso as quadras estavam lotadas de carros quando havíamos chegado para a solenidade. Tive que deixar o carro umas duas quadras adiante, na direção da antiga Gare da Estação Férrea. Longe, portanto, das luzes e do movimento que, àquela hora, ainda havia na Independência. Estava frio, por isso nem nos demos conta do risco que corríamos ao percorrermos a pé uma distância daquelas. Só pensávamos no frio que sentíamos e no ar condicionado do carro que nos esperava. Íamos abraçados e em passos rápidos, eu tentando aurir um pouco do calor do casaco de pele que minha esposa usava por cima do vestido de alça.
Tínhamos bebido também um pouco. Não nos atínhamos para o risco que corríamos.
Quando chegamos no carro, antes de eu conseguisse entrar, um destes guardador de carros que sempre estão por ali, sobretudo em ocasiões como aquela de grande movimento, se aproximou - não vi donde - me pedindo uns trocados. Minha esposa já tinha entrado e só fazia pensar em ligar o ar condicionado, tanto que lhe alcancei as chaves do carro enquanto me apalpava para ver onde conseguiria arranjar umas moedas.
- Ô, dotor, não tá me reconhecendo?
- Aaah! – sim! Era o sujeito de novo! O meu assaltante particular, por assim dizer.
- Então, dotor, tu sabe que não é uma moedinha que eu vô querê , não é? – e ao falar assim afastou a aba do casacão que estava usando mostrando o cano da arma em minha direção.
- Tô sabendo – respondi-lhe com ar de resignação, recompondo-me para o que veria a seguir. – Pô, tu não tá vendo? Tô com a minha esposa aí dentro? – ainda tentei argumentar em vão.
- Tanto pior pra ti, dotor.
- Quanto vai ser então – disse já puxando a carteira. Por sorte, não teria que fazer a via sacra do banco. Tinha naquele dia algum dinheiro na carteira. Mais que o habitual pelo menos.
- O que tu tem aí?
- O de sempre.
- Cem?
- É. Mais ou menos.
- Passa tudo, dotor.
- Toma aí – disse estendendo-lhe o dinheiro em sua direção. As notas farfalhando ao vento.
- Não leve a mal, dotor. É que estou precisando, sabe? Minha filha. A mais nova. Tá doente. Teve que baixá o hospital. Pneumonia me disseram. Preciso pros remédios.
- Tudo bem – ainda tive que lhe dizer, a contragosto, virando-me para entrar no carro. – Mas ela está bem? – escapou-me, de repente, a pergunta, lembrando-me da cena na praça.
- Sim, ela já está bem melhor. Mas tomamo um grande susto.
- Uhm. Bom retorno, dotor.
Continua amanhã... (muito longo?) Amanhã sai o final.
May 31, 2007
Conto - Continuação
Conforme o prometido, lá vai a sequência do conto Negócio Arriscado:
- Você é louco ou o quê, cara?
- Não, olhe aqui – disse eu me aproximando, quase familiar, como diante de um aluno que não tivesse entendido a situação. Sentia que podíamos chegar a um acordo.
- Hei, cara. Fica aí onde você está – fez-me retroceder, apontando a arma.
Só então me dei conta, novamente, com quem estava lidando.
- Tudo bem. Vai com calma, aí meu chapa. Só quero propor para você um negócio.
- Hum...
- É o seguinte: você viu aí que tem uma miséria nessa carteira. Para você ela vale esses estritos 30 reais. Já para mim ela vale bem mais. Sei que você não vai simplesmente me devolvê-la. Vai jogá-la fora, tentar negociar meu documentos com alguém ou simplesmente a destruir, por vingança ou para não deixar pistas.
- Hum... – ele parecia agora interessado no rumo daquela conversa, embora não desviasse a arma na minha direção. Tinha me feito voltar para as sombras do vão da garagem e se pusera também ele sob as sombras para evitar o farol dos poucos carros que por ali passavam. Não tinha também tirado o gorro que usava. Só de vez em quando conseguia ver o brilho atento dos seus olhos.
- Os cartões que aí estão também lhe serão dentro em breve inúteis. Logo serão bloqueados e as tentativas de sua utilização só servirão para a polícia seguir o seu rastro. Ademais tu não conheces a senha. A que eu te disser talvez não seja verdadeira.
- E daí?
- E daí que o que vou gastar para fazer a segunda via desses documentos, que para ti não valem nada, vai ser uma grana considerável. Além do tempo e da incomodação toda.
- Hum...
- Bem, o negócio é o seguinte: eu me proponho a ir contigo até um caixa eletrônico aqui perto. Eu saco o que o banco me permite sacar numa hora dessas – você deve saber que os bancos têm lá as suas normas - uns 100 reais, talvez um pouco mais, e tu me devolves a minha carteira, com os documentos e os meus cartões. O que tu acha?
O silêncio do outro lado indicava que ele estava pensando sobre aquela proposta. Maluca que ela fosse, parecia honesta da minha parte. Certamente ele avaliava os riscos que corria.
- Tu é louco? Como é que eu vou te levar até o banco com esse berro nas tuas costas. E a toca? Decerto eu vô te que tirá. Se não, o que vai parecer, nós dois passeando pelo centro. Um encapuzado e um bacana. É palhaçada.
- Que palhaçada, meu? Tu não tem imaginação? Tu guarda esse berro aí no bolso da jaqueta. Aliás, não precisa nem ficar apontando ele pra mim, tá bem, que não estou gostando mesmo dessa situação. A gente vai calmamente no banco. Tu me alcança o cartão, eu saco essa grana de que eu te falei e estamos conversados. Agora, é claro que tu vai ter que tirar esse gorro, aí né. Ou tu vai querer desfilar com ele pelo centro?
Eu, quando queria, sabia ser convincente. Estava mesmo a ponto de chamá-lo de burro para não aceitar uma propostas daquelas, mas também sabia que tinha que ir devagar, afinal quem não podia ser burro ali era eu.
No entanto ele parecia não ter se importado com o fato de eu estar lhe chamando a atenção. Estava concentrado avaliando as variáveis daquela proposta para se importar com isso. Mas parecia não se decidir. A grande questão ali era ele ter que revelar o seu rosto. Aquilo representava para ele um risco excessivo.
Adivinhando que essa era a dificuldade procurei lhe encorajar:
- Olha aqui. Fazemos assim: você me entrega agora o cartão do banco e fica com o resto da minha carteira. Você anda atrás de mim, a uma distância em que te sintas confortável. Eu vou na frente. Saco o dinheiro enquanto você me espera fora do banco. Não precisa entrar. Podes ficar mesmo do outro lado da rua. Eu prometo não fazer nada para não te identificar. Quando eu sair do banco, você vem ao meu encontro. Talvez aí eu veja o teu rosto. Mas será rápido. Prometo não me fixar nele. O que me interessa mesmo é a minha carteira. Eu te dou o dinheiro, você me devolve a carteira. O que tu acha?
Estava difícil ele se decidir. Por sua cabeça decerto passavam diversas idéias. Até mesmo no crime é preciso ter imaginação, revelar alguma competência. O poder de uma arma ou a força bruta não são garantias de sucesso. É preciso inteligência. Minha falação agora já não poderia mais me ajudar. Ao contrário, poderia deixá-lo nervoso. Por isso resolvi me calar. Cabia a ele se decidir. Eu não podia continuar daquela maneira conduzindo o negócio. Era prudente deixar-lhe um espaço no qual ele pudesse se movimentar.
Por fim ele se decidiu. Fez isso com um gesto, tirando o gorro da cabeça e me encarando com a arma em punho.
- Tudo bem! Mas vámo fazê do meu jeito. Vamo junto quem nem dois amigo. No banco eu te dô o cartão – fazendo isso, fez um movimento com o revólver me indicando o caminho a seguir.
Não vi onde ele guardou a arma. Acho que a pôs no bolso direito da jaqueta e, embora, ele não andasse com as mãos dentro do bolso sabia que não seria difícil para ele me acertar se fosse tentar qualquer coisa. Também eu não tinha essa intenção. Sabia que estava me saindo barato conseguir recuperar meus documentos. Não iria fazer nenhuma bobagem. Àquela hora o máximo de saque que o banco me permitiria seria uns R$ 100,00. Só de incômodo e tempo, eu perderia muito mais.
Subimos novamente a Moron em silêncio. Não havia como sermos amigos naquelas circuntâncias. Aos poucos fomos vindo para a luz. Procurava não encará-lo quando trocávamos uma ou outra palavra. Quando o fazia, sentia nele uma tensão que era bom não estimular.
Uma viatura da polícia passou por nós e senti nesse momento mais medo do que durante todo o assalto. Temia que de repente a Brigada o reconhecesse de alguma anterior passagem pela polícia e acabasse acontecendo uma confusão. Por sorte nada disso aconteceu. Espertamente ele nos fez parar diante de uma vitrine de celulares, simulando uma conversa entre amigos, sobre o último modelo de celular ali exposto, dando as costas para a rua. Por ali também já havia bastante pessoas circulando, de modo que os brigadianos acabaram sendo distraídos pelo movimento.
Chegamos no banco. Ele me deu o cartão e pediu para eu lhe entregar o celular que até aquele momento, parece, não tinha se dado conta que ainda estava comigo. Disse-me que me esperaria do outro lado da rua, diante da praça Marechal Floriano, num parada de ônibus que há ali. O disfarce perfeito para quem quer ficar de boboeira, enquanto observa ou espera alguém.
Entrei no banco e saquei o valor que eu sabia o banco me autorizaria àquela hora, R$ 100,00. Uma quantia irrisória para mim diante da incomodação de que estava me poupando.
De volta à rua, saí para lhe procurar. Imaginava-o me observando do outro lado da rua. Fui surpreendido pela súbita aparição dele às minhas costas.
- E aí, doutor, tudo certo?
- Sim – respondi atropelado pelo susto de vê-lo novamente tão perto.
- Tem o dinheiro aí? Quanto?
- Cem!
- Só isso?
- Eu lhe falei que a essa hora...
- Tá, tá. Eu já sei. Então passa logo aí.
- Primeiro a carteira.
- Não! Primeiro o dinheiro – a mão direita no bolso da jaqueta me convenceu de que eu não devia contrariá-lo.
Alcancei-lhe o dinheiro. Com apenas uma das mãos livres olhou as duas notas de cinqüenta, embolsando-as em seguida.
- Agora a carteira, certo?
Um movimento da mão direita dentro do bolso da jaqueta, fez-me pensar no tiro, no que sentiria em seguida. Doeria? Onde me atingiria? Seria fatal? Quais seriam as sequelas?
Mas para minha surpresa o que ele tinha no bolso da jaqueta era carteira. Acho que a arma ele havia guardado na cinta.
Alcançou-me a carteira com um sorriso diante da minha expressão de pânico.
– Foi um prazer fazer negócio contigo, doutor.
– Igualmente – não pude deixar de responder.
Por um momento, me pareceu, tínhamos nos tornado amigos. Quase nos estendemos a mão para nos cumprimentarmos, afinal tínhamos cumprido os termos do negócio. Mas recuamos no último instante. Ele atravessou a rua rapidamente, sumindo em seguida na escuridão da praça.
Segue amanhã.
- Você é louco ou o quê, cara?
- Não, olhe aqui – disse eu me aproximando, quase familiar, como diante de um aluno que não tivesse entendido a situação. Sentia que podíamos chegar a um acordo.
- Hei, cara. Fica aí onde você está – fez-me retroceder, apontando a arma.
Só então me dei conta, novamente, com quem estava lidando.
- Tudo bem. Vai com calma, aí meu chapa. Só quero propor para você um negócio.
- Hum...
- É o seguinte: você viu aí que tem uma miséria nessa carteira. Para você ela vale esses estritos 30 reais. Já para mim ela vale bem mais. Sei que você não vai simplesmente me devolvê-la. Vai jogá-la fora, tentar negociar meu documentos com alguém ou simplesmente a destruir, por vingança ou para não deixar pistas.
- Hum... – ele parecia agora interessado no rumo daquela conversa, embora não desviasse a arma na minha direção. Tinha me feito voltar para as sombras do vão da garagem e se pusera também ele sob as sombras para evitar o farol dos poucos carros que por ali passavam. Não tinha também tirado o gorro que usava. Só de vez em quando conseguia ver o brilho atento dos seus olhos.
- Os cartões que aí estão também lhe serão dentro em breve inúteis. Logo serão bloqueados e as tentativas de sua utilização só servirão para a polícia seguir o seu rastro. Ademais tu não conheces a senha. A que eu te disser talvez não seja verdadeira.
- E daí?
- E daí que o que vou gastar para fazer a segunda via desses documentos, que para ti não valem nada, vai ser uma grana considerável. Além do tempo e da incomodação toda.
- Hum...
- Bem, o negócio é o seguinte: eu me proponho a ir contigo até um caixa eletrônico aqui perto. Eu saco o que o banco me permite sacar numa hora dessas – você deve saber que os bancos têm lá as suas normas - uns 100 reais, talvez um pouco mais, e tu me devolves a minha carteira, com os documentos e os meus cartões. O que tu acha?
O silêncio do outro lado indicava que ele estava pensando sobre aquela proposta. Maluca que ela fosse, parecia honesta da minha parte. Certamente ele avaliava os riscos que corria.
- Tu é louco? Como é que eu vou te levar até o banco com esse berro nas tuas costas. E a toca? Decerto eu vô te que tirá. Se não, o que vai parecer, nós dois passeando pelo centro. Um encapuzado e um bacana. É palhaçada.
- Que palhaçada, meu? Tu não tem imaginação? Tu guarda esse berro aí no bolso da jaqueta. Aliás, não precisa nem ficar apontando ele pra mim, tá bem, que não estou gostando mesmo dessa situação. A gente vai calmamente no banco. Tu me alcança o cartão, eu saco essa grana de que eu te falei e estamos conversados. Agora, é claro que tu vai ter que tirar esse gorro, aí né. Ou tu vai querer desfilar com ele pelo centro?
Eu, quando queria, sabia ser convincente. Estava mesmo a ponto de chamá-lo de burro para não aceitar uma propostas daquelas, mas também sabia que tinha que ir devagar, afinal quem não podia ser burro ali era eu.
No entanto ele parecia não ter se importado com o fato de eu estar lhe chamando a atenção. Estava concentrado avaliando as variáveis daquela proposta para se importar com isso. Mas parecia não se decidir. A grande questão ali era ele ter que revelar o seu rosto. Aquilo representava para ele um risco excessivo.
Adivinhando que essa era a dificuldade procurei lhe encorajar:
- Olha aqui. Fazemos assim: você me entrega agora o cartão do banco e fica com o resto da minha carteira. Você anda atrás de mim, a uma distância em que te sintas confortável. Eu vou na frente. Saco o dinheiro enquanto você me espera fora do banco. Não precisa entrar. Podes ficar mesmo do outro lado da rua. Eu prometo não fazer nada para não te identificar. Quando eu sair do banco, você vem ao meu encontro. Talvez aí eu veja o teu rosto. Mas será rápido. Prometo não me fixar nele. O que me interessa mesmo é a minha carteira. Eu te dou o dinheiro, você me devolve a carteira. O que tu acha?
Estava difícil ele se decidir. Por sua cabeça decerto passavam diversas idéias. Até mesmo no crime é preciso ter imaginação, revelar alguma competência. O poder de uma arma ou a força bruta não são garantias de sucesso. É preciso inteligência. Minha falação agora já não poderia mais me ajudar. Ao contrário, poderia deixá-lo nervoso. Por isso resolvi me calar. Cabia a ele se decidir. Eu não podia continuar daquela maneira conduzindo o negócio. Era prudente deixar-lhe um espaço no qual ele pudesse se movimentar.
Por fim ele se decidiu. Fez isso com um gesto, tirando o gorro da cabeça e me encarando com a arma em punho.
- Tudo bem! Mas vámo fazê do meu jeito. Vamo junto quem nem dois amigo. No banco eu te dô o cartão – fazendo isso, fez um movimento com o revólver me indicando o caminho a seguir.
Não vi onde ele guardou a arma. Acho que a pôs no bolso direito da jaqueta e, embora, ele não andasse com as mãos dentro do bolso sabia que não seria difícil para ele me acertar se fosse tentar qualquer coisa. Também eu não tinha essa intenção. Sabia que estava me saindo barato conseguir recuperar meus documentos. Não iria fazer nenhuma bobagem. Àquela hora o máximo de saque que o banco me permitiria seria uns R$ 100,00. Só de incômodo e tempo, eu perderia muito mais.
Subimos novamente a Moron em silêncio. Não havia como sermos amigos naquelas circuntâncias. Aos poucos fomos vindo para a luz. Procurava não encará-lo quando trocávamos uma ou outra palavra. Quando o fazia, sentia nele uma tensão que era bom não estimular.
Uma viatura da polícia passou por nós e senti nesse momento mais medo do que durante todo o assalto. Temia que de repente a Brigada o reconhecesse de alguma anterior passagem pela polícia e acabasse acontecendo uma confusão. Por sorte nada disso aconteceu. Espertamente ele nos fez parar diante de uma vitrine de celulares, simulando uma conversa entre amigos, sobre o último modelo de celular ali exposto, dando as costas para a rua. Por ali também já havia bastante pessoas circulando, de modo que os brigadianos acabaram sendo distraídos pelo movimento.
Chegamos no banco. Ele me deu o cartão e pediu para eu lhe entregar o celular que até aquele momento, parece, não tinha se dado conta que ainda estava comigo. Disse-me que me esperaria do outro lado da rua, diante da praça Marechal Floriano, num parada de ônibus que há ali. O disfarce perfeito para quem quer ficar de boboeira, enquanto observa ou espera alguém.
Entrei no banco e saquei o valor que eu sabia o banco me autorizaria àquela hora, R$ 100,00. Uma quantia irrisória para mim diante da incomodação de que estava me poupando.
De volta à rua, saí para lhe procurar. Imaginava-o me observando do outro lado da rua. Fui surpreendido pela súbita aparição dele às minhas costas.
- E aí, doutor, tudo certo?
- Sim – respondi atropelado pelo susto de vê-lo novamente tão perto.
- Tem o dinheiro aí? Quanto?
- Cem!
- Só isso?
- Eu lhe falei que a essa hora...
- Tá, tá. Eu já sei. Então passa logo aí.
- Primeiro a carteira.
- Não! Primeiro o dinheiro – a mão direita no bolso da jaqueta me convenceu de que eu não devia contrariá-lo.
Alcancei-lhe o dinheiro. Com apenas uma das mãos livres olhou as duas notas de cinqüenta, embolsando-as em seguida.
- Agora a carteira, certo?
Um movimento da mão direita dentro do bolso da jaqueta, fez-me pensar no tiro, no que sentiria em seguida. Doeria? Onde me atingiria? Seria fatal? Quais seriam as sequelas?
Mas para minha surpresa o que ele tinha no bolso da jaqueta era carteira. Acho que a arma ele havia guardado na cinta.
Alcançou-me a carteira com um sorriso diante da minha expressão de pânico.
– Foi um prazer fazer negócio contigo, doutor.
– Igualmente – não pude deixar de responder.
Por um momento, me pareceu, tínhamos nos tornado amigos. Quase nos estendemos a mão para nos cumprimentarmos, afinal tínhamos cumprido os termos do negócio. Mas recuamos no último instante. Ele atravessou a rua rapidamente, sumindo em seguida na escuridão da praça.
Segue amanhã.
May 30, 2007
News
Pessoal, é o seguinte: como tenho me dedicado ultimamente mais à prosa que a poesia, a partir de hoje vou publicar aqui meus contos. Como alguns são longos, contudo, vou fazê-los por partes, para não chateá-los e também para tentar pescá-los para que retornem à página para ver a continuação da história. Na verdade, este o maior mérito de um autor: despertar a curiosidade do leitor.
Para começar hoje vou publicar a primeira parte do conto Negócio Arriscado. Espero que gostem.
Um abraço.
NEGÓCIO ARRISCADO
Sábado à tardinha. Sai para caminhar. Precisa espairecer de um dia fechado em casa assistindo aos jogos da copa do mundo. Como de costume pensei em caminhar até a revisteira central, ver as novidades para as quais, durante a semana, não tenho tempo nem cabeça. Só ao chegar lá, no entanto, dei-me conta do excesso que cometia: a semana em cima do livros – sou professor universitário -, nos finais de semana preferia fazer coisa diferente. Embora ame os livros, para tudo tem um limite. Decidi então que poderia ir até uma loja de discos há pouco tempo reinaugurada próximo dali. Afinal depois dos livros os CDs são minha segunda paixão. Mas temia que àquela hora, de um sábado à noite, a loja não estivesse aberta. Chegando lá vi minhas previsões confirmadas. Pensei no shopping Bella Città. Não estava longe dali. Mas não tinha certeza de que lá houvesse uma loja de discos. As vezes em que lá estivera não me lembrava se aquela loja de jogos de videogame há pouco inaugurada também vendia discos. Hesitei. Pensei no outro shopping da cidade, suspirando de vontade de ter feito esta escolha ao sair de casa, pois só agora dava-me conta: ali encontraria o que estava procurando: um loja de discos onde o cliente ficava à vontade, sem a pressão ou a ansiedades dos vendedores. Sem falar que lá também pode se ouvir uma música ao vivo, nos finais de tarde, tomar um chopp acompanhando o movimento de quem chega, de quem sai, a uma distância confortável para ser visto por quem se deseja e evitado por quem se quer ignorar.
Mas como disse estava quase no outro extremo da cidade. Uma caminhada até lá seria o equivalente do que tinha caminhado até aquele momento e minhas pernas me diziam que já tinha feito um bom exercício.
No entanto, sem opção, não vi outra alternativa.
Na verdade eu morava nas redondezas do Bourbon – este outro shopping ou hipermercado, como queiram - e tinha evitado ir até lá como primeira opção justamente para caminhar. Voltar para casa ou ir até lá, então, dava praticamente no mesmo.
Fui.
Para tornar mais ágil meu retorno, escolhi descer pela Moron até a rodoviária. Para quem conhece a rua Moron à noite, após o cruzamento com a Benjamin Constant, sabe do que estou falando: uma prova incontestável de coragem. Próximo à rodoviária, então, um convite para ser assaltado. Mas como sou um otimista convicto e não tenha traumas desse tipo de experiência apostei no risco - e na adrenalina, porque não reconhecer – para quebrar a monotonia daquele dia.
Desci.
Como de hábito quando ando por esses lugares ermos e escuros, procuro acompanhar de longe o movimento dos que se aproximam, evitar passar próximo aos becos e entradas de garagens, a sombra das árvores sob as quais um vulto pode bem se esconder, os terrenos baldios e situações semelhantes. O fator surpresa é grande vantagem do bandido na abordagem das suas vítimas. Prevenir-se contra esse primeiro contato é o mínimo que alguém que queira evitar ser assaltado deve fazer.
Mas as coisas quando devem acontecer acontecem, façamos nós o que tivermos que fazer.
Foi tudo muito rápido. Ao menos assim me pareceu. Talvez eu não estivesse tão atento assim. Afinal como já disse nunca passei por uma experiência dessas e por mais que forjemos teorias sobre como evitar um acontecimento desses, se não tenhamos uma vez que seja na vida o experimentado, não temos autoridade para ensinar aos outros como agir. E, por mais prevenido que possamos ser, se não vivemos essa experiência, em algum momento iremos relaxar, achando lá no fundinho de nós mesmos, que essas coisas na verdade nunca acontecem. Nunca pelo menos conosco. É quando então começamos a baixar a guarda, desafiando o perigo com uma certa leviandade, testando os seus limites e os da razoabilidade, expondo-nos a situações de risco para sabermos sobre elas o que é fato, o que é mito. É esse o momento do bandido. E como o crime sobrevive: da nossa dificuldade de acreditar que as ameaças existem e podem se tornar reais.
Bem, o fato é que de repente eu me vi sob a mira do revólver e aquele encapuzado me forçou de encontro ao vão de uma porta de garagem com o cano da arma engatilhada nas minhas costelas.
- A carteira!!! Vâmo, a carteira, pó?
Sem tempo para refletir tateei o bolso de trás da calça e num átimo lhe entreguei a carteira que eu sabia não tinha muita coisa, não pelo menos daquilo que ele procurava: dinheiro. Pois há muito tempo, como a maioria das pessoas, deixei de andar com dinheiro na carteira. Em geral uso os cartões: de débito, de crédito, de farmácias, postos de gasolina, do mercado. Para que se expor ao risco que hoje eu via se confirmar, com tantas facilidades oferecidas pela tecnologia? Teria quanto muito uns 30 reais. Quantia pela qual, eu sabia, era um despropósito entregar-lhe a carteira onde eu tinha todos esses cartões, mais alguns indispensáveis documentos pessoais: carteira de motorista, documentos do carros, carteira funcional. Passava-me de repente pela cabeça o incômodo e a despesa que me dariam para obter uma segunda via: registro da ocorrência policial, requisição das segundas vias, romaria a diversas repartições públicas, pagamento de todo tipo de taxa, filas de banco, perda de um tempo, para mim, cada vez mais escasso e valioso. Então no momento em que a ameaça mais presente do cano da pistola nas costelas se afastou, com o bandido levando o seu butim, não pude deixar de lhe interpelar:
- Hei?! Quanto você quer pela minha carteira de volta?
Ele tinha se afastado apenas alguns passos, dando-me as costas. Por isso foi fácil para mim me fazer ouvir. Tinha me encorajado a sua atitude, afinal percebi que ele examinava, com a arma ainda em punho, o produto do seu roubo. Por um momento ocorreu-me que a sua decepção por conta do conteúdo tão pobre daquela carteira poderia se voltar contra mim e eu ser vítima de algo pior do que apenas uma roubo. Um disparo acidental daquela arma não estava descartado. Mas algo mais também havia me ocorrido: era lamentável eu entregar por tão pouco, o que me valia tanto. Era a oportunidade de um negócio que eu via ali, nada mais: eu dava-lhe de bom grado o que ele queria, e ele – de bom grado, eu esperava – devolvia-me o que era tão importante para mim..
- O quê? – ele me perguntou se voltando para mim, com uma indignação pela minha ousadia e pela miséria que ele tinha encontrado na carteira.
- É isso o que você ouviu: quanto você quer pela carteira de volta?
Continua amanhã...
Para começar hoje vou publicar a primeira parte do conto Negócio Arriscado. Espero que gostem.
Um abraço.
NEGÓCIO ARRISCADO
Sábado à tardinha. Sai para caminhar. Precisa espairecer de um dia fechado em casa assistindo aos jogos da copa do mundo. Como de costume pensei em caminhar até a revisteira central, ver as novidades para as quais, durante a semana, não tenho tempo nem cabeça. Só ao chegar lá, no entanto, dei-me conta do excesso que cometia: a semana em cima do livros – sou professor universitário -, nos finais de semana preferia fazer coisa diferente. Embora ame os livros, para tudo tem um limite. Decidi então que poderia ir até uma loja de discos há pouco tempo reinaugurada próximo dali. Afinal depois dos livros os CDs são minha segunda paixão. Mas temia que àquela hora, de um sábado à noite, a loja não estivesse aberta. Chegando lá vi minhas previsões confirmadas. Pensei no shopping Bella Città. Não estava longe dali. Mas não tinha certeza de que lá houvesse uma loja de discos. As vezes em que lá estivera não me lembrava se aquela loja de jogos de videogame há pouco inaugurada também vendia discos. Hesitei. Pensei no outro shopping da cidade, suspirando de vontade de ter feito esta escolha ao sair de casa, pois só agora dava-me conta: ali encontraria o que estava procurando: um loja de discos onde o cliente ficava à vontade, sem a pressão ou a ansiedades dos vendedores. Sem falar que lá também pode se ouvir uma música ao vivo, nos finais de tarde, tomar um chopp acompanhando o movimento de quem chega, de quem sai, a uma distância confortável para ser visto por quem se deseja e evitado por quem se quer ignorar.
Mas como disse estava quase no outro extremo da cidade. Uma caminhada até lá seria o equivalente do que tinha caminhado até aquele momento e minhas pernas me diziam que já tinha feito um bom exercício.
No entanto, sem opção, não vi outra alternativa.
Na verdade eu morava nas redondezas do Bourbon – este outro shopping ou hipermercado, como queiram - e tinha evitado ir até lá como primeira opção justamente para caminhar. Voltar para casa ou ir até lá, então, dava praticamente no mesmo.
Fui.
Para tornar mais ágil meu retorno, escolhi descer pela Moron até a rodoviária. Para quem conhece a rua Moron à noite, após o cruzamento com a Benjamin Constant, sabe do que estou falando: uma prova incontestável de coragem. Próximo à rodoviária, então, um convite para ser assaltado. Mas como sou um otimista convicto e não tenha traumas desse tipo de experiência apostei no risco - e na adrenalina, porque não reconhecer – para quebrar a monotonia daquele dia.
Desci.
Como de hábito quando ando por esses lugares ermos e escuros, procuro acompanhar de longe o movimento dos que se aproximam, evitar passar próximo aos becos e entradas de garagens, a sombra das árvores sob as quais um vulto pode bem se esconder, os terrenos baldios e situações semelhantes. O fator surpresa é grande vantagem do bandido na abordagem das suas vítimas. Prevenir-se contra esse primeiro contato é o mínimo que alguém que queira evitar ser assaltado deve fazer.
Mas as coisas quando devem acontecer acontecem, façamos nós o que tivermos que fazer.
Foi tudo muito rápido. Ao menos assim me pareceu. Talvez eu não estivesse tão atento assim. Afinal como já disse nunca passei por uma experiência dessas e por mais que forjemos teorias sobre como evitar um acontecimento desses, se não tenhamos uma vez que seja na vida o experimentado, não temos autoridade para ensinar aos outros como agir. E, por mais prevenido que possamos ser, se não vivemos essa experiência, em algum momento iremos relaxar, achando lá no fundinho de nós mesmos, que essas coisas na verdade nunca acontecem. Nunca pelo menos conosco. É quando então começamos a baixar a guarda, desafiando o perigo com uma certa leviandade, testando os seus limites e os da razoabilidade, expondo-nos a situações de risco para sabermos sobre elas o que é fato, o que é mito. É esse o momento do bandido. E como o crime sobrevive: da nossa dificuldade de acreditar que as ameaças existem e podem se tornar reais.
Bem, o fato é que de repente eu me vi sob a mira do revólver e aquele encapuzado me forçou de encontro ao vão de uma porta de garagem com o cano da arma engatilhada nas minhas costelas.
- A carteira!!! Vâmo, a carteira, pó?
Sem tempo para refletir tateei o bolso de trás da calça e num átimo lhe entreguei a carteira que eu sabia não tinha muita coisa, não pelo menos daquilo que ele procurava: dinheiro. Pois há muito tempo, como a maioria das pessoas, deixei de andar com dinheiro na carteira. Em geral uso os cartões: de débito, de crédito, de farmácias, postos de gasolina, do mercado. Para que se expor ao risco que hoje eu via se confirmar, com tantas facilidades oferecidas pela tecnologia? Teria quanto muito uns 30 reais. Quantia pela qual, eu sabia, era um despropósito entregar-lhe a carteira onde eu tinha todos esses cartões, mais alguns indispensáveis documentos pessoais: carteira de motorista, documentos do carros, carteira funcional. Passava-me de repente pela cabeça o incômodo e a despesa que me dariam para obter uma segunda via: registro da ocorrência policial, requisição das segundas vias, romaria a diversas repartições públicas, pagamento de todo tipo de taxa, filas de banco, perda de um tempo, para mim, cada vez mais escasso e valioso. Então no momento em que a ameaça mais presente do cano da pistola nas costelas se afastou, com o bandido levando o seu butim, não pude deixar de lhe interpelar:
- Hei?! Quanto você quer pela minha carteira de volta?
Ele tinha se afastado apenas alguns passos, dando-me as costas. Por isso foi fácil para mim me fazer ouvir. Tinha me encorajado a sua atitude, afinal percebi que ele examinava, com a arma ainda em punho, o produto do seu roubo. Por um momento ocorreu-me que a sua decepção por conta do conteúdo tão pobre daquela carteira poderia se voltar contra mim e eu ser vítima de algo pior do que apenas uma roubo. Um disparo acidental daquela arma não estava descartado. Mas algo mais também havia me ocorrido: era lamentável eu entregar por tão pouco, o que me valia tanto. Era a oportunidade de um negócio que eu via ali, nada mais: eu dava-lhe de bom grado o que ele queria, e ele – de bom grado, eu esperava – devolvia-me o que era tão importante para mim..
- O quê? – ele me perguntou se voltando para mim, com uma indignação pela minha ousadia e pela miséria que ele tinha encontrado na carteira.
- É isso o que você ouviu: quanto você quer pela carteira de volta?
Continua amanhã...
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